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Imagem: Kirsty Griffin

Para criadores, o segredo de “Sweet Tooth” é filtrar o mundo pós-apocalíptico pelos olhos de uma criança

Showrunners da adaptação, Jim Mickle e Beth Schwartz revelam detalhes do estranho processo de se contar uma fábula sobre o fim do mundo durante uma pandemia

por Pedro Strazza

Com um volume tão alto de séries de fantasia ambientadas em mundos pós-apocalípticos nos dias de hoje, é fascinante como “Sweet Tooth” consegue encontrar voz própria mesmo sem apresentar nada de novo à fórmula do gênero. Produzida pela divisão de TV da Warner Bros. e a ser distribuída pela Netflix a partir da próxima sexta, 4 de junho, a primeira temporada da adaptação dos quadrinhos homônimos de Jeff Lemire em tese reaproveita muito dos temas que habitam o imaginário do público com maior intensidade há pelo uma década, ainda mais agora num contexto de pandemia do coronavírus. Como em muitas obras, estão lá na premissa do programa a extinção humana pelas vias de uma doença misteriosa, a desarticulação da sociedade, a ascensão de uma lógica de “cada um por si” e a busca eterna por fragmentos que reconstituam um mínimo da humanidade que habita cada um de nós, repetidos à exaustão em temas, discussões e clichês como qualquer tipo de história massificada está condenada a passar.

Ainda assim, os primeiros episódios da série parecem sair do lugar comum com o que a princípio é uma manobra das mais óbvias: a conversão de uma trama dura pela perspectiva adocicada da fábula. Embora o mundo se torne mais cruel perante a redução drástica da população humana e do medo provocado pela ascensão de uma nova e híbrida entre homens e animais, a premissa do seriado tem como centro a história de Gus (Christian Convery), uma criança com uma galhada, olfato e olhos de cervo que é criada longe de todo o caos e na floresta pelo pai (Will Forte), zeloso e temeroso pelo destino do filho diante do temor crescente do público sobre a raça. O programa é literalmente sobre esta descoberta de mundo inesperada, a partir do momento que o protagonista deixa o lar protegido e se aventura para longe da mata em busca de sua mãe, junto do misterioso caçador Jepperd (Nonso Anozie).

O mais interessante em tudo isso é que essa ideia demorou a acontecer para Jim Mickle e Beth Schwartz, encarregados pela Team Downey de conceber e produzir “Sweet Tooth”. “Eu desde o começo sou um grande fã dos quadrinhos, eu gosto muito da emoção e do peso emocional que a cerca, mas pensando em como tirar uma série de TV daquilo eu senti que seria muito difícil fazer isso e ainda tornar a história em algo fresco e novo, especialmente da maneira que os quadrinhos soaram para mim quando eu li a primeira vez.” confessa Mickle em entrevista ao B9, ao qual também comenta como a ideia de ver uma criança alienada da sociedade entrando em contato com a atual realidade tornava a premissa instigante: “há uma história tão interessante quanto em o que ele vê quando se aventura pelo mundo, em especial quando olhando agora o mundo em que vivemos, onde tudo é muito absurdo e nós não percebemos tanto esse lado, entre as redes sociais, a Amazon e essas coisas que meio que vivem ao nosso redor. É tudo muito absurdo”.

Schwartz concorda com a afirmação do colega – que dirige os dois primeiros capítulos – e acrescenta que a grande força de “Sweet Tooth” está nos desafios desta jornada de Gus. “A ideia de um pai protegendo seu filho contra os grandes malvadões do mundo real lá fora é um tema que pode ser muito relacionável a qualquer pai, e a partir desse momento, quando o Gus cruza a cerca, isso era algo que nós queríamos muito garantir que aumentasse os riscos em termos de perigo, seja isso porque é um mundo pós apocalíptico ou é só o mundo como conhecemos, porque tudo faz parte do crescer” afirma a showrunner.

