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Imagem: Divulgação

Em “Reação em Cadeia”, Márcio Garcia busca trazer lógica dos filmes de ação dos EUA para o Brasil atual

Filme sobre esquema de corrupção serve de retorno às origens para o apresentador na direção, após anos se aventurando por dramas

por Pedro Strazza

Guilherme é um auditor de uma grande firma com uma vida em crise: seu casamento naufraga, sua presença com a filha beira à ausência e ele dedica horas demais ao trabalho. Certo dia, porém, ele consegue uma promoção no trabalho após resolver um caso complexo, e tudo parece indicar que sua rotina irá melhorar – até que ele descobre que foi incluído em um esquema de corrupção.

Essa é a premissa de “Reação em Cadeia”, filme que chegou essa semana aos cinemas brasileiros e marca o retorno de Márcio Garcia ao gênero da ação. Embora o apresentador tenha se firmado na direção a partir de dramas de escala pequena como “Angie” e “Amor por Acaso”, seus primeiros passos no comando se deram em cima de uma história de assalto, o curta “Predileção” que hoje soa como uma reunião de nomes maiores e históricos do audiovisual nacional – incluindo Milhem Cortaz, Babu Santana e Ricardo Blat.

O novo projeto, porém, serve tanto como uma retomada quanto uma reentrada de Garcia à produção nacional, dado que é seu primeiro filme produzido inteiramente no país – e o que explica sua demora a sair, dado que era pra ser sua estreia em longas. “Foi graças ao “Predileção” que eu tive acesso ao Bráulio Mantovani, ao Thiago Dottori e à Paris Filmes, então o filme acabou nascendo cedo.” explica o diretor ao B9, comentando depois como o novo trabalho é aos seus olhos uma forma de adequar o gênero a um cenário brasileiro: “O barato do “Reação em Cadeia” é que ele tem tudo aquilo que a gente espera de uma produção de valor de Hollywood, o production value e a imagem dos carros batendo e em perseguição, com um pano de fundo que o público brasileiro se identifique mais”.

São estas questões que nortearam a conversa que Garcia teve com o B9, onde também comentou sua abordagem veloz com seus projetos de direção e suas escolhas na hora de tratar de uma história sobre corrupção sistêmica no Brasil polarizado de hoje – além de como ele tirou uma mensagem otimista da premissa sóbria. Você pode ler a entrevista na íntegra a seguir.

Márcia Garcia (ao fundo) orienta o elenco no set

Este é seu terceiro longa na direção e o primeiro de ação, um tipo de produção bastante diferente do que você tocou em “Amor Por Acaso” e “Angie”. O que o levou ao gênero?

Na verdade meu primeiro filme como diretor foi um curta-metragem chamado “Predileção”, que filmei em 2010 e entrou na seleção de mais de 20 festivais nos EUA, era de ação. Foi ele que serviu de cartão de visita para eu fazer dois filmes no exterior. Mas apesar de eu ter entrado em uma agência boa nos Estados Unidos e ter começado pelo gênero, eu acabei fazendo em seguida uma comédia romântica e um drama. Mas foi graças ao “Predileção” que eu tive acesso ao Bráulio Mantovani, ao Thiago Dottori e à Paris Filmes, então o filme [“Reação em Cadeia”] acabou nascendo cedo. Mas como tudo no Brasil demora, da aprovação à Ancine, com dois anos de desenvolvimento do roteiro, eu fiz esses dois projetos nesse ínterim. Eu já tava com o projeto ainda sem título e fui convidado pra fazer esses longas no exterior, mas a minha pegada, o que me levou ao cinema foi a ação. Então o “Reação em Cadeia” foi fruto do “Predileção”, mas filmado em outro contexto, desse cenário da corrupção sistêmica que assola nosso país desde que me entendo por gente, sem tomar partido algum. A gente coloca como protagonista uma pessoa simples, comum e honesta que cai de paraquedas em um sistema corrupto e vê como ele lida com aquilo.

Como se chegou a esse cenário do filme? Você diz que o “Predileção” foi uma referência pro projeto, mas ele era um filme de assalto mais essencial, focado no roubo em si.

