Transcrição: Mamilos 68 – Rafael Braga e Homofobia no futebol

Jornalismo de peito aberto

por Mamilos

Essa transcrição é resultado do trabalho colaborativo de Jonas Rocha, Débora, Dennis Guilherme, Matheus Teixeira, Jefferson Deroza e Mylena Tebicherane. Um time que só fica mais lindo com o tempo.

Se você utiliza essa transcrição e ainda tem qualquer dificuldade de acessibilidade, por favor, entre em contato conosco no [email protected]

Se quiser fazer parte dessa equipe mande um e-mail com o título “transcrição” para o mesmo endereço ;)

Vem fazer o Mamilos <3

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Cris: Mamileiros e Mamiletes! Ola você que está ai do outro lado do radinho! Está aí toda semana pra nos ouvir. Eu sou a Cris Bartis e a moça da voz de veludo ao meu lado é a…

Ju: Ju Wallauer. Não é Juba, heim? É: Ju, Wallauer.

Cris: Mais umas semana e estamos ai pro que der e vier. Vamos conversar, galera.

Ju: Som do Mamilos. Caio, peligrote das mulheres, conta pra gente que trilha vai embalar o Mamilos dessa semana.

[risos]

Cris: Ai… peligrote…

[risos]

Caio: Olá Personas! Corraíne aqui novamente para trazer pra vocês os responsáveis por dar mais cor ao Mamilos dessa semana!

Lembrando sempre que se você quiser colaborar com o conteúdo musical desse programa pode nos recomendar bandas ou artistas independentes no e-mail: [email protected]

[email protected]

E facilita e muito a minha vida se vocês enviarem os links do site oficial do artista ou então onde eu possa buscar o download direto das músicas dele para utilizar no episódio. Nessa edição nós iremos ouvir a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana. A banda é aqui de São Paulo e teve o seu terceiro álbum, “OBMJ Ataca”, lançado no ano passado. Então fiquem aí com a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana no Som do Mamilos!

[sobre trilha]

[desce trilha]

Cris: Vamos pro beijo dessa semana? Beijo para a Renee, nossa Mamileira australiana que simpatizou com o termo Mãe de merda.

Ju: Cidade da Praia, capital de Cabo Verde. A gente quer gravar um Mamilos ao vivo aí!

Cris: Nó! Muito! Djeefther Souza, o mamileiro de Canterbury, na Inglaterra.

Ju: Poços de Caldas, Minas Gerais. Mas pediram pra você falar, Cris.

Cris: Então, dois beijos. Um da Ju e outro da Cris, para Poços de Caldas, Minas Gerais.

Ju: E beijo para João Pessoa, Paraíba.

Cris: Fale com o Mamilos! E nessa semana perguntamos no Facebook e no Twitter porque vocês amam o Mamilos. A gente estava precisando de inspiração para uma apresentação e as mensagens foram… Foi uma enxurrada de amor! ❤ Foi muito bom, né?

Ju: Foi uma delícia!

Cris: Quando a gente está desanimado eles vem… Eles são foda porque eles sabem que a gente está cansadona e aí vai lá e fala “Não, não. Vem cá, veja bem…”

Ju: Foi ótimo recuperar essa proximidade, esse carinho, esse amor, né? Depois de algumas semanas meio chatas, de críticas chatas, né?

Cris: Imagina! E é isso aí. Continuem falando com a gente porque que é bem legal. Traga mais informações. E use o Mamilos como ponto de partida e continuem contribuindo com a sua visão nas nossas redes sociais, também no nosso email.

Ju: Muito obrigada pra todo mundo que contribuiu, e se você ainda não nos segue, vai lá:

facebook.com/mamilospod ou @mamilospod no Twitter. A gente sempre pede ajuda pra indicar assuntos pra pauta, contatos para convidados, opinião sobre os programas. O programa da semana passada que todo mundo gostou, a gente só conseguiu os convidados porque muita gente nesses canais nos ajudou. Então vem nos ajudar a fazer o Mamilos!

Cris: E agora um merchan!

Senhoras e senhores, é com grande orgulho que convido a todos para a exposição “Paris e a arquitetura do olhar”. Um trabalho fotografico realizado por Rodrigo Bressane e aquele que chamo de amor ou mesmo de marido, Age Barros. Ao lado de outros 118 grandes artistas do mundo, a exposição está acontecendo no 4º Salão de Outono da América Latina, no Memorial da América Latina, Galeria Marta Traba. Ali, na Barra Funda. É super acessível, metrô do ladinho. E a exposição vai até o dia 5 de junho. As visitações são de terça a domingo, das 9h às 18h. Vem gente! Venha viajar por Paris pelo olhar de grandes fotógrafos!

Ju: É uma delícia, isso. Eu quero!

Cris: Eu queria falar um pouco sobre o dia das mães! Porque domingo passado foi o dia das mães, então, fica aí o nosso parabéns para as mães possíveis, que erram, acertam, morrem de dúvida, de culpa, que tentam conciliar mil coisas e falham miseravelmente. Por que? Porque não existe milagre, gente. Pras mães que perdem a paciência e o rumo, que não se reconhecem nas narrativas tradicionais, que se frustraram por não conseguir se encaixar nas experiências. Parabéns porque rapadura é doce mas não é mole não.

Quem ainda não escutou o nosso especial do dia das mães do ano passado vale a pena. É o Mamilos #23, “Mães Sem Doriana”.
https://www.b9.com.br/57455/podcasts/mamilos/mamilos-23-maes-sem-doriana-barbarie-no-pr-viuva-negra-e-baltimore/

E aguardem! Porque no final do mês estamos preparando com todo carinho o tão esperado especial sobre adoção pra vocês. ❤

[sobe trilha]

[desce trilha]

Cris: Vamos então para o “Fala que Discuto”. Começando pela…

Lívia Godoy

“Oi meninas, escutei hoje o episódio sobre Religião. Acredito que o modelo que vocês decidiram fazer foi excelente, já que não provocaram debates nem embates, apenas trouxeram, de forma individual, os pontos de diversas religiões para nós, que possivelmente só conhecíamos pessoalmente praticantes de uma ou duas delas. Antes de chegar à parte de vocês eu estava sinceramente surpreendida e contente de ver que, em sua essência, as religiões tem bons e nobres objetivos e que seus praticantes, de fato, acreditam neles.

Creio que, da mesma forma em que eu reafirmei minha escolha pelo ateísmo, muitos religiosos devem ter pensado o mesmo ao olhar suas crenças individuais. Entendo também que o objetivo de vocês foi promover a sincera empatia e mudar a forma como olhamos as diversas religiões existentes.

Apesar de tudo isso, eu fiquei com apenas um grande questionamento interno: como seriam essas respostas se todas essas pessoas estivessem juntas? Será que a vontade de reafirmar sua crença não seria maior do que as respostas em si? Até que ponto existe a tolerância entre as religiões? Me questiono isso porque durante toda minha vida eu assisti, dentro da minha própria família, a religião sendo algo lindo, perfeito, promovendo a caridade e a bondade, mas só até a página 2. Apesar de entender o objetivo de vocês, acredito que essa parte é a mais crítica da religião, e ficou essa vontade por esse mamilo polêmico, que se torna até um fantasma em certas comunidades.

Um abraço”

Ricardo Highlander

“Sobre o programa 67, confesso que fiquei um pouco decepcionado no começo, quase ignorando os entrevistados que não defendiam o meu ponto de vista. Mas, durante o programa, entendi a estratégia de vocês, já que o histórico do tradicional debate de confronto direto não costuma funcionar bem quando o assunto é Religião. No fim das contas, exceto por alguns aspectos próprios de cada denominação, ficou claro que sua escolha não importa tanto, já que todas têm os objetivos mais nobres em comum.

Um ponto de que senti falta foi como cada Religião trata a doutrinação de crianças. Fica a sugestão para um próximo papo. E segue um “causo” meu a respeito.

Em todas as escolas em que matriculei meu filho, sempre optei pela dispensa da disciplina de Ensino Religioso.

Quando ele tinha 14 anos, fui surpreendido com um pedido dele mesmo de assistir às aulas de Ensino Religioso (ainda que dispensado de avaliação). Enfim, havia chegado o momento para o qual eu o estava preparando: ele faria sua escolha por si. Desde então ele vem analisando as mais diversas Religiões e indo a diferentes cultos a que tem acesso.

Hoje, aos 16 anos, ele parece decidido a ser ateu.

Não vou ser hipócrita em dizer que minha própria posição ateísta – que nunca fiz questão de esconder dele – não o tenha influenciado. Eu sempre disse que ele era livre para escolher no que queria acreditar. Mas será que eu não dei uma ênfase inconsciente ao complemento “inclusive em não acreditar em nada”? Será que, ao falar das diversas opções de religiões e deuses, eu não tinha um tom de “história da carochinha” na voz? Será que eu me decepcionaria se ele fizesse uma opção diferente? Será que eu não tive um medo ancestral quando ele disse que estava indo à igreja da namorada evangélica? Mas isso já é outra interessante discussão.”

Ju: Essa… necessidade ou desejo de influenciar a escolha dos filhos me lembra um e-mail que a gente recebeu essa semana falando da dificuldade de sair do armário ateu pra não prejudicar o relacionamento com a esposa, com família, com amigos. E eu vou resumir a resposta que dei pra ele aqui, porque acredito que possa ajudar outras pessoas que estão enfrentando o mesmo dilema.

Todo mundo que é ateu passou por isso. Eu poderia facilmente colocar na conta da manipulação da religião, que fazem as pessoas que a gente ama se angustiarem até a morte só de pensar que vamos passar a eternidade separados, que estão nos perdendo para sempre. Mas a real é que acredito que isso não aconteça só com religião. Família é laço social, então é construção. Por isso essa preocupação com as tradições que nos mantém juntos. Pode ser a religião, pode ser o time de futebol (pensa no pai que sonhava levar o filho no estádio e se frustra se ele torce pra outro time), pode ser o esporte, o grupo de escoteiros, uma infinidade de coisas.

A minha família é adventista e isso tem um poder muito agregador. Porque todo mundo se reúne na sexta a noite pra fazer o culto de pôr-do-sol, todo mundo se encontra na igreja no sábado de manhã, todo mundo almoça junto no sábado, todo mundo se encontra no sábado a tarde no ensaio do Coral, todo mundo compartilha os mesmos amigos, a mesma comunidade, os mesmos assuntos, as mesmas respostas pra enfrentar as dificuldades, as mesmas respostas para as principais questões da existência.

Então, sair dessa tradição… claro que isso te isola. Te tira do vínculo por osmose. É difícil e traumático, não vou minimizar. Se essas pessoas são importantes você vai precisar construir pontes, criar outros momentos, assuntos e memórias compartilhadas e isso requer mais esforço. Eu agradeço meu irmão por fazer esse esforço por mim e por minha família. Mas eu tive anos de muita saudade. Saudade de fazer parte. Hoje a gente encontrou um novo equilíbrio.

O que é melhor pra você?

Quem está no armário ateu e está pensando em sair do armário tem que pensar se é melhor fazer o esforço de ceder e partilhar da parte social da religião, ainda que não comungue da fé. Ou fazer o esforço de criar novas pontes, novos momentos, novos assuntos. Não sei. Vocês que tem que responder. Mas… (aquela básica final de auto-ajuda) com amor tudo dá certo no final.

Cris: É… Não é bem assim não. No final não dá certo não. Eu tenho pessoas da minha família que até hoje não conversam comigo porque eu não quis seguir a religião da família. Mas quando você faz uma escolha… É uma escolha. Ninguém tem tudo ao mesmo tempo.

Ju: Muito bem. Mas como diria Caetano… “Ou não”.

[risos]

Agora vamos para um último e-mail? Quem mandou foi meu irmão, meu outro irmão, o que não é pastor, o que é dono da Kombi do Chef. O Victor escreveu assim…

Cris: Victor não escreveu para o Mamilos, Victor fez “os mamilos chorarem”.

Ju: É verdade… Mamilos “chora”… todas chora… todos choram! Ele escreveu assim:

Victor Wallauer

“O mamilos entrou na minha vida meio a força… Afinal de contas ele é de quem é.”

Meu, no caso… Se vocês não entenderam.

[risos]

Cris: No caso, da minha irmã!

Ju: É!

[risos]

“Escutei alguns episódios enquanto dirigia, ou cozinhava, mas sem prestar muita atenção, discordando de alguns posicionamentos, concordando com outros, usando para entender os pontos de vista contrário, mas sem fixar algum assunto específico, estava muito ocupado para me aprofundar.

Até que fui fazer o primeiro ultrassom da minha filha e o médico me deu uma notícia que caiu como uma bomba no meu colo. – Ela tem o osso nasal hipoplásico, um dos sintomas da síndrome de down.

