"Eternos" acerta na construção de mundo, mas para por aí

“Eternos” acerta na construção de mundo, mas para por aí

O novo filme do MCU é mais um sucesso como produto, mas derrapa como cinema

por Matheus Fiore

A Marvel tem buscado diversificar os cineastas por trás de seus projetos. Desde as críticas pela demora para finalmente apresentar um filme protagonizado por uma mulher, problema que só foi resolvido após 11 anos de MCU com “Capitã Marvel”, de 2019, o estúdio tem corrido atrás do prejuízo para aumentar a diversidade em suas produções. Coube, então, a Chloé Zhao, diretora chinesa vencedora do Oscar por “Nomadland”, capitanear o primeiro (!) filme da franquia megalomaníaca dirigido por uma mulher.

Assim foi concebido “Os Eternos”, filme que não só é dirigido por uma diretora, mas por uma cineasta que, goste ou não, tem uma assinatura. Seus filmes são calmos e “contemplativos”, bem diferentes da mistura de humor e ação pasteurizada que ajudou a tornar a franquia Marvel a mais lucrativa da história do cinema. A tarefa veio junto ao roteiro que leva aos cinemas personagens desconhecidos do grande público: o filme apresenta um grupo de entidades que protegem a Terra dos deviantes, raça que está em nosso planeta para atacar a humanidade. A história de “Eternos” começa justamente quando, pela primeira vez, um deviante consegue matar um dos celestiais protagonistas, fazendo com que o restante do grupo se reúna para investigar o caso e evitar uma possível catástrofe.

Divulgação/Marvel Studios

Posto o contexto de lado, vamos ao filme: qual a proposta de Zhao para “Os Eternos”? A cineasta precisa, antes de tudo, humanizar figuras bem distantes do restante dos personagens da Marvel. Não há um menino do Queens (Peter Parker) ou um pai ausente de São Francisco (Scott Lang), mas seres divinos com milênios de vida e que veem o mundo por uma perspectiva completamente diferente dos heróis de outras histórias. Se a maior parte dos filmes de herói reafirmam seu mito a partir do cidadão comum, “Os Eternos” tenta humanizar os heróis que já nascem mitificados, que são deuses por essência. 

A humanização, em alguma medida, funciona. O grande acerto é construir uma narrativa fundamentada na ideia de que os deuses se tornaram humanos pelo tempo que estão na Terra. Eles viram as mais variadas civilizações indo e vindo, as incontáveis gerações sendo atravessadas, e absorveram algo daquilo. Zhao, afinal, sabe extrair humanidade e criar carisma em seus personagens, algo que é o ponto forte de seu “Nomadland”. Mas, para além disso, “Eternos” parece não ter muito o que oferecer. 

O problema reside na estética construída a partir disso. Se, por um lado, é interessantíssimo ver como Zhao mantém sua costumeira construção de imagens contemplativas e perenes para estabelecer um tom mitológico e fantástico para as divindades, por outro, não há muito para além dessa construção. Todo o desenvolvimento dramático e até as cenas de ação – por mais que seja um filme diferente dos demais da Marvel, “Eternos” depende bastante da ação em muitos momentos – não vinga. O tom mítico nunca é quebrado e causa certo distanciamento para os personagens.

Divulgação/Marvel Studios
O grande acerto é construir uma narrativa fundamentada na ideia de que os deuses se tornaram humanos pelo tempo que estão na Terra

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Parece faltar alma. Falta alguma coisa além de imagens contemplativas de praias com personagens flutuando na contraluz. Falta algo além de diálogos e porradaria em cavernas ou florestas mal iluminadas – um “truquezinho” para mascarar a falta de inventividade para as sequências de ação. Se “Eternos” estabelece seu mundo e personagens com alguma competência, o que o filme faz com esse mundo a partir disso é um grande nada. Um vazio de desenvolvimento dramático.

Ao fim, Chloé Zhao não entrega um grande filme, mas entrega o que a Marvel costumeiramente tem para oferecer: um grande trailer para o próximo blockbuster. Como se o filme fosse concebido com a visão de sua diretora, mas, como já é comum na Marvel, em certo ponto fosse sequestrado e finalizado já no piloto automático; incapaz de pôr em discussão as crises existenciais de seus personagens divinos. Seria realmente admirável se a Marvel estivesse tentando trazer novos olhares para seus filmes, mas “Eternos” deixa nítido como o estúdio e seus produtores não têm muitos objetivos para filmes como esse para além da introdução de novos personagens e expansão do universo.

Divulgação/Marvel Studios
Falta alguma coisa além de imagens contemplativas de praias com personagens flutuando na contraluz

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Não seria justo culpar a diretora. Zhao é apenas mais uma que integra a grande fábrica de filmes com sabor Elma Chips que o MCU tem produzido há mais de uma década. Com isso, “Eternos” certamente é mais um acerto mercadológico da parceria Disney/Marvel, mas como cinema, parece nunca desenvolver algo além de sua criação de mundo. A crise de existência de seus personagens está instaurada, mas para além disso, é como se não houvesse filme.

Se tornou comum no universo Marvel a concepção de obras que, ao longo do caminho, abandonam suas próprias ideias para se tornarem um trailer do próximo blockbuster. Infelizmente, “Eternos” é mais uma vítima da linha de produção.

“Os Eternos” está em exibição nos cinemas.

A pandemia ainda não acabou. Embora a vacinação avance no país, variantes do coronavírus continuam a manter os riscos de contaminação altos no Brasil. Se for ao cinema, siga os protocolos e ouça as autoridades de saúde sobre o melhor curso de ação após completar o esquema vacinal.

nota do crítico

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