Resenha do game dos Vingadores abre discussão sobre dependência do algoritmo no jornalismo

"Crítica" publicada por veículo tradicional reforça praga que o SEO se tornou para o jornalismo online

por Pedro Strazza

Uma publicação do IGN lançada na madrugada desta terça-feira, 11/08, despertou indignação entre usuários do Twitter por uma razão peculiar. O post, no caso, envolvia uma “resenha em progresso” do respeitado veículo de games para o jogo dos Vingadores, que atualmente se encontra em versão beta (ou seja, em fase de testes) antes do lançamento oficial no próximo dia 04 de setembro.

Ainda que uma parcela significativa do público tenha aproveitado o post para fazer críticas severas ao modelo de trabalho do site, nas últimas horas a discussão deixou de ser sobre a premissa da avaliação em si para focar no que estaria por trás do ato: a intenção do veículo em garantir a primeira posição nas buscas do Google pelo sistema do SEO.

O SEO no caso é o sistema de otimização para motores de busca (ou ainda “Search Engine Optimization”, que é daonde vem a sigla) e é utilizado hoje pela esmagadora maioria dos sites para disponibilizar conteúdos em buscadores como o Google e o Bing. A questão é que se este conjunto de técnicas originalmente foi criado para facilitar a indexação dos links criados nas publicações dentro do vasto ecossistema gerado nestes sites, hoje seu desempenho está atrelado ao funcionamento interno dos veículos de jornalismo – e inclusive tem pé no atual problema de desinformação generalizada.

Isso acontece primariamente porque o SEO entranhou-se de tal forma no sistema de competitividade do noticiário que sua assimilação privilegia sobretudo as notícias quentes, isto é, as publicações sobre determinado tema que saíram primeiro. É um funcionamento tradicional da imprensa, mas que no ambiente online foi intensificado de tal forma que não é mais uma questão de quem dá efetivamente a melhor informação primeiro, mas sim quem cria primeiro o link com os termos chave buscados pelo usuário.

É o mesmo mecanismo que recompensa as informações falsas nos buscadores hoje, vale acrescentar – até porque eles entram na régua do “conteúdo único” mesmo sendo puramente fake news.

A consequência deste processo é canhestra sobretudo porque significa que toda a audiência da rede hoje é direcionada não às notícias e veículos que privilegiam informação de qualidade, mas a quem reporta primeiro seja lá da forma que for.

Quem buscou explicar isso de forma sucinta foi Brian Crecente, fundador do Kotaku, que em sua conta pessoal no Twitter explica que hoje o jornalismo online só consegue funcionar de duas formas, “sendo o primeiro ou sendo único”. “Ser único requer encontrar um ângulo não habitual. Assim você pode escrever algo que desperta a ira dos leitores ou algo que de forma inteligente captura o zeitgeist do momento” escreve o executivo; “O segundo jeito é muito, muito mais difícil de se fazer, por isso nós vemos tanto do primeiro caso.”.

“A outra forma de criar conteúdo único é fazer algo que nem todo mundo está fazendo, então cobrir tópicos que não possuem um registro comprovado de eficácia” continua Crecente na thread, que você pode conferir na íntegra abaixo: “Este jeito é arriscado porque requer não apenas fé, mas um entendimento profundo do que faz e não faz um conteúdo interessante. A razão porque todo site, e certamente os grandes sites, parecem cobrir a mesma coisa é porque é menos arriscado, especialmente depois que você cresce de forma a se tornar um veículo gigante.”.

O exemplo da IGN é definitivo para entender as consequências do atual modelo de jornalismo online dependente do SEO: mesmo o jogo ainda estando há semanas de ser lançado e seu desenvolvedor, a Square Enix, não tendo disponibilizado à imprensa uma cópia de avaliação, os repórteres se vêem pressionados a “garantir o primeiro link”, “a primeira página do Google”. Isso faz o veículo publicar na data de hoje uma “resenha em progresso” para garantir o topo das pequisas quando o usuário procurar os termos “Marvel”, “Avengers”, “Game” e “Review” – mesmo que o post atualmente não faça o menor sentido.

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