Sai de lá um pouco atordoado, e ao conversar com o nosso médico ele nos tranquilizou, era só um dos sintomas, se fosse ele, nem teria avisado os pais, para não criar uma preocupação desnecessária.

Sai de lá aliviado, afinal de contas ouvi a vida inteira que Síndrome de Down era um atestado de morte, ou de dependência para o resto da vida.

Meu sonho de vida sempre foi ser pai, mas não um pai qualquer, queria ser o melhor pai do mundo, queria preparar meus filhos para o mundo, para durarem muito mais do que eu, para levarem o meu “legado” para frente, então um filho com uma deficiência destas, seria uma tragédia no meu planejamento de vida. (Como se pudéssemos planejar tudo na vida).

Conversando com alguns amigos da minha preocupação a resposta sempre girava em torno de: “Tu vai conhecer um amor sem limites”, ” Eles são muito puros” ou “ela vai ser uma dádiva para a tua família”

Caralho, quanto mais escutava isso mais me preocupava… Me sentia preso, com uma sentença de dependência para o resto da vida, e como pagamento um carinho acima da média! Não era isso que eu esperava.

Comentei com a minha irmã que me indicou escutar o Mamilos Sobre a Síndrome de Down. Escutei, reescutei, e escutei de novo… E percebi um enfoque absolutamente diferente.

Percebi quão preconceituoso era meu pensamento, como era vergonhoso meu pensamento, como poderia ser diferente e até gratificante ter um filho assim.

Mas que além disso ela teria potencial para ser qualquer coisa que quisesse na vida, e que dependia de mim estimular e criar para ela as possibilidades de ter uma vida normal, de ser autônoma, de sobreviver a mim sem depender de ninguém.

Lorena nasceu no dia 17/04. Com a Síndrome, e graças ao programa, recebemos como uma situação normal. Não houve choro nem ranger de dentes, só muito amor pela minha pequena.

Muito obrigado gurias, vocês fizeram e fazem a diferença na vida de milhares de pessoas, por todo o Brasil, e quando menos esperavam, fizeram a diferença dentro de casa.”

No dia que a Lolo nasceu eu ouvi esse programa, chorando e rindo muito. Me confortou, me colocou no rumo certo. Isso agora já sou eu Ju falando. E me fez pensar que a gente sabia quando fez o programa, a gente falou que a gente ia ajudar muita gente, mas eu nunca podia imaginar que eu estaria nesse grupo. Então… Muito obrigado ao Mamilos por ter me ajudado no nascimento da Lorena. E principalmente um obrigada, eu falei de novo com o Fábio, porque a participação dele foi muito especial para mim.

Cris: Lolô! ❤ Bem-vinda!

Cris: Vamos então ao “Trending Topics”. Temos gente muito linda nessa mesa. Por favor, convidados se apresentem! Comecem por aí, Peu.

Peu: Boa noite.

Ju: Quem é você, de onde você vem e do que se alimenta?

Peu: Eu sou o Peu Araújo. Eu sou jornalista. Sou DJ, do “Rabo de Galo”. E pai da Betina.

Ju: Muito bem. E santista!

Peu: E santista!

Ju: Isso é importante nesse episódio, especialmente. Sem pressa, você sempre fala.

Peu: Eu sempre falo. Mas cada vez menos eu tenho falado, sabia? Cada vez mais eu tenho falado sobre futebol e cada vez menos eu tenho falado sobre clube, assim. Acho que eu estou deixando de ser um pouco clubista, sabe?

Ju: Que triste!

Peu: Não, não! Não é triste! Eu continuo torcendo para o meu time. Mas eu começo a ver as ações com um olhar mais…

Cris e Ju: Mais crítico…

Peu: É.

[risos]

Ju: É verdade. É que a paixão, né? A paixão ela não permite muito, não da muito espaço para crítica.

Cris: Não, nem um pouco.

Ju: A partir do momento que você se afasta a paixão também diminui, né?

Além disso temos uma ilustre visita! Uma pessoa que a gente já namorava a muito tempo pra vim pra ca. Já ajudou logo no início do Mamilos. Já ajudou a trazer muitos convidados pra cá.

Cris: É uma pessoa que a gente queria arrastar pelos dreads…

Ju: É verdade.

Cris: Até chegar nesse estúdio.

Ju: Quem é você?

Rebeca: Eu sou a Rebeca. Eu sou Jornalista. Eu sou ativista de várias causas aqui em São Paulo, no Brasil e no mundo. Atualmente trabalho na Anistia Internacional, na campanha Jovem Negro Vivo. Também sou do Coletivo da Marcha da Maconha e conselheira da Matilha Cultural. Estamos na luta.

Cris: Só isso!

Ju: A muito tempo, né? Há quanto tempo você está na luta, Rebeca?

Rebeca: Ah, eu comecei… Eu estava na faculdade ainda, de jornalismo, aí eu me liguei que não ia dar certo, assim… trabalhar em redação, e tal. Eu gosto de escrever, gosto de produção de evento, todo o trabalho de RP (relações públicas). Eu faço vários trabalhos de comunicação mas eu sabia que redação não ia rolar. Eu fui trabalhar na SOS Mata Atlântica em 1996. Então eu estou fazendo 20 anos de…

Ju: De luta

Rebeca: …de rolê. É. Passei pelo Greenpeace, fiquei 11 anos. Morei na Amazônia, é da hora! E aí ajudei a fundar a Matilha Cultural. Trabalhei na Comissão Global de Políticas Sobre Drogas com o ex-presidente Fernando Henrique. E agora estou na Anistia Internacional falando da violência armada contra a juventude negra brasileira e a violência policial, principalmente.

Ju: Vamos falar muito disso hoje. Mas antes, vamos rapidamente fazer um giro de noticias? Falar de três notícias que a gente acha que seria importante estar no radar de notícias de vocês essa semana?

Cris: Estudantes da ocupação conseguem assinaturas suficientes para a abertura para a CPI da merenda. 60 deputados assinaram o pedido de abertura da CPI da merenda, Muito mais do que os 32 que são necessários. Mas para que a CPI saia do papel ainda existe um obstáculo. A Alesp não pode somar mais de cinco CPI’s em andamento simultaneamente, a não ser por decisão do plenário. Fernando Capez, o presidente da Casa, afirma que colocará o assunto em pauta o mais rápido possível para o que o plenário aprove a instauração da 6ª CPI. (na votação, será necessária maioria simples). Vale ressaltar que o parlamentar é um dos principais acusados de envolvimento no caso de desvio de verba destinada à alimentação de estudantes nas escolas do estado.

Assim que possível é uma boa data, não é?

Ju: Sim! Então, assim… É a raposa cuidando do galinheiro, né? Então é você que vai decidir quando e como vão fazer a CPI que irá investigar o seu crime. Por isso que a gente está colocando aqui pra ficar no radar de vocês. Não esqueçam! Procurem notícias! Leiam sobre isso. Façam pressão. Esse é o tipo de coisa que não está fazendo capa de nenhum jornal. Não está tomando… interrompendo as programações. E é muito importante!

Cris: Eu só queria ressaltar que está rolando muito vídeo interessante, muita matéria de jornal independente no Facebook, vale muito a pena acompanhar. E eu fiquei muito emocionada com diversos discursos que tem de secundaristas. E o que me deixa mais emocionada nisso é que são esses caras que vão votar amanhã. Então… se prepara! Se prepara para essa geração que vem.

Ju: É! Não… E se a mídia não está querendo contar essa história, essa história está sendo contada de qualquer maneira.
Cris: De dentro.

Ju: A única coisa que vocês estão fazendo é perdendo a audiência. Porque a história está sendo contada.

Cris: Vamos lá!

Peu: Tem um desses vídeos aí que eu acho que é legal de… dos que eu mais fiquei impressionado, é de um menino de 14 anos da escola de Diadema. É… Ano passado, quando a gente estava acompanhando as ocupações das escolas, a Débora voltou. A Débora Lopes que é repórter da Vice lá comigo. Ela volta da… da escola de Diadema, ela falou “cara, eu entrevistei um menino de 14 anos que parecia um adulto falando e ele tinha uma capacidade de argumentação, ele tinha o conhecimento de causa e um senso crítico impressionante”. E aí passou um vídeo dele essa semana, que estava todo mundo falando sobre a eloquência do garoto. É impressionante!

Ju: Aguardem! A segunda:

Rodrigo Duterte, vence as eleições de 2016 nas Filipinas.

[Um alertinha de gatilho aqui: se você está angustiado, ansioso, nervoso, depressivo com o aumento do autoritarismo ou do conservadorismo pule para a próxima notícia]

O prefeito da ilha de Davao, Rodrigo Dutarte, ganhou nessa terça, dia 10, as eleições nas Filipinas. O político de 79 anos ganhou projeção internacional graças à sua polêmica campanha em que afirmou que iria “massacrar” os criminosos e usuários de drogas, fez piada com o estupro de uma missionária australiana e disse que iria “fechar o Congresso” se não concordassem com ele.

Na campanha, ele prometeu que, eleito presidente, reduziria os níveis nacionais de criminalidade em tempo recorde: entre três e seis meses.

“Esqueçam as leis sobre direitos humanos”, disse em seu último discurso. “Vocês traficantes, ladrões e criminosos, é melhor fugirem. Porque vou matá-los”. No caso, ele pertencia a esquadrões de extermínio, então ele não estava brincando ou usando uma metáfora.

Rebeca: Eu já ouvi uns políticos brasileiros falando umas paradas assim também.

Sabem o quê que eu acho que é bizarro e é por isso que a notícia está aqui? Não é por ele. O que coloca essa notícia no giro é o fato de, mais uma vez, o discurso de ódio, de violência como única solução ser escolhido por milhões de pessoas, ser o majoritário. Ele não me interessa porque ele poderia ser um louco em cima do banquinho falando bobagem.

Rebeca: Sim.

Ju: Mas o que me interessa é que, existiam outras pessoas? Ta bom… Não existia nada muito bom também, ali… Vamos falar a verdade. Mas existiam outras pessoas e…

Rebeca: Eles escolheram o cara…

Ju: …eles escolheram ele. Então, assim… O Last Week Tonight fez uma matéria sobre ele que está interessante, vale assistir. É bem crítica, como sempre. Né? Mas… fica aí no nosso radar sobre como esses discursos tem ouvintes.

Eu acho muito importante ficar de olho no governo dele. Vamos ver até que ponto o radicalismo consegue resolver problema.

Ju: Muito bom também.

Mas eu acho que a gente não vai ver. Essa é a questão, né?

Ju: É…

Cris: Aguardemos.

Rebeca: A tendência é que não dê pra ver, né?

Cris: Número 1, é Impeachment? Não…

Ju: Tá parecendo festa junina, gente.

Cris: Tá que nem festa junina, é ou não é. Essa semana teve o novo presidente interino da camara dos deputados Waldir Maranhão, anulou a sessão de votação do Impeachment, só para ser ignorado pelo presidente do senado Renan Calheiros que considerou a ação uma brincadeira com a democracia. E na sequencia, ele mesmo anulou o cancelamento para evitar ou ate aumentar o constrangimento. E na quarta por fim, ou seja, neste dia que estamos gravando está acontecendo a votação no senado. Enquanto a gente faz o programa aqui, tá rolando um fuzuê do lado de lá, chegando eu só vi um pedacinho que foi um discurso do Renan Calheiros onde o dente dele caiu no meio do discurso. Vamos ver se as coisas melhoram daqui por diante.

Peu: Eu acabei de ver aqui que ta rolando treta em Brasilia, já. De manifetantes pró e contra e…

Ju: Demorou até…

Cris: [suspiro]Ah, como é dificil viver a história.

Rebeca: Eh, eu assisti uma parte dos debates no senado hoje, é um pouco menos fanfarrão assim, do que na camara, mas o nível não é muito melhor não, e muito conservador, então eu acho que esse discurso conservador, é interessante ver, como em países tão distantes, com realidades tão diferentes ganha força e ganha adeptos. As pessoas acreditam no que elas ouvem. Assim, talvez, é muito, muito importante, preocupante ver por que isso está acontecendo em tantos lugares.

Cris: Muito preocupante

Peu: O que me assusta muito é ver com o a gente vota mal, na real.

Cris: Mas só queria fazer um adendo quanto a isso, a gente elege um monte de gente ruim, mas eu acho que a gente tem uma crise de representatividade. Eu não quero me
candidatar, a Juliana não quer, o Peu não quer…

Peu: Será?

Cris: Quem quer entrar nisso hoje? A pergunta é essa: Quem quer entrar nisso hoje?

Ju: Exatamente.

