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Quando a verdade vira infraestrutura

A discussão sobre desinformação sai do campo da ética individual e entra no único lugar onde pode mudar alguma coisa: a engenharia das plataformas

por Taís Santos / Strategy Director da VML
Capa - Quando a verdade vira infraestrutura
Imagem: Imagem: Agê Barros/IA

Vamos direto ao ponto: a desinformação deixou de ser um ruído ocasional para se tornar uma estrutura. E não sou eu quem está dizendo isso, o World Economic Fórum, por meio do Global Risks Report no ano passado, apontou que a maior ameaça global dos próximos dois anos não é uma guerra, uma pandemia ou o colapso ambiental, é a desinformação.

Há 5 meses, participei de uma mesa pra discutir justamente esse tópico e agora na edição de 2026 do SXSW, essa discussão tem recebido atenção, partindo de uma pergunta direta e inquietante: quem controla o que é percebido como verdade hoje?

A resposta rápida é: não somos nós. Em um mundo mediado por algoritmos, feeds personalizados e inteligência artificial, a verdade deixou de ser só uma disputa de fatos. Ela virou disputa de distribuição.

Os algoritmos são os grandes arquitetos dessa percepção. E eles não foram desenhados para proteger a verdade, mas para proteger a atenção. O que sobe no feed, em geral, não é o que está mais bem apurado, mas o que desperta mais reação.

O resultado é um mundo em que duas pessoas podem viver em realidades informacionais quase incompatíveis. A tal “verdade compartilhada”, aquele mínimo de consenso sobre o que está acontecendo, está se desfazendo pelas bordas.

No painel que assisti em Austin, a jornalista Tara Palmeri colocou o dedo na ferida: o jornalismo, que exige tempo e checagem, está competindo em desvantagem com uma máquina que premia justamente o oposto – rapidez, simplificação e emoção. A economia da atenção não tem compromisso automático com a verdade; ela tem compromisso com o clique.

E se isso já é grave para qualquer pessoa, fica ainda mais tenso quando a conversa chega em adolescentes. Quanto maior o tempo em plataformas algorítmicas, maior a exposição a conteúdos conspiratórios, distorções e narrativas extremadas. Ou seja: não estamos só falando de fake news, estamos falando de formação de repertório.

É aqui que o SXSW faz um deslocamento importante. A discussão sai do campo do “as pessoas compartilham coisas sem checar” e entra no nível da infraestrutura. A questão deixa de ser “quem tem a verdade?” e vira: quem controla os sistemas de distribuição? Quem define o que é relevante? Quem lucra com o conteúdo que desinforma?

Estamos vivendo uma mudança de guarda silenciosa. Antes, a mediação da verdade passava por instituições – imprensa, escola, organismos multilaterais. Hoje, passa por arquitetura tecnológica: plataformas, modelos de negócio, regras de recomendação. E, com a IA generativa na equação, a fronteira entre fato, opinião e fabricação fica ainda mais borrada.

A síntese que fica dos debates é simples e brutal: a verdade virou um problema estrutural, não só moral.

No SXSW 2026, falar de desinformação não é mais falar de “notícia falsa” perdida no WhatsApp da família. É falar de como o nosso ecossistema inteiro foi organizado para priorizar atenção acima de qualquer outra coisa. Se a maior ameaça global hoje é a desinformação, a conversa sobre verdade não pode ficar só na ética individual, ela precisa chegar na engenharia, no produto, na regulação.

A sensação saindo dos painéis é essa: desinformação não é um bug que a tecnologia vai corrigir sozinha. É um efeito colateral do jeito como a gente decidiu construir a internet que temos. Se a verdade virou infraestrutura, proteger o futuro passa, inevitavelmente, por redesenhar essa base.


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