É nesse tom que se desenrolou a conversa dos produtores executivos com o B9, durante uma videochamada para divulgar o lançamento da série no streaming e onde a dupla ainda falou bastante sobre a relação de trabalho com Lemire durante a adaptação, os desafios de se adaptar uma série em quadrinhos tão amada para a televisão e a coincidência de se produzir um seriado sobre o fim do mundo durante uma pandemia. Você pode conferir o papo na íntegra abaixo.

(Crédito da foto: Kirsty Griffin)

“Sweet Tooth” é uma série que orbita entre a fábula e o thriller pós-apocalíptico, e os primeiros dois episódios são muito cuidados na forma como estabelecem este tom, especialmente pela perspectiva de Gus. Vocês podem comentar sobre o trabalho feito nesta introdução?

Jim Mickle: Na verdade demorou um bom tempo até que a gente acertasse isso, porque a gente filmou o piloto em 2019, o roteiro acho que foi escrito em 2018 e a gente não fez o segundo episódio até 2020. Então demorou bastante e a gente conviveu bastante com esse pensamento, até porque não era a ideia inicial, eu nem sabia que a gente iria acabar nesse caminho. Eu desde o começo sou um grande fã dos quadrinhos, eu gosto muito da emoção e do peso emocional que a cerca, mas pensando em como tirar uma série de TV daquilo eu senti que seria muito difícil fazer isso e ainda tornar a história em algo fresco e novo, especialmente da maneira que os quadrinhos soaram para mim quando eu li a primeira vez.

A gente meio que ficou conversando durante a produção inteira sobre que tipo de público essa história seria interessante, e em determinado momento simplesmente me bateu que aquilo não precisava ser pesado a todo momento. Digo, a gente podia ter esses grandes momentos emocionais, mas também havia esse nosso protagonista que na verdade viveu uma vida incrível enquanto crescia na floresta. Ele estava apenas cercado pela natureza e a única outra pessoa em sua vida é este pai amável que dá essa espécie de infância perfeita. Então há uma história tão interessante quanto em o que ele vê quando se aventura pelo mundo, em especial quando olhando agora o mundo em que vivemos, onde tudo é muito absurdo e nós não percebemos tanto esse lado, entre as redes sociais, a Amazon e essas coisas que meio que vivem ao nosso redor. É tudo muito absurdo, mas então… como um mundo desses soa para uma criança que sai descobrindo mundo e fica “espera, o que vocês fazem da vida? O que vocês vem fazendo todo esse tempo?” (risos). Eu acho que isso tudo isso informou a forma como nós trabalhamos.

Beth Schwartz: Sobre balancear o tom, eu tive sorte o suficiente de assistir ao piloto que o Jim dirigiu de forma tão linda e, para mim, o que me pegou foi que o coração era o Gus, que ele é basicamente o norte do programa. Havia muito da relação dele com o pai e eu tinha acabado de me tornar mãe quando vi o episódio, então eu me relacionei muito com a história a partir daquela relação. A ideia de um pai protegendo seu filho contra os grandes malvadões do mundo real lá fora é um tema que pode ser muito relacionável a qualquer pai, e a partir desse momento, quando o Gus cruza a cerca, isso era algo que nós queríamos muito garantir que aumentasse os riscos em termos de perigo, seja isso porque é um mundo pós apocalíptico ou é só o mundo como conhecemos, porque tudo faz parte do crescer.

Além da história de Gus e Jepperd, vocês também trabalham com outros dois núcleos na temporada. Como balancear estas três tramas sem perder o foco do que realmente interessa na série?

BS: Nós de propósito construímos esta temporada com estas três histórias, sabendo que cada trama e cada personagem, mesmo quando eles não estejam com Gus, são importantes para a história maior que estamos contando, é importante para a série. Todas elas se interligam no final da temporada e vocês verão como.

(Crédito da foto: Kirsty Griffin)

Nonso Anozie faz o papel de Jepperd na série, uma escolha que acho interessante não apenas porque ele faz muito bem o papel, mas também porque implica que vocês tiveram que adaptar um personagem que nos quadrinhos é um jogador aposentado de hóquei velho e branco em um ex-jogador de futebol americano negro. Qual foi o processo por trás desta decisão e quais foram os cuidados que vocês tiveram que tomar enquanto adaptando a história e produzindo a série?

