"A Tragédia de Macbeth" adapta Shakespeare no limite do artificialismo
Imagem: Divulgação

“A Tragédia de Macbeth” adapta Shakespeare no limite do artificialismo

Filme de Joel Coen carrega ecos de Orson Welles para traduzir espiral de loucura através da atuação de Denzel Washington

por Pedro Strazza

O que pode ser tirado de uma adaptação de Shakespeare a essa altura do campeonato? A pergunta é imbecil por natureza, ainda mais dado a óbvia permanência e contínua influência do autor na produção atual, mas tem um fundo de verdade no tocante a como se lida com suas obras no cinema. Que o dramaturgo inglês se tornou um texto nobre é evidente, mas este trato também tornou suas peças intocáveis em questão de abordagem, especialmente quando distantes da manipulação: se no “Hamlet” de Laurence Olivier as falas eram idênticas ao original por uma questão de capricho e pertencimento do autor com o teatro inglês mais tradicional, nos dias de hoje não apenas é um ato de heresia sequer considerar uma interferência como essa adesão é automática – encena-se Shakespeare por aspirar à sua qualidade, ao clássico acima de tudo.

Se isso representa ou não uma busca por pureza de espírito na arte há divergências, mas o fascinante a se depreender nesse procedimento é o como os realizadores de agora fazem esse mergulho. Sempre haverá quem argumente que o cinema deriva sobretudo do teatro e, por mais que a afirmação seja falsa, ela ganha corpo e forma nessas “traduções” literais para a telona. Com o texto intocado ou minimamente adaptado para caber às ambições propostas, sobra a esses filmes um interesse pela atuação e encenação quase bruto, atento a uma instrumentalização de performance que só pode vir dos palcos.

A partir daí as noções de “fidelidade ao material” são moduladas de maneiras diferentes, mas há a questão permeante da nobreza de intenções, e o que torna tudo interessante nessas adaptações de agora é como essa vocação revela o desejo pelo passado embutido. Até porque de novo, a prática não é nova por intenção.

Chegamos então a “A Tragédia de Macbeth”, e no caso do filme de Joel Coen o jogo é literalmente feito às claras. Pela primeira vez se aventurando sozinho como diretor e roteirista (mesmo nos anos em que mantinha crédito solitário o trabalho era feito sempre com o irmão Ethan), o cineasta lida com a peça fundamental de Shakespeare sobre poder e ganância da perspectiva mais performática possível, da fotografia em preto e branco a todos os espaços abstratos em que se desenrola a trama de ascensão e queda do Macbeth do título. Se isso o afasta da crueza de outras tentativas recentes com o material (vem à mente o “Macbeth” que alçou à fama Justin Kurzel), é também uma proposta que abraça com força o ensaio clássico, ou pelo menos aquilo que é visto agora como clássico no cinema. O elenco e equipe de primeira linha e o financiamento e distribuição da Apple chancelam: estamos diante de uma produção de prestígio, muito consciente de sua posição e alcance, da iluminação às palavras verbalizadas por Denzel Washington e Frances McDormand como os Macbeth.

Joel Coen (ao centro) conversa com Kathryn Hunter (à esquerda) e o diretor de fotografia Bruno Delbonnel (à direita) no set

Posto isso, impressiona a princípio a determinação de Coen em levar a narrativa ao limite do artificial dentro dessas condições, até porque seria muito mais fácil a partir daí se deixar levar pela encenação tradicional e “teatral”, num sentido físico. Muito se comparou a F.W. Murnau e Carl Theodor Dreyer nas primeiras reações da crítica, mas ainda que possa haver alguma ligação a esses diretores, o aparato aqui é wellesiano por essência, com a produção apenas se limitando a mexer o mínimo nos diálogos. Enquanto outras traduções de Shakespeare se encarregaram de fazer jus ao termo, Coen se permite a uma montagem fracionada, nunca deixando de se interessar pelos atores por completo e ao mesmo tempo se permitindo reduzir o quanto é possível as intrigas palacianas que habitam o breve reinado do protagonista. Como Orson Welles, o longa aqui é quase todo dedicado à espiral de loucura de Macbeth e em como traduzir isso visualmente ao espectador.

Daí pode se entender a aproximação expressionista da produção, mas o trato também está longe do pesadelo onírico completo porque há ainda um componente muito físico que impera em todas as ações da adaptação. Dado que ele será visto pela maior parte do público no streaming e perante a popularização de TVs com o aparato técnico, está aí um filme que de fato existe para atender à resolução 4K: seja nos planos próximos dos atores ou nos momentos em que se destaca as composições de luz e sombra dos cenários, “A Tragédia de Macbeth” não hesita em abstrair a realidade para se concentrar em texturas que destacam o todo. Sobretudo com os atores, esse registro é praticamente voltado à exaltação da performance, como se a porosidade da pele contribuísse à efusividade de seus desempenhos como personagens tão sagrados.

