Com sensibilidade e aula de história, Emicida mostra poder do coletivo em “AmarElo – É Tudo Pra Ontem”

Como no álbum do ano passado, documentário da Netflix é sobre luta, esperança e o quanto as duas só podem se manter com união

por Soraia Alves

Quando lançou o álbum “AmarElo” em 2019, Emicida prometeu uma sequência de conteúdos multiplataformas como complemento do disco, que incluíram coisas como o projeto “Amarelo Prisma” lançado em maio. Agora, um novo conteúdo chega ao público na forma de “AmarElo – É Tudo Pra Ontem”, documentário lançado pela Netflix com realização da Laboratório Fantasma, produção de Evandro Fióti e direção de Fred Ouro Preto.

Assim como o álbum, o documentário é calcado na sensibilidade e, enquanto dá uma aula de história sobre a contribuição da comunidade negra na cultura brasileira, também mostra o processo de produção do disco e do show de Emicida no Theatro Municipal de São Paulo, que aconteceu em novembro do ano passado. Segundo Emicida e Fióti, o filme foi pensando com base no triângulo “AmarElo + Samba + Modernismo”, que cria uma linha de raciocínio que passa por arte, política, astrofísica e outros temas.

Fundamentalmente, o documentário passeia pela história da cultura negra e sua profunda contribuição na formação da identidade brasileira. Para quem esqueceu o conteúdo dos livros de história do Brasil, Emicida relembra que nosso país foi o último do continente americano a abolir a escravidão. O mergulho no passado da história negra aborda do surgimento da periferia à criação do samba e do hip hop, e funciona como o pano de fundo para entendermos a própria história de Emicida, embora esse não seja o foco do material. Podemos sim conhecer um pouco mais da intimidade e do processo criativo do rapper, mas “AmarElo – É Tudo Pra Ontem” é muito mais sobre o coletivo do que sobre o próprio Emicida.

Coletividade é a base do álbum – bem representada pelas colaborações preciosas que vão de Zeca Pagodinho à Fernanda Montenegro. Com o documentário podemos ver em detalhes as pessoas e histórias coletivas que deram origem a cada faixa do trabalho. E, embora todas as histórias sejam cativantes, é difícil não se emocionar com a narrativa que envolve a criação da música “Quem tem um amigo (tem tudo)”, fundamentada na amizade de Emicida e o baterista Wilson das Neves.

Podemos ver em detalhes as pessoas e histórias coletivas que deram origem a cada faixa do trabalho

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Esteticamente, o documentário mantém o bom gosto escolhido para a sua narrativa, e mescla imagens de acervo obtidas com instituições como o Instituto de Pesquisas e Estudos Afros Brasileiros, imagens captadas pela Lab Fantasma durante a produção e gravação do álbum, e animações, algo que confere ao material um ar de HQ, com histórias e personagens que se misturam em uma grande teia que forma o ontem, o hoje e o amanhã, simultaneamente.

Em entrevista ao B9, Emicida disse que os acontecimentos caóticos de 2020 deixaram o álbum “Amarelo” com uma sensação de “psicografado”, o que faz todo sentido. O grande single do projeto, “AmarElo”, que usa o sample de “Sujeito de Sorte” de Belchior, trouxe a sensação  de “resumo de 2019”, mas nós realmente não sabíamos o que 2020 reservava para a humanidade. A jornada de luta e esperança que a música aborda faz ainda mais sentido neste ano: perante uma pandemia, em muitos momentos a única coisa que nos restou foi a esperança de tudo passar e melhorar.

Histórias e personagens se misturam em uma grande teia que forma o ontem, o hoje e o amanhã

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Assim como o álbum do ano passado, “É Tudo Pra Ontem” é sobre luta e esperança, e o quanto as duas só podem se manter com união. Quando Emicida explica o porquê de realizar o show especial no Theatro Municipal de São Paulo – simbolizando a ocupação da comunidade negra nos lugares que sempre lhes foram negados – estamos novamente falando sobre luta e esperança.

Ao ocupar o Municipal, o rapper agradece àqueles que lutaram por isso décadas antes, como os integrantes do Movimento Negro Unificado. Ao mesmo tempo, enquanto se apresenta ao lado de Majur Pabllo Vittar, por exemplo, Emicida abre portas e janelas de esperança para que as gerações futuras possam também ocupar todos os lugares, com diversidade e representatividade.

nota do crítico

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