JM: Quando a gente estava começando a trabalhar no programa, todos nós decidimos cedo que estávamos atrás dos melhores atores para cada papel e que a cor de pele não era algo que de fato estava sendo considerado, e neste ponto agradeço muito Jeff Lemire que, quando recebeu a notícia, embarcou 100% na ideia. Eu sempre perguntava pra ele “Isso vai ficar esquisito?”, porque eu não sabia se ele tinha ou não alguém pro papel por anos, mas todos nós concordamos que este era o melhor caminho a se seguir.

Assim que conseguimos o Nonso pro papel, ele é tão específico por conta da altura e porque ele carrega essa fisicalidade tão intensa de forma maravilhosa que o lado do futebol americano surgiu como algo muito mais natural ao personagem, o que eu achei ótimo porque eu sei absolutamente nada de hóquei (risos). Eu sei bastante de futebol americano e eu sabia quem era aquele personagem, eu senti que podia reescrever aquele passado de uma forma que não se encaixaria se ele fosse um jogador de hóquei, então eu estava secretamente torcendo que nós não precisássemos ir pro lado do hóquei.

Depois disso, porém, nós não precisamos pensar muito sobre isso, eu acho que tivemos algumas conversas e eu definitivamente fiquei pensando se era necessário tratar da questão de raça pro Gus, porque até então ele só havia visto um ser humano no planeta e ele era parecido com ele, então a gente precisa criar cenas onde isso vira uma conversa? Mas a gente percebeu muito rápido que nós não precisávamos disso porque, sabe, é o mundo em que ele vive, e eu fiquei feliz de perceber que nós conseguimos contar a história do jeito que queríamos.

Eu queria terminar esta conversa perguntando sobre a cena do jantar no terceiro episódio. Claro que uma série como esta ganha uma nova camada quando vista num cenário pandêmico como este que vivemos e que as comparações naturalmente acontecem, mas o que achei fascinante – para não dizer brilhante – neste momento é como ele brinca com esta noção de “novo normal” que nós todos tentamos sobreviver durante os últimos meses, enquanto a vacinação não avança. Sem dar muitos detalhes do momento em si, vocês podem falar um pouco sobre a construção dessa cena? Esse contexto de nossa realidade foi uma referência?

BS: É engraçado, a gente pensou na temporada inteira antes da pandemia acontecer, nós tínhamos ela planejada e este episódio na verdade foi um dos que foram escritos antes de tudo isso acontecer. Então nós tínhamos esta narrativa e nós estávamos muito focados em como as pessoas reagem ao apocalipse, existem diferentes grupos ao redor do globo e diferentes grupos de pessoas que tentam existir depois de uma pandemia. Este grupo no caso foi uma de nossas ideias favoritas, esta vizinhança que pensa “bom, nós estamos aqui”, eles são boas pessoas, seguem as regras e fizeram a própria sociedade, mas na verdade há todo esse lado obviamente maléfico envolvido. O que acontece quando as pessoas temem pelas próprias vidas e o que isso faz com a condição humana, nós nos sentimos muito compelidos por essa ideia e meio que fomos fundo nela

JM: (risos) Acho que o que precisa ser dito, e eu tenho a mesma lembrança da Beth, é que essa ideia sempre pareceu estar habitando a sala, eu nem lembro quando ela aconteceu mas a gente sabia que queria muito fazê-la. Eu acho que a gente tem que creditar o [roteirista] Michael R. Perry, eu acho que a ideia veio dele, mas eu lembro que quando ele mencionou essa cena pela primeira vez eu fiquei “Uau, eu não estava esperando essa, mas eu adorei tudo que ele disse!” (risos). Eu sempre achei que aquele personagem, o doutor Singh, pertencia a uma história dos irmãos Coen, no sentido de ser esse ser humano num tipo de mundo que não está lá tão sincronizado com ele, e aí o artifício inteiro da trama nos subúrbios pareceu algo, sabe, todo mundo está negação? Isso sempre pareceu algo que o resumia de maneira linda. Eu acho que esse é meu momento favorito na série inteira.

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