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Imagem: Divulhação/Hulu

“Nove Desconhecidos” faz bem em se apegar à psicodelia enquanto retrata a era coaching

Minissérie é um retrato caricato da era coaching de terapias holísticas, e que foge de conexões com a espiritualidade para abraçar os psicotrópicos

por Soraia Alves

AVISO: Este texto contém SPOILERS da minissérie, inclusive de seu último episódio.

“Nove Desconhecidos” chegou aos Estados Unidos como uma adaptação do livro homônimo escrito por Liane Moriarty, autora já conhecida por outro sucesso literário que também virou série: “Big Little Lies”. Produzida originalmente pelo Hulu, a minissérie bateu um recorde de audiência expressivo no streaming, superando “The Handmaid’s Tale” como a estreia original mais vista da plataforma. O interesse do público vai além da curiosidade em conferir a adaptação do livro, e tem grande sustentação no elenco de nomes como Nicole Kidman e Melissa McCarthy. No Brasil, a série ganhou distribuição pelo Amazon Prime Video, com os oito episódios sendo lançados um por semana, formato que só contribuiu para o desenvolvimento da trama, que funciona como um retrato caricato e psicodélico da era coaching e de terapias holísticas.

Masha e Jessica. Divulgação/Hulu

Como o nome já adianta, o fio condutor da história é acompanhar o progresso de nove pessoas desconhecidas que passarão dez dias convivendo em um centro terapêutico de luxo na Califórnia. Chamado Tranquillum House, o lugar é comandado pela guru Masha Dmitrichenko (Nicole Kidman), uma russa radicada nos EUA que abandonou a vida empresarial após uma experiência de quase morte, assumindo uma espécie de missão para levar cura a pessoas cujas vidas foram impactadas por diferentes problemas e traumas. A libertação oferecida por Masha, no entanto, é cara, excêntrica e disponível para os poucos escolhidos que conseguem entrar no spa – uma combinação que a elite ama. Nesse ponto, o enredo lembra outra série de sucesso em 2021, “The White Lotus”, com o confinamento de pessoas ricas em um lugar paradisíaco expondo estereótipos classistas e quase caricatos. Em “Nove Desconhecidos”, porém, a caricatura concentra-se quase totalmente na figura da coach/guru Masha, desde o visual místico quase Galadriel (“O Senhor dos Anéis”) até os discursos rasos de autoajuda baseados em frases de legendas do Instagram. Masha exala charlatanismo como milhares de perfis de “especialistas” nas redes sociais.

A ruína do centro terapêutico com práticas extremamente questionáveis é uma certeza, e esperamos tal momento enquanto descobrimos mais sobre os traumas que levaram cada uma daquelas nove pessoas à Tranquillum House. Naturalmente alguns arcos se sobressaem, como a história da família Marconi formada por Napoleon (Michael Shannon), Heather (Asher Keddie) e Zoe (Grace Van Patten), que têm lidado com o luto após o suicídio do filho Zach, irmão gêmeo de Zoe. Os Marconis ganham protagonismo à medida que linkamos sua história com a de Masha, que também perdeu uma filha, e entendemos que ela não é exatamente uma picareta querendo passar a perna naquele grupo, mas sim alguém que realmente acredita em meios alternativos para alcançar a cura interior. E é aqui que “Nove Desconhecidos” fica realmente interessante: quando abraça a psicodelia.

Napoleon Marconi e o restante do grupo. Divulgação/Hulu
A libertação oferecida por Masha é cara, excêntrica e disponível para os poucos escolhidos que conseguem entrar no spa – uma combinação que a elite ama

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O uso de drogas psicodélicas de forma controlada no spa é a melhor saída para a série poder se jogar no fantasioso, no inexplicável e no ridículo. E, ao contrário de tantos materiais que fazem isso usando conexões com a espiritualidade, “Nove Desconhecidos” é só uma grande trip alucinógena mesmo. O que é ótimo! Pegando novamente o arco da família Marconi, é muito mais interessante entender as cenas de interação do trio com Zach como uma histeria coletiva (alucinação coletiva), que posteriormente leva ao processo de racionalização da necessidade de seguir em frente, que o clichê “contato com a alma do falecido”. Cada cena distópica ganha um pano limpinho para ser passado com a desculpa “é a droga”. E tudo bem!