Cris: Então eu não consigo achar os meus iguais. Por que os meus iguais não querem fazer parte disso. A minha esperança é esse menino de 14 anos que hoje é eloquente na escola, amanhã não queira só votar, queira participar do processo.

Peu: Sim.

Cris: Porque a gente precisa de mais pessoas do bem querendo entrar nisso, pra não continuar perpetuando as famílias de avô, filho e neto sendo votado e virar uma carreira mesmo.

Rebeca: Não, mas eu acho que tem uma galera que vai entrar nessas eleições municipais, já uma nova bancada assim.

Cris: Faço votos.

Rebeca: Eu acho dificil eles conseguirem espaço nos maiores partidos, mas nos menores eu acho que vai rolar. E acho que eles vão vir com uma tag de transparencia e de participação que vai ser bem interessante, independentemente do partido, sabe? Mas prover essa coisa da inclusão através da internet, de pautas programáticas claras,

Cris: Precisa de mais gente jovem…

Rebeca: Eu também não quero ser candidata, mas tenho alguns amigos que querem, então eu to tentando também fortalecer e acho que é ficar de olho quando esses candidatos
aparecerem, conhecer de perto, porque eles vão ser mais próximos.

Cris: Precisa renovar.

Peu: Até pra cobrar né?

Rebeca: Pra cobrar, exatamente. Já fazer um gabinete participativo desde o começo, sabe?

Peu: E cobrar, acho que as pessoas tem uma visão muito limitada desse verbo: Cobrar.

Cris: E do que é política. Política não é só voto.

Peu: Cobrar não é necessariamente você ser contrário, cobrar é pedir respostas, é uma série de coisas.

Ju: Acompanhar…

Peu: Não necessariamente é ruim. É que nem discussão, discussão não é necessariamente uma coisa ruim, né? É importante que se discuta, não é uma briga.Briga é uma coisa, discussão é outra. Cobrar, eu acho que é sempre importante.

Ju: Então eu vou chamar o primeiro Trending Topics, a gente vai ter só duas discussões hoje, por que essa primeira, realmente é mais longa.
A primeira, a gente vai falar sobre Rafael Braga, vai falar sobre violência policial e sobre injustiça. Isso aqui não é uma teta, isso aqui é um trending topics, a gente vai comentar essa notícia. Mas para comentar, primeiro eu preciso ambientar para quem não acompanhou e ainda não sabe qual é a história.

Cris: Antes da gente começar, vamos fazer um disclaimer?

Ju: Boa…

Cris: “Essa pauta ela foi uma solicitação do melhor ouvinte Messias, há meses o Messias manda pra gente links e informação sobre o caso e pede pra gente dar visibilidade para esta causa. Da violência policial, da injustiça, esses são temas caros pra nós aqui e também para os ouvintes. É nervo exposto. Então a gente ta pedindo aqui, uma licença especial. É uma licença, não para falar com você, pra não pregar para convertidos. A gente vai começar aqui, do zero com a postura mamileira, vamos colocar todo mundo na mesma página, para parar de presumir coisas, derrubar os estereótipos e entender esse cenário.”

Ju: É, vamo evitar esse estereótipo de bandido e mocinho, vamos tentar realmente entender a big picture aqui, que tá acontecendo.

Cris: Explica pra nós, Juliana.

Ju: Vamos começar pelo começo. Quem é Rafael Braga e como ele foi parar nos noticiários?

Com 27 anos, Braga continua a ser o bode expiatório dos protestos de junho de 2013, ele é a única pessoa julgada e condenada por crime relacionado a protestos no Brasil. Braga é negro, morava na rua e usava crack. Isso são fatos objetivos.

Dia 20 de junho, o dia em que cerca de um milhão de pessoas com pedras e paus colocaram o Caveirão pra correr na Av. Presidente Vargas em uma das maiores manifestações do Rio de Janeiro das jornadas de junho de 2013. Nessa noite, Black Blocs quebraram lojas, bancas de jornal e equipamentos públicos. A polícia reagiu com truculência. No meio do tumulto, Rafael Braga, morador de rua e garimpeiro urbano, saiu de um casarão abandonado onde morava, no Centro do Rio, carregando duas garrafas de plástico, uma com água sanitária e outra com Pinho Sol. Rafael foi preso por porte de explosivos após sair de uma loja abandonada no centro do Rio de Janeiro, que já estava com as portas arrombadas antes da sua chegada. Ele afirma que não participava do protesto e não tinha relação com os manifestantes. Diz ter encontrado na entrada do casarão abandonado onde guardava seus pertences duas garrafas lacradas com desinfetante e água sanitária. Enquanto andava pela Lapa, deparou-se com os protestos. “Os policiais me chamaram (‘vem cá moleque’) e atendi. Começaram a me dar porrada e depois me levaram para a cela da Delegacia da Criança, perto do casarão onde eu deixava as minhas coisas. Me tiraram uma hora e meia depois, mais ou menos, e quando cheguei na 5ª DP, a garrafa de Pinho Sol não tinha mais a cor do produto. Estava com uma cor mais clara e um pedaço de pano na boca da garrafa. Eles forjaram. Não sei por que tiveram o prazer de mentir e fazer isso comigo.” Os policiais responsáveis pela detenção alegaram que as garrafas tinham pavios improvisados, mas foi feito um laudo do Esquadrão Antibomba da Coordenadoria de Recursos Especiais que atestou que o jovem carregava apenas produtos de limpeza, indicando “ínfima possibilidade de funcionar como “coquetel molotov”. Mesmo o que foi mexido, mesmo o forjado, tá? Considerando que tenha sido forjado, não to assumindo aqui, nas duas versões, né?

Rafael era réu reincidente, já tinha cumprido duas penas por roubo (sem arma de fogo) e foi condenado a uma pena de cinco anos e 10 dias de prisão (o máximo previsto para esse crime seria 6 anos), então ele foi condenado a pena máxima. O que revoltou e comoveu muita gente. Na sentença, o juiz refere-se à “prisão em flagrante de características bastante comuns” e considera “pueril e inverossímil” a versão do jovem. Apesar da mobilização de coletivos a sentença foi mantida em segunda instância, tendo sido apenas diminuída em 4 meses. Em outubro o jovem migrou para o semiaberto por bom comportamento. Vem comigo que a desgraça piora.

No final de 2014 Rafael que cumpria pena em regime semi-aberto foi mandado para a solitária por 10 dias em represália a publicação no perfil do seu advogado de uma foto sua em frente a Casa onde cumpria a pena. No muro de onde ele tirou a foto, tinha uma pixação “Você só olha da esquerda p/ direita, o Estado te esmaga de cima p/ baixo”. Importante, a pixação não foi ele quem fez, ele só tirou uma foto em frente dessa pixação, e ele que estava em semi-aberto foi para solitária por 10 dias por conta disso. Continua…
2016, janeiro. Na manhã da quarta-feira, ele saiu da casa da mãe, no morro da Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio, para comprar pão com três reais no bolso da bermuda e uma tornozeleira eletrônica à vista. No caminho foi abordado por policiais da Unidade da Polícia Pacificadora (UPP) que afirmam ter encontrado com Rafael uma sacola de mercado com 0,6 gramas maconha, nove gramas de cocaína e um morteiro, um tipo de foguete usado entre os narcotraficantes para alertar da presença de policiais. As apreensões constam no laudo policial, embora as assessorias da UPP e da Polícia Civil excluam a cocaína da lista.

Rafael afirmou que os agentes o conduziram a um beco onde foi agredido e ameaçado para que revelasse informações sobre o tráfico local. Se não o fizesse, relatou o jovem, os policiais o incriminariam colocando nele uma arma e drogas. “Dez minutos depois dele ter saído de casa, uma vizinha chegou dizendo que estavam batendo em Rafael e que ele não tinha nada nas mãos”, relata à mãe, Adriana de Oliveira Braga, catadora de latinhas. A senhora, de 46 anos e mãe de sete filhos, correu para encontrar seu filho, mas ele não estava mais na rua. “Encontrei ele algemado na sede da UPP. Ele não tinha envolvimento com o tráfico, mas os policiais não gostam dele, disseram que era bandido”. Apesar da suspeita levantada pela defesa de o flagrante ter sido forjado pelos agentes, um juiz decretou sua prisão cautelar e afirmou na sua decisão que “o indiciado tem a personalidade voltada para a prática delitiva”. Ou seja, bandido contumaz. Rafael foi acusado de tráfico de drogas, associação com o tráfico e colaboração com o tráfico, crimes punidos com até quatro anos de prisão.

Ele já teve a primeira audiência em que a súmula diz que o fato de não ter prova concreta contra ele, o fato de só ter prova oral, de depoimentos de autoridades policiais não desautoriza a condenação”. O que, na prática, determina que a palavra dos policiais que forjaram o flagrante é prova suficiente contra Rafael, como na primeira vez em que foi preso.
A gente tá trazendo esse assunto hoje, por que hoje mesmo.

Rebeca: Foi hoje, teve uma audiência de instrução do caso dele.

Ju: É então, por isso que a gente levantando visibilidade para isso.

Cris: Até porque tem muito tempo, desde 2013 que isso tá rolando.

Ju: É exatamente, é que assim foi sucessão de casos e ai o que eu queria com calma conversar com a Rebeca e a gente trazer alguns pontos. Falar um pouco sobre flagrante, falar um pouco sobre seletividade da lei. Principalmente para gente começar assim: Toda essa história que eu contei, a gente teve alguns cuidados na seleção das palavras e tudo, por que no final do dia você fica entre: você disse e você disse. Então eu não vou aqui, assumir que o policial mentiu, nem assumir que o menino mentiu. Tá?

Rebeca: Sim.

Ju: Vamo partir do ponto de que bom, se eu não sei, qual é o problema dessa posição quando a gente fica nessa posição de que é uma palavra, a palavra do policial contra a palavra do menino. Qual é o conflito que a gente tem quando a gente está nessa situação.

Rebeca: Eu acho que esse caso é um resumo de vários problemas e fracassos do nosso sistema de justiça criminal, assim, são tantos simbolismos reunidos numa história só, que é até difícil saber por onde começar.
Mas a própria versão da polícia, ela se contradiz. Por que quando, você faz o perfil do Rafael, né? Um menino que morava na rua, usuário de drogas, nãnãnãnãnãnã, e você prende ele por participação num protesto, ele não tinha o perfil alguém que estaria envolvido, engajado naquele tipo de movimento, naquele momento em junho, enfim, que foi toda uma explosão de gente que já vinha mobilizada de alguma forma e teve aquela catarse no dia 20 de junho. Ele realmente, assim, a primeira coisa absurda é ele ter sido condenado, criminalizado por ter participado de um protesto, sendo que ele não tinha nenhum histórico de militância e nenhuma conexão com nenhum movimento que estava nas ruas aquele dia.

Rebeca: Então já começa daí essa segunda prisão dele por tráfico de drogas, ela reúne também uma boa parte dos problemas que a gente tem hoje. E que resultam tanto no alto índice de letalidade por parte da polícia, quanto no alto índice de encarceramento que a gente tem no Brasil hoje. Que é o uso dessa narrativa da guerra as drogas da prisão do traficante como grande inimigo público ameaça, maior perigo de todos e que justifica você encarcerar jovens, negros, moradores de periferia, que são enquadrados nessa… é traficante é suspeito de tráfico ou acabam assassinados ou acabam presos. Então se você olhar o perfil dos quase 600 mil presidiários que a gente tem no país hoje, boa parte tá lá, por crimes relacionados a tráfico de drogas, muitos desarmados, muitos presos provisoriamente esperando uma audiência de custódia, muitos sem nenhum histórico de outros crimes violentos, então talvez pequenos furtos e tal mas nada com arma, nada de crimes contra a vida, ao mesmo tempo que menos de 8% dos homicídios são investigados e levados à justiça no Brasil. Em um país que a gente tem quase 60 mil assassinatos por ano, então você tem um monte de gente presa…

Ju: É priorizar né? Onde está a nossa prioridade?

Rebeca: Assim você tem na pratica, eu chamo isto de gestão penal da miséria. Você prende, pessoas pobres, que por algum motivo o sistema não deu conta ou que estão morando na rua ou cometendo pequenos delitos. Mas que não são a maior ameaça, por que não estão cometendo crimes contra a vida, por que essa só 8% desses crimes são de fato investigados e levados à justiça e as cadeias estão superlotadas de pequenos traficantes, de mulheres que se envolvem no tráfico por um motivo ou por outro, de jovens que não tem muita perspectiva e acabam entrando nesse role. E o caso do Rafael é assim, uma sequência de absurdos, e essa última prisão acaba sendo justificada nessa narrativa que também justifica a morte diária né todos os dias a gente recebe notícias, de confrontos entre aspas, de ações da polícia que acabam em pessoas mortas por balas perdidas né? A bala perdida sempre tem endereço certo, nas favelas e nas periferias então, é uma história que puxa um fio de uma meada você vê o buraco que a gente tá em relação ao nosso sistema de justiça criminal mesmo.

