Twitter da polícia de Baltimore pede que pais sigam exemplo de mãe do viral e busquem filhos nos protestos

Sucesso do vídeo pode ter influenciado posicionamento oficial, mas a mãe estava mesmo com medo do filho ser agredido pelos policiais (!)

por Jacqueline Lafloufa

Tem circulado na internet nos últimos dias um vídeo de uma mãe bastante abalada, que remove o filho de uma manifestação na base de broncas e palmadas. O protesto do vídeo acontece em Baltimore, nos EUA, desde o início da semana, mostrando uma população indignada pela morte de mais um jovem negro, Freddie Gray, que faleceu devido a um grave ferimento na coluna vertebral, ocorrido enquanto ele estava detido por supostamente portar um canivete.

Toya Graham aparece no vídeo perceptivelmente abalada, fazendo o que conseguia para tirar o filho do meio da manifestação. O receio dela? “Não quero que ele seja um Freddie Gray”, confessou ela posteriormente, em entrevista à CBS News.

O curioso é que o receio de Graham era que o filho acabasse sendo agredido pela polícia, a mesma polícia que, mais tarde, usou a atitude dela como exemplo a ser seguido por outros pais que identificassem seus filhos entre os manifestantes. O pedido foi feito através do Twitter oficial da polícia de Baltimore. “Muitos jovens estão em meio a grupos agressivos. PEDIMOS A TODOS OS PAIS QUE LOCALIZEM SEUS FILHOS E OS LEVEM PARA CASA”, diz o tuíte.

Do que posso depreender, é bem possível que a decisão da polícia de fazer tal pedido tenha vindo da dificuldade de conter os manifestantes. Essa tensão racial já paira sobre os EUA desde o caso de Ferguson, com a morte de Michael Brown, e não tem melhorado nem um pouco nos últimos dias. O sucesso do vídeo da mãe contendo seu filho a tapas, que recebeu milhares de visualizações e rendeu diversas matérias nos jornais do mundo todo, pode ter parecido uma boa ideia para a polícia. Lembra bastante a proposta da Ogilvy Brasil pela paz nos estádios, em uma ação que escalou mães de torcedores para fazerem a segurança durante as partidas de futebol.

No entanto, no caso específico de Toya Graham, paira uma grande ironia no ar: o grande motivo para que ela se movimentasse e retirasse o filho das manifestações era justamente o receio de que a polícia viesse a agredi-lo. Não é exatamente esse o ponto da manifestação, de evitar a violência policial contra negros? No final do dia, talvez a preocupação dessa mãe seja exatamente o ponto que faz muita gente se indignar e ir para as ruas. Talvez não seja uma situação onde um garoto de 16 anos como o filho de Toya devesse se envolver, mas que precisa sim de discussão. E sabe onde essa discussão tem acontecido bastante? Nas redes sociais, onde é possível acompanhar a opinião de celebridades como o elenco de “The Wire”, de atores como Jesse Williams (de Grey’s Anatomy) ou de apresentadores, através da hashtag #BaltimoreRiots.

No Periscope, alguns jornalistas têm feito transmissões ao vivo, entrevistando pessoas que estão fazendo parte das manifestações em Baltimore, como foi o caso de Paul Lewis, do The Guardian.

No Twitter da The Economist, a provocação que acompanha a hashtag traz os números de mortes em trocas de tiros entre policiais e suspeitos.

Já pensou se a discussão no Brasil fosse sobre o mesmo assunto? Só o estado de São Paulo, o número de mortes em decorrência de ação policial ultrapassa e muito o número total dos EUA – segundo a Human Rights Brasil, foram 728 mortes em 2014.

 

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