Capitão América

Capitão América: Heróis em crise de identidade

O que eles tem a dizer é relevante e pode ultrapassar o ambiente da ação desenfreada e da luta contra vilões canastrões?

por Fábio M. Barreto

O gênero dos super-heróis tenta encontrar lugar no mainstream da cultura pop há coisa de 20 anos. Falhou miseravelmente nas series live action de Homem-Aranha, Capitão América e o melhor representante foi o Hulk, de Bill Bixby. De acordo com Stan Lee, à reportagem do B9, “a virada de mesa só foi possível por causa da mistura entre efeitos especiais capazes de replicar as histórias em quadrinhos e uma geração de diretores criados em ambientes ricos em HQs e que assistiram às series fracassadas”.

Eles vieram, patinaram em alguns casos, mas desde “X-Men – O Filme”, os acertos vem se acumulando, culminando com o fenômeno de “Os Vingadores”. Com uma pipeline de várias adaptações e continuações a caminho – entre elas o reboot do “Quarteto Fantástico”, um filme solo da Viúva Negra, o tiro no escuro com “Guardiões das Galáxias” e o segundo “Os Vingadores” – não há mais dúvida na habilidade técnica ou na preferência do público.

Agora, a briga é outra: o que eles tem a dizer é relevante e pode ultrapassar o ambiente da ação desenfreada e da luta contra vilões canastrões ou maquiavélicos ao extremo? “Capitão América – O Soldado Invernal” é o mais novo capítulo dessa batalha.

Capitão América

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Christopher Nolan carregou a bandeira do herói pé no chão, soturno e atribulado durante toda a trilogia de Batman. O Homem-Morcego começou como um paladino, foi transformado em vilão e precisou reencontrar a própria identidade – e as razões que o motivavam – para salvar o dia. Ou seja, Batman, eu e você passamos a ter os mesmos problemas. Se ele deu um passo em direção à Humanidade ou fomos permitidos nos aproximar dos heróis, o futuro vai dizer. O fato é que a aproximação aconteceu. E deixou marcas.

Quando o “Man of Steel”, de Zack Snyder, pousou na Terra, a temática continuou enquanto Kal-El buscava razões para confiar na Humanidade e pagou o preço por suas escolhas. Entretanto, diferente de Nolan, Snyder foi um pouco além com a última cena do filme. Nolan flertou com temas como invasão de privacidade, uso da força e a índole das pessoas, enquanto Snyder resolveu peitar o governo. Afinal, o Super-Homem foi construindo força política e consciente ao longo dos últimos 20 anos de maneira bem interessante. Não havia mais o embate entre dois lados fictícios: o herói e o vilão. Ao derrubar o drone norte-americano, ele abre a galeria de tiro municiada por críticas políticas e sociais declaradas.

É aí que “Capitão América – O Soldado Invernal” entra, pois carrega a bandeira levantada por Zack Snyder e vai pra cima dos assuntos mais polêmicos, problemáticos e relevantes dos últimos 4 anos: privacidade, segurança nacional e a própria identidade norte-americana. Precisamos lembrar que, embora filmes de Hollywood sejam consumidos mundialmente, o primeiro alvo é, e sempre será, o público dos Estados Unidos.

Logo, o roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely desce a lenha nesses temas usando a SHIELD com escudo (trocadalho do carilho!) para não atacar o governo diretamente, mas transmitindo a mensagem com clareza. Para isso, eles fazem uso de algumas artimanhas batidas, tentam transformar assuntos tão sérios em elementos de uma trama simplória de espionagem e “quem confia em quem”. Tudo isso serve apenas para despistar.

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Steve Rogers é o catalizador perfeito para transmitir essa mensagem: ele viveu na época do Sonho Americano, deu “a vida” pela pátria, foi herói de guerra e, de quebra, é um super-soldado. Ou seja, a consolidação máxima do norte-americano perfeito. Quando esse cara não sabe mais em quem confiar, precisa de um caderninho com uma longa lista para se atualizar do que é viver no mundo moderno, está sendo usado para fins escusos e, não foi reintegrado ao Exército, mas sim a uma empresa paramilitar “acima do Bem e do Mal” é sinal de que tudo foi para o brejo.

“Capitão América – O Soldado Invernal” carrega a bandeira levantada por Zack Snyder e vai pra cima dos assuntos mais polêmicos, problemáticos e relevantes dos últimos 4 anos

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Se o americano entende de uma coisa é da crise cultural que enfrenta há um tempo e do descaso do governo com os veteranos de guerra. Curiosamente, onde é que Rogers encontra apoio e razão para continuar na luta? Assistindo a uma palestra no VA (Veteran’s Administration, ou qualquer coisa que envolva veteranos, sejam encontros, peças teatrais, grupos de apoio e etc.)!

