"Batman" reenquadra ideal romântico do herói com nova tragédia
Imagem: Jonathan Olley/DC Comics

“Batman” reenquadra ideal romântico do herói com nova tragédia

Com pé no noir, versão do vigilante de Matt Reeves desfaz parte da construção inocente do personagem em filme movido pelo drama familiar

por Pedro Strazza

Não é dos melhores sinais que o noir esteja passando por um momento no mainstream hollywoodiano, sobretudo pela conotação óbvia do gênero com um mal estar dos arredores – são tempos de pandemia e ameaça explícita de guerra mundial, afinal, então faz sentido essa erupção. Mas enquanto a nova ascensão dessas histórias chega para encapsular o pessimismo vigente deste início dos anos 20, vale também o exercício de percepção sobre como o cenário influi em histórias mais ou menos sedimentadas no imaginário popular, sobretudo em anos tão inscritos na auto-análise de rituais de retorno ao passado.

Considerado isso, não só é natural como é muito bem vindo que o “Batman” que chega aos cinemas essa semana seja justo aquela que mergulha fundo nesse aspecto da criação do personagem, um herói nascido no pulp e dentro de uma revista batizada literalmente de “quadrinhos de detetive”. Com o esgotamento crescente dos filmes de super-herói no circuito maior da indústria, o homem-morcego soa simultaneamente como o grande prejudicado e a esperança maior de Hollywood para renovar esse ciclo, até por ser dono da maior trajetória histórica de adaptações de sucesso. Querendo ou não, Robert Pattinson é o sétimo ou oitavo ator a interpretar o personagem nas telonas e o quarto na última década a “assumir o manto”, então é natural que se assuma esta produção já partindo do princípio de que se alimenta um ciclo sem fim, consciente da inexistência de uma tradução final do material.

Responsável por essa nova versão, Matt Reeves não apenas compreende essa dinâmica como tem fins ambiciosos para ela, e a retomada “raiz” do filme deixa claro essa inclinação aos olhos do público. Para além da proposta de registrar o herói em seus primórdios, mas já estabelecido no combate ao crime de Gotham City, o “Batman” de 2022 também é ligeiro no ato de se introduzir ao público por um tom muito específico em seus primeiros 15 minutos. Ainda que se encene a clássica situação de vigilantismo do protagonista pela prevenção de um crime (e esse viés exista na narração), a abertura não está interessada na construção da imagem do herói como figura aterrorizante aos olhos de seus inimigos. O olhar repousa nas sutis linhas de poder tecidas entre o vigilante e os bandidos, sejam estes os vilões, os grandes atores da rede criminal ou os pequenos meliantes, e mais precisamente em como isso se organiza aos olhos de um jovem e revoltado Bruce Wayne.

Matt Reeves (ao centro) orienta o elenco no set (Crédito: Jonathan Olley/DC Comics)

Essa perspectiva fascina porque cria uma dimensão própria em torno do personagem, longe de outras versões recentes mesmo dotada de algumas semelhanças – apesar do clima de sobriedade e artificialismo, por exemplo, Reeves sequer se aproxima do racionalismo da versão de Christopher Nolan ou das construções mitológicas de Zack Snyder. Mal se avista a contraparte humana do herói por uma questão de obsessão, com o patrulhamento servindo ao Wayne de Pattinson como espécie de escapatória pelas vias do justiçamento com as próprias mãos sobre o velho trauma que já se tornou redundantes em suas histórias, e o roteiro do diretor e de Peter Craig se encarrega de trabalhar esta noção pela via clássica do gênero. É verdade que o Batman é um herói atormentado, mas aqui pela primeira vez se enxerga isso menos como raiz dramática que uma noção básica de perfilamento, com o personagem mais próximo do que nunca dos detetives corrompidos e obcecados do noir tradicional.

A premissa acompanha isso à altura, vale acrescentar, construindo o que é essencialmente uma história típica da literatura hardboiled. O vilão maior do filme em tese é o Charada de Paul Dano, mas o real interesse do “Batman” de Reeves está no jogo de intrigas que se instaura na investigação das famílias maiores de Gotham, a partir dos assassinatos perpetrados pelo primeiro. É uma dinâmica quase macarrônica de drama, com inúmeras relações trazidas à tona no curso das quase três horas de duração, e o longa não hesita em se deixar navegar por essa trama até onde é possível, da relação do protagonista com Selina Kyle (Zoë Kravitz) à dedicação maior aos meandros da corrupção sistêmica da cidade, representadas em personagens como o Pinguim (Colin Farrell) e Carmine Falcone (John Torturro).

Isso se dá até em detrimento da própria narrativa, dado o inchaço que acomete todo o clímax apressado e um tanto murchado, o qual parece vir de um filme pretendido pelo estúdio. Em certo nível, essa nova versão se vende mesmo como duas grandes histórias mescladas em uma, o que gera alguns atritos de superfície. Apesar de tratar o Charada como responsável maior por todos os eventos, ela também nunca faz o esperado e enquadra o psicopata da vez como vilão, optando pelo caminho de vítima do sistema que tanto favorece a trama de investigação. Atravessa-se assim o eixo da produção, e nesse ponto se torna um exercício curioso observar a recepção inicial do filme como um grande teste de Rorschach, com uns apontando conotações com thrillers noventistas como “Se7en – Os Sete Crimes Capitais” e outros preferindo aderir ao discurso do diretor e apontar suspenses políticos setentistas do porte de “Todos Os Homens do Presidente” e “Taxi Driver”.

