Os trailers e suas trilhas sonoras

Os trailers e suas trilhas sonoras

por Carlos Merigo

Na segunda passada, dia 11, fiz um post sobre um tipo de criação bem específica na indústria do cinema: os criadores de criaturas. Acontece que essa atuação de nicho para designers e diretores de arte é só um exemplo. Isso sem nem mencionar toda a campanha de divulgação de um filme, com agências especializadas apenas nisso, como já falei em um antigo post.

Outra faceta que me chama atenção são os estúdios e profissionais focados inteiramente em criar trilha sonora para trailers. Não é música que vai entrar no filme, nem concorrer ao Oscar (isso fica para os compositores famosos), é a chamada “music for motion picture advertising”. Um nível de detalhe que impressiona, e ao mesmo tempo demonstra a preocupação em causar no espectador justamente a sensação planejada.

Eu, que sempre fui fascinado por teasers e trailer, justamente pela mistura entre publicidade e cinema, percebia uma certa semelhança nas trilhas de muitas edições. E sim, existem dezenas de trailers que utilizam a mesma música. Exclusividade depende da verba dos produtores. Exemplo: a trilha do trailer de “Star Trek” de J.J. Abrams.

Music for motion picture advertising

Fundado em 2006, o Two Steps From Hell é um estúdio formado pelos compositores Nick Phoenix e Thomas J. Bergersen. Apesar do pouco tempo de existência, é um dos mais reconhecidos na área, tendo produzido trilhas para um quinquilhão de filmes, sem contar as compilações lançadas que reúnem esses trabalhos.

Para o novo “Star Trek” compuseram uma música original, chamada “Down With The Enterprise”. Quando assisti o trailer fiquei maluco para saber que música era essa, ouvi a trilha toda do filme composta por Michael Giacchino (o mesmo de “Lost”) e nada. Óbvio, não era do filme, e sim exclusiva do trailer.

O vídeo abaixo mostra a gravação em estúdio com orquestra de “Down With The Enterprise”:

E agora veja a música aplicada no trailer de “Star Trek, é de arrepiar:

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A lista de trailers que já passou pela mão do Two Steps From Hell é gigante. Para ficar em alguns mais recentes: “Homem-Aranha 3”, “Batman: The Dark Knight”, “Indiana Jones e o Reino da Cavaira de Cristal”, “Hellboy II” “A Bússola de Ouro”, “Wall-E”, “Watchmen”, “Up”, etc. Ou seja, todos os grandes estúdios de Hollywood são clientes dos caras.

Além disso, lançaram compilações temáticas, divididas pelo estilo de filme para qual determinada trilha foi criada. “Dinasty” para filmes épicos, “Nemesis” para guerra, “Ashes” para terror, “Legend” para aventura/ação (é nesse que está a música do trailer de “Star Trek”), “The Devil Wears Nada” para comédia, “Pathogen” para ficção científica, e por aí vai. Recomendo também o “Vol.1”.

Mas eles não estão sozinhos nesse negócio. O AudioMachine é mais um desses estúdios, que já trabalharam para tudo quanto é tipo de blockbuster. O site deles é horrível, como o da maioria das produtoras nesse ramo, então talvez você prefira conferir o MySpace. O mesmo vale para o Future World Music (MySpace). Ouça “Out Of Time” da AudioMachine. Aposto que vai soar familiar para muita gente.

Outros que merecem destaque Immediate Music, X-Ray Dog, Epic Score, 615 Music e Groove Addicts. Separei os reels da Immediate Music, uma das empresas mais antigas nesse trabalho, e da Groove Addicts. Você vai perceber como até nisso eles encaixam uma trilha adequada, que conversa com o vídeo, sempre em um crescendo.

| Immediate Music
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Conversei com o Maestro Billy, do Estúdio Mellancia aqui em São Paulo, para entender um pouco desse investimento em campos de atuação tão específicos. “Eu acho que nesse caso são dois momentos diferentes. Você criar uma trilha para um filme é um ponto. Leva tempo, tem que ter uma correlação entre as músicas, a criação de um ‘leitmotif’ (que é o tema que permeia a trilha toda), e todas as ambiências necessárias para o filme. Já no caso da trilha para o trailer, é um outro momento. Você tem que passar a informação do filme todo naquele curto período.”

Segundo Billy, é preciso existir sim profissionais específicos, com noções de comunicação, que capte o clima todo do filme e condense naquele pequeno espaço de 2 ou 3 minutos. “Não imagino um John Williams ou um Hans Zimmer criando trilha para um trailer, se bem que eles até podem ter feito isso uma vez na vida, mas não acho que seja ‘o forte’ deles”.

“É a tal da mega-especialização. Os temas de trailer e teasers com encadeamentos harmônicos, instrumentos e climas específicos para cada tipo de filme, isso que é bacana. Se o compositor vai sonorizar um filme épico, provavelmente vai usar French Horns e muitos metais. Se o filme é romantico, provavelmente vai usar muitas cordas e sopros. Isso tem a ver com Psicologia da Música, um ramo interessantíssimo.”, completa Billy.

| Groove Addicts
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A outra grande questão é: E no Brasil? Grande parte das produtoras criam, com muita competência, trilhas e canções exclusivas de comerciais, mas e no cinema? O problema seria a pouca demanda das produções nacionais? Ou não existe interesse em pensar num nível de detalhe tão grande? Billy conta que aqui no Brasil o que acontece mais é “pega lá o que tá no filme, copia e cola”.

As agências de comunicação se envolvem pouco com os lançamentos e, principalmente, durante o desenvolvimento do longa. “Acredito que pode existir campo quando houver uma quantidade grande de filmes. Ou então eles vão comprar de fora, desses caras que já fazem isso”, completou Maestro Billy.

Aposto que depois desse post e de descobrir quem são as empresas responsáveis por esse trabalho, você vai passar a ver os trailers de cinema com outros olhos, ou melhor, ouvir com outros ouvidos (desculpe pelo trocadilho infame). O mais importante é notar como o pensamento de comunicação se estende em cada detalhe, em diversas áreas, afinal, trailer é propaganda.

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