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A era das marcas líquidas

Menos homepage, mais presença contextual em ecossistemas moldados por IA que recomendam, resumem e respondem

por Juliana Wallauer / Co-Fundadora do Mamilos
Capa - A era das marcas líquidas
Imagem: Imagem: Agê Barros/IA

O que acontece quando a experiência digital deixa de morar num lugar fixo e passa a seguir você por superfícies, contextos e dispositivos — do carro ao fone, do relógio ao assistente? Foi essa a pergunta que guiou a apresentação de Suff Syed, líder de produto em IA na Microsoft Research, no keynote “Liquid Brands & Vanishing Interfaces: New Rules of Experience”.

Syed apresentou a IA como um golpe direto na velha lógica de mediação do design. Durante décadas, desenhar experiências significou produzir telas, fluxos, sistemas, componentes, protótipos e apresentações. Em algum momento, porém, a disciplina parece ter se apaixonado mais pelo ritual do que pela resolução concreta dos problemas.

Se ferramentas baseadas em IA e código já permitem que uma pessoa transforme um rascunho em algo funcional sem atravessar tantas camadas de tradução, então o design começa a perder o monopólio da interface como maquete. O protótipo deixa de ser promessa e vira ensaio operacional. A tela estática perde importância. E o site, que durante anos funcionou como sede oficial da marca no mundo digital, começa a parecer menos destino e mais herança de um tempo em que a experiência ainda precisava morar em páginas, menus e cliques.

“Você pode simplesmente fazer a coisa e mostrar para as pessoas.”  O que antes exigia alinhamento, documentação, handoff, validação e uma fila inteira de especialistas pode passar a caber numa relação muito mais direta entre ideia e execução. O ganho de velocidade é evidente. O deslocamento cultural, ainda mais.

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Suff Syed. Divulgação

Para Syed, “marcas líquidas” são marcas que já não se apresentam do mesmo jeito em todos os lugares, nem precisam mais concentrar sua identidade num ambiente controlado. Algumas vão reforçar experiências de alto toque, acabamento quase artesanal e presença humana evidente. Outras vão assumir sem pudor uma lógica de produção criativa acelerada por IA, com equipes menores, respostas mais rápidas e menos apego ao modelo clássico de construção de brand equity.

Antes, a descoberta de marcas passava por busca, homepage, campanha, mídia, e-commerce e SEO. Agora, começa a passar por sistemas conversacionais que filtram, resumem, recomendam e antecipam escolhas antes mesmo de o usuário chegar a um site.

“Se a sua marca não aparece na resposta do chat, você está perdendo.” Se o encontro entre pessoa e marca passa a acontecer na resposta de um sistema, e não mais necessariamente na visita a uma página, então branding deixa de ser apenas construção de consistência visual e narrativa. Passa a ser também disputa por presença contextual. Estar disponível já não basta. É preciso ser recuperável, recomendável e inteligível para interfaces que falam antes da marca falar por si.

Isso ajuda a entender o segundo conceito do painel: as “interfaces que desaparecem”. Não porque as telas vão sumir magicamente, nem porque tudo vá virar voz da noite para o dia, mas porque a interface tende a ficar menos visível quanto mais conseguir operar como continuidade da intenção do usuário. Para Syed, o modelo atual — abrir um chatbot, formular um pedido, esperar uma resposta — ainda é um estágio bastante primitivo do que está por vir.

O futuro das interfaces passa a ser profundamente pessoal

O que ele descreve é uma inteligência menos genérica, mais contextual, capaz de entender preferências, valores, repertório, histórico e objetivos. Uma camada que aprende a mediar melhor o que importa para cada um.

O que está colapsando não é só a homepage como centro da experiência, mas a própria ideia de que design é o campo que organiza caixas na tela e branding é o esforço de manter consistência entre pontos de contato. Quando a experiência passa a ser gerada, otimizada e personalizada em tempo real, marca deixa de ser só identidade. Vira sistema de presença.


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