Imagem: Erica Hernandez/Vogue

Caos adolescente e influências pop de “Sour” situam Olivia Rodrigo na era de fenômenos digitais exagerados

Estreia de Olivia Rodrigo é mais um fenômeno digital megalomaníaco: é bom? Sim, mas também não é pra tanto

por Soraia Alves

Um single foi o suficiente para catapultar Olivia Rodrigo de atriz do Disney Channel para promessa musical da nova geração. Em janeiro deste ano, ela lançou “Drivers License”, música que teve uma repercussão atípica até mesmo para a atual indústria do entretenimento de milhões de streams e visualizações que não demoram a ser alcançados. A faixa teve a maior semana de uma música lançada no Spotify até hoje, batendo 15,17 milhões de streams globais só no dia do lançamento. Seguindo o fluxo, a música é a que mais rápido ultrapassou os 100 milhões de streams na plataforma. Estreou em primeiro lugar no ranking Hot 100 da Billboard, e permaneceu no topo por oito semanas, coisa que só outras sete músicas conseguiram até hoje, incluindo hits de artistas como Elton John. Longe de ser o caso de “one hit wonder”, Olivia já colocou um segundo single no primeiro lugar do Hot 100, “Good 4 u”, e seu álbum de estreia, “Sour”, é o disco que mais rápido bateu 1 bilhão de streams no Spotify neste ano, ultrapassando “Justice”, de Justin Bieber.


Fenômeno é a palavra que define Olivia Rodrigo no momento, o que já vimos acontecer com outros casos neste ano. Tiago Liefert, por exemplo, usou a mesma palavra para precisar o que foi Juliette Freire, a vencedora do BBB21: fenômeno entre o público. E ainda que não seja uma surpresa que o atual modelo do mercado cultural funcione numa progressão impressionante de números e velocidade, sempre tendemos a buscar uma resposta para esses casos que extrapolam, em muito, o “padrão” de ascensão de sucesso. No caso de Olivia Rodrigo, que completou 18 anos em fevereiro, além do óbvio impulsionamento gerado pela marca Disney, temos uma fórmula certeira de boa produção, influências pop contemporâneas e uma estética adolescente de caos melancólico e extremos emocionais. Essa exposição emocional mesclada a um quê de rebeldia que ela traz em “Sour” também é um tanto original, uma vez que por muito tempo só vimos essas características em carreiras pós-Disney, como com Miley Cyrus e Demi Lovato.

“Sour” é o disco que mais rápido bateu 1 bilhão de streams no Spotify neste ano

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Sonoramente, as referências da cantora são de fácil identificação do público. As comparações óbvias com Taylor Swift e Lorde já foram feitas à exaustão, e a própria Olivia faz questão de sempre mencioná-las como inspirações. Entre letras sobre raiva, ciúme, tristeza, inveja e aceitação, “Sour” também passeia levemente por elementos do chamado bedroom pop, o estilo musical que tem como expoente máximo Billie Eilish, como no próprio single “Drivers License”. Ainda há espaço para garimpos mais adultos, como Adele, ou mais nostálgicos, como uma Alanis Morissette de “Ironic”. É interessante ouvir esse balaio de mulheres do pop, ainda que não seja algo unicamente proposto por Olivia.



No caso de Olivia Rodrigo temos uma fórmula certeira de boa produção, influências pop contemporâneas e uma estética adolescente de caos melancólico e extremos emocionais.

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A graça de “Sour”, de fato, está na oscilação emocional de uma adolescente em sua primeira bad romântica, que faz o álbum não ser uma grande colagem dos últimos trabalhos das influências citadas. A primeira faixa, “Brutal”, traz como base o rock alternativo, com riffs que remetem à “My Poor Brain”, do Foo Fighters. Na letra, o mais puro creme juvenil: “Eu estou tão cansada dos meus dezessete anos. Onde está a porra do meu sonho adolescente? Se alguém me disser mais uma vez, aproveite sua juventude, eu vou chorar”. Outro bom momento de frescor e urgência é em “Good 4 u”, que traz à mente Hayley Williams no auge do Paramore.

Apenas a última faixa, “Hope ur ok” destoa da temática pessoal sobre o término de relacionamento para se dirigir a adolescentes não aceitos pela família. E, embora a música seja um claro aceno para temáticas mais profundas, a música fica totalmente perdida no álbum, ressaltando como o interessante do trabalho está atrelado ao caráter pessoal da cantora. Faixas como “Deja Vu” e “Jealousy, Jealousy” funcionam porque são confessionais e trabalhadas com a melhor fórmula de letra simples, refrão gostoso e reconhecimento universal. Já os momentos mais acústico servem para explorar a capacidade vocal da Olivia, como em “Favorite Crime”, que lembra bastante os trabalhos da cantora Birdy.



Falando em Birdy, fica difícil não pensar em quantas cantoras vêm fazendo trabalhos muito semelhantes ao de Olivia Rodrigo nos últimos anos, mas ainda estão longe de chegar aos números extraordinários já conquistados por ela. De forma alguma isso tira o brilho do seu debut, um álbum interessante pela fusão de nuances sentimentais e ímpeto moderno, e muito fácil de ser consumido várias vezes. Mas fica um pouco mais difícil explicar logicamente essa era de fenômenos digitais megalomaníacos: é bom? Sim, mas também não é pra tanto.

nota do crítico

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