Imagem: Laurie Sparham / Disney

O desejo de “Cruella” é se libertar dos moldes de prelúdio de “101 Dálmatas”

Filme de Craig Gillespie é corporativo demais para se deixar levar pela comédia de caricaturas que lhe rende seus melhores momentos

por Pedro Strazza

Na rica história da teledramaturgia brasileira, poucos personagens se mantiveram vivos no imaginário do público através dos anos da mesma maneira que a dupla Ruth e Raquel. As gêmeas de “Mulheres de Areia” continuam vivas na memória nacional não apenas pela qualidade de suas histórias ou porque ganharam as telinhas do país em duas ocasiões diferentes, mas pela imagem simples e marcante que impuseram por meio de sua rivalidade: de um lado a doce e generosa irmã Ruth, do outro a egoísta e ambiciosa Raquel.

Essa dualidade também ganha corpo externo à novela porque serve como um objeto de síntese louvável em uma variedade de situações do cotidiano. De definir pessoas que parecem mudar de comportamento de um minuto pro outro a cenários onde perfis extremos se manifestam sem qualquer lógica maior que a dos pólos opostos, não são poucas as oportunidades que o brasileiro encontra de relembrar o legado de Ruth e Raquel pela via da comparação. 

Sobre o segundo caso, porém, um bom e curioso exemplo deste tipo de uso pode ser encontrado em “Cruella”. Prelúdio live-action empreendido pela Disney para expandir o universo da querida animação “101 Dálmatas”, a produção carrega um esforço em tese admirável de romper com a fórmula dos remakes em carne e osso do estúdio e oferecer algo diferente da nostalgia pré-embalada que parece definir essa leva de projetos do estúdio; ao mesmo tempo, o filme dirigido por Craig Gillespie também nunca sai deste cercadinho imposto por sua premissa de origem. Dessa contradição de ação e raciocínio, o único resultado possível só pode ser uma experiência delirante que vai e vem entre todas as diferentes necessidades envolvidas – e é a partir daí que a conexão à ideia das personagens vividas por Eva Vilma e Glória Pires pode se tornar um exercício recorrente por parte do público brasileiro.

Não que o filme tente evitar esta rachadura a todo custo, vale acrescentar. Os vultos de Ruth e Raquel habitam a narrativa do longa a partir do momento em que o espectador é apresentado à protagonista do título quando criança, apenas para descobrir que seu nome verdadeiro é Estella. Rebelde, a jovem que nasceu com os cabelos brancos e pretos ainda na infância se vê sozinha no mundo ao testemunhar a morte da mãe (Emily Beecham) em um horrível acidente, e cresce na ilegalidade da Londres dos anos 60 e 70 sob o agouro da tragédia e do aprendizado da sobrevivência ao lado dos amigos Jasper (Joel Fry) e Horace (Paul Walter Hauser). Ao se tornar adulta – e vivida por Emma Stone – Estella passa a perseguir o sonho de trabalhar com moda e acaba conseguindo trabalho na grife da Baronesa (Emma Thompson), mulher cujo lar foi palco da perda maternal.

Esta longa sinopse elencada acima não dá cabo dos primeiros 30 minutos do filme, uma informação o qual por si só já exemplifica o grau de investimento dos roteiristas Dana Fox e Tony McNamara para fundamentar a personagem de Cruella de Vil no filme como alguém que seja mais que a diabólica estilista obcecada por peles de dálmatas. Mais importante que isso, porém, é perceber o quanto a trama tenta criar profundidade emocional sobre a personagem sem retirar dela suas características mais cartunescas. Estella ganha o apelido de Cruella ainda na infância como uma brincadeira familiar, mas o nome ganha novo significado quando ela descobre que a Baronesa esteve por trás do assassinato da mãe e, para se vingar, decide criar um alter ego misterioso capaz de combater a “rainha” pelo controle do mercado de moda – tudo com a estética de subversão da época ou seja lá o que os envolvidos na produção acreditem ser isso.

Assim, a protagonista ganha uma vida dupla para chamar de sua, no mesmo passo com que o público vê o filme começar a buscar ativamente uma saída do formato pré-assimilado e criar uma identidade própria. Como Ruth e Raquel, Estella e Cruella começam a coexistir como entidades próprias na mente da personagem, cuja vida orbita entre a vítima das circunstâncias – tímida, discreta e complexa em sua identidade – e a nova líder, um cartum ambulante que por trás das roupas extravagantes e da maquiagem pesada mostra obsessão pelo poder e suas oportunidades de demonstração.

