50 anos de Mafalda

A personagem argentina questionadora e ácida completa 50 anos, e ganha homenagens de cartunistas brasileiros

por Jacqueline Lafloufa

A primeira vez que me encontrei com Mafalda eu nem tinha entrado na adolescência. Era um enorme calhamaço de “Toda Mafalda” com várias tirinhas de uma menininha enfezada.

Gostei do que li, mas principalmente gostei de ficar intrigada. Dava para perceber que quem escrevia aquelas tirinhas queria dizer algo mais. De vez em quando eu entendia algo, mas no geral eu ficava apenas encafifada tentando compreender aquele sentido oculto latente que eu não conseguia desvendar sozinha.

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Do alto dos meus 11 anos, provavelmente muito do conteúdo das tirinhas de Mafalda passaria mesmo batido. Eu não fazia, na época, parte do público alvo do cartunista Quino. Os textos das tirinhas, ainda que ditos por uma garotinha de 6 anos, eram voltados para os adultos que viviam em uma época de repressão.

Publicadas entre 1964 e 1973, as insatisfações de Mafalda tinham como pano de fundo a ditadura argentina, considerada uma das mais violentas da América Latina. Portanto, eu jamais compreenderia sem a ajuda das aulas de história que a odiada sopa era uma alegoria dos governos militares, “algo que ela não gostava, mas que tinha que suportar”, nas palavras do próprio Quino.

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No dia 29 de setembro, Mafalda completou seu 50º aniversário, sendo lembrada por fãs do mundo todo pela sua sagacidade. Mesmo em um período histórico tão delicado, a personagem de Quino conseguia questionar o público, criticar as notícias do momento e a situação vigente na Argentina. Parte de uma família de classe média, Mafalda e seus amiguinhos representavam estereótipos do momento, funcionando como alegorias.

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Alguns cartunistas brasileiros, como Laerte, Caco Galhardo e Orlando, prestaram nas últimas semana tributos à personagem da forma que fazem melhor – através de cartuns divertidos, relembrando o jeitinho espevitado de Mafalda.

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Como parte das comemorações, a exposição “O Mundo de Mafalda” também deve chegar a SP em dezembro, depois de passar pelo país natal da personagem e por México, Chile e Costa Rica.

Mesmo não sendo publicada em jornais há mais de 40 anos, Mafalda ainda conta com uma enorme legião de fãs. Grande parte das críticas da personagem, ainda que pontuais e voltadas para a época, continuam muito atuais. Recentemente, adquiri minha própria edição de “Toda Mafalda”, para ler de novo tirinha por tirinha, agora provavelmente compreendendo melhor o que Quino pretendia passar nas entrelinhas. No meu último encontro com Mafalda, em Buenos Aires, encontrei-a pequenina, discretamente sentada em um banquinho, e quase passei batido por ela.

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A verdade é que a estátua que homenageia Mafalda não precisaria ser nem um centímetro maior do que é: considerada uma das personagens argentinas míticas mais famosas, ao lado de Che Guevara, Evita Perón e Carlos Gardel, a pequenina enfezada deixa evidente que tamanho jamais foi documento. Ao colocar questionamentos sérios em palavras infantis, Quino conseguiu despistar a repressão e manter a sua expressão sobre o momento.

“Há dois aspectos importantes sobre Mafalda: o primeiro foi o diálogo com fatos da época, algo inovador em tiras sul-americanas; o segundo, foi o diálogo estabelecido com o leitor adulto. Hoje, muitos se esquecem de que a série foi produzida num momento político bastante delicado da Argentina e que os adultos eram o público-alvo prioritário das histórias”, explica Paulo Ramos, jornalista especialista em HQs e blogueiro do UOL,

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Principalmente por conta de Mafalda, Quino foi recentemente agraciado com a principal honraria cultural espanhola, o Príncipe das Astúrias. Até para agradecer a premiação, percebe-se nele a mesma acidez que aparece em Mafalda. “Geralmente ganhamos prêmios quando já estamos cansados. Seria melhor se nos dessem quando somos jovens”, provocou o cartunista, hoje com 81 anos.

Parafraseando Julio Cortázar, o importante nessa história toda não é exatamente o que eu penso de Mafalda. Provavelmente tem mais a ver com o que Mafalda pensaria de nós, hoje em dia.

Feliz meio século, Mafalda! :)

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