“Meu Pai” esconde reconstrução de uma tragédia em drama de demência

Adaptação estrelada por Anthony Hopkins prioriza eficiência e controle formal na hora de traduzir narrativa do teatro para o cinema

por Pedro Strazza

⚠️ AVISO: Contém SPOILERS do filme.

Dentre os indicados ao Oscar de Melhor Filme em 2021, “Meu Pai” talvez seja o que melhor cumpra com o desejo imediato de parte do público por narrativas eficientes e labirínticas, uma constatação curiosa dado que sua origem pertence ao teatro. Além de baseado na peça de mesmo nome, o filme é também dirigido pelo autor Florian Zeller, que comenta em diversas entrevistas como sua ambição para a produção era menos de traduzir de forma fiel o material para o meio que pela oportunidade de aproveitar os recursos narrativos do cinema a favor da trama enigmática.

Esta noção não demora muito para se manifestar dentro da narrativa, até porque sua premissa parte do desencontro lógico como motor de todos os movimentos. Para quem ainda insiste na maratona do prêmio da Academia, a comparação do filme com as outras duas “peças” lembradas pela cerimônia é inevitável: enquanto “A Voz Suprema do Blues” e “Uma Noite em Miami” se preocupam em se cobrir do verniz da encenação teatral nas performances (seja do elenco, seja de câmera), esta posição surge naturalmente no drama estrelado por Anthony Hopkins, aqui um senhor de idade que começa a sofrer com os males da senilidade enquanto mergulha nas próprias memórias dentro de seu apartamento. O espaço e os atores com os quais interage mudam a todo momento, mas as atenções estão focadas no trabalho do ator como o protagonista daquele microcosmo – algo que em si já soa aos mais alheios como uma reivindicação natural de teatralismo.

Zeller é muito perspicaz na maneira como dialoga a intersecção de seu trabalho como dramaturgo com sua estreia na direção para se deixar levar pelo mero exercício raso de tradução, porém. Se “Meu Pai” é um filme que pode ser questionado em muitas instâncias, ele também está longe de ser acusado da rigidez formal que ora ou outra acomete produções do tipo – o próprio “A Voz Suprema…” é um exemplo, ainda no campo do Oscar. Superada a fase do rigor, o desafio da direção é de reenquadrar o tal do microcosmo citado acima para outro formato de narrativa.

Florian Zeller (à esquerda) conversa com Anthony Hopkins (ao centro) no set

Para tanto, o filme assume uma relação frontal com o espectador. A narrativa existe na forma de um longo devaneio desde o começo, quando se inverte a posição de Olivia Colman e Olivia Williams no papel da filha, mas em nenhum momento bota em cheque a veracidade dos fatos. O longa nunca torna inconsistente o ponto de vista além do necessário para distorção pois seu foco está no registro do tempo ao invés da demência: tudo na história existe enquanto memória, não como miragem, desde o elenco que se rotaciona nos papéis aos ambientes, os quais passam por mudanças cada vez mais sensíveis.

Neste sentido há muito a se notar do ponto de vista técnico, até porque o trabalho envolvido para dar vazão a esta proposta é demonstravelmente extenso – o filme sem dúvida foi um pesadelo para departamentos de montagem e design de produção. O mais interessante, entretanto, é perceber como esta posição adotada pela direção reduz ao essencial os rumos de narrativa, por sua vez um contraste escancarado da estrutura com a premissa de debilitação. Com pouco mais de 1h40, “Meu Pai” pode ser bastante conciso nas próprias divagações, curioso por estas apenas quando lhe convém para instigar desafios de lógica ao público – e neste ponto é divertido pensar que a referência maior de Zeller seja o expansivo “Cidade dos Sonhos”.

