SXSW 2026: Jack Conte está com raiva da IA. E também animado. Ao mesmo tempo. • B9

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SXSW 2026: Jack Conte está com raiva da IA. E também animado. Ao mesmo tempo.

Durante uma hora, o fundador da Patreon traçou 130 anos de história da arte e da tecnologia para chegar ao seu recado às empresas de IA (e emocionou a plateia no processo)

por Carlos Merigo
Capa - SXSW 2026: Jack Conte está com raiva da IA. E também animado. Ao mesmo tempo.
Imagem: Rob Pegoraro / Bluesky

Jack Conte subiu ao palco no SXSW e passou os primeiros vinte minutos falando sobre filmes mudos, o cinematógrafo dos irmãos Lumière e um magician francês chamado Georges Méliès. A plateia, cheia de gente de mídia, tech e criadores, deve ter se perguntado onde isso ia dar.

Deu num manifesto.

Por que importa: Conte é CEO e cofundador da Patreon, a plataforma que já repassou mais de US$ 10 bilhões a criadores desde 2013. Quando ele fala sobre o futuro da criatividade humana diante da IA, não fala como executivo protegendo mercado. Fala como músico e cineasta que construiu uma empresa inteira em torno da tese de que arte tem valor — e que viu essa tese ser desafiada em tempo real.

O argumento histórico: Conte é figurinha carimbada no SXSW, já falou a real muitas vezes. Mas desta vez, sua apresentação foi montada como uma aula de história da tecnologia, mas com uma tese clara: toda vez que surge uma nova mídia, a humanidade passa por uma fase de preguiça coletiva. Chama de “slob”. É o período em que todos tentam usar o novo para reproduzir o velho.

O cinema tentou imitar o teatro. As primeiras gravações tentavam reproduzir como uma banda soava ao vivo. Os primeiros geradores de imagem por IA produzem coisas que parecem feitas à mão. “É onde estamos agora”, disse Conte. “Ainda não descobrimos o que essa nova mídia realmente é.”

Mas a história também mostra o que vem depois do slob. Méliès inventou o corte e criou a linguagem do cinema. Os Beatles usaram o estúdio como instrumento e reinventaram a música. George Martin descreveu o estúdio para eles como “uma nova tela sobre a qual precisavam pensar diferente”. Décadas depois, a proibição de sintetizadores pelos sindicatos de músicos parece absurda, mas o medo era real.

O caso Chaplin: O momento mais poderoso da apresentação veio pelo lado inesperado. Conte falou sobre Charlie Chaplin recusando o cinema falado por 13 anos depois da introdução do Vitaphone. Em 1940, finalmente cedeu. Seu primeiro filme com diálogo sincronizado foi O Grande Ditador, uma sátira de Hitler no auge da Segunda Guerra. No clímax, Chaplin quebra o personagem e fala direto para a câmera com o mundo assistindo.

Conte rodou o trecho. A plateia ficou em silêncio. O ponto não era que Chaplin tinha resistido à tecnologia. Era que, quando ele finalmente decidiu usá-la, usou para dizer algo que só ele poderia dizer — e que mudou a cultura.

A raiva: Depois da história, veio o presente. E aí Conte foi direto.

“Nossa obra está sendo usada sem consentimento, sem crédito, sem compensação. E isso parece dolorosamente familiar.”

Ele não é contra IA. Deixou isso claro várias vezes — “não posso ser, sou uma empresa de tecnologia” — e enumerou exemplos de como o Patreon adotou novas ferramentas ao longo dos anos. O problema é outro: as empresas de IA afirmam fair use para usar o trabalho de criadores individuais, mas fazem acordos bilionários com a Disney, a Condé Nast, a Vox e a Warner Music para os mesmos fins.

“Se é fair use, por que pagam para alguns e não para outros?”

A contradição, disse ele, é indefensável. E a solução é simples: pagar. Não como concessão, mas como reconhecimento de que sociedades que valorizam e incentivam a criatividade são melhores por causa disso.

“Isso está na Constituição americana por uma razão.”

O conflito: O que tornou a apresentação honesta — e diferente de um discurso de palco padrão — foi Conte admitindo o conflito interno. Ele está com raiva. E também está animado.

“Tenho a sensação de estar vivo em 1895, quando o cinema foi inventado. É horrível e fascinante ao mesmo tempo.”

Disse que muitos criadores com quem conversa privadamente sentem o mesmo, mas não dizem publicamente — porque o algoritmo recompensa posições simples, não ambiguidade.

“Você não precisa ter uma opinião singular sobre isso. Tudo bem se sentir em conflito.”

Por que a criatividade humana não vai acabar: Depois do manifesto, veio a defesa. Conte elencou três razões pelas quais aposta na criatividade humana a longo prazo.

  1. A primeira é o risco. Citou Hasan Minhaj dizendo que comédia exige operar fora do intervalo socialmente aceito — e que isso vale para toda arte. Uma IA que diz algo louco não é interessante. O que está ela arriscando? Já assistir Daniel Kwan fazer Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo — aquele negócio das salsichas nos dedos — é outra coisa. Alguém colocou a carreira em jogo para fazer aquilo.
  2. A segunda é a escassez. Arte não é o que é fácil de fazer. É o que é difícil. Quando o truque do pau de selfie invisível se popularizou, parou de interessar. Sempre haverá humanos dispostos a fazer a coisa difícil, segundo Conte.
  3. A terceira é a consciência. Os modelos de linguagem são, fundamentalmente, reconhecimento de padrões sobre dados históricos. Conte argumentou que isso não captura tudo o que torna os humanos criativos: a capacidade de sentir emoções, de ignorar a lógica, de ser estranho de formas que nenhum dado preexistente poderia prever.

“Se você treinar um modelo só com música até 1959, ele não vai inventar os Beatles. Para ter os Beatles, você precisa de John, Paul, George e Ringo.”

Vai ter IA fazendo música de fundo em restaurantes porque é mais barato. Vai ter resumos automatizados de notícias que as pessoas vão consumir em dez segundos. Isso tudo vai existir. Mas também vão existir artistas que dizem quem são, que arriscam, que erram, que persistem. Que criam algo que nunca existiu antes e que se torna o vocabulário do que vem depois.

“Haverá criadores que sentirão algo que nunca foi descrito, que se sentirão compelidos a descobrir exatamente como transmitir esse sentimento. E será bonito, e será difícil, e será recompensador.”

A plateia aplaudiu de pé.

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