Ju: Vamos falar, primeiro sobre prisão em flagrante. Porque eu acho que aí a gente tem um bom nó, né? A gente até colocou na pauta uma coisa que eu acho interessante por que justamente até por quem falou né? Se discute se o flagrante foi forjado ou não quando na verdade nunca vamos ter certeza sobre isso por que é a palavra de um contra o outro. Mas podemos questionar a forma como os flagrantes são feitos no Brasil, onde o depoimento da polícia é o único que vale pra identificar um criminoso hediondo, e o interessante de pensar isso é que quem tá falando é um delegado, é um delegado é um policial que tá falando isso, ele tá falando tá errado, tá errado, tá muito errado isso.

Cris: É uma palavra contra a outra né? O que que faz uma palavra ter mais valor pra um do que pra outro?

Ju: Não e principalmente assim pensa o seguinte, o policial ele é avaliado pela quantidade de prisões que ele faz, então não importa qual o crime. Até vamos sair da droga, vamos pra essência do que tá errado tá? Qualquer que seja a coisa, se eu vou ser avaliada pelo número de PPTs que eu fizer e pela qualidade deles, não posso ser eu que vou dizer quantos eu entreguei, que vou definir qual é a qualidade tipo… não pode ser né? Se ele tá pressionado por isso ele tem que bater o número no final do mês, e vale a palavra dele… qualquer pessoa pode ser presa em flagrante se vale a palavra dele.

Rebeca: É tem todo um sistema que leva o policial o agente a agir da forma como ele age né? É óbvio, tanto de subir o morro despreparado com armas velhas, sem munição como acontece. Outro dia teve uma estória da galera subindo de kombi ali no alemão.
você ouve umas coisas que você fala meu deus, então tanto deste ponto de vista quanto do que você tá colocando assim de, não ter uma investigação de não ter uma perícia, de você ter que confiar… os caras eles adulteram cena de homicídio né? De plantar arma na mão da vítima que já tá morta, plantar drogas. A gente fez uma investigação ano passado, a gente investigou nove mortes, decorrente de intervenção policial na comunidade de acari. As nove apresentavam indícios de execução, as vítimas já estavam rendidas, foram executadas pela polícia. Na sequência alguma adulteração da cena do crime foi feita pra criminalizar essas vítimas, e a sociedade meio que permite essa criminalização, por que acha que quem mora naquele lugar onde acontece o tráfico de droga, onde tem arma, pode ser um problema. Então existe uma cultura que permite que o sistema atue desta forma.

Ju: Mas era isso que eu queria… eu queria falar sobre o buraco, por que o buraco onde passa boi passa boiada. Então como que acontece hoje? A regra como ela tá ela é usada, essa brecha na regra. Que é, o policial a palavra dele poder ser o suficiente pra me enquadrar num crime hediondo, ela é usada contra quem não tem muita voz pra defesa, não vão usar contra a Juliana, por que se fizerem isso tem muita gente que vai vir me defender enfim, o barulho vai ser muito grande a dor de cabeça vai ser muito grande convém não ok? Então eu uso contra o mais despossuído eu resolvo a minha meta lá, eu resolvo o problema dou satisfação pra quem eu preciso. Ok. Mas o que eu quero falar é o buraco, por que hoje ele não tá usando contra mim, mas o buraco tá ali, se um dia por algum acaso for interessante que isso seja usado contra mim, pode ser… por isso que eu quero que assim antes de mais nada, depois a gente entra no profiling, mas antes de mais nada vamos falar do buraco? Por que se o buraco hoje… essa arma tá apontada pra esse menino hoje? Amanhã tá apontada pra você.

Rebeca: É toda essa discussão que aconteceu com a condução coercitiva do Lula…

Ju: Isso exatamente…

Rebeca: Sem entrar no mérito político né? Houve um abuso judicial a gente pode dizer que houve. Agora esse tipo de abuso judicial acontece todo dia, toda hora em lugares que a gente não tá sabendo não tá vendo, o que aconteceu com o Amarildo, foi um caso extremo de condução coercitiva ele foi levado a força pra depor e sumiu, foi torturado o corpo dele desapareceu e nunca foi encontrado então esse tipo de abuso judicial de, falta de direito ao processo justo, falta de direito de ampla defesa, de perícia investigação apropriada, proteção a testemunha. São coisas muito importantes, e de você ter de contar com uma defensoria pública que nem sempre tá disponível, que várias vezes tá sobrecarregada, a diferença que faz você poder pagar um advogado e não poder pagar um advogado no Brasil. Isso faz toda a diferença sobre o seu destino e mesmo podendo pagar o tempo que isso pode demorar, e o quanto isso pode custar da sua vida por que o sistema ele de fato, ele não funciona direito, ele funciona muito menos pra quem é pobre. Muito menos. Então se por uma questão da gente ser branco de classe média, a gente já tem menos chance de ser enquadrado nesse sistema, mesmo que a gente seja, a nossa chance de sair razoavelmente vivo, ileso ou mais inteiro desse sistema, ela é muito maior.
A mesma coisa, a mesma lógica você pode aplicar pra quem é vítima direta da violência. Por exemplo: uma mãe de um menino que é da favela que perde o filho assassinado pela polícia, ela vai ter que enfrentar uma luta contra o estado por justiça. Ela vai ter que depender do próprio estado pra obter justiça em relação ao crime que o estado cometeu contra a família dela. Quem perde um ente querido num episódio, num assalto, não tô querendo comparar a dor. Tô dizendo que uma família de classe média ela vai poder parar de trabalhar talvez, ela vai ter um amparo psicológico, ela vai conseguir refazer a vida, vai… é difícil falar disso mas é real, o que eu vejo essas famílias que perdem os filhos elas não tem o menor apoio…

Cris: Tem que trabalhar no outro dia.

Rebeca: Tem que trabalhar no outro dia, não pode fazer um luto de dois dias senão perde o emprego, e se perder o emprego como é que fica os outros filhos? E são mulheres que vivem esse luto muito sozinhas, isso desgraça uma família inteira. E o estado é incapaz de dar conta, de apoiar essas famílias então quem não tem dinheiro, é esse tipo de violação, dentro do sistema de justiça criminal é um preço muito muito alto pra essas pessoas. Fora o fato delas viverem no meio do fogo cruzado diariamente quando de fato acontece alguma coisa próxima a elas é… é assim um nível de injustiça, que a gente tá vivendo no mesmo tempo e espaço que isso acontece no Brasil é realmente de se fazer pensar sabe? A gente tá perdendo uma geração aí uma potência.

Peu: Faz alguns anos que eu trabalho como jornalista, e poucas vezes eu li um boletim de ocorrência que explicasse com nitidez como um crime aconteceu. Inclusive das vezes que fui fazer um boletim de ocorrência, também tinham absurdos no boletim de ocorrência assim… a gente tá numa semana que é importante levantar, e tem a ver com o tema que são os dez anos dos ataques do PCC. Os crimes de maio, e foram mortos 505 civis, no período de duas semanas. E em alguns desses casos, cerca de duas dezenas de casos, eram policiais da ROTA que estavam envolvidos, sempre um tenente coronel se eu não me engano, cinco soldados, enfim era uma equipe que estava envolvida na maioria das mortes. Em todos os casos era alegado no boletim de ocorrência que foi uma troca de tiros, e os meliantes foram alvejados nessa troca de tiros. E na maioria dos casos, os carros geralmente tinham perfurações na lateral e na traseira, e as pessoas eram executadas com tiros no peito e na cabeça. Enfim isso por si só já mostra a contradição, muitos desses casos dez anos depois não foram investigados. Eu fiz uma matéria essa semana, e eu posso falar por que ela estará no ar provavelmente vocês já terão o link. Eu fui em algumas dessas, dessas cenas de crime dez anos depois, claro que quando você junta PCC, polícia e assassinato na mesma frase na periferia de São Paulo, você não vai ser muito bem… ninguém vai te chamar pra tomar um café em casa depois que você fala essas três palavras e é disso que você quer tratar. Mas um dos casos eu achei uma família, e o pai dessa família foi muito enfático em falar que ele não queria… foram três primos que foram assassinados. E ele não queria voltar nesse assunto por que a mulher dele nunca mais foi a mesma desde que o filho morreu e que falar disso mesmo dez anos depois desestruturaria de novo a família. E é um pouco do que a Rebeca tá falando, das perdas e de como as coisas passam as pessoas precisam empurrar isso do jeito que dá.

Peu: Elas não tem acesso , muitas vezes, a um tratamento especifico porque você perder um filho numa idade de 20 anos indo pra uma vida adulta, indo.. deve ser um choque assustador.

Ju: É um investimento de muito tempo, né?

Peu: Eee.. não, mas..

Cris: É um amor. Ainda mais assassinado pelo estado né gente

Peu: E nas circunstancias em que foi, sabe?

Cris: Eu queria chamar para um ponto aqui que é o seguinte, quando a gente ouve essa série de ocisas acontecendo muitas vezes o que passa na nossa cabeça é assim, principlamente no caso do Rafael, voltando um pouco pro caso dele é: gente, não é possível.

Peu: Sim

Cris: Ta faltando dado nessa informação. Esse cara não pode ser simplesmente ta passando por isso sem ter culpa

Ju: Qual o interesse do estado em fazer isso com ele, não pode ser perseguição.

Cris: Sabe? Porque Rafael, né? E outra coisa, a gente não pode demonizar a policia, a policia não é o demonio, o demonio é o sistema que faz com que isso aconteça, impodera dessa forma o policial

Ju: Poder sem responsabilidade, corrompe.

Cris: Chancela o profile para as coisas acontecerem.. então assim, a gente já fez um programa inteiro sobre violencia policia, quando a gente trouxe, inclusive, a visão deles que são pouco capacitados, ganham pouco.. então, assim..

Ju: tem medo..

Cris: Existe problema para todos os lados, se tratando especificamente de casos como do Rafael, da propria chacina, a sociedade inteira vai e fala assim “não é tão grave assim, vai.. não é possível que esse cara não tenha culpa”

Peu: Porque é preto, porque é pobre, éé´..

Ju: É morador de rua né, quem se importa, gente? É só um morador de rua.

Cris: É ai que eu queria chegar, sabe. O que que faz com que a gente se preocupe tão pouco com o Rafael, porque que a gente se solidariaza tão pouco com ele? Eu não to falando do policial que pod eou não ter forjado, eu não to falando de nenhuma das situações. Porque que não acaba comigo ele ter passado 10 dias na solitaria? Gente, sabe?..

Ju: Por uma foto né

Cris: Uma foto!!

Ju: Sabe o que eu lembrei? Daquela.. do.. da menina do indias daughter que, na entrevista que o cara estuprou uma criancinha e contou detalhes sorditos do estupro..

Cris: Horríveis

Ju: E a mulher achou.. mas pelamor de.. porque? E ele falou “gente, mas era uma menina de rua, a vida dela não valia nada” né? Então eu acho que tem um pouco disso, assim, na hora que você le me chamou muita atenção, Peu, que o cara que escreveu essa parte de descrição de quem ele é, eu peguei da VICE, de uma matéria da VICE, que fala ele como um coletor da rua, tem uma linguagem super diferente. E na hora, vou te confessar, na hroa que eu li eu falei “pra que esse floreio?” né “o que ele quis dizer com isso?” eu entendia o que queria dizer catador, mas na hora não dava pra entender “porque esse floreio?”.
Depois que eu terminei de ler, eu fiquei com aquilo na cabeça né, de pra que esse floreio e minha reação a isso. Falei “como você é hipocrita Juliana. Por sabe o que você é? Você é uma pptezera, sua ridicula, e você não fala isso para as pessoas, você fala que você é Planner” entendeu? A gente faz isso o tempo inteiro de se olhar pelo melhor angulo, pelo angulo mais romantico, pelo angulo mais favoravel nananan.. mas pra ele não, ele é o cara da rua, não precisa de glamour pra falar dele, fala que ele é da rua, entendeu?

Peu: Uma vez eu fui fazer uma matéria com coletores de lixo, eu fiquei no caminhão por algumas horas trabalhando, e chama um coletor de lixo de lixeiro. Você vai ter uma reação muito.. só que ele já são instruido a já te ensinar né, ele vai dizer “não, lixeiro são vocês. Vocês produzem o lixo, a gente é coletor.”

Cris: Nossa, que sensacional!

Ju: Parabéns.

Peu: Ai eu acho que, assim, eu acho que esse floreio tem que ser dado pra qualquer pessoa.