(Crédito: Jonathan Olley/DC Comics)
O real interesse do “Batman” está no jogo de intrigas que se instaura na investigação das famílias maiores de Gotham

compartilhe

Nesse ponto, discordo dessas duas visões majoritárias que se ensaiam em torno da obra, e não apenas porque a primeira renega a posição menos privilegiada do Charada dentro da história e porque vejo na segunda uma referência reduzida ao posto de observação ao invés de estilo – caso de “Coringa”, por exemplo. Em ambas as acepções, nega-se a importância dada à própria figura de Wayne dentro deste tabuleiro, movimento que de longe é o mais arriscado dado pela produção. Se em todos os outros filmes o Batman sempre foi um observador ou no máximo uma vítima maior do sistema de poder de Gotham, aqui efetivamente se integram as partes e cria-se uma noção de que o personagem está inscrito entre os fatores da equação maldita da cidade. Pela primeira vez, ensaia-se uma segunda tragédia ao mocinho: depois de perder os pais, ele agora descobre que os mesmos são responsáveis pela corrupção da cidade.

É uma jogada de grande efeito, regida com a propriedade que lhe é mais ou menos devida. Enquanto se presume ser uma decisão derivada dessa adesão ao noir – e se é pra ficar no campo da referência, gosto de pensar que Reeves e equipe tinham em mente classicões do gênero como “Passos na Noite” – essa reviravolta desmonta parte do ideal romântico que permeia a história do personagem, desde sempre um herói contrário ao status quo e cuja existência é maior à sua origem naquele espaço. O Bruce Wayne (ou melhor, Batman, dado a porcentagem de ocupação das cenas) de Pattinson vive no filme um drama de constatação do próprio pertencimento à sujeira, e a narrativa se encaminha de brincar com isso onde é possível, da rima visual às visitas à boate do Pinguim à sua relação com Selina – pela primeira vez registrada como femme fatale no cinema – e o Falcone de Torturro. A dinâmica de pai e filha torna-se um componente essencial dessa jornada, inclusive, pois efetiva esse drama do herói ao curso da ação, o que leva o filme à reconfiguração final do “Eu sou a vingança” dito tantas vezes.

Não que Reeves também esteja tão determinado assim a desconstruir as noções clássicas do homem-morcego, porém, e a partir desse ponto se sente um pouco as limitações da produção com seus objetivos. Se há um pecado maior neste “Batman”, é o da hesitação na hora de dar cabo dos temas, preferindo quando possível retomar uma posição neutra ao invés de seguir na “desfiguração” efetiva dos caminhos do herói. Se descarrilha a relação do protagonista com os pais para poucos minutos depois se encontrar um alívio no discurso paternal do mordomo Alfred (Andy Serkis), o qual garante que o caso não passou de mero relapso para manter preservado os valores envolvidos. Até mesmo a mensagem final de esperança e o comentário político embutido nos planos do Charada acabam superficiais por sugerir uma saída temática fácil, tão burocrática quanto a maioria das cenas de ação, e nesse ponto o longa não é tão diferente assim da zona de conforto “de arte” que o filme de Todd Phillips propunha há três anos.

(Crédito: Jonathan Olley/DC Comics)
A reviravolta desmonta parte do ideal romântico que permeia a história do personagem, desde sempre um herói contrário ao status quo

compartilhe

Em 1989, quando escreveu sobre o filme no lançamento, Dave Kehr chegou a definir o “Batman” de Tim Burton como um filme “que deveria soar estranho e acaba soando estranhamente familiar”, se referindo sobretudo à construção daquela Gotham – cuja mistura de arquitetura institucional e clima gótico chegava a um resultado similar ao de “Blade Runner” ou “Brazil” – mas também à combinação de “realismo psicológico” e “exagero expressionista” que nunca chegava a colar direito no eixo da narrativa. Preservada a distância de trinta anos, essas descrições acabam por valer ao “Batman” de agora, muito porque se revela nessa constatação a priorização da construção material envolvida no filme, de novo mais disposto a “dar vida” ao personagem e suas histórias que instigá-las de fato.

Dá pra puxar uma boa discussão sobre o que essa reincidência significa para o gênero de super-heróis a partir daí, em especial nesse momento em que fãs e indústria ainda buscam ativamente “reivindicar” espaço para essas produções no meio artístico mesmo depois de atingido uma dominância cultural. Mas se é para ficar no papo de cenário, porém, ao filme de Reeves essa reflexão não deixa de se sobrepor aos pequenos prazeres obtidos com sua versão, até porque mesmo restringida ela ainda é suficiente na contestação de certos rituais contemporâneos. Isso vale para os poucos momentos de comédia (e é justo denotar aqui que há sim uma homenagem específica à série dos anos 60, marcada na homenagem do figurino de Jacqueline Durran pro herói que recria nas sombras as sobrancelhas desenhadas no capuz), mas em especial a questão do sexo e do flerte entre Batman e Mulher-Gato. Estamos muito distantes da narrativa de pulsões de um “Batman: O Retorno”, é verdade, mas essa versão ganha vida quando no registro do puxa e repuxa entre Pattinson e Kravitz, por sua vez muito conscientes das capacidades desse jogo e do potencial erótico de suas figuras.

É nesse sentido também que ganha a proposta noir de Reeves, aliás, até por entender a melancolia inscrita na paixão impossível. E para além do chiaroscuro nos vários momentos de nascer do Sol no telhado do Bat-sinal, o desfecho que acompanha a lenta separação de seus amantes não poderia ser mais poética aos méritos da produção.

“Batman” está em exibição nos cinemas brasileiros e chega ao HBO Max em abril.

A pandemia ainda não acabou. Embora a vacinação avance no país, variantes do coronavírus continuam a manter os riscos de contaminação altos no Brasil. Se for ao cinema, siga os protocolos e ouça as autoridades de saúde sobre o melhor curso de ação após completar o esquema vacinal.

nota do crítico

Compartilhe:
icone de linkCopiar link