Artificialismo é o nome do jogo aqui e a fotografia digital de Bruno Delbonnel não faz mentir, livre de quaisquer artefatos para contribuir à delicada estrutura visual, e dentro disso o longa carrega sim algumas forças na proposta. Sobretudo pela presença de Washington no papel principal, com o ator aproveitando o máximo de seus excessos para dentro de um papel que existe na internalização estourada, o que torna a decadência de Macbeth numa deterioração emocional profunda do início. Coen entende essa força e determina o filme inteiro em torno desse processo, cercando o artista de suportes muito sólidos – em especial Kathryn Hunter, entregue a uma performance física como as três bruxas e o velho eremita – e ecos narrativos que fazem girar a roda do ensandecimento. Um momento particular que salta aos olhos é o protagonizado por Stephen Root, quando se liga as batidas do sangue derramado do rei Duncan (Brendan Gleeson) e dos passos de Macbeth para as batidas da porta em sua função; esses prolongamentos da ação, por rimas visuais e sonoras, efetivam o mergulho buscado pela direção.

“A Tragédia de Macbeth” não hesita em abstrair a realidade para se concentrar em texturas que destacam o todo

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Se tudo que cerca Washington fascina, porém, o filme tem uma dificuldade evidente de manter o centro na performance do ator e sofre muito em todo momento que o abandona. Talvez porque a trama de “Macbeth” inevitavelmente precise deslocar o eixo da narrativa às tramoias palacianas para aumentar a paranoia do protagonista, mas se fosse o caso seria um problema também de outras adaptações como o “Trono Manchado de Sangue” de Kurosawa. Tudo parece desandar fora desse passo: itens como as maquinações do filho de Duncan (Harry Melling) e as perdas familiares de Macduff (Corey Hawkins) se perdem numa entrega burocrática por não haver espaço na narrativa maior e só existirem aqui para fazer andar a trama, algo que dentro do registro pictórico soa como uma manobra contraproducente. 

Isso atinge até mesmo a Lady Macbeth de McDormand, aí sim perdida nas elipses de tempo tomadas pelo longa e reduzida a um mero aparelho de deturpação inicial. Sua morte é despejada para fora de cena e seu enlouquecimento reduzido a uma cena isolada no jardim, não à toa, e a atriz parece capada do ato de embarcar na personagem para além da influência no início sobre os atos do marido. Seu deslocamento é sentido em grande parte do filme.

Tudo isso deriva da narrativa fabricada, porém, porque o artificialismo proposto pelo diretor não tem um fim. Coen aspira a Welles mais por intenção que interesse, optando deliberadamente por joguetes apenas para facilitar a reconstrução da peça no filme dentro das próprias condições – e nessa hora pode entrar a pandemia como fator, pois a filmagem isolada dos atores não carrega grande intenção além da estética e praticidade. A fotografia digital nesse sentido contribui para o simulacro crescente: as belas imagens tecidas por “A Tragédia de Macbeth” são nada além disso, construções geométricas perfeitas que enchem os olhos e esvaziam a produção e o texto. Conforme o final se aproxima, Coen não tem mais nada à disposição além de retomar a tragédia do título e desovar tudo no digital, com os corvos ocupando a tela por mera conveniência da rima – começa-se na tela em branco, termina-se no preto dos créditos.

O filme tem uma dificuldade evidente de manter o centro exclusivamente na performance do ator

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Enquanto esse curto-circuito ironicamente aproxima o “Macbeth” de Coen do de Kurzel (outra versão da peça para o cinema que chegava ao fim esvaziada de propósito), a metodologia assumida pelo filme para chegar a isso também tem a ver com o estado atual do cenário mais prestigiado de Hollywood. No editorial deste mês da Cahiers du Cinéma, Marcos Uzal reúne “A Tragédia de Macbeth” com o “Amor, Sublime Amor” de Spielberg e “O Beco do Pesadelo” de Guillermo del Toro para descrever os “enésimos sinais de um esgotamento geral” da indústria norte-americana nos círculos maiores, presos a um desejo de atualizar mais uma vez imagens pré-existentes e satisfeitos com o ato de rememoração inerente. No caso específico de Coen, essa afirmação tem grande fundo de verdade, ainda mais porque corrobora essa filiação ao passado sem segundas intenções.

Questionar é um verbo muito forte aqui dado as intenções, de fato, mas mesmo quando assume para si o exercício de emular suas influências “A Tragédia de Macbeth” não consegue circunscrever a própria opacidade, refletindo tudo para esconder o interior oco da estrutura. É artificial por fuga, por ensaio ou por ser refém, afinal? É difícil distinguir.

“The Tragedy of Macbeth” está disponível no Apple TV+.

nota do crítico

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