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O Jardineiro Fiel

O Jardineiro Fiel

por Carlos Merigo

Ele fez de novo. Fernando Meirelles mais uma vez fez um filme que tem algo a dizer. “O Jardineiro Fiel” é político, inteligente e emocionalmente poderoso. Mas não é um filme para os turistas de cinema, acostumados com cenas de ação gratuita e edição “videocliptíca”, e sim para aqueles que estão dispostos a entender profundamente a cabeça dos personagens e tudo aquilo que a história representa.

O filme é cru, a fotografia granulada e as imagens não procuram esconder nada, deixam explícito o holocausto em território africano que nem mesmo as mentes mais sórdidas poderiam imaginar. A miséria mostrada em “Cidade de Deus” é uma Daslu perto do que acontece na África.

Como eu venho me aprofundando cada vez mais na causa da Libertação Animal, não me surpreendi ao ver o que muitos magnatas da indústria farmacêutica praticam com pessoas que “morreriam de qualquer forma”. Quem luta para que a classe médica mude sua postura quanto a testes em outras espécies, sabe muito bem o que eles também são capazes de fazer com humanos.

De qualquer forma, testar medicamentos e deliberadamente não tratar doenças em pessoas para “estudar” como elas evoluem, é algo que a muito tempo já foi denunciado por diversas ONGs e ativistas e muitos insistem em ignorar.

“O Jardineiro Fiel” é quase um documentário, mas também é um thriller de mistério e uma história de amor emocionante. Invejável como Fernando Meirelles conseguiu pegar o livro de John Le Carré e fazê-lo com um ponto de vista terceiro mundista utilizando um relacionamento amoroso como bonde para o espectador, ao mesmo tempo em que denuncia, emociona.

E por não tentar em nenhum momento ser ameno com o público, “O Jardineiro Fiel” perturba. Ainda mais para aquelas madamas endinheiradas que são levadas ao cinema pelo motorista particular e tem o sentido de suas vidas dentro de uma loja de luxo. As luzes se acendem e elas dizem: “Que absurdo!”, mas saem dali direto pro Iguatemi.

Quando vi as cenas em que Fernando Meirelles, numa única tomada, mostra de maneira cruel o monstruoso contraste entre dois mundos, entre pobreza e riqueza, entre pessoas vivendo entre o esgoto e um verde campo de golfe, lembrei das nossas metrópoles. E se não fazemos testes de medicamentos aqui, não ficamos longe da falta de ética quando vemos governantes e suas ações higienistas. Como aqui em São Paulo, por exemplo.

E se eu sou péssimo em discursos sócio-políticos, tenho ainda mais motivos para dizer que “O Jardineiro Fiel” é um dos melhores filmes do ano. Pois desejo que ele faça uma lavagem cerebral do bem na cabeça de quem ainda não descobriu que tem uma cabeça.

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