Imagem: RATCHED (L to R) SARAH PAULSON as MILDRED RATCHED and CYNTHIA NIXON as GWENDOLYN BRIGGS in episode 106 of RATCHED Cr. SAEED ADYANI/NETFLIX © 2020

“Ratched” é mais sobre as ideias de Ryan Murphy que um prelúdio para “Um Estranho no Ninho”

Série rejeita ligações com filme e romance para adotar uma narrativa de excentricidades que só funcionam se voltadas à figura de seu realizador

por Pedro Strazza

Dentre todas as produções “atípicas” que Ryan Murphy lançou na última década, “Ratched” sem dúvida ocupa algum lugar de destaque. Se o produtor se acostumou a partir de um lugar comum do público para atingir o horror pelas vias do bizarro em seriados como “American Horror Story” e “Scream Queens”, seu mais novo projeto na Netflix tem em si uma formação que a princípio é das mais anômalas, ensaiando ser uma história de origem para a nefasta enfermeira Ratched de “Um Estranho no Ninho” – uma condição contraditória por essência, visto que a personagem tanto no livro quanto no filme nunca foi retratada de forma a sugerir a existência de um vilania maior que a tradicional maldade humana.

Essa proposta se converte sem muita surpresa em uma posição inicial de xeque para a série, pois desde seu primeiro minuto a sensação é de que ela precisa se justificar enquanto produto cultural ao espectador para então traçar os próprios caminhos. O letramento enorme dado nos créditos à inspiração da produção, que precisa reforçar que é “baseada na personagem ‘enfermeira Ratched’ do romance ‘Um Estranho no Ninho’” (ao invés de um mero “baseado no romance…”), denota bem como não há na premissa uma situação primordial de conforto com o paralelo a ser traçado com as bases que levaram o público a se interessar pelo seriado. É tudo uma grande fabricação de histórias em cima da ideia construída em torno de uma personagem secundária, o qual rejeita de forma instantânea suas raízes para se pôr de pé ao invés de seguir próxima destas.

É uma descrição cujo efeito sugere ar de reprovação, claro, mas a série não chega a se porta como o desastre que soa. Em um momento da indústria no qual se tornou regra produzir remakes, prelúdios e continuações de todo e qualquer tipo de obra percebida minimamente como “produto”, “Ratched” é o estranho caso do espécime que se rebela contra seu “criador” e busca trafegar na via oposta da dita nostalgia. Seus resultados ainda são no mínimo questionáveis, mas há algo que impulsiona sua narrativa para fora dos limites do modelo de produção fabril de Murphy – entender como se dá esta relação, porém, é um exercício dos mais difíceis.

Isso porque a série desenvolvida pelo produtor e Evan Romansky é desde o primeiro capítulo um caos de narrativas e formatos. A história naturalmente é centrada em Ratched (Sarah Paulson), mas não apenas sua figura a princípio tratada como misteriosa e assustadora aos poucos é desmantelada pela temporada como os episódios assumem uma abordagem de mosaico de personagens que poucas vezes parecem funcionar em sua direção. O roteiro escrito por Romansky, Ian Brennan e Jennifer Salt não rejeita este interesse, então tudo escalona de forma veloz ao jogo de excessos: além de seus cenários luxuosos, os arredores do instituto psiquiátrico de Lucía são povoados por personalidades excêntricas que fazem questão de monopolizar a atenção do público, e a trama nunca encontra uma forma de conciliar a trajetória da protagonista com estas partes.

Some essa má comunicação da estrutura com o tradicional apetite voraz das produções de Murphy por reviravoltas chocantes e temos aí a receita de um descarrilhamento retumbante. Junto de Ratched e seu interesse pelo criminoso Edmund Tolleson (Finn Wittrock), o seriado ainda busca dividir o tempo da trama com os casos de poder dentro do instituto – incluindo suas reverberações políticas com o prefeito vivido por Vincent D’Onofrio -, um olhar sobre o passado sombrio do doutor Richard Hannover (Jon Jon Briones) e sua relação com a milionária Lenore Osgood (Sharon Stone), os relacionamentos amorosos salpicados no curso dos acontecimentos e os casos dos doentes mentais internados no hospital. Todos estes arcos são ligados sem grande justificativa para além das revelações imediatas envolvidas, com a narrativa megalomaníaca sendo estendida ao seu limite na busca por cenas sangrentas e momentos dignos de arregalar os olhos.

A trama nunca encontra uma forma de conciliar a trajetória da protagonista com as de outros personagens excêntricos

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Se a história sozinha já arrisca ser incompreensível, a mão pesada de Murphy na produção leva o todo ao seu ponto de rompimento – e é neste ato que o seriado parece deixar de ser uma bomba para pelo menos orbitar a esfera da tragédia de produção intrigante. Tudo porque a aproximação do executivo com os temas que lhe são caros nunca esteve tão distante de qualquer contexto nítido, desde situações que envolvem machismo e opressão LGBT+ a essa dita “fabulação da realidade” que ele vive a construir em seus projetos, independente do tema – tratamento o qual já lhe rendeu algum criticismo maior este ano por conta de “Hollywood” e suas manipulações históricas.

Com “Ratched”, porém, não há ponto de contato que justifique esta abordagem pois a produção rejeita os dois pólos do trabalho de Murphy: a premissa de horror, que seria em tese as ligações com “Um Estranho no Ninho”; e a contextualização histórica, um item importante a ele para elaborar narrativas como a de “American Crime Story” e a própria “Hollywood”. Sem qualquer uma destas premissas, tudo é posto a girar em falso, e o que sobra a partir daí são as próprias referências do produtor para conceber sua obra.

É talvez por esta condição tão despida de nexo que “Ratched” talvez sirva melhor se assistida da perspectiva de um sonho febril, porque só o campo do onírico pode dar conta da narrativa perdida que se instaura aqui. Ratched começa sedenta por vingança e manipuladora por excelência, mas no curso da história se revela vítima na própria trajetória e refém das ações dos outros, e os episódios parecem aceitar este deslocamento da mulher impiedosa para frágil a partir de seu contato com os outros personagens – e nesse sentido as galhofas de Murphy soam bem mais divertidas que de costume, vide o próprio uso de ostras e pêssegos para reforçar relações de poder no sexo ou o que soa como sua tentativa de fazer o próprio Club Silencio de “Cidade dos Sonhos”.

“Ratched” talvez sirva melhor se assistida da perspectiva de um sonho febril

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É uma elaboração que não deixa de ser efêmera, vale acrescentar. Murphy nunca foi e nem almeja ser um David Lynch, então tudo na série eventualmente retoma uma condição inicial de praticidade que bota a perder estes momentos mais suspensos em favor da grande trama de malignidades em curso. Não à toa, a primeira temporada se encerra de uma forma que Alan Sepinwall bem definiu como exausta demais para se pensar em um segundo ano.

O que fica, porém, são estes momentos mais avoados, onde é possível enxergar por um instante os desejos e ambições de Ryan Murphy dentro de seu modo de operação maquinário na TV estadunidense – e que a série tenha origem num roteiro especulativo de um estudante de cinema só torna esse viés mais divertido. Do fetiche pela era de ouro de Hollywood a suas questões pessoais com o movimento LGBT+ na indústria, passando até mesmo pela sua defesa do feminino, está tudo lá como um cérebro lobotomizado e à espera da dissecação.

nota do crítico

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