Imagem: Monika Lek/Netflix

“Quanto Vale?” reenquadra drama sobre 11 de setembro para tratar do processo do luto

Filme estrelado por Michael Keaton acompanha bastidores da compensação financeira às famílias das vítimas para encapsular emocional combalido

por Pedro Strazza

Entre os tantos exemplares de filmes sobre burocracia baseados em fatos cuja popularidade só podemos concluir serem resultado indireto da vitória de “Spotlight” no Oscar, o ponto mais interessante que parece uni-los em uma mesma categoria é como se aproveitam de uma aparente “secura” dos eventos para conceber suas narrativas. Se a vida nos escritórios está longe da animação, independente de qual esfera pertençam, esses projetos focados em temas “sérios” tendem a encontrar a raiz de sua dramatização em como as montanhas de papel e as idas e vindas de homens e mulheres reunidos afetam os corpos – em especial o desgaste.

Enquanto essa recorrência por si só atesta parte das questões agravantes que acometem o mundo de hoje, tal dinâmica também escapa dos conformes mais convencionais que nos acostumamos a ver em produções nobres do tipo, até porque seu exercício esvazia o engrandecimento frequente nas biografias de grandes eventos. Bom exemplo desta tendência é “Quanto Vale?”: apesar do tema maior do 11 de setembro e da presença de atores do porte de Michael Keaton e Stanley Tucci, o longa existe numa lógica menor do processo, acompanhando os bastidores da criação do fundo de compensação governamental às vítimas do atentado terrorista pelo que são. Não há grandiosidade nas lutas representadas, mas somente o trabalho que as movimentam.

Sara Colangelo (a segunda, da direita pra esquerda) orienta a equipe no set

Não que a produção mire ser um equivalente ficcional daquilo que Frederick Wiseman já faz há décadas no documentário, mas na prática o que o filme de Sara Colangelo faz com a luta de Kenneth Feinberg (Keaton) é similar ao de Todd Haynes com “O Preço da Verdade”, o de Scott Z. Burns com “O Relatório” e ao do próprio Tom McCarthy com “Spotlight”, agora com mais frentes. Se todos esses antecessores tinham “vilões” evidentes e causas muito grandes a serem levadas, “Quanto Vale?” opera tanto pelo lado dos advogados, que assumem a tarefa ingrata de encontrar uma compensação adequada a todas as famílias afetadas pela tragédia, quanto por aqueles que apontam incongruências no processo construído, resumidas aqui à presença de Tucci como um militante “civilizado”.

O que Colangelo faz a partir disso é aproveitar o roteiro correto de Max Borenstein – em especial na forma como dissolve a temática difícil em diálogos que explicam as causas sem esquecer de avançar a trama – e centralizar o eixo da narrativa da discussão para a figura de Feinberg. Com fama de mediação em momentos de trauma, o advogado serve aqui para elucidar aos olhos do público o aparente nó argumentativo entre encontrar uma forma de contemplar as famílias das vítimas e não interferir nos conformes da máquina pública, uma disposição que naturalmente leva ao tal desgaste perante as tantas variáveis. 

Tudo que circunda Feinberg é derivado de suas escolhas, seja em efeito ou contraponto, e a narrativa se simplifica ao eixo do pragmatismo e a compaixão. Isso vale para os advogados do escritório e os encontros da equipe com os familiares enlutados, que não demoram a se tornar ponto de atenção maior do filme perante o rompimento gradual do processo inicialmente metódico e calculista do fundo – e neste momento nada como ter alguém como Amy Ryan para incorporar estas cenas. Como a data final de resolução da questão é de dois anos, tem-se em mãos um exercício de deterioração intrigante, capitaneado por Keaton em mais um desses trabalhos de homem comum que favorecem seu perfil de atuação.

Tudo que circunda Feinberg é derivado de suas escolhas, e a narrativa se simplifica ao eixo do pragmatismo e a compaixão

compartilhe

A única limitação maior dessa lógica adotada por Colangelo, entretanto, é a tendência à convenção. Se “O Preço da Verdade” partia de uma proposta similar consciente da impossibilidade de uma resolução ao drama ambiental (e Haynes percorria tal caminho exatamente para esse fim), “Quanto Vale?” tem um horizonte mais definido e implicado na questão finita do luto, o que resume a discussão a um ato de percepção de Feinberg. Os próprios personagens repetem ao longo do filme que o objetivo é fazer as pessoas embarcarem no fundo e seguirem em frente, então a luta de Golias para convencer os pequenos Davis fica exposta de antemão como uma corrida contra o tempo – o que por sua vez reforça a artificialidade dos atos, em especial a dramatização da frieza advocacional de quantificar a morte.

O movimento a se detectar nessa hora, de novo, é a discrição. Se essa problemática representaria um fim de jogo deprimente a qualquer filme disposto a abraçar uma escala maior para retratar os acontecimentos, na narrativa de Colangelo ela apenas reforça o ruído das engrenagens burocráticas e intensifica o puxa e repuxa emocional em torno de seu protagonista, o que por sua vez dá corpo definido ao filme enquanto registro. É o drama pequeno da luta individual dentro da máquina que serve de cerne ao longa, e ele existe para dar vazão ao emocional complexo que permeia essas histórias.

No fundo é uma jogada ousada pois ela diminui o drama de luto intrínseco ao retrato, e ainda que exista o ônus óbvio – o roteiro até tenta dar protagonismo à história de uma das famílias afetadas, mas o efeito é dissolvido justo pelo seu teor de coadjuvante – ele se resguarda por não esconder do público sua adesão a um formato pré-estabelecido e cumprir com o mesmo. Se a burocracia dá conta das pequenas dores, o que fazer com a somatória das mesmas?

“Quanto Vale?” está disponível na Netflix.

nota do crítico

Compartilhe:
icone de linkCopiar link