“WandaVision” precisa do tom de mistério mais do que aparenta

Primeira série do Marvel Studios no Disney+ brinca com paródias de clássicos da TV norte-americana, mas força dos capítulos iniciais está mesmo nos momentos de perturbação da ordem

por Pedro Strazza

É proposital e talvez um tanto autocongratulatório da parte do Marvel Studios que seja “WandaVision” o projeto escolhido para marcar simultaneamente o retorno do estúdio ao calendário de lançamentos e a primeira incursão de seu universo de heróis pelo Disney+. Isso porque além da “grande homenagem à história da TV” a série focada nos personagens da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e do Visão (Paul Bettany) também envolve na premissa uma interação muito consciente de formatos já sedimentados no mainstream norte-americano, no caso o do acesso à sitcom pelas tramas rocambolescas dos filmes da marca – que por sua vez já há alguns “capítulos” se assemelham mais e mais ao estilo de uma grande novela bilionária.

O resultado, para a absoluta surpresa de ninguém, é o pastiche. Pelo menos nos dois primeiros episódios lançados esta semana no streaming da Disney, o seriado criado por Jac Schaeffer e dirigido por Matt Shakman é bastante consolidado na ideia de se apropriar do formato envelhecido de clássicos da televisão nacional para canalizar uma narrativa de perturbações consumada desde o primeiro momento pelo espectador. É tirar da nostalgia a raiz de um pretenso normal artificial: embora apareçam desmemoriados e vivendo uma pacata vida secreta, tanto o Visão quanto a Feiticeira Escarlate se encontravam numa posição muito diferente da última vez que foram apresentados ao público, com o primeiro morto em consequência da ação do vilão Thanos e a última segura depois de salvar o mundo junto dos Vingadores durante respectivamente os eventos de “Guerra Infinita” e “Ultimato”.

O diretor Matt Shakman (à esquerda) orienta Elizabeth Olsen (ao centro) e Paul Bettany (à direita) no set

Respostas sem dúvida são esperadas a partir desta drástica transição de cenários, mas por ser uma série é um tanto óbvio que “WandaVision” há de aproveitar esta condição como gancho de sua narrativa. Como dito anteriormente, os dois capítulos inaugurais (e o terceiro com outro clássico, segundo aqueles que já tiveram acesso prévio na imprensa) se ensaiam como recriações fiéis de “The Dick Van Dyke Show” e “A Feiticeira” para brincar com a normalidade da relação dos dois heróis, com disrupções ocasionais apontando a incongruência em movimento. Quem se diverte nessa tarefa é Shakman, cuja direção aproveita o resgate da forma antiquada para reforçar estes rompimentos, desde o uso de cores em determinados elementos ao belo momento de tensão com Fred Melamed no final do piloto – além das referências fofas nos “intervalos comerciais”.

O maior acúmulo destes “acenos” no segundo episódio aponta que a tendência é desse desconforto se ampliar entre os protagonistas ao longo da temporada e na mesma progressão temporal das homenagens (os anos 50 e 60 já foram contemplados), mas o fato é que o seriado parece bem mais confortável quando incita incongruências que na revelação gradual da conspiração. Entre os capítulos iniciais, o primeiro se sai razoavelmente melhor por focar na manutenção da recriação para contextualizar o espectador, o qual o próximo já não mantém pela necessidade de forçar uma dualidade de movimentos. A série busca forçar um exercício de paranoia similar ao de “Rua Cloverfield 10” ao deixar o público na dúvida sobre se tal simulacro é de criação externa ou da própria Feiticeira Escarlate, mas no fim o que interessa mesmo é como esta ilusão se fragmenta.

O seriado parece bem mais confortável quando incita incongruências que na revelação gradual da conspiração

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Neste sentido o paralelo mais óbvio é com “Twin Peaks”, embora a fórmula de “WandaVision” beba de outras tantas obras da TV e do cinema que brincam com a metalinguagem da narrativa televisiva tradicional. A problematização do “mistério da temporada” já há tempos deixou de ser tema e tornou-se recurso de narrativa, e o programa tocado por Schaeffer e Shakman aposta nisso como centro gravitacional para dar algum contorno à brincadeira maior de ver dois super-heróis vivendo uma vida de subúrbio em meio a recriações de época.

Há muito a se considerar dentro desta proposta, incluindo aí o vazio existencial de tocar essas recriações sem sair da zona de conforto das críticas já feitas a tais ideais de vida (e neste momento vale muito a leitura do texto de Tim Grierson sobre a reta inicial de “WandaVision”), mas pelo menos por agora a questão maior é saber se o seriado da Marvel é capaz de contornar o problema inevitável do seu encaixe no universo do estúdio. Se os episódios de “WandaVision” se saem melhor quando expansivos na sugestão de um mal maior ou de uma perturbação à ordem vigente, como evitar que tudo seja posto a perder dentro do engatilhamento pré-determinado com outros filmes e seriados?

O problema no fundo seria o mesmo de ver “Twin Peaks” pela primeira vez ainda nos anos 90 já sabendo da identidade do assassino de Laura Palmer: sem o mistério de seu atrativo inicial, o que sobra além de algumas referências e homenagens? A série precisa menos do drama de distorção jogado em aberto que de cenas como do engasgo e de aparições súbitas de figuras como o do apicultor.

Os primeiros dois episódios de “WandaVision” estão disponíveis no Disney+.

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