Ju: Claro

Cris: Não é floreio…

Ju: Não, é isso que eu entendi, Peu, eu entendi que essa deferencia não é que tem que ser, a gente da pra todo mundo e só me estranhou ser dado pra ele. O preconceito já tava implicito, entendeu?

Peu: Eu to terminando de ler o livro dos obituarios da New York Times, eu escrevo bastante obituario na VICE, na real, e o Guilherme Santana que me emprestou esse livro ele ta muito puto que eu amassei o livro, vou pedir desculpa aqui pra ele.
O lance desses obituarios, e ter se tornado uma pagina nobre no jornal, é o fato de florear, florear no bom sentido, de fazer o bom jornalismo independente de quem seja, independente do personagem que cê ta descrevendo. Você pode contar uma boa história em qualquer lugar, mas, assim, é importante que se humanize os personagens. A gente tende mesmo a tratar como..

Ju: Desumanizar né

Peu: Desumanizar e passar um..

Ju: Não, sabe o que eu acho que é pior? É achar que você já conhece a história,~porque você reduz a pessoa a rotulos morador de rua, crackeiro, né? Então, assim, eu já sei o que que é não precisa contar a história dele, porque eu já sei como que é esses moleques que ficam na rua e tocam o terror e assaltam e não sei o que, eu já sei é encrenqueiro. Então quando a policia pegou, o motivo não importa porque no fundo onde que ele pertence? na cadeia mesmo, sacou?

Rebeca: Eu acho que ele foi vitima também, naquele momento em junho de 2013 que a coisa meio que fugiu do controle e o estado não estava preparado, o estado em vários níveis né desde prefeituras, estado, governo do estado e a própria presidência, eles não conseguiram dar uma resposta politica concreta à aquelas manifestações, a unica resposta do estado foi continuar mandando a policia. Foi uma coisa muito louca.
E vem uma narrativa muito forte de criminalizar uma parcela dos manifestantes que usava uma estetica de protesto mais agressiva, que ficou conhecida como blackblock, mas que eu tava na rua eu conheço.. enfim, já sou ativista a muito tempo, é meio ridiculo como a impresa trabalhou aquilo como se eles tivessem, derrepente, virado uma grande ameaça a segurança nacional, como se eles fossem um movimento mega organizado, tanto é que a investigação que fizeram aqui em São Paulo durante 2 anos não deu em absolutamente nada. Não estou aqui defendendo se vocÇe tem que achar legal ou não quebrar vitrine de banco privado, eu até acho legal porque os bancos tão bombando ai.

Peu: É que as pessoas não entendem que a violencia é um ato politico também.

Rebeca: Exatamente, é uma violencia.. não é violencia contra atos. Eu estudo não-violencia a 20 anos, eu fiz vários protestos de invasão, bloqueios de desobediencia civil e você quebrar uma coisa privada não necessariamente é um ato de violencia, você não ta atingindo um animal, uma pessoa, você não ta causando dano a nada vivo, você está destruindo um objeto inanimado.

Ju: Jorge Vascas infarta agora!

Rebeca: Mas é, mas é! Eu só to colocando aqui porque eu estudo isso, tem um livro muito bom do Marco ?? sobre a história da não violencia que ele faz toda essa diferenciação, não sou eu que estou inventando. Mas independente do que você acha disso, não gosta de pixação, degradação de patrimonio, independente disso nada justifica a criminilização e a tag de terrorista e ameaça de segurança nacional que foi colada naquele bando de meninos que nem era tão organizados assim, que não tinham granas, sacou? E que derrepente foram alçados e que se justificou toda uma repressão em cima deles, desproporcional, e que o Rafael ele acabou naquele momento tipo tando no lugar errado, na hora errada, com a cara errada, com a garrafa errada.

Ju: E sendo a vitima perfeita!

Rebeca: E sendo exatamente, eu odeio esse termo, mas é o bode espiatorio perfeito e aquele contexto que foi criado “precisamos dar uma punição exemplar pros meninos pararem de quebrar vitrine de banco” ele era um alvo facil, justamente porque?..

Ju: Não tinha quem gritasse por eles.

Ju: Então, mas eu queria muito que, assim, pra gente aproveitar falando disso, você falasse um pouquinho pra gente assim: se esse jeito de prender por flagrante dessa maneira, se o flagrante no Brasil ta complicado, se o questionamento enquanto sistema é o flagrante, é esse instrumento, como que é feito em outros lugares do mundo? Como poderia ser melhor feito no Brasil?

Rebeca: Bom, eu não sou especialista em segurança publica ent…

Ju: Então, mas qual é a proposta?

Rebeca: Mas acho que existe uma falha na forma da policia operar, a policia no Brasil, principalmente a policia militar, mesmo com a redemocraticação, com o fim da ditadura, não houve uma reforma na maneira como a policia atua. Então a policia é muito orientada pra fazer um controle social de determinados grupos que são percebidos como maior ameaça, e no Brasil isso ta muito vinculado a pobreza e alguns territorios que históricamente existe um vácuo maior do estado, um maior acumulo de pobreza, o varejo do mercado de drogas acaba ocupando, é um mercado armado, vem a policia, gera essa situação de guerra e assim por diante.
Então, a gente não fez essa discussão, a gente tem um modelo de segurança publica que incentiva que a policia invada, com armamento de guerra, areas densamente populadas em busca desses vendedores de determinadas substancias que foram criminalizadas. Essas substancias criminalizadas não são produzidas nessas favelas, nem essas armas são produzidas nessas favelas, então porque que o foco da politica de segurança publica é todo nas favelas e não nas fronteiras ou no controle das armas e da municação que precisa.. quem é que vende e como é que essa droga que é quase toda produzida fora do Brasil chega nas favelas do Rio, na periferia de São Paulo, no interior de Minas, em Salvador.. porque que a inteligencia.. porque que a gente não gasta mais, investe mais em inteligencia, em identificar o fluxo do dinheiro, já que a gente ta falando tanto de corrupção, o trafico de dorgas é uma grande fonte de corrupção que a gente não tem nem como hackear nem trackear com a Lava Jato, porque não vai dar, porque é tudo obscuro.
Então, assim, porque que a gente não ta investindo nisso? Não, a gente insiste nesse modelo de invadir com operação policial e crimininalizar determinados territorios que concentram o varejo dessas substancias que foram criminalizadas em algum momento da história, não por motivos cientificos e sim por motivos sociais e de preconceito. E ai a gente pode falar um pouco sobre drogas, porque eu acho dificil a gente falar sobre porque que a policia age desse jeito, descolado da questão da politica de drogas e da guerra as drogas que nos ultimos 30 anos vem sendo exercida de uma forma cada vez mais repressiva, então essa repressão que vem com essa narrativa da guerra as drogas ela explica muito esse numero enorme de flagrantes, de pesoas não violentas encarceradas

Rebeca: …dessa alegação de confronto… é porque qualquer coisa você diz que o cara era traficante pronto, tá justificado, você pode fazer o que você quiser com ele.

Cris: uma coisa que eu queria te perguntar e ajudar a deixar bastante claro e você deve estar cansada de ouvir, todos nós já ouvimos, as pessoas falarem assim: os direitos humanos é pra isso aí ó… direitos humanos defende é bandido.

Ju: Direitos humanos pra humanos direitos.

Cris: Isso! Eu queria deixar bem claro, queria que você ajudasse a gente a entender qual que é o trabalho que as pessoas que trabalham com anistia e com

essa série de estudos que você faz, o que que essas pessoas fazem, o que que elas defendem, elas defendem bandido?

Rebeca: Não a gente defende direitos humanos para todos os cidadãos brasileiros e os cidadãos de outros países, isso não necessariamente está alinhado ideologicamente, as pessoas tem uma tendência… “ahh que é o pessoal progressista”, não… a gente acha que as leis e as políticas públicas, elas tem que garantir direitos mínimos iguais pra todo mundo, independente da classe social, da raça, da cor de pele, do gênero.

Então quando a gente fala de direitos sexuais reprodutivos, por exemplo, direito ao aborto pra nós é um direito humano, um direito da mulher decidir sobre o seu próprio corpo e sobre a sua própria saúde, quando a gente fala do direito à justiça e ao processo legal, ao processo com ampla defesa, com investigação, com perícia… é um direito humano de todos.

Tenha você cometido um crime ou não, é muito fácil a gente falar disso quando não está envolvido, agora acontece com alguém da sua família, você tem um primo que foi envolvido num rolê errado ou irmão, eu conheço gente que teve irmão preso e que falava isso e quando sentiu na pele o que é o sistema carcerário, o que é o sistema judicial falou: Não, peraí… eu preciso de um… meu irmão precisa ser minimamente protegido afinal a gente não tem pena de morte oficializada no Brasil, né?

Afinal de contas a constituição garante o amplo direito de defesa a todo mundo até que se prove que a pessoa é culpada, então esse processo de como as pessoas são julgadas, culpadas ou inocentes, ele é muito muito falho, e o resultado depende muito da sua classe social, então é muito injusto, está ligado a outros direitos que são os direitos sociais.

O direito a transporte, direito a moradia, direito a saneamento são direitos sociais mas que também são direitos humanos você tem direito a ter água limpa, você tem o direito humano a respirar um ar de qualidade. Então os direitos humanos eles são amplos, existe a declaração universal dos direitos humanos, quem quiser em detalhe entender o que que compreende essas leis de direitos humanos eu sugiro que leia, tem uma série de organizações no Brasil que trabalham com essa pauta, a anistia é apenas uma delas.

Cris: É eu acho que tem uma coisa que tem que ficar muito claro na cabeça das pessoas, que é: Quando você mata um assassino, você não está trazendo uma outra vida, você está gerando um assassino… você!

Rebeca: É, e vingança é diferente de justiça né… eu acho que o direito humano ele aparece muito nisso né, a justiça ela é para todos a vingança ela não é o caminho mais justo mesmo… você vai acabar gerando outras dores e outras injustiças no caminho da vingança e acho que esse é um discurso que está cada vez mais difícil no Brasil.

Porque as pessoas elas estão muito imediatistas, elas estão muito vingativas no sentido que elas se sentem muito oprimidas e elas querem descontar naquele que as atinge imediatamente, que é uma punição, é um sentido punitivista muito forte no Brasil.

Cris: Resumindo o caso, Rafael, o que que nós desejamos, a Receba que trabalho com isso, a mesa, outras pessoas que estão nos ouvindo. Ninguém aqui está falando que ele é inocente, não tenha cometido nenhum crime, o que nós gostaríamos que acontecesse é que ele tivesse um julgamento justo.

E até voltando no que a Juliana estava falando sobre hipocrisia, recentemente um monte de gente comentou sobre o Make a Murder, que é um seriado que tem no Netflix sobre um homem extremamente injustiçado. A galera no Brasil ficou louca, escreveu carta pro Obama, pra todo mundo… “como assim vocês deixam esse cara preso, está mais do que claro que ele não teve um julgamento justo”.

Então assim, o que a gente quer é… e eu acho que é isso que muito os direitos humanos busca, um julgamento justo. For comprovado que ele cometeu um crime, ele cumprir uma pena com o mínimo de humanidade dentro desse local onde ele vai ficar encarcerado pra depois você colocar de novo na sociedade.

Peu: Então mas já foi comprovado no caso do “Pinho Sol” que ele é inocente, então foi virando uma bola de neve… que ele era inocente do primeiro crime, ele continuou preso, novamente ele foi punido por uma foto… que não é um crime, ele ter postado uma foto, isso prejudicou ele no encarceramento que ele já estava e depois disso, ele já no semi aberto, ele foi encontrado de novo por policiais, não tô entrando no mérito se ele estava ou não com a sacola com as drogas, mas ele era inocente no primeiro crime.

Então assim, já está errado, já está errado… a gente pode blz, entrar no mérito: Ahhhh talvez ele tenha feito alguma coisa, mas cacete está errado, primeiro crime já comprovou que ele não era culpado e a gente está passando um pano, a gente está tipo levando as nossas vidas e ninguém está preocupado com ele.

Rebeca: Se ele não cometeu nenhum crime violento será que a melhor solução pra ele é ele ficar encarcerado? Que é o jeito mais caro da gente manter uma pessoa, a gente que paga esse absurdo de encarceramento, maus tratos, de tortura às vezes, de pessoas que não vão sair de lá melhores e nem ressocializadas.

Então acho que é um questionamento que a gente não está fazendo também e que acaba alimentando todo esse ciclo de exceção… é meio que a regra… a exceção virou a regra no sistema aqui né? Que é, tipo assim, essas pessoas o que vai adiantar a gente prender todo mundo? A gente não tem como fazer essa gestão penal da miséria gente.

Ju: É que na verdade quem acaba ficando preso somos nós.

