Em ano de tributos do pop à disco music, Miley Cyrus faz de “Plastic Hearts” sua homenagem ao rock

Com álbum pop rock, cantora explora melhor fase de sua carreira camaleônica de altos e baixos

por Soraia Alves

Desde que se despediu de Hannah Montana, Miley Cyrus se transformou em uma cantora pop com uma postura de “faço o que bem quero”, e isso inclui vivenciar as mais diversas fases em sua carreira. Da era “drogas, nudez e twerk” de “Bangerz” à fase “sosseguei, casei e abracei o country novamente” de “Younger Now”, Miley está sempre muito diferente de um álbum para outro. É natural, portanto, que a Miley Cyrus pós divórcio apresente uma outra facete da cantora em “Plastic Hearts”. A surpresa, porém, é que o novo caminho talvez seja o que mais combinou com ela até agora: o rock.


Antes de qualquer coisa, é preciso entender que “Plastic Hearts” não tem nada que você já não tenha ouvido antes, assim como alguns dos melhores lançamentos de 2020 (Dua Lipa, Kylie Minogue e Jessie Ware), que revisitaram as décadas passadas do pop, em especial a disco music. O trabalho de Dua Lipa, que inclusive leva o nome de “Future Nostalgia”, é o melhor exemplo de que não é preciso “inventar a roda” para entregar um álbum de qualidade. É isso que Miley Cyrus também faz em “Plastic Hearts”, porém sua homenagem vai para o rock, mais especificamente para a vertente pop rock, um dos nichos de maior popularidade.


Os grandes acertos de “Plastic Hearts” acontecem justamente quando a produção usa do mote “repaginar com classe o que já ouvimos um dia”. É o caso do indiscutível hit “Midnight Sky”, que desde a primeira audição nos transporta para “Edge of Seventeen”, de Stevie Nicks. Não à toa, o disco também traz um remix das duas canções, num raro caso de remix que dá certo.


Outro acerto inquestionável é a parceria com Dua Lipa, “Prisioner”, uma referência clara à “Physical”, de Olivia Newton-John. Já os covers de “Heart of Glass” (Blondie) e, especialmente, “Zombie” (The Cranberries) são as verdadeiras pérolas do álbum por toda a intensidade vocal e instrumental aplicada nas canções.



“Plastic Hearts” passeia por tudo aquilo que o pop rock sempre flerta: punk, glam rock, country, o rock farofa dos anos 1980, as baladas “love metal”. A faixa de abertura, “WTF Do I Know”, é um exemplo de punk adolescente que combinou demais com a voz rouca e estridente de Miley. Mas é claro que nesse passeio também há deslizes, como o dueto bem fraco com Billy Idol em “Night Crawling”. A música até lembra “White Wedding”, do próprio Idol, mas é totalmente dispensável.


A parceria com Joan Jett, “Bad Karma”, também ficou bem abaixo do que poderia ser, ainda que a produção de Mark Ronson (apenas nessa música) traga um vigor com a bateria marcada.



“Gimme What I Want”, faixa que lembra o rock alternativo do Nine Inch Nails, deixa ainda mais evidente uma forte característica do álbum todo: como grande parte do pop rock, esse é um disco plástico. Isso quer dizer que todas as influências do rock se mantém apenas na superfície, não há profundidade ou grandes explorações. Mas esse é o objetivo, essa é a dosagem do pop rock. É ouvir “Angels Like You” e pensar em Guns N’ Roses e seus momentos mais cafonas. Ou ainda se lembrar da dramaticidade de Bon Jovi ouvindo “Never Be Me”.

Assim como outros lançamentos do universo pop em 2020, “Plastic Hearts” é um resgate daquilo que já ouvimos e já gostamos – ou não. Miley Cyrus não inventou nada aqui, apenas abraçou acordes de guitarras, baixo e bateria, e um visual saído do filme “The Runaways”. E tudo bem. Ela não é Stevie Nicks ou Joan Jett, ela só está mirando em seus ídolos enquanto fala da nova vida de solteira, do quanto odeia a monogamia e sobre como se sente livre, inclusive para ter sua fase rockeira por quanto tempo quiser.

O rock ganhou seu tributo em 2020, e nós lembramos que ele sempre dá um ótimo match com o pop. Além disso, agora também sabemos que Miley Cyrus nasceu para cantar um bom rock, coisa que ela mesma percebeu: “Eu nasci para fazer o álbum que acabei de lançar!”.

nota do crítico


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