Seria uma armadilha nessa hora assumir que tal disparidade perdure no filme como uma racha entre forma e conteúdo (o diretor também vem comentando sobre como queria que a narrativa se ensaiasse como quebra-cabeça, o que só reforça sua predisposição a resoluções eficientes), mas ela é ótima para elucidar a separação da narrativa com seu subtexto. Ao sublimar a lógica do devaneio, afinal, o longa também se exime do fluxo interior das memórias do protagonista em favor do impacto imediato, uma saída fácil que no longo prazo diminui o alcance da produção.

Há muito a se notar do ponto de vista técnico, até porque o trabalho envolvido para dar vazão à proposta é extenso

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É um passo importante sobretudo porque o centro da narrativa em tese não é o decaimento físico do personagem de Hopkins, mas os efeitos de sua condição naqueles ao seu redor. Zeller compreende este exercício o suficiente para tornar a filha vivida por Colman numa protagonista silenciosa da trama, com sua decisão de se mudar para Paris servindo como gatilho emocional para a narrativa e sua relação com o pai atuando como eixo maior da denotação da crise, com o naufrágio do casamento sendo o evento maior desta lógica. Não à toa, o grande momento de “Meu Pai” está na percepção da casa existir numa condição plural, quando se revela sem grande alarde que a filha, ao trazer o patriarca ao lar, redecorou o apartamento para ajudar no retardamento da doença do pai – que por sua vez reinterpreta o espaço como sua própria casa, um ato que ajuda a denotar a sua influência na vida dela.

Mas se a força do longa está nesta série de constatações sobre a vida daqueles personagens, pode ser muito doloroso também entender que este arco existe sozinho no decorrer da história. A direção de Zeller está muito envolvida na construção do labirinto de memórias para se preocupar com suas pequenas intersecções, e a decisão pela abreviação destes momentos torna as idas e vindas mais mecânicas que espontâneas. Uma provocação: para fins tão profundos, “Meu Pai” pode ser muito repetitivo, quem sabe até redundante na forma como trabalha o tema do decaimento humano e do fim da vida.

É uma pena, principalmente porque a tragédia que se manifesta nas beiradas da narrativa é mais instigante que o drama em movimento. A morte prematura da filha mais nova, vivida por Imogen Potts em meio a seu papel maior de cuidadora, é uma informação que termina arremessada mesmo depois de passar o filme inteiro em desenvolvimento, incapaz de se ligar no eixo central da narrativa para além de outro dos traumas que afetam o julgamento do protagonista na última cena. Para ficar na alusão do diretor, é um quebra-cabeça incompleto: dá até para se divertir montando, mas a frustração é inevitável.

A direção está muito envolvida na construção do labirinto de memórias para se preocupar com as pequenas intersecções

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Essa limitação de escopo dentro de um tema maior em particular me fez pensar em “Sombras da Vida” durante alguns vários momentos do longa. Não porque exista alguma similaridade de estrutura entre as duas obras, mas porque, como o filme de David Lowery, “Meu Pai” coexiste entre o fracasso de ambições e a compensação pela técnica, de validar a fragilidade da narrativa por meio da dedicação quase que exclusiva à estruturação fragmentada. O que muda de uma produção para outra são os componentes da equação, bem como sua escala: o drama estrelado por Casey Affleck almeja uma filosofia grandiloquente com a estética de uma série de fotos do Instagram, enquanto o longa de Zeller pelo menos conta com o arcabouço do teatro para se portar como algo mais profundo e dramático nos movimentos.

Não que a técnica seja um problema, é sempre bom lembrar. Se “Meu Pai” tem algo a oferecer ao espectador, este é o talento coletivo e a tal eficiência de sua produção, desde o trabalho dos departamentos técnicos às atuações com quê de grandiloquente do elenco – e Hopkins de fato continua sendo um desses raros atores do teatro que carrega a nobreza das interpretações do palco para as telonas sem deixar de lado o comprometimento humano dos personagens.

“Meu Pai” está disponível para compra digital no NOW, Apple TV e Google Play a partir da próxima quinta, 9 de abril.

nota do crítico

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