Rebeca: Exatamente, muros mais altos, blindados e câmeras, elas não signifcam lugares mais seguros, pelo contrário né, por algum motivo você precisa de tudo isso, então eu acho que as pesssoas estão meio iludidas achando que prendendo todo mundo, encarceirando, a gente vai resolver alguma coisa, não! A gente só vai aprofundar essa segregação social que existe esse trauma entre uns grupos que são afetados por esse sistema numa forma desproporcional, como é o caso do Rafael.

Peu: Queria acrescentar uma coisa nessa discussão, porque a gente está falando sobre o policial. O policial que está ali na função, a gente precisa, eu sei que isso pode ser um tema pra uma teta, pra um outro programa e tal, mas… a gente tem que discutir esse policial mais amplamente.

Seguinte, a gente tem um polícia que é sabidamente corrupta, a gente tem uma polícia que é sabidamente violenta, a gente tem uma polícia que todo… aquilo que a gente estava falando sobre os boletins de ocorrências forjados.

Vocês já sabem, acho que estou ficando até meio patético falando disso aqui, que eu cresci numa periferia, mas eu vou ter que falar de novo: Eu cresci numa periferia e a visão que o policial passa numa quebrada ela é assustadora. Eu saia de casa e, acho que eu já falei isso aqui né, minha mãe me falava toma cuidado com a ROTA, porque eu já falei, os traficantes eu conhecia, as pessoas que tinham o movimento eu sabia quem eram, eles não iam fazer mal porque eu era morador.

A única vez que eu tomei um tapa na cara que me oprimiu foi um policial, então a partir do momento também que você se presta a ser um cão de guarda do estado sem você julgar essas ações, sem você entrar no mérito do que é aquilo que você está fazendo, a partir do momento que você se presta a esse serviço você também é uma peça, a gente também fala: Não é o policial o nosso inimigo, mas a partir do momento que o policial se presta a cometer esse ato de violência contra um menor estudante…

As fotos que foram publicadas dos estudantes nos protestos da CPI das Merendas, daquele policial tentando enforcar a menina, a partir do momento que ele se presta àquilo ele é também uma parte do problema.

Ju: Posso falar só uma coisa que você vai entender muito bem?
Quando o moleque aponta uma arma pra mim, a gente fala: Muda a realidade que muda a arma que ele aponta pra mim.
Eu te digo a mesma coisa em relação a um policial, muda a realidade que muda o jeito que ele trata o moleque entendeu?
Então não fala dele, fala da realidade, fala do sistema mas não fala dele.

Peu: Mas a discussão a gente tem que partir de um outro ponto, a gente precisa mudar a polícia que a gente tem.

Ju: Sim, mas fala do sistema, não o policial.

Cris: É o sistema, é o sistema.

Rebeca: Eu acho que tem uma questão aí que você coloca que é muito real assim, o sistema ele é feito de uma forma pra brutalizar essas pessoas. Meio que tirar a capacidade de empatia né e eles são treinados pra isso.

Ju: Essa coisa do serviço, que ele está lá pra proteger e servir.

Rebeca: É mas o impacto que isso tem, a gente…. é muito subdimensionado, saíram umas pesquisas recentes que assim, um em cada cinco policiais do estado de São Paulo já pediu afastamento por causa de transtorno mental.

São muitos casos de síndrome do pânico, de depressão, de dependência… porque o cara fica doente, ele não dá conta, a natureza dele não é aquela. Mesmo que ele tenha sido brutalizado no treinamento, muitos casos de suicídios, muitos casos de suicídio. Então assim, o que é o problema é assim: Você pode ter 80% da tropa sejam bons soldados, mas pra eles sobreviverem dentro daquela estrutura eles tem que… eles vão acabando né… ou eles saem porque eles ficam doentes, ou eles morrem ou eles se matam, ou eles entram um pouco no jogo porque é o jeito de você sobreviver…

Rebeca: porque existem muitas…

Ju: Fora isso, poder corrompe

Peu: Por isso que eu to falando

Ju: Por isso que eu tava falando da regra, por que é isso, se te dá o queijo e a faca na mão é muito difícil, não dá pra exigir de uma pessoa a perfeição. Ou o super controle, ou…não tem que tá na mão dela, a regra tem que ser melhor.

Peu: Mas…

Rebeca: Mas, tem uns psicopatas, né?

Ju: Claro que tem

Cris: Tem mas é a minoria.

Rebeca: Por que é o que ele tá falando, tem uns batalhões que há 20 anos matam 30% a mais e que tem o mesmo coronel lá há 30 anos.

Peu: E pessoas são eleitas com esse discurso.

Cris: Sim, Nós temos problemas pontuais

Rebeca: Ai já cria ali, exatamente, eu acho que são os dois âmbitos: o sistêmico e os núcleos de problemas

Peu: Mas o que eu to discutindo é o seguinte…

Ju: Não, mas ai os núcleos a gente ai falar também dos psicopatas que são, assim…Você não julga o Rafael Braga pelos psicopatas e você não julga policial pelos psicopatas. Psicopata tem pra todo lado, mas não é isso que a gente ta falando…

Peu: Mas o que eu to te falando é o seguinte o policial que acaba se brutalizando, ele é a parte do problema, é isso que eu to falando, não to falando que todos os policiais são assim.

Cris: Na verdade eu acho que ele é vitima do problema

Peu: Mas vitima ou não, ele é parte do problema.

Cris: Ele é opressor e oprimido

Peu: Vitima ou opressor, ele é parte desse problema. E é esse problema que a gente tem que discutir, é a forma como a polícia age.

Cris: Eu acho que o foco aqui, principalmente nesta discussão é a gente encerrar, reforçando essa história: Que o direito humano é para todos os humanos.

Peu: sim!

Ju: Policiais…

Cris: Um julgamento justo são para todas as pessoas. Para o policial que talvez tenha forjado.

Ju: Exatamente.

Cris: Pro Rafael que…

Ju: Que não pode ser considerado culpado, antes que tenha prova contra ele, por exemplo.

Cris: Exatamente.

Rebeca: Mas acho que a única diferença que é importante a gente manter, assim o policial é um funcionário do Estado. Esse mandato que ele tem de carregar uma arma e
implementar a lei e a ordem, ele recebe de nós, como a gente remunera ele e o Estado. Então, assim, ele age em nosso nosso também.

Ju: A gente abriu mão das nossas armas para ele. É mais do que isso,

Rebeca: A gente dá esse mandato.

Ju: Eu não ando com arma na rua, por que eu dei a minha pro policial. A arma que ele aponta para mim fui eu que dei. Eu dei a minha [arma] para ele.

Rebeca: E é assim, como não existe um controle social efetivo sobre a polícia, de fato, não existe. É uma polícia altamente violenta e racista. A gente convive com uma situação de um certo descontrole. Porque eles tem esse mandato e ao mesmo tempo não existe controle social, nem nosso e nem do próprio ministério publico que tem por lei a obrigação de fazer isso. Então eu acho que existe um problema, sim, de pessoas que fazem uma escolha de fazer uma carreira e usam isso em beneficio próprio, como tem em todas as carreiras. Mas no caso da polícia, por eles terem a carta de matar é complexo, entendeu?

Cris: Custa uma vida, né?

Ju: Sim,
Rebeca: Então assim, de fato, eu não comparo um policial com o Rafael Braga. O poder de dano do Rafael Braga para a sociedade ele sendo ou não usuário de droga, porque essa também é uma história x. Eu não vejo usuários de droga e moradores de rua como um problema, eu vejo um policial assassino e que forja provas como um problema muito maior.

Ju: É que no caso dele é ruim o exemplo, porque ele não era um bandido de alta periculosidade.

Rebeca: Ele não é uma pessoa violenta.

Ju: É, exatamente.

Rebeca: Isso, não da pra você comparar.

Ju: Aí não compara. Não, mas é que, do jeito que o Peu tava falando, você tem que comparar o policial com um delinquente. O policial delinquente com um delinquente fora da força armada.

Rebeca: E a gente tá falando de um país que pelo, assim, em média, vamos dizer, é muito difícil porque não tem um dado oficial, mas de 15% a 20% do total de assassinatos eles estão ligados a agentes das forças de segurança. É muito.

Cris: É, não, isso eu não tenho dúvida que a polícia é muito violenta

Rebeca: Então assim, você tem uma boa parte da barbárie começa dentro do próprio Estado.

Ju: Sim, a gente falou sobre isso.

Rebeca: Então como é que o Estado vai cobrar do maninho da quebra que não seja violento. Entendeu? Então assim fica complicado

Cris: É o Geraldo Alkiminn que vai lá

Rebeca: É o Estado que tem que dar o exemplo.

Cris: É o chefe do estado que pega o choque e manda tirar secundarista. Então assim,

Peu: E é o chefe do estado que questiona a torcida organizada por ser violenta.

Cris: Perai que a gente vai pra próxima pauta.

Ju: É e ai, só pra encerrar, então, de novo isso não foi uma teta. Quem quiser saber com profundidade sobre esses assuntos, recomendo escutar o nosso programa sobre violência policial e o programa que a gente fez sobre drogas que a gente falou sobre politica de drogas, sobre encarceramento, fizemos um bom apanhado. Então pra aprofundar escutem esses programas.

Cris: Vamos então para o próximo trending topics? A gente trouxe a fonte, não foi?

Ju: Diretamente da fonte…

Cris: Diretamente da fonte, a gente vai falar sobre homofobia no futebol. Tá leve esse mamilos hoje!

Ju: Mas é bom esse tema, né? É ótimo esse tema, polemiquissimo esse tema, né?

Cris: O Peu escreveu uma matéria super elaborada, que tá muito bacana. Como é o nome da sua companheira que…

Peu: Letícia Naísa, que escreveu junto comigo.

Cris: Letícia Naísa. Então, Peu junto com Letícia, mandaram mão na caneta e escreveram uma reportagem enorme, super completa, sobre homofobia no futebol e a gente vai conversar um pouquinho sobre isso ai.

Peu: Eu queria antes, falar de mais duas pessoas que participaram ativamente.

Cris: Vamo lá.

Peu: Que é a Verena Antunes que fez as ilustrações e o Guilherme Pavarin que foi o editor e teve muita paciente também. Por que? Esse não foi um assunto que a gente fez em dois dias de apuração, a gente ficou quase 10 dias, duas semanas, ali em cima disso e tentando discutir na real como o futebol é homofóbico em todas as esferas, né? A gente tá acostumado a vamos falar sobre os gritos homofóbicos das torcidas dentro dos estádios, mas muitas vezes a gente esquece de questionar: por que que não, por que que jogadores não assumem a sua orientação sexual, por que os jogadores que tem essa fama de homossexuais são perseguidos, não só pelas torcidas, por que eles não são contratados por grandes clubes, por que que dirigentes ainda tem discursos homofóbicos, por que que a imprensa é extremamente homofóbica.

Ju: Reforça pra caramba

Peu: E reforça os esteriótipos e reforça essa heteronormatividade, é muito importante, assim, eu acho que nessa matéria tá muito sutil, mas uma das coisas que a gente mais critica é a impressa, e é a forma como vira motivo de chacota, assim sabe? Como a sexualidade no futebol é uma eterna 5ª série, sabe?

Ju: Sim, perfeito.

Peu: como as pessoas não evoluíram, não passaram dos 12 anos, no maximo ali, e continuam tratando disso como num tom de brincadeira.

Ju: Um tabu, um medo absurdo, porque é a falha máxima, se você for pego nessa falha acabou a sua moral, você nunca mais vai poder se recuperar, você trouxe vergonha pro seu time.

Peu: Ou a gente aponta na matéria também, o caso do Ronaldo, o ex-atacante, que na época estava no Milan e teve aquele caso clássico na Barra da Tijuca com as travestis. As travestis falavam que ele contratou para o programa, ele fala que não. Como a impressa faz o serviço inverso também, que é levar o jogador na sua casa, sei lá em Angra dos Reis, com uma lagoa gigantesca ao fundo, um barco e gasta 15 minutos no Fantástico com a Patrícia Poeta ali entrevistando e

Cris: Eu lembro dessa matéria demostrava um monte de mulher linda que ele já tinha namorado para reforçar

Peu: Exatamente

Ju: Que vergonha!

Peu: O abre dessa reportagem era mostrar que ele era milionário, que ele era um membro da Unisef, a importância que ele tinha se relacionado com lindas mulheres, meio que para justificar a entrevista, né? Do tipo não, ele não contratou essas travestis.

Ju: Como que você pode falar uma coisa dessas de um homem como este, não é mesmo?

Peu: Exato e a gente relata um outro caso, também que foi o caso do Skeik que deu um selinho no Izac, do Paris 6, e no dia seguinte ele tava no “Donos da Bola” pra se explicar.

Cris: Pedindo desculpas a quem ele tivesse ofendido.

