A homofobia de cada um

por Vladimir Cunha

É muito fácil ser cínico e desqualificar o combate à homofobia como um modismo de ocasião ou uma patrulha politicamente correta. Da mesma maneira que é fácil ser ingênuo e achar que a homofobia está com os dias contados por conta de uma política de estado mais igualitária.

Mas como é um trabalho sujo e alguém precisa fazê-lo, aqui vai a má notícia: não, amiguinhos, a homofobia não vai acabar com decreto e processo na Justiça.

O negócio é que o ser humano é um bicho muito complexo e não um ser binário que responde somente a estímulos de “sim” e “não”. Entre esses dois extremos existem aquelas áreas cinzentas que muita gente prefere ignorar ou mesmo passar ao largo.

Daí ser preciso diferenciar o crime da preferência pessoal. E entender que desejar, seja lá porque motivo, que o seu filho não seja gay não é igual a espancar de maneira covarde um menino homossexual na Rua Augusta ou condenar à fogueira alguém que gosta de pessoas do mesmo sexo.

Para complicar ainda mais, além da homofobia existe uma série de comportamentos de exclusão que, mesmo preconceituosos, são socialmente corretos por carregar dentro de si justificativas “aceitáveis”. Você provavelmente ficou todo feliz quando aquela sua piada sexista com os emos ganhou dezenas de retweets e adora falar que odeia pagodeiros, funkeiros e fãs do Chiclete com Banana (afinal alguém precisa salvar a boa música, não é mesmo?). E, claro, acha certíssimo quando um blogueiro espertinho ridiculariza a classe média paulistana atribuindo a ela todas as dores do mundo (lógico, precisamos combater a direita fascista nem que seja com generalizações e preconceito).

É por isso que quando o rapper Ice-T se encrencou ao lançar “Cop Killer” e o Mano Brown, em entrevista à revista Trip, defendeu o seqüestro como forma de conscientização social houve quem visse nisso um protesto legítimo de um povo historicamente reprimido.

Já eu, que não quero ver ninguém assassinado ou seqüestrado, vi apenas dois sujeitos falando bobagem.

Por isso a questão aqui é: como separar a convicção, a ideologia, o crime e a construção teórica de uma sociedade intolerante? E mais: como definir quais comportamentos de exclusão são socialmente aceitáveis e quais são criminalmente passíveis de punição?

Porque é possível legislar sobre o dano à propriedade ou à pessoa. É possível legislar sobre uma oportunidade profissional perdida por causa de uma opção sexual ou até mesmo sobre o dano pessoal e moral decorrente de uma humilhação pública.

Mas como legislar sobre preferências e crenças? Existe um limite para o controle legal do Estado que é aquela zona cinzenta de pensamentos, conflitos pessoais e convicções que cada um de nós carrega dentro de si. O pensamento e o desejo em estado puro que o braço forte da lei nunca vai alcançar. E aí pode tudo, até querer que o filho não seja gay.


Creative Commons License foto: Renato Araújo/ABr

É o que explica gente como o Jair Bolsonaro, que não chegou aonde chegou por algum fenômeno de geração espontânea e sim por conta dos preconceitos e da posição ideológica de seus milhares de eleitores. Colocá-lo em cana não resolveria o problema. O voto é secreto, seus eleitores escolheriam outro representante e a direita brasileira logo ganharia o seu primeiro mártir.

A única saída seria a tolerância plena, mas como isso nunca vai acontecer talvez fosse o caso de apelar para a boa e velha Democracia e para o muitas vezes mal compreendido conceito de liberdade de expressão.

O Ice-T cantaria numa boa o seu desejo de matar policiais, o Mano Brown continuaria a defender em paz o seqüestro como forma de conscientização social, ninguém seria preso por organizar a Marcha da Maconha, o Bolsonaro continuaria a falar as suas besteiras e o Rica Perrone teria assegurado o direito de não querer um filho gay. E todos nós teríamos que considerar um mero fato da vida a existência de pessoas que pensam completamente diferente da gente.

Quer saber? Sempre que penso em toda a miséria e violência que o preconceito causa, cada vez mais me convenço de que essa pode ser uma boa solução.

Melhor deixar às claras quem é racista, nazista, defensor da Ditadura e homofóbico do que baixar um decreto obrigando todo mundo a se trancar no armário e instaurar uma Pax Romana de araque.

Pelo menos assim dá pra saber com certeza quem é o inimigo.

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