Entre o mistério e a estética, Daft Punk revolucionou o mundo da música fugindo dos holofotes

Indústria musical perde um dos projetos mais emblemáticos das últimas décadas, que sempre desafiou aspectos importantes do modelo de negócio proposto pelo entretenimento

por Soraia Alves

Como sempre acontece com anúncios de finalizações de carreiras e de projetos, a notícia de que o Daft Punk chegou ao fim causou uma enxurrada de comentários lamentando o término da jornada da dupla francesa. Além dos fãs, a indústria musical perde um dos projetos mais emblemáticos das últimas décadas, criativo, inovador e desafiador em aspectos importantes do modelo de negócio proposto pela indústria do entretenimento.

A dupla formada por Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter foi responsável por popularizar a música eletrônica na década de 1990, especialmente por levar o movimento para além das raves com músicas que combinam house, pop, disco, funk, techno, rock e synthpop. Com apenas quatro álbuns de lançamentos bem espaçados, a discografia do Daft Punk é cheia de hits inconfundíveis: “Da Funk” e “Around the World” estão em “Homework” (1997). “One More Time”, “Digital Love” e “Harder, Better, Faster, Stronger” integram “Discovery” (2001), “Technologic” e “Robot Rock” estão em “Human After All” (2005), e “Get Lucky” e “Lose Yourself to Dance” fazem parte do último disco lançado pela dupla em 2013, “Random Access Memories”. A carreira ainda teve espaço para diversas produções com outros artistas e até a trilha sonora do filme “Tron: O Legado” em 2010, além de diversos prêmios no Grammy.

Em todo esse tempo, o Daft Punk sempre chamou atenção pela estética única de Guy-Manuel e Thomas. Os capacetes usados pelo duo nunca revelaram as reais identidades dos músicos, alcançando um efeito de “mecanização” dos próprios artistas.

Com isso, o Daft Punk elevou o nível futurista da relação homem, música e tecnologia já proposta na década de 1970 pela banda alemã Kraftwerk.

O artigo “Human After All? Daft Punk e o Culto à Máquina”, de Marcelo Cizaurre Guirau e Rafael Mantovani, analisa justamente o quanto a dupla foi inovadora ao apostar nessa exclusão da figura humana e adotar a fantasia de uma produção musical feita exclusivamente por máquinas.

Recentemente, um tópico do Twitter resgatou como foi o processo de criação dos capacetes do Daft Punk, peças fundamentais para que os músicos criassem todo esse universo robótico e de autoproteção de suas identidades. As empresas envolvidas foram a Alterian Inc., que fez a primeira versão dos capacetes, e a Ironhead Studios, responsável pelas versões mais recentes.

Já no livro “Innovation in the Cultural and Creative Industries”, de Estelle Pellegrin-Boucher e Pierre Roy, a análise feita em um dos capítulos é justamente sobre a forma também inovadora como o Daft Punk conduziu sua carreira como modelo de negócio, mantendo o controle de toda a sua produção musical. A Virgin Records tem os direitos de distribuição do material da dupla, mas as gravações originais se mantém sob o domínio do seu selo Daft Trax.

O Daft Punk sempre optou por escolhas não tradicionais em relação ao mercado musical, como a relação distante da mídia, com raras entrevistas ou aparições em público. Ainda assim, nada se compara às poucas apresentações ao vivo da dupla. Nesses 28 anos de existência, Guy-Manuel e Thomas nunca realizaram uma grande turnê mundial e se apresentaram poucas vezes ao vivo, mas essas apresentações sempre foram extremamente detalhistas e grandiosas. Bom exemplo é o incrível show no Coachella de 2006: eles recusaram diversas propostas do festival até toparem a apresentação por um cachê de US$ 300 mil, que foi totalmente usado para “completar” a estrutura do próprio show – que entrou para a lista de apresentações mais icônicas do festival.

Como produto, o Daft Punk usou de todas as estratégias para se manter relevante ao longo dos anos. Os lançamentos espaçados de álbuns geravam a necessidade e fidelização entre os fãs. Os poucos shows entregavam exclusividade aos sortudos que conseguiam garantir ingressos. As colaborações sempre elevaram o nível de influências musicais da dupla. A estética robótica alimentou os mais diversos rumores sobre Guy-Manuel e Thomas.

Fãs e entusiastas das estratégias de sucesso sabem que o Daft Punk fará muita falta, ainda que seu legado musical, suas influências e seus mistérios sejam memoráveis.

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