A gente queria fazer um filme de ação desde o começo, o que atraiu os roteiristas e produtores foi o “Predileção”, mas apesar do curta ser do gênero ele tinha aquele background americano. A direção de arte, o figurino, os carros, a concepção da fotografia, tudo foi feito em cima do típico filme norte-americano. Então o que deu certo do “Predileção” a gente trouxe pro “Reação em Cadeia”, como a decupagem que obviamente eu refiz, a gente usou animatic, storyboard e sabia muito bem o que ia ser filmado. Tudo foi pensado entre quatro paredes, em um centro de computação gráfica que eu tenho na minha produtora, para que a gente chegasse muito seguro de que lente usar, que takes a gente ia fazer, mas com o intuito de fazer o público brasileiro se identificar muito mais com ele que o filme americano. O filme americano tem tudo aquilo que a gente quer ver, mas tem elementos que não nos diz respeito. Então o barato do “Reação em Cadeia” é que ele tem tudo aquilo que a gente espera de uma produção de valor de Hollywood, o production value e a imagem dos carros batendo e em perseguição, com um pano de fundo que o público brasileiro se identifique mais. Apesar dele não tomar partido, ele desperta a ideia de que a corrupção está no sistema, e isso é um mecanismo que já existe. Você pode estar mais dentro ou mais fora, mas em algum momento você é sugado para ele.

O fim do filme carrega uma mensagem familiar, o que vem como uma surpresa depois de toda uma história focada na corrupção e nos golpes que se sucedem. Sem entrar muito em spoilers, como se chegou a esse desfecho?

A gente construiu todo o roteiro em cima da conotação da família, isto é, o Guilherme não é apenas um cidadão comum, ele é um pai de família comum do Brasil, um cara de classe média que busca a ascensão, ser promovido, e trabalha muito para manter um padrão de vida, bem mais do que ele gostaria. E no momento de ascensão, que ele achou que era absolutamente pelo talento dele, ele é puxado para um esquema de corrupção. Ou seja, é uma forma de você se identificar porque escapa de alguns clichês de cinema americano que eu não gosto, por exemplo, aqueles filmes que tem um protagonista igual ao Guilherme, só que quando o bicho pega ele sai matando e resolve na força. A ideia era não tirar o nosso protagonista da zona familiar, que é o berço dele, e fazer tudo que ele faz sem nunca pegar em uma arma e agredir alguém, usando o cérebro e ainda assim se mantendo próximo à família, o que pra ele já era difícil porque ele já estava em um momento de ruptura no casamento. Mas dentro disso, a gente também queria lembrar que tudo pode ter volta, e sem entrar em spoiler dá pra dizer que ele foi e voltou, ele degustou o que não é estar casado e voltou, de não ser honesto e voltar pra honestidade. Claro que há coisas que não tem volta, vide a própria mecânica da história, mas no caso do Guilherme ele não se lambuzou financeiramente e voltou para salvar a filha.

Este é seu primeiro filme que você usa da pré-visualização nas filmagens. Isso mudou de alguma maneira a forma como você e sua equipe produziram o filme?

Como eu passei pelos Estados Unidos e vi a forma como eles trabalham, aprendi muito lá fora e percebi como o previz é muito comum lá fora em filmes de ação, bem como a busca de locações. Esses dois trabalhos são excelentes porque quando você chega para filmar com o ator você já sabe que lente usar, tu ganha muito tempo e isso está ligado ao orçamento. Se eu fosse fazer esse filme no tempo normal… eu filmei meu primeiro longa em 20 dias e o segundo em 14. É quase uma insanidade, mas é porque a gente fez o dever de casa e trabalhou antes de contratar todo mundo, com uma equipe barata. A gente visitou o set antes, então na hora de gravar o fotógrafo já sabia que lente ia usar, onde a câmera ia ser colocada, em que lugar iam ficar os equipamentos de luz. O tempo foi incrível, e eu consegui trazer um pouco disso para o “Reação em Cadeia”. Apesar de perseguição, carro capotando e muita coisa de risco madrugada adentro, 80% das diárias foram noturnas, a gente conseguiu cumprir todos os planos, em nenhum dia teve cena pendurada e botou o filme na lata.

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