As relações de confiança estão em crise e ao ver dois melhores amigos colocados em rota de colisão é a alegoria mais descarada possível. E foi proposital. Os Estados Unidos estão enfrentando uma divisão política tremenda e a polarização só aumenta. Esse é o cenário perfeito para que, com a paranóia adequada, fique até fácil acreditar na existência de algo como a Hydra no mundo moderno. Há uma eterna briga do americano – especialmente os republicanos – contra o papel do governo e seus exageros.

Hoje em dia, só se fala em drones e postura mais reservada de Obama, que opta pela diplomacia na maioria dos casos e é até mesmo acusado de “agir de forma tão fraca, que os inimigos fazem o que bem entendem” (no caso da crise na Ucrânia), mas alguns medos antigos não se dissiparam completamente, assim como a mentalidade controladora. Rogers, porém, viveu na época que gerou todas essas ideias e, por não ter sido afetado pela doideira da Guerra Fria, só se lembra das verdadeiras razões, dos amigos que perdeu e por aquilo que lutou. É um sentimento mais puro, virgem. Sem o cinismo atual.

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Steve Rogers é o catalizador perfeito: ele viveu na época do Sonho Americano, deu “a vida” pela pátria, foi herói de guerra e, de quebra, é um super-soldado

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A todo momento, o Capitão América parece abrir mão do que lhe faz excepcional para divulgar essa mensagem. É como se algo tivesse se perdido no caminho e ninguém mais saiba onde está o mapa certo. Nesse contexto, é extremamente justo dizer que o tema central de “Capitão América – Soldado Invernal” cruzou a barreira do filme de super-herói e pretendeu ser algo mais sério e crítico.

Mas Batman, não fez isso? Sem criar polêmica, mas Bruce Wayne é um ricaço bom de briga e cheio de boas intenções, enquanto o Bandeiroso tem, de fato, poderes extraordinários; além de fazer parte de um projeto pontual da DC/Warner, enquanto Capitão América se encaixa na complexa estrutura narrativa da Marvel, que agora também envolve a TV com a série “Agents of SHIELD”.

E é justamente aí que aparece um elemento digno de debate. Como filme de super-herói e ação, “O Primeiro Vingador” funciona bem, define o personagem e esbanja correlações do filme com o universo da Marvel, já “Soldado Invernal” se apoia nas fraquezas da SHIELD, no caráter (e falhas) de seus líderes e depende, única e exclusivamente, da bússola moral de Steve Rogers para se guiar. É, basicamente, a estrutura de um daqueles filmes de policial que descobre as falcatruas na corporação e tenta, com ajuda de amigos de fora, resolver a parada.

É o primeiro filme da Marvel que ousou quebrar o formato e tem colhido frutos fantásticos nas bilheterias, embora seja apenas interessante e sem nenhuma surpresa

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É uma boa estrutura, mas denota uma quebra de paradigma interessante nos filmes da Marvel. Até agora, eram heróis contra vilões. Heróis sendo heróis. Ainda é difícil dizer se essa mentalidade vai mudar, e afetar os próximos filmes, ou se foi pontual pelo fato de Capitão América permitir essa discussão (os X-Men também seriam ideias, mas estão nas mãos da Fox e, felizmente, estão mergulhando na mitologia dos quadrinhos e ganhando força graças ao reboot com “Primeira Classe”).

Mas fica fácil entender as razões de tanto entusiasmo no fandom. Foi o primeiro filme da Marvel que ousou quebrar o formato e tem colhido frutos fantásticos nas bilheterias. Embora os irmãos Anthony e Joe Russo tenham entregue, de fato, um filme apenas interessante e sem nenhuma surpresa.

Mas, como a voz do povo deve ser ouvida, as decisões certas superaram a obviedade do roteiro (estruturalmente previsível de ponta a ponta) que, embora provocativo, ficou um pouco perdido entre a ficção e a realidade. E isso nos traz de volta à pergunta inicial: o que os super-heróis tem a dizer é relevante?

Parece que sim, entretanto, o mesmo processo de aprimoramento necessário para tirá-los da obscuridade das adaptações ruins vai precisar acontecer para que mensagem, visual e formato casem perfeitamente. O primeiro passo já foi dado. Quando eles se encontrarem e essa crise de identidade acabar, os heróis vão transcender barreiras.

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