A trama tenta criar profundidade emocional sobre a personagem sem retirar dela suas características mais cartunescas

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Há toda uma dissonância de argumentação bastante evidente e feita de propósito em torno deste processo, e o que a direção de Gillespie faz a partir disso é amplificar seus efeitos da forma mais ágil e que acredita ser cabível. Esta execução na prática é um embalamento pop do material e uma repetição do que o diretor fez com “Eu, Tonya”, em especial porque se trata do mesmo modo de operação de ditar a montagem como uma imensa jukebox musical que “emula” a época registrada dentro de um gênero atípico – lá a cinebiografia dos grandes temas, aqui o produto de estúdio hoje encarado como “conteúdo”. A diferença, porém, é que enquanto na história de Tonya Harding o método era revestido por um esforço dúbio de dignificação dos retratados, em “Cruella” Gillespie tem como apelar ao recurso de tipificar personagens, o qual desenvolveu naturalmente no curso de suas outras duas incursões pela Disney – os também “registros edificantes” “Arremesso de Ouro” e “Horas Decisivas”.

É natural que daí em diante o filme desande – já havia, dado a trama inchada e insuportável na cadência ritmada do som – mas o fascinante a se observar é como ele também se reorganiza e ensaia até ser algo mais interessante que sua premissa. Em seus melhores momentos, “Cruella” arrisca ser uma versão mais bem acabada de “O Demônio de Neon” e outros tantos dramas e thrillers prestigiados situados no mundo da moda porque sua disposição a abraçar o ridículo é validada pela maneira como os personagens e a protagonista são situados como cartuns gigantes. Dos amigos que se convertem em cúmplices dos crimes mais bestas aos golpes de lógica de desenho animado, a guerra midiática entre a Baronesa e Cruella (interpretadas por duas Emmas ainda, se vale forçar o paralelo com “Mulheres de Areia”) é registrada no estilo de caricaturas absurdas, estilizadas ao limite, sem propósito maior que o do entretenimento banal e sem medo de ser acusado de jogar com essas superfícies – e os figurinos de Jenny Beavan são muito felizes em gradativamente estetizar todas essas relações de maneira lúdica, efetivando de algum jeito a dinâmica de Pernalonga e Patolino em movimento.

O experimento é válido e em alguns momentos até flerta com o convencimento mas, como em quase todos os outros projetos inspirados ou adaptados das animações da Disney, o grande problema de “Cruella” é que eventualmente suas peças precisam retomar a posição de neutralidade perante o conglomerado ao qual pertence. Com tantas comparações com “Coringa”, um terceiro elemento na cadeia de “derivados autorizados” que ajuda a elucidar a sensação por trás da experiência de rebeldia adequada desses filmes é o “Solo” de Ron Howard, dado como ele reforça o grau de impossibilidade de risco atribuído a qualquer uma destas produções. Ainda mais porque a origem de Cruella de Vil, tal qual a de Han Solo, alimenta o precedente perigoso de precisar justificar até mesmo a criação do nome, desta vez em duas partes para garantir que o espectador tenha todas as informações possíveis sobre o misterioso personagem que desmistifica.

A disposição de “Cruella” em abraçar o ridículo é validada pela maneira como os personagens e a protagonista são situados como cartuns

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Em outras palavras, o que acontece com “Cruella” é que a sina em criar respostas e registrar conexões com seu criador acaba por soterrar o filme e suas ambições. Nem há como curtir por muito tempo a guerra de moda porque aos poucos ela se converte inteira para a burocracia narrativa de terminar de configurar a protagonista como vilã, além de sedimentar as bases dos primeiros passos de “101 Dálmatas”. E haja novela para fechar todas as pontas, acalentar o fã que por ventura esteja ansioso por isso e esvaziar até o vazio de proposta da obra.

Nessa hora – e depois de recorrer algumas vezes às personagens – é irresistível não recorrer de novo às gêmeas de “Mulheres de Areia” enquanto expressão. Como Cruella e Estella, “Cruella” existe na briga interna entre Raquel, quando almeja tornar seu jogo de caricaturas central aos efeitos da narrativa, e Ruth, quando se mantém atrelada à vocação original pelo produto corporativo e ansioso por atender expectativas finais da parte dos fãs da animação. Ao contrário da novela, é com infelicidade que assistimos a última triunfar.

“Cruella” está disponível para locação via Premier Access no Disney+ a partir da próxima sexta, 28 de maio.

nota do crítico

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