Peu: E ele fala esta frase né?

Cris: Fala, dói né?

Peu: E na época o programa “Donos da Bola” que tem muita piada homofóbica, que reforça muito esteriótipo, os homofóbicos se calaram ali pro Skeik, ninguém obviamente ia ser homofóbico na frente dele. Por que uma das características da homofobia e de muitos outros preconceitos é a covardia, né? Você se cala diante de uma situação, enfim, se calaram, permitiram e apoiaram o Skeik ali. Ele se explicou, mas no centro de treinamento do Corinthians tiveram torcedores que foram até lá, questionar, mandando ele beijar a puta que pariu, falando que ali não era lugar de viado. E ele teve sim, por uma conivência dos dirigentes do clube, uma reunião a portas fechadas com torcedores pra se explicar novamente. Então assim, a partir do momento que a gente tem um jogador que dá um selinho em alguém e ele precisa ir a um programa de TV, ele precisa receber torcedores, a gente uma questão ai sabe?

Cris: Ô Peu, a gente um jogador no Brasil que se assumiu né? Homossexual

Peu: Tem, é o Messi, ele é goleiro

Cris: Messi é ótimo.

Peu: Ele é goleiro de um time muito modesto de Natal, no Rio Grande do Norte, que é o Alecrim.

Cris: Vocês conversaram com ele?

Peu: É, foi.

Cris: E como é que ele fala sobre isso, assim, porque é obvio, ele tem a torcida gritando, a carreira dele não deve ir muito longe e tem os caras do próprio time né?

Peu: Ele fala, primeiro que assim, o jeito que a gente conseguiu falar com ele foi, foi muito curioso assim. Aqueles bastidores da reportagem né? Eu consegui o contato do clube que ele estava e enfim, eu consegui o telefone dele e eu mandei uma mensagem no Whatsapp pra ele e ele falou: “Eu to com dor de dente, eu não posso falar”, ai eu falei, então vai por aqui mesmo. Eu consegui entrevistar ele por Whatsapp, assim, foi bem curioso assim, mas eu não podia fazer uma matéria sobre homofobia e não ter esse personagem, ai eu e a Letícia, abriu o Web Whatsapp e a gente entrevistou ele meio que um do UOL, assim sabe?

Ju: Risos

Peu: É importantíssima essa entrevista para a matéria, porque ela relata tudo o que a gente vem discutindo. E sim, ele não vai jogar num time grande, e ele tem consciência
disso, porque um time grande vai sofrer pressão da torcida.

Cris: Ele é um cara consciente assim?

Peu: Ele tem…

Cris: Milita?

Peu: Não, não…

Cris: Como é que é?

Peu: Ele tem consciência do pioneirismo dele dentro do futebol, esse lance dele se assumir, ele acredita que não, eu talvez queira acreditar que não. Mas, foi um lance também que deu projeção pro clube em que ele estava e isso o goleiro gay do Rio Grande do Norte. Sabe assim? E isso querendo ou não colocou o Palmeira de Goianinha, que era o time que ele tava, como projeção nacional, que talvez o clube nunca tinha tido, nunca tinha sido falado num portal esportivo como o Globo Esporte, por exemplo.

Peu: Ele sabe da dificuldade que ele enfrenta mas… ele não é um cara militante… da causa, ele é um cara que assumiu uma condição e assumiu ser ele mesmo eu acho..

Ju: Mas assim, já difícil até em cinema, no meio artístico que teoricamente não é um…. como é que eu vou explicar isso, mas assim, não é um meio em que você exige tanta virilidade né. Mas agora no esporte, já tem uma coisa mais cultural de ser um espaço maii separado, né? Homens pra cá, mulheres pra cá e aqui é o nosso espaço.

Cris: De provar a força.

Ju: Não só provar a força, mas assim de liberdade no sentido de que ahhh, a gente não tem…. sabe é a válvula de escape, assim eu acho que o futebol de muito isso de válvula de escape, de suspender um pouco das regras, então por exemplo, vou dar um exemplo bem bobo: Quantos pais não tem que não permitem que os filhos falem um palavrão, aí vai pro estádio ou num jogo de futebol mesmo, né? E fala um monte de coisa que tipo assim ele assim, não deixa falar um risco mas no estádio fala o alfabeto inteiro de palavrão sabe. Então tem muito uma válvula de escape de não ter filtro, de não usar as regras de… sociais, de polidez, de educação de nãnãnã, ali é onde vai o ogro, onde vai o homem natural digamos assim né, e esse espaço é um espaço muito é… testosterona no sentido de trazer um pouco o escape pra violência.
Eu acho que uma coisa interessante da gente não desmerecer, não passar por cima é que assim, a violência faz parte da nossa natureza, o jeito de resolver conflitos violentamente faz parte, né. E a gente cerceia isso socialmente em todas as situações, então você não pode dar um soco no seu chefe quando ele te enche o saco, você não pode resolver uma discussão com seu amigo dando um soco, você não pode resolver u discussão com seu vizinho dando soco, você não pode…. e aí tudo isso que fica reprimido, muitas vezes no futebol é gritando, é pulando, é falando bobagem que, de alguma maneira, a pressão sabe, vai sair de algum jeito.
A questão que se está falando é: por séculos foi assim, nos resolvemos assim e foi saudável assim e ok. E hoje a gente já está vendo que talvez tenha outras maneiras de você fazer isso né.

Peu: Talvez não, já passou da hora de se fazer isso eu acho, já passou da hora da gente se questionar no estádio o que a gente grita e o que a gente fala sabe assim, sobre o adversário. No que o torcedor usa pra desqualificar o seu adversário porque o viado, bicha, esses tipos de xingamentos chamar alguém, o gay é usado como ofensa.

Cris: Ridículo.

Peu: Pra ridicularizar, mas…

Ju: É a posição de vulnerabilidade, né.

Peu: Tem uma das frases que o Juca Kfouri, que é um dos entrevistados na matéria, ele afala assim pra gente discutir como a imprensa cobre o futebol ou como a sociedade… né. Pode ver como o humor trata o gay, ou como a gente vive numa sociedade que ridiculariza o gay no humor, ele é um ser ridículo em muitos casos, ainda é a piada da ridicularização sabe.

Rebeca: Mas vocês não acham que é um pouco um reflexo assim, porque… eu gosto de futebol, eu sempre fui em estádio mas quando eu era pequena futebol não era coisa de mulher né, na minha época era…

Ju: Sim, meu pai nunca me deixou ir no estádio por causa disso, eu podia ver na TV, mas no estádio não.

Rebeca: Meu pai já me levava mas eu era tipo a única mulher num raio assim de vários metros de arquibancada e tal, isso foi uma coisa que gradualmente foi mudando e hoje a minha filha faz futebol na escola e é normal e todas as meninas jogam futebol, tem chuteira, tipo… no prazo de uma geração isso virou. Eu acho que com a questão LGBT dentro do futebol que é muito tipo orgulho hétero né, o futebol, é foda assim, é um rolê muito machista, patriarcal, com tudo de mais característico assim e eu sei porque eu tenho uma família de fanáticos em casa, desses que gritam na janela sabe, palavrão, não bastasse gritar em casa meu irmão abre a janela…

Cris: Você mora em Perdizes? (risos)

Rebeca: Não, moro na Zona Sul, mas assim, em dia de jogo eu nem preciso saber porque eu só fico ouvindo então tem essa coisa que é uma coisa meio cultural e que eu acho que a própria realidade e o avanço de todos esses debates em relação a gênero e sexualidade e tal, tem um impacto em todas as áreas, nessa última grande fronteira do orgulho hétero assim que é, acho que é rodeio e futebol né?

Peu: É tipo, não tirem a nossa, é como se você questionasse a homofobia fosse tirar a virilidade, tirar a masculinidade do cara sabe. Tem uma coisa que me chamou muita atenção é que nós tentamos falar com alguns jogadores, nós tentamos fala com o Emerson Sheik que o assessor nem respondeu, nós tentamos falar com o Richarlyson o empresário dele falou que não e eu perguntei porque ele falou, não.

Ju: Esse cara sofreu muito né, Richarlyson.

Cris: Sofre até hoje.

Peu: E temos um ponto aí muito importante pra discutir a homofobia no futebol, ele foi um jogador que, apesar de assumir-se hétero sexual, o que é engraçado né, ele ter que se assumir como hétero é curioso na sociedade em que a gente vive. É o cara ter que ficar reforçando a sexualidade dele, até aparecer uma namorada que pousou nua, umas coisas assim, aí entra o trabalho da imprensa, de na grande maioria das matérias, a foto em que o Richarlyson era mostrado era numa pose entre aspas ridícula, sabe assim?

Ju: Sei.

Peu: Na hora do treinamento em que ele estivesse agachado ou que ele estivesse com a mão que lembrasse uma desmunhecada ou qualquer coisa do tipo. A gente pontuou duas matérias na reportagem que uma é sobre uma época em que ele estava de férias em Bauru, que ele é do interior de São Paulo e ele colocou apliques no cabelo e como a matéria que tem uns cinco minutos mais ou menos aborda isso, falando que foi entrevistar o Richarlyson pra falar dos apliques do cabelo dele, porque que ele tinha colocado apliques.

Ju: Mas é a patrulha hétero né.

Cris: E aí ele teve que tirar, maaaaano.

Peu: Mas aí tem mais do que isso, e aí entra também o despreparo do atleta né, porque ele justifica os apliques dele com aquela resposta mais formulada impossível que é pra ajudar os amigos, os companheiros de equipe e pra ser campeão e não sei o que.
E não se discute sabe assim, o motivo de estarem ali e porque que abordaram ele pra falar do cabelo dele, porque que nenhum outro jogador é abordado quase pra falar sobre o cabelo e não é em um tom curioso.

Ju: Faz essa entrevista com o Piquet faz, faz que eu quero ver.

Peu: Não era um tom curioso, era um tom um pouco de deboche e ainda termina a matéria falando sobre o Telê Santana que expulsava jogadores do treinamento se chegasse com o cabelo diferente.
A outra matéria foi do ano passado, quando o Richarlyson apareceu nas quadras de vôlei, emfim ele estava treinando com uma equipe e chegou a jogar uma partida e o repórter ficou perseguindo ele mesmo. Ele parou num graau assim de beira de estrada sabe, pra comer com os companheiros da equipe depois do jogo e o cara ficou indo atrás ele, ele teve que ir embora de onde ele estava, porque a pergunta era porque que você está indo jogar vôlei e obviamente as imagens que mostravam era do cara em posições que fogem à hétero normatividade do futebol né.

Cris: Eu quero até aproveitar essa pauta aqui porque eu tenho amigos super inteligentes, queridos, super conscientes, que combatem o machismo e a homofobia no dia a dia, pelo menos com palavras e quando chega no futebol, eu nasci em Minas eu sou cruzeirense, aí pra atacar vira e chama: as Marias, as Smurfetes então sempre leva pra esse lado, ou é o gay ou é a mulher.
Então o Cruzeiro é conhecido como as Marias, como que você pode xingar alguém de Maria, como que isso pode ser um xingamento?
Smurfete porque o time é azul, aí pega o único dos Smurfs que é a menina, sempre esse reforço né. Então em Minas o Cruzeiro é o time das gay, em São Paulo é o São Paulo, então assim, eles dão esses apelidos de presente pra torcida e pôxa meu, isso é muito velho né e nem é só no Brasil a matéria fala né, sobre como é difícil se assumir no esporte como um todo.

Peu: A gente tem poucos exemplos de jogadores assumidamente gays e em muitos casos eles sofrem dificuldades sim na carreira. Teve caso de um jogador americano que se aposentou super cedo, teve um outro que chegou a se aposentar e voltou a jogar pouco tempo depois mas ficou um tempo sem clube.
O caso do Richarlyson é um ótimo exemplo sobre isso porque ele estava num time, que era o São Paulo, que tinha projeção nacional, teve uma época em que tiveram algumas especulações de que ele iria pro Palmeiras e nessa fase, de bastidores ali meio que a contratação estava certa e teve uma pressão muito grande da torcida e dos bastidores do clube do Palmeiras, inclusive tem aquela fatídica faixa lá tipo: “a homofobia veste verde” e essa contratação não rolou.
Depois de um tempo ele foi pro Atlético Mineiro, que é um time ainda de projeção nacional, mas a partir daí ele foi jogando em times menores e se você pensar que esse é um jogador que chegou a vestir a camisa da seleção.

Cris: Não, eu acho que até o desempenho do cara fica afetado mesmo, não tem como não afetar o desempenho da pessoa.
Peu: É isso, o futebol dele sempre foi o que menos importou, nas notícias e em todas as situações. E por isso eu vejo como uma pena o Richarlyson não ter falado pra entrevista, mas ao mesmo tempo a negativa da entrevista dele me diz muito sobre como é o futebol no Brasil e como ele é tratado.

