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CCSP e o prêmio da vergonha

Ser neutro em situações de injustiça é escolher o lado do opressor

por Carla Purcino

Desmond Tutu dizia que “se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor.”

O Brasil é o país com mais casos de assassinatos de pessoas transgênero no mundo. E, hoje, repercutiu que o grupo considerado como de maior excelência criativa no país, o Clube de Criação de São Paulo, premiou uma peça de clara transfobia. Já retirada do ar, tanto do anuário quanto dos portfolios dos criativos.

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O cliente, a Meritor do Brasil, veio à público alegar desconhecimento do fato. Fosse o caso de total desconhecimento sobre o uso de sua marca na peça, caberia ação penal contra a agência que a inscreveu no festival, a Leo Burnett Tailor Made, ÚNICO agente de toda a cadeia a se posicionar.

Infelizmente, vi poucos colegas da área de criação se pronunciarem, expressando repúdio à decisão do Clube

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Em sua carta de retratação, o CCSP se ausenta de qualquer juízo de valor. Não sobre a peça ou sobre ter permitido a sua premiação, mas qualquer juízo de valor a respeito de si mesma como entidade. Ausência de juízo de valor de seu papel social, seu impacto na disseminação de critérios da boa propaganda. Não há, ao fim e ao cabo, uma retratação. A entidade se omitiu.

Bem como foram omissos os criativos que participaram do júri específico que a premiou. São eles: Guilherme Jahara, Beto Shibata, Eduardo Foresti, Felipe Massis, Gustavo de Lacerda, Kevin Zung, Kleyton Mourão, Leo Macias, Rafael Urenha, Fábio Saboya. Nenhum, até o momento, pronunciou-se – individual ou coletivamente.

Infelizmente, vi poucos colegas da área de criação se pronunciarem, expressando repúdio à decisão do Clube. O fisiologismo resta claro. Em momentos de crise, é difícil confrontar diretamente uma pessoa que pode vir a ser seu próximo chefe. Precisamos ser políticos.

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Precisamos, enfim, de uma nova publicidade

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Precisamos mesmo. Mas de outras políticas. Da valorização da dignidade humana. De uma criação socialmente responsável. Que enxergue a diversidade. Que não dissemine discursos de preconceito ou de ódio. Que não as premie. Que não se ausente de assumir seus erros.

Precisamos, também, de uma política que leve em consideração a perpetuação desses decisores. Um anuário do CCSP custa entre R$ 72 (os mais antigos) e R$ 375 (o mais recente). A assinatura de associação custa desde R$ 429 (para sócio-estudante) a R$1.095 (para sócios-corporativos).

Manter a assinatura do clube e continuar comprando seu anuário é compactuar com esse episódio, esses decisores e a sua omissão.

Ser neutro em situações de injustiça é escolher o lado do opressor.

Precisamos de novos clubes. Precisamos de novas premiações. Precisamos, enfim, de uma nova publicidade.

Conto com vocês, amigas e amigos de uma nova criação que precisa ocupar seu lugar.

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[ATUALIZAÇÃO – Reposta de Kleyton Mourão]

Pois é, aqui vale a velha máxima de que “em comunicação o que vale não é o que você quer dizer, mas o que o outro entende”.

Falando como um dos jurados do festival, acho que faltou a nós a sensibilidade de enxergar por esses olhos da Carla.

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Eu estava lá no júri, julguei essa peça e não tive esse entendimento. De verdade, não enxerguei a coisa dessa forma. Mas o fato é que é impossível não respeitar o ponto de vista que a Carla impôs, ele tem fundamento sim e merece ser debatido.

Falando como um dos jurados do festival, acho que faltou a nós a sensibilidade de enxergar por esses olhos da Carla. Fica uma lição aqui pra nós todos. Agora, eu só tomaria um certo cuidado com o caminho pra onde o debate vai se encaminhando.

Em comentários mil espalhados por vários lugares, tá rolando uma sanha vingativa que também não acrescenta nada ao que se propõe discutir. Ao contrário acaba promovendo muito mais uma demonização exagerada das pessoas e rotulações apressadas da galera envolvida.

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[ATUALIZAÇÃO II – Modelo não sabia que imagem seria usada em calendário transfóbico]

Segundo apurou o Buzzfeed, a modelo Rafaela Manfrini desconhecia o teor da campanha. Afirmou ainda que a foto do documento foi masculinizada e nome foi alterado.

Realmente só descobrimos tudo quando o calendário saiu. No auge das emoções, não nos sentimos tão ofendidas! Estamos acostumadas com coisas piores”

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