Imagem: Divulgação

Corpo estranho do gênero, “Venom: Tempo de Carnificina” reinventa ação como romance em crise

Continuação funciona quase como anomalia hollywoodiana ao aproveitar relação tumultuada de Eddie Brock e Venom para fabricar narrativa sentimental

por Pedro Strazza

É muito possível que existam e vão existir filmes mais firmes nesse propósito, mas dentro do atual cenário é difícil imaginar a essa altura que qualquer outra produção supere “Venom: Tempo de Carnificina” no quesito de corpo estranho dentro do mainstream hollywoodiano maior da vez. 

Difícil porque, claro, o caminho a seguir é de afunilamento da produção (e nesse sentido a tão alardeada cena pós-créditos do longa é na prática um agouro), mas também se considerar o próprio caráter deslocado da continuação perante o mundo que habita. Para bem e para mal, a nova incursão solo do vilão alienígena pelas telonas se porta como um produto saído dos anos 90, desde suas intuições de narrativa para os personagens e a ação até a relação muito diferente que nutre com os quadrinhos de super-herói quando comparado à atual produção fordiana da indústria no gênero – e ao qual busca de alguma forma um ponto de contato.

Até aí, nada em “Tempo de Carnificina” é tão diferente assim do antecessor de 2018, também uma criação alienada que mais soava perdida em seus propósitos a qualquer outra coisa. Mas do primeiro ao segundo “Venom” há uma mudança sutil de direcionamento, e embora permaneça a sensação de inadequação, o que move o filme de Andy Serkis já emite uma maior segurança nos passos e no próprio comportamento. E se os mais maldosos diriam que o risco menor de retorno financeiro é um fator (afinal, o primeiro longa surpreendeu ao fazer uma bilheteria de quase um bilhão de dólares), há muito de uma mudança de foco – ou melhor, um exercício de foco – que favoreça a sequência sobre o predecessor.

Andy Serkis (à frente) orienta Tom Hardy no set

O mérito é menos da direção de Serkis, porém, que do roteiro de Kelly Marcel, cujo trabalho de reorganizar as ideias desenvolvidas junto de Tom Hardy para um filme de 90 minutos é sentido de cabo a rabo na produção. Além da duração comprimida tirar a continuação do lugar-comum da Hollywood anos 20 pelo inchaço em favor de “escala”, a operação da roteirista é de reenquadrar o eixo maior da narrativa em torno da relação entre Eddie Brock (Hardy) e Venom, cuja simbiose dessa vez escapa da tentativa pouco convincente pelo horror para assumir a dinâmica de um relacionamento em si. A premissa em torno disso não poderia ser mais simples: depois de salvarem o mundo e o humano perder o seu grande amor em definitivo (a Anne de Michelle Williams), os dois protagonistas vivem uma crise de relação – Eddie por não aguentar mais conviver com a criatura, Venom por ver suas tentativas de expressão enquanto herói (ou mesmo indivíduo) serem suprimidas pelo homem.

A manobra em si parece um tanto boba, mas a jogada do filme aqui é espelhar toda essa fratura para o resto da história, que de forma apropriada começa em torno da transferência de um orfanato para um manicômio. Mesmo o vilão e psicopata Cletus Kasady tem acesso a múltiplos arcos românticos na trama, preso entre sua paixão juvenil e de anos pela super-poderosa Frances Barrison (Naomie Harris) e a relação de pura dominação com o simbionte Carnificina; e em meio a tudo isso, a atuação demente de Woody Harrelson ainda precisa encontrar espaço para nutrir um puxa-repuxa com Eddie, cuja relação busca ser um dos mistérios maiores da narrativa.

Insistiu-se muito no conceito da produção ser uma comédia romântica durante a turnê de divulgação, mas se a definição é bem mais apropriada do que a publicidade sugere (até por reforçar o estranhamento da concepção, feita dentro dos padrões contemporâneos onde tudo existe apenas entre o orçamento mínimo e os custos absurdos), ela ao mesmo tempo denota o grau de falência envolvido com o filme. “Tempo de Carnificina” não é apenas uma comédia romântica, mas uma comédia romântica regida pela drasticidade daquilo que se acredita ser a lógica do “típico” filme de super-herói presente.