A ideia também é boa, porque a própria utilização de psicotrópicos no tratamento psiquiátrico é, novamente, uma tendência. Chamado de “renascimento da ciência psicodélica”, o movimento faz alusão aos estudos científicos das décadas de 1950 e 1960 sobre o uso de psicoativos no tratamento de distúrbios psicológicos, e tem ganhado relevância com publicações recentes sobre os benefícios da psilocibina, a substância psicoativa dos cogumelos alucinógenos, para tratar casos de depressão. Alguns pesquisadores, inclusive, apontam que em 2023, a Food and Drug Administration, agência que licencia remédios e tratamentos nos Estados Unidos, deve aprovar oficialmente a utilização terapêutica de compostos psicoativos no país.

A psilocibina é uma das substâncias ministradas por Masha no grupo. Mas a coach não é uma cientista ou médica, e mesmo quem tem essa função, Yao (Manny Jacinto), não a exerce quase nunca. Qualquer ética aqui passa longe. O mesmo vale para outros métodos utilizados pelo centro, como a indução a uma experiência de quase morte pelo restante do grupo enquanto os Marconis se drogam com doses mais altas de alucinógeno. É caótico, mas no fim, por sorte, dá certo. E como espectadores, em algum momento passamos de esperar pela ruína de Tranquillum para desejar a volta por cima daqueles nove desconhecidos. Ou sete, já que o casal Ben (Melvin Gregg) e Jessica (Samara Weaving) passam boa parte da série esquecidos e sem fazer falta.

Divulgação/Hulu
A utilização de psicotrópicos no tratamento psiquiátrico é, novamente, uma tendência, chamado de “renascimento da ciência psicodélica”

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Algumas histórias são mal desenvolvidas, de fato, especialmente as de Yao e Delilah (Tiffany Boone). Ainda assim, é fácil se apegar aos personagens. Shippando ou não Frances (Melissa McCarthy) e Tony (Bobby Cannavale), você só torce para que cada um deles se livre dos fantasmas do passado e consiga seguir a vida de um jeito mais leve. Torce para que Lars (Luke Evans) consiga voltar com o ex, pronto para formar uma família. E torce para Carmel (Regina Hall) se libertar de todos os traumas causados por um relacionamento abusivo. A história de Carmel, no entanto, sofre com as invenções da série que não têm base no livro. É verdade que muito do roteiro de David E. Kelly, que trabalhou com Kidman na já mencionada “Big Little Lies” e em “The Undoing”, não se baseia no livro. Mas a história de Carmel se torna praticamente o único ponto de “piração sem drogas” por conta disso. Na obra original, Masha nunca foi um caso extraconjugal do ex-marido de Carmel, elas nunca se viram antes do centro terapêutico e Carmel também nunca ameaçou a guru enquanto estava no spa. E seria melhor a minissérie ter seguido assim.

O final feliz para todos em “Nove Desconhecidos” não é um problema. Pelo contrário, é uma boa subversão da tragédia esperada. Afinal, “dar errado” é algo que aqueles personagens estão acostumados. E é também ao que nós estamos acostumados, tanto que até subirem os créditos, o espectador pode ficar questionando – isso é real ou é o final que Frances está dando para cada personagem em seu livro? Chega de bad trip, é só um final feliz. Terminar tudo bem também é uma grande alusão do porquê a era coaching ainda não passou: sempre tem quem diga que testou e deu certo.

“Nove Desconhecidos” está disponível no Amazon Prime Video.

nota do crítico

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