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A tal da planilha das agências, a discriminação nossa de cada dia

A cada nova versão, documentos perdem mais do valor de denúncia de más condições de trabalho para se tornar antros de linchamento virtual

por Inaiara Florêncio / ECD da Adventures

Nos últimos dias foi publicado mais uma vez a planilha das agências, criada em 2016 com intuito de entender como é trabalhar nas agências de publicidade espalhadas pelo país. Ela surge do nada, some, algumas agências se posicionam (nem que seja internamente) e depois seguimos como se nada tivesse acontecido.

Essa versão, para combinar com o contexto que vivemos, foi repleta de cancelamentos e linchamentos virtuais, transformando e reforçando mais uma vez que a planilha que era para ajudar a apontar erros sistêmicos e propor uma abertura de diálogo construtivo, virou um espaço de toxicidade – se não pior, igual às engrenagens da nossa indústria da comunicação que tantos tentam mudar. O mais louco disso é ver os comentários vibrando por sua publicação, enfatizando uma falsa simetria de justiça no qual um lado sempre está certo, outro sempre errado – e destaco um terceiro, daqueles que não olham atentamente e se perdem nas nuances, sem saber a veracidade do que é exposto.

Eu nunca comentei publicamente sobre a planilha (mesmo nos anos que não fui citada), justamente porque acreditava que as atrocidades delas não deveriam ganhar ainda mais amplitude. Para mim era sinônimo de apoiar o efeito manada que inclui repressão, ódio, linchamento online, machismo, homofobia e racismo, logo CRIME. E deixo claro que não estou falando das questões sistêmicas que precisam ser ouvidas com atenção e endereçadas.

Mas me propus a trazer uma reflexão porque deitei inquieta na quinta, acordei com nó na garganta na sexta e logo coloquei a playlist do mestre Emicida: “O sonho te traz coisas que te faz prosseguir. Vai, levanta e anda. Somos maiores, basta só sonhar, seguir”. Na música ele lembra a realidade social de milhares de pessoas no mundo. Mas apesar dos pesares é necessário seguir em frente. Então escrevi! Não por mim, mas pros nossos que estão ocupando espaços, para quem está na luta de transformar esse mercado tóxico, para quem está focado em ações efetivas de transformação do mercado e da sociedade.

Porque abraçar o cancelamento como forma de punição, sem olhar para a expectativa de transformação é fácil. Difícil mesmo é lutar para transformações concretas.

Em “Linchamentos: a justiça popular no Brasil”, o sociólogo José Martins fala que aquele que é linchado cumpre uma função sacrificial do bode expiatório, servindo para que outras pessoas externem sua incapacidade de diálogo e sua potência de violência. Então, o que melhoramos no mercado para todes nós? Já que essa cultura impede a manutenção do diálogo e qualquer outra forma de fazer pessoas mudarem de opinião, levando à uma conformidade empresarial na qual tudo pode seguir da mesma maneira.

Se o mal do século é o cancelamento, eu quero acreditar na influência positiva, na influência de coragem, nas pessoas que não temem e que sabem se posicionar em relação a algo, sendo mais ponte do que muro. Eu agradeço por ter pessoas que me inspiram a ter coragem e a exercê-la no meu dia a dia, por onde passar, das melhores formas. Uma pessoa não pode ser cancelada porque ela não se encaixa no seu padrão. Por isso, desejo ainda mais força para cada pessoa atacada e que sigamos questionando padrões de exclusão, mesmo que isso incomode muita gente.

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