A jogada do filme é espelhar toda a fratura da relação para o resto da história

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Por incrível que pareça, é a partir dessa constatação que a produção ganha corpo – não porque exista caminho viável para bancar essa aposta, mas por forçar a narrativa maior a assumir compromissos diferentes do mecânico. Enquanto romance de múltiplas partes (de Venom com Eddie, de Eddie com Cletus, de Cletus com Frances), a continuação também passa a operar na base do sentimental e da pura atração dos corpos, noções muito mais básicas e ainda assim menos complexas que todo o édipo familiar reproduzido em toda e qualquer filme do gênero atualmente. Prova disso talvez seja a relação de antagonismo de Venom e Carnificina, em tese a dinâmica maior de pai e filho da produção, mas que nunca encontra pé para se firmar e acaba se resolvendo dentro do próprio confronto de suas contrapartes humanas.

O mais fascinante, entretanto, é que a direção de Serkis, o roteiro de Marcel e as atuações de Hardy e do resto do elenco percebem este redirecionamento, mesmo quando de maneira involuntária. Fazia tempo desde a última vez que um filme de ação era tão comandado pelo emocional da coisa: seja nas brigas e ressacas amorosas de Eddie e Venom (a tão alardeada cena da rave é ótima, mas nada bate o simbólico do simbionte chegando semimorto à loja da senhora Chen, destroçado com um coração partido) ou no conflito interno do vilão entre sua paixão e a criatura que lhe dá poder dentro de uma relação tóxica (esperto é o ciúme doentio de Carnificina por Frances se materializar no grito da última), a continuação se compromete a se deixar levar pelo absurdo multiplicado da premissa, um espetáculo doentio mas adequado a jovens com menos de 18 anos. Só isso explica a cena de sedução de Michelle Williams com Venom, pelo menos.

O clímax do filme é uma celebração de toda essa abordagem, e nesse ponto ajuda muito que Serkis tenha um mínimo de tato para dirigir as cenas de ação tão dependentes da computação gráfica. Não que o segundo “Venom” seja ousado na forma, mas seguir o beabá sem se perder no digital faz bem para a produção dar conta de tanta conversão para um mesmo ponto – vide se encerrar numa igreja com um casamento interrompido com duas criaturas poderosas trocando socos, com a grande reviravolta ser um vilão se “declarar” pro mocinho confessando só querer sua amizade esse tempo todo.

A continuação se compromete a se deixar levar pelo absurdo da premissa, um espetáculo doentio mas adequado a jovens com menos de 18 anos

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Se toda essa proposta não soa inadequada ao contexto presente, é porque falta também um último componente à equação do filme: a presença do corpo. É um elemento a princípio inadmissível dentro de uma produção tão guiada por efeitos digitais (digo, os simbiontes não existem presencialmente com os atores), mas o qual gradativamente se constrói na narrativa pelo desequilibrado e tátil universo de relações, um que permite resoluções falíveis mesmo em dinâmicas maniqueístas. Por mais irrecuperável que seja enquanto obra, “Tempo de Carnificina” triunfa quando impõe ao estranho triângulo amoroso dos protagonistas com Anne uma resolução, ao permitir que ela e Eddie tomem caminhos distintos e o último encontre uma superação pelas vias daquilo que considera uma maldição. Não há intermediários, tragédias maiores ou sequer uma narrativa de superação, mas um caminho de aceitação simples, direto e humano que serve ao filme como seu centro maior.

Quando Eddie e Venom descobrem que podem vencer o vilão porque seu relacionamento é simbiótico – e portanto único, depois do alienígena trocar tanto de corpo – é a esse ponto que o filme responde. Não há artifício, apenas uma estranha conclusão entre dois amantes.

“Venom: Tempo de Carnificina” está em exibição nos cinemas.

A pandemia ainda não acabou. Embora a vacinação avance no país, variantes do coronavírus continuam a manter os riscos de contaminação altos no Brasil. Se for ao cinema, siga os protocolos e ouça as autoridades de saúde sobre o melhor curso de ação após completar o esquema vacinal.

nota do crítico

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