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Uma máquina extraordinária – Fiona Apple “The Idler Wheel Tour 2012”

por Felipe Cotta

Será que os artistas têm ideia do esforço que algumas pessoas são capazes de fazer para vê-los? Será que eles têm ideia do tempo, da energia, da devoção que seus fãs dedicam a eles?

Artistas e músicas são como amores ou amigos. Alguns passam pela sua vida, depois somem e você nem sente falta. Outros fazem estragos, deixam marcas, alteram profundamente os seus sentidos, deturpam suas emoções e fazem aquela diferença que justifica cada minuto que passou.

A Fiona Apple, pra mim e para meu grande amigo Fred Heimbeck, é uma dessas artistas que fazem esses estragos todos. É um desafio, é uma provocação. Cada álbum é um novo martírio, um novo universo a ser desbravado. Não é fácil e nem imediato. Mas é justamente aí que mora a graça toda da coisa.

Não é música rasa nem descartável, dessas que você ouve meia vez na radio e já sai assoviando. (Nada contra essas músicas. Elas são necessárias e deixam nossa vida mais alegre.) Mas quando se quer um desafio de verdade, Fiona Apple é o cara.

E dizem que para todo grande desafio existe uma grande recompensa. “Recompensa” é o que define ver, finalmente ao vivo, um show da Fiona Apple.

A mulher é um furacão. Uma bomba relógio prestes a detonar a qualquer momento, a qualquer nota. A qualquer berro. É tão intensa que só um piano não é suficiente pra ela. Só um piano não consegue absorver toda a raiva incontida que ela expurga de seu âmago com aquele furor inesgotável.

Não, não basta. Então ela sai do piano, vai pra percussão, se joga no chão, pula, grita, e vai do esperneio ao angelical canalizando sua sofreguidão por todas as formas de expressão possíveis (até o encarte do CD a mulher desenhou!). E o show que ela entrega é um presente para cada um dos fãs que dedicou anos de seu tempo, de sua energia e sua devoção a ela.

Ela entende a intimidade que cada um ali dentro do teatro tem com ela. Não é qualquer relação artista-fã. Um fã de Fiona Apple é quase uma testemunha de suas agruras, de suas relações mal resolvidas, de seu amargor ácido que magicamente se transforma em música indescritivelmente bela e desafiadora.

Não somos público. Somos confidentes, prontos para entregar os ombros à mulher que definha palco acima.

Da frenética abertura de Fast As You Can à calmaria solitária de I Know, Fiona exala sentimento por cada poro e derruba todo mundo junto com ela, um por um. É impossível passar ileso pela experiência. Você se emociona, você chora, você ri – sim, ela é muito engraçada e espirituosa quando conversa com as pessoas – você se identifica com um ser humano que sofre como qualquer outro. Que vive como qualquer outro. Como você.

Mas você não consegue se expressar de forma tão plena, tão completa, tão profunda e tão refinada. Então você precisa de uma porta-voz que faça isso por você.

Há uma semana, em Clearwater, Florida, Fiona Apple me mostrou que ser uma artista de verdade não é sair nas capas de revista, não é andar no tapete vermelho do Oscar e muito menos sorrir à toa.

Basta ser você mesmo. E se “você mesmo” for este oceano de emoção inesgotável em forma de matéria, melhor ainda. Se você também tiver esta bênção que é emocionar as pessoas transformando em arte exatamente quem você é, atinge-se a glória.

E, pra finalizar: se você for absolutamente foda no que faz desde os 17 anos de idade, parabéns.

Você um dia chegará aos pés de Fiona Apple.

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