Imagem: Divulgação/Gabriela Schmdt/

Duda Beat expande universo musical, mas mantém a essência em “Te Amo Lá Fora”

Nova estética e produção mais elaborada contribuem para que a cantora soe mais segura neste segundo trabalho

por Soraia Alves

Quando Duda Beat lançou “Sinto Muito”, seu primeiro álbum de 2018, a bolha moderninha elegeu a cantora como sua musa da sofrência indie. Onde as músicas de Marília Mendonça (com letras de temática parecida) não tocam, faixas como “Bédi Beat”, uma mistura de tecnobrega e surf music, e “Bixinho” se tornaram hits. A segunda, inclusive, entrou para a trilha sonora da novela “Amor de Mãe”, ajudando a cantora alcançar novos patamares na fama. Para além do hype, o primeiro trabalho de Duda representa uma fusão contemporânea de pop e regionalismo, resultando num ineditismo encantador. Essa essência continua presente em “Te Amo Lá Fora”, ao mesmo tempo que a cantora expande as influências musicais e conta com uma produção mais rica, que contribui para que ela própria soe mais segura neste segundo trabalho.


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Já na abertura do disco temos uma significativa experiência de diferentes camadas em “Tu e Eu”, com a mistura de gêneros como maracatu, eletrônico e o coco de roda, expressão cultural nascida em Pernambuco, terra natal de Duda Beat, com base na percussão e canto popular. A faixa conta com a participação de Cila do Coco, uma das maiores referências da música popular nordestina. Já com “Meu Pisêro”, primeiro single do álbum, a produção da dupla Lux Ferreira e Tomás Tróia explora a atual queridinha do Brasil: a pisadinha. Hit instantâneo, a música também aponta como a produção valorizou os vocais de Duda, que parece mais confiante que em sua estreia. Ainda que seja um clichê a comparação com o debut, é inevitável, e “Te Amo Lá Fora” mostra a evolução natural de quem agora sabe que já é sucesso.



A miscelânea de referências musicais de “Te Amo Lá Fora” percorre o álbum todo. A mistura de trap e pagodão baiano em “Nem um Pouquinho” é das faixas mais gostosas do trabalho, com a participação do rapper Trevo.

“Nem um Pouquinho” também faz um casamento perfeito com “GAME”, de influência pop e hip hop, cuja letra “Me perguntei por que o amor não conquista o amor. Me perguntei por que o desprezo conquista o amor” veremos milhares de vezes replicada nas redes sociais.



A introdução de “Mais Ninguém” lembra também introduções de faixas do mais recente trabalho do The Weeknd. Outro ponto de ligação com a pegada do pop contemporâneo é na última música, “Tocar Você”, que vem com a roupagem Disco 70’s abraçada por divas pop como Dua Lipa e Kylie Minogue (e pelo Daft Punk lá em 2013). Já o reggae presente na ótima “50 Meninas” é muito mais direto que as pinceladas do gênero vistas em “Sinto Muito”, também reflexo da produção mais ousada. Mas é com “Meu Coração” que contemplamos claramente todo o primor da produção de Lux e Tróia. A interpretação inicial de Duda chega a lembrar um pouco Elis Regina na canção, que se desdobra em uma trilha calcada em instrumentos de cordas. De longe, a música mais bonita que Duda Beat já fez.

Ainda que seja um clichê a comparação com o debut, é inevitável, e “Te Amo Lá Fora” mostra a evolução natural de quem agora sabe que já é sucesso.

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Duda Beat mudou a estética, mas ainda é a rainha da sofrência indie. Com letras como “Queria controlar os seus pensamentos pra não ter mais dúvidas que você gosta de mim”, ainda há muito ressentimento e amores não correspondidos em suas composições. Mesmo estando há quatro anos em um relacionamento bem-sucedido com o produtor Tomás Tróia, Duda mantém a estratégia que causa identificação nos ouvintes com o famoso “quem nunca, né?”. Todo mundo já viveu um desamor com as características cantadas por ela, o que transforma trechos como “Eu já sabia que na sua fila tinha mais de 50 meninas, todas elas apaixonadas por você” em sucessos imediatos.



Essa temática “dor de cotovelo amorosa”, no entanto, limita descobrirmos mais do potencial de Duda como compositora. Por isso, “Decisão de Te Amar” é, talvez, a faixa mais importante neste quesito, pois aponta justamente para o oposto. É um xote sobre um amor correspondido que traz à mente uma atmosfera de Elba Ramalho. Mesmo que, em entrevista ao G1, Duda Beat tenha dito que ainda pretende escrever bastante sobre o amor sofrido, é bom termos um lampejo de que sua obra não deve se resumir apenas a isso.

nota do crítico

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