VML batiza 2026 como era do “distopismo”: otimismo em meio ao caos
Estudo global entrevistou 15 mil pessoas em 16 países e mostra consumidor que reconhece a complexidade do momento sem se render a ela
A VML lança a 12ª edição do The Future 100, relatório anual que mapeia tendências globais de comportamento e consumo. O principal achado desta vez é um conceito cunhado pelo próprio estudo: “distopismo” (dystoptimism), junção de distopia e otimismo que captura um estado de espírito coletivo que reconhece o caos sem se entregar a ele.
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Por que importa: O relatório é referência no mercado para planejamento estratégico. A pesquisa ouviu 15.639 pessoas em 16 países (incluindo Brasil) entre setembro e novembro de 2025, além de 60 especialistas globais. O que emerge é um retrato de consumidor exausto de negatividade, mas que encontra na própria disrupção um catalisador para mudança.
Emma Chiu e Marie Stafford, diretoras globais da VML Intelligence e coautoras do relatório, explicam que o distopismo destaca uma realidade específica: enquanto sistemas antigos desmoronam, indivíduos e comunidades constroem soluções centradas no ser humano. “Trata-se de projetar um futuro melhor, não apenas desejar o passado”, afirmam.
Stella Pirani, CSO da VML Brasil, traduz o conceito com um ditado: “Para a luz entrar, é preciso que haja rachaduras”. Para ela, as crises e incertezas acumuladas viraram um padrão de influência comportamental global.
Três eixos principais:
1. Busca por iluminação e alegria 86% dos respondentes querem experiências que inspirem admiração ou renovem sua visão de mundo. Viagens, bem-estar, cultura e varejo viram catalisadores de crescimento pessoal. O relatório identifica:
- Nano trips — viagens curtas e de alto impacto como pausas acessíveis
- Treatonomics — pequenas indulgências como estratégia de sobrevivência emocional
- Bem-estar da resiliência — ferramentas emocionais, físicas e espirituais combinadas
2. IA como colaboradora, não ferramenta A inteligência artificial deixa de ser utilitária e assume papel íntimo na vida das pessoas. 49% da Geração Z afirma já ter formado relacionamento significativo com IA. O estudo mapeia:
- Realidades generativas — mundos adaptáveis criados em tempo real por algoritmos
- RelAIcionamentos — companheiros emocionais e “funcionários” automatizados
- Alfabetização da verdade — pressão por IA mais transparente e responsável
3. Conexão humana permanece inegociável Mesmo com realidades digitais e físicas se fundindo, o contato humano segue essencial para decisões importantes. Tendências como “saúde social” e “nova cena rave” mostram crescimento de espaços orientados por comunidade: clubes de bem-estar, festas sem álcool, “third places” de bairro que priorizam pertencimento.
Outras tendências do radar:
- Entropismo — estética do “design sujo”, onde aspereza e decadência ditam o tom visual
- Viagens de resistência — férias que testam limites físicos e mentais (67% da Gen Z quer isso)
- Narrativas artificiais — IA revolucionando não apenas visualização, mas vivência de histórias
- Beleza rítmica — produtos que atuam em harmonia com ciclos naturais do corpo
Naomi Troni, CMO global da VML, resume o desafio: “As marcas com potencial de liderança em 2026 são aquelas capazes de operar com confiança em realidades híbridas. Precisamos projetar para os lados ambicioso e ansioso dos consumidores.”
O relatório do ano passado já apontava paradoxos: 67% da Gen Z querendo escapar para realidades virtuais enquanto 70% dos consumidores globais desejavam “possuir menos coisas”. A edição 2026 aprofunda essa tensão, mostrando que o paradoxo virou modo de vida.
A real: Relatórios de tendências são um gênero próprio. Servem menos para prever o futuro e mais para dar vocabulário ao presente. “Distopismo” é um termo útil? Provavelmente. Captura algo que muita gente sente mas não sabia nomear: a capacidade de seguir em frente mesmo sabendo que as coisas estão difíceis.
O problema com esses estudos é que tendem a transformar comportamentos complexos em bullets de PowerPoint, como a gente aponta anualmente no nosso React de Tendências do Braincast. Por exemplo: “Treatonomics” soa elegante, mas também é só uma forma sofisticada de dizer que pessoas estressadas compram chocolate.
Dito isso, o Future 100 tem mérito real. A pesquisa é robusta (15 mil pessoas, 16 países), as tendências são bem documentadas e as perguntas estratégicas são genuinamente úteis. Para quem trabalha com planejamento, é leitura obrigatória. Para quem quer entender o zeitgeist, é um bom ponto de partida.
O insight mais valioso talvez seja o mais simples: mesmo com toda a tecnologia disponível, pessoas ainda preferem contato humano para decisões que importam. Em 2026, isso não deveria ser tendência. Deveria ser óbvio. Mas aqui estamos.
Download: O relatório completo está disponível em vml.com/pt/insight/the-future-100-2026

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