Caminhar entre o algoritmo e o afeto: um SXSW sem centro e o desafio do nexo deste tempo
Com o evento espalhado pela cidade, a busca deste ano é por um centro simbólico
No grupo de mensagens, alguém compartilha a foto do terreno onde antes ficava o centro de convenções de Austin. No lugar do prédio, o nada. Um terreno vazio à espera do novo. Esse SXSW sem centro físico, para dar sentido, me demanda um plano que ainda não tracei, como organizar essa minha atenção já tão fragmentada peça por peça espalhadas pela cidade e pelos temas que cada “vizinhança” concentra?
O vazio que em outro momento abrigou centenas de apresentações me dá uma metáfora: em um ano parece que tudo foi arrasado para dar lugar a algo novo, que ainda sequer sabemos como deve ser. Não sobrou uma pedra para apoiar qualquer nostalgia e referência. A sensação de um futuro que se constrói com pouco tempo para aprender com o passado.

Sem um eixo central, o evento me desafia a buscar um nexo. No ano passado, escrevi aqui sobre dilemas latentes que pulsam embaixo da movimentação tectônica em que a IA é o representante maior, a luta para estabelecer redes sociais responsáveis e não máquinas do caos, o design inclusivo que começa com quem está de fora, respeito à privacidade e a batalha contra a solidão nas redes.
Para navegar na fragmentação física e de tópicos, criei mentalmente pontos cardeais temáticos, um caminho que busca alternativas ao potencial dessubjetivante que a aceleração algorítmica impõe:
1. A IA Agêntica: do “copiar e colar” ao “pega, mata e come”
A primeira ponta é ganhar profundidade sobre a IA agêntica. Se no ano passado a inteligência artificial ainda era, para mim, um jogo de prompt (copia-e-cola), nestes últimos meses ela ganhou agência e, talvez, tenha engolido agências neste passo. Ela não apenas sugere, hoje, como o carcará, ela “pega, mata e come”. A IA agora executa. O que resta do humano nessa conta? É o que quero entender. Como se ganha nesse jogo?
2. O ego algorítmico e a transferência
A outra ponta é o que chamo de “Ego Algorítmico”. Como estamos projetando autoridade e afetos em modelos de linguagem? Isso redefine o que pensamos sobre vínculo, ou a ausência dele, da escuta e troca que foi precarizada na pandemia e hoje encontra acolhimento nos chatbots. Cercados por assistentes virtuais “empáticos”, a saúde mental se deteriora. Estamos terceirizando nossos desejos para que a IA os adivinhe e realize antes mesmo que possamos senti-los. Qual a relação possível e saudável com os modelos de linguagem?
3. O entrelugar: onde o lucro encontra o afeto
O terceiro vértice é o “entrelugar”. A exaustação das audiências cria um ponto de inflexão: virar a Economia da Atenção para a Economia da Intenção. De um lado, o desejo das marcas de capturar o tempo mental fisiologicamente escasso, do outro, a necessidade humana de proteger sua saúde, sua vida e sua atenção para fora da tela e para um vida onde o silêncio tenha algum espaço. É aqui, na busca por um design de soluções que respeite o “nexo” individual, o equilíbrio para não exaurir as pessoas empanturradas de nada, é neste lugar que dialogo comigo mesmo para imaginar como construir ecossistemas de marketing mais saudáveis e sustentáveis.
Se em 2025 a IA era um tema onipresente, hoje ela se tornou quase onisciente e onipotente em tudo o que faço. Talvez seja esse o pano de fundo deste SXSW, não mais discutir se a inteligência artificial vai mudar o mundo, isso já aconteceu, mas entender como nós mudamos diante dela.
Caminhando por uma cidade que este ano perdeu seu centro físico, percebo que o desafio não é apenas navegar entre painéis espalhados por Austin. É tentar reconstruir um centro simbólico em meio à aceleração do nosso tempo. Entre o algoritmo e o afeto. Entre a execução automática e o desejo humano. Entre a promessa de eficiência infinita e a necessidade de preservar algo que ainda seja nosso.
Nos próximos dias, vou tentar montar esse mosaico peça por peça. Talvez não encontre um centro. Mas quem sabe encontre um nexo.


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