Ju: Como que você vê um caminho de mudança disso, como que a gente começa a virar o jogo nisso, entendeu?

Peu: Tem vários caminhos eu acredito e eu acho que… eu espero que as coisas melhorem, eu vejo um grande avanço nas torcidas Queer, eu vejo um grande avanço nas torcidas Queer. Que combatem a homofobia mas eu acho que isso foi uma opinião que foi até questionada na matéria por participantes dessas torcidas mas é uma opinião que eu tenho, agora vou dar uma opinião muito pessoal: eu acho de extrema importância ter uma torcida anti homofobia dentro de cada clube desse país. Mas eu acho que essa militância e esse enfrentamento ele tem que sair só das páginas das redes sociais, eu sei que é muito difícil uma torcida assumidamente LGBT, uma torcida que defende direitos num meio tão homofóbico, ela vai ter dificuldades… sempre.
Mas eu vejo que um avanço na minha opinião, isso aqui é a minha opinião, não é a opinião da matéria, seria essas torcidas começarem a sair, a ocupar a cadeira, a ocupar um espaço na arquibancada.

Peu: A gente tem um exemplo de torcida que é do grêmio, a COLIGAY, uma torcida que começou isso em 77 foi ate 83, muita gente boa.

Ju: Foi o único dirigente de clube que deu uma resposta legal nessa matéria, fiquei tão orgulhosa.

Peu: Na verdade, foi uma aspa do Léo que falou sobre o dirigente.

Ju: É, mas eu achei tão legal isso. Mas fala aí o que ele falou…

Peu: Ele falou que o que importava é que eles eram gremistas. Mas ainda tem um machismo aí. “O que eles fazem fora do estádio é problema deles”, sabe assim? Aquela homofobia aí. Mas o que eu quero dizer é o seguinte, em 77, a gente vivia uma ditadura militar, lembrem-se, a gente vivia, provavelmente, numa sociedade muita mais preconceituosa com relação à isso, e tinha uma torcida que tinha representatividade dentro da arquibancada. Eu vejo, novamente, com muito bons olhos, as torcidas Queer, as torcidas que lutam contra a homofobia, mas eu acho que um avanço seria essas torcidas irem pros estádios. Eu sei que tem perseguição, eu sei que a Natalia e as meninas do Galo Queer já foram ameaçadas, o pessoal do Palmeiras Livre já foi ameaçado, eu sei que a maioria desses torcedores já foram ameaçados… Mas eu acredito ainda que há esperança nesse ponto, que essas torcidas tenham mais força, e eu vejo possibilidades mesmo assim de se falar com a Policia Militar nesse caso, que tem o 2º batalhão de choque, de simplesmente avisá-los “Olha, nós vamos com 100 torcedores da torcida gay do Palmeiras, ou do Corinthians, ou do São Paulo ou de qualquer time. Nós vamos para o estádio com 100 torcedores.”

Rebeca: É, ou as próprias organizadas, as Queer organizadas falarem com os dirigentes das organizadas, e as próprias organizadas fazerem um…

Peu: Esse diálogo é muito difícil.

Rebeca: Sim, mas começando daí, entendeu? Porque isso reduziria o risco da violência dentro dos estádios.

Peu: Sim, esse diálogo é extremamente difícil e as torcidas do Brasil inteiro, elas provavelmente não vão abrir espaço. Os clubes como é o caso do Atlético mineiro, a Galo Queer procurou o Atlético e não obteve resposta, é meio que assim, eles estão falando com as paredes mesmo, ninguém quer conversar, ninguém quer abrir esse diálogo. Por isso que eu acho que a solução não é dialogar nem com a organizada nem com o clube, é avisar, falar “nós vamos e a gente não quer um massacre, então se preparem…” e meio que assumir um espaço que é de direito, assumir um espaço dentro de uma torcida, de um estádio de futebol. Eu reitero, é muito difícil fazer isso, a gente tá vivendo ao mesmo tempo em que temos muito debate sobre homofobia, racismo e outras questões a gente tem, nesse universo, um policiamento gigantesco. Teve um caso recente de um membro de uma torcida do Corinthians que descobriram que ele é gay, apesar de ter saído uma matéria na UOL que os Gaviões não expulsaram esse torcedor que eu não vou falar o nome pra não expor ainda mais ele. Os gaviões falaram que não expulsaram ele da quadra, da torcida, mas foram muito enfáticos ao dizer que ele vai viver a vida dele. Eu freqüento a quadra, não torço pro time, mas tenho trabalhado muito e falado com eles, mas provavelmente eu não vou encontrar com esse torcedor lá, é um ambiente hostil desde então e uma das criticas à diretoria da torcida foi que ele não apanhou, que ele não foi espancado, que ele não saiu de lá arrastado porque ele estava manchando o nome da torcida com a orientação sexual dele.

Ju: Então, justo o Corinthians ele tem tido umas… a torcida do Corinthians tem tomado algumas atitudes pra mudar o rumo dessa conversa, tem pedido pra não gritar ‘Bicha’… tudo bem, o motivo não é o melhor que é pra evitar punição do clube, mas já começa a ter essa conversa de que isso não é legal, de que esse comportamento vai ser sancionado.

Peu: Olha, tem áudios de presidentes dessa mesma torcida falando há 20 anos atrás não permitiria homossexuais na sua torcida, só que isso não é um discurso da Gaviões é um discurso total, quase 100% das torcidas há 20 anos não permitiriam. Recentemente, conversando com outras torcidas também sobre o tema eu ouvi de torcedor falando assim “ah, tem viado em toda torcida, o problema hoje é que a gente nem pode expulsar os caras” entendeu? A gente tá a anos-luz de distância. O que se é discutido na página dessas torcidas Queer, o que é discutido na internet, não é discutido nas quadras. E quando vaza uma história dessas, entra faz um exercício, todas as matérias que você entrar sobre a torcida do Corinthians você vai ver a gozação nos comentários falando nome do torcedor e a sexualidade dele. Então assim, aquilo que eu tava falando sobre a eterna 5ª série, ela tá nisso também. Quando você posta uma matéria sobre política, sobre um ato político da torcida, vai ter um cara que vai se prestar entrar e comentar sobre um torcedor gay que é dessa torcida, tentando desqualificar essa torcida. Por isso que eu falei que a solução que eu vejo nesse momento é que essas torcidas, Queer e as torcidas anti-homofobia assumam um espaço que é deles dentro do estádio e assim talvez as coisas voltem a ser questionadas e discutidas e entre nesse universo. Até uma das ilustrações que a gente fez foi em volta do estádio ser colorida e dentro do estádio cinza, o estádio é cinza e sempre foi só que tá na hora de se questionar pelo menos isso, deixar de ser vai levar uns anos mas está na hora de começar a cutucar, essa matéria que a gente fez foi uma cutucada na imprensa, nos dirigentes, jogadores e torcedores. É isso, o jogador não se assume, a imprensa trata isso como chacota, o dirigente não contrata e o torcedor tira sarro usando isso em um tom pejorativo. A gente tá num país que os jogadores são todos heterossexuais…

Ju: Torcedor também né?

Peu: Torcedor também. Dirigente fiscaliza o c* alheio, né? Porque fica nessa de se o jogador parecer gay não vai contratar e tal…

Cris: E foi pra isso que o Mamilos trouxe essa matéria pra pauta, pra cutucar os ouvintes.

Ju: Eu garanto que tem muito ouvintes do Mamilos que grita xingamentos homofóbicos em dia de jogo de futebol. Então, ta aí a pulguinha atrás da orelha, repense né?

Cris: Se você não está aí reforçando esse comportamento… Não seja conivente com isso! Somos capazes.

Peu: Eu tive que repensar muitas coisas. Eu cresci no meio de futebol, até 15 anos tinha esperança de ser jogador, desisti por causa da minha primeira banda. Eu tive que reavaliar o jeito que eu olhava para aquilo…

Ju: Todos os hinos de torcida que eu conheço do Grêmio ou são racistas ou são homofóbicos, fora um ou dois, sei lá.

Peu: A torcida do Santos fala muito de amor nos gritos assim, tem poucas coisas homofóbicas nos gritos da torcida do time que eu acompanho. Mas eu acho que tem todo um estereótipo, todo um lance do cara que joga bola, de uma coisa que é extremamente machista, extremamente homofóbica, só que isso você lida no dia a dia né. Eu acho que tô chegando nos 30 anos e na discussão de como tentar ser menos babaca dia após dia…

Cris: Tamo junto…

Peu: E é isso, às vezes eu sou babaca todo dia, em algum momento do meu dia, mas é uma luta diária pra você ser menos babaca, sabe?

Ju: Bom encerramento, então encerramos com esse profundo pensamento. Sejamos menos babaca.

Cris: Vamos então pro Farol Acesso?

Ju: Vamos!

Cris: Vamos começar pela visita nova. Que que você manda, Rebeca?

Rebeca: Bom, vou recomendar um livro e fazer um convite. Primeiro, eu tô numa fase lendo a Chimamanda, que é uma escritora incrível da Nigéria, feminista, negra, maravilhosa, super inteligente. Eu li o Americanah, agora to lendo o Hibisco Roxo. Recomendo muito o Americanah pra meninas e meninos, acho que ela faz uma jornada de descoberta de raça e dela como mulher que é muito forte, aquela coisa de ser imigrante. Acho muito massa, vale a pena o livro, rapidinho de ler, é bem legal. Também queria convidar todo mundo pra colar na Marcha da Maconha que vai acontece no sábado, dia 14, a partir das 14:20, huh, no vão livre do MASP a concentração, vai ter aula publica… tem quase 50 mil pessoas convidadas e umas 30 mil confirmadas no Facebook, é o maior evento underground da cidade e na Marcha da Maconha coxinhas e sanduíches de mortadela são só duas laricas, todo mundo é bem vindo, é só chegar.

Rebeca: Maconheiro ou não, entenda que essa política de drogas proibicionistas afeta a sua vida como a gente discutiu antes, seja pela violência policial, pela criminalização dos usuários, então é uma causa que deve ser de todos não só dos maconheiros e dos usuários, e legalize já! É nois! Obrigada pelo convite, foi uma honra.

Cris: Nada, é uma delicia ter você aqui.

Ju: Peu…

Peu: Tenho duas coisas. Uma é o disco do Baianasystem chamado Duas Cidades que se vocês não ouviram precisam fazer esse exercício!

Rebeca: É irado!

Peu: Baiana é um grupo que vem botando em discussão muito a questão do carnaval de salvador e tem um discurso político muito importante, muito engajado, e uma força musical muito impressionante. Dá pra ouvir no Soundcloud, dá pra ouvir nos lugares aí. Duas Cidades do Baianasystem. A outra questão é: sábado, tem a nona edição do Rabo de Galo. Festa que eu faço com o DJ Komodo e com o menor mais zica de São Paulo que é o DJ Teiú que tem doze anos e toca com a gente, é muito massa de ver ele tocar. O nosso convidado vai ser o Akin da Metanol e começa as 17 horas, o que dá pra fazer é ver a saída da marcha da maconha e colar lá, vai ate as 23, e é muito alto astral uma festa de música brasileira dedicada aos discos de vinil, uma festa de disco de vinil dedicado à musica brasileira.

Ju: Muito bom.

Peu: Estamos nessa aí, mês que vem completa um ano, talvez tenhamos boas novidades até lá. Como eu falei do Baianasystem, a gente tem pesquisado, conversado muito, tocado muito e discutido muito sobre musica baiana até os anos 90 até o axé mesmo, a gente toca muito Samba Reggae, Afoxé, e referencias de Reggae jamaicano e de como a musica jamaicana influenciou a musica baiana.

Cris: Nossa, dá pra sair bonito da marcha da maconha e ir pra lá.

Rebeca: Combina, combina.

Peu: Rabo de galo, o evento do Facebook ta aí. A nona edição lá na Casabrasilis que é uma loja de discos então dá pra você chegar e comprar os discos o que é assustador e tentador também, é muito legal. Bom, é isso.

Ju: E você, Cris?

Cris: Bom, eu queria recomendar o Portal Geledés, é um portal que eu já acompanho há bastante tempo, eles têm matérias próprias e fazem curadoria de temas que tratam da mulher negra, da mulher de maneira geral, da defesa da mulher e dos negros, entendendo esses dois segmentos como segmentos que enfrentam muitos problemas hoje na sociedade então é tudo que tá em pauta com respeito à discussões, projetos de lei, visibilidades dessas causa estão no portal. Então assim, pelo menos uma vez por semana eu dou uma corrida de olho ali na home pra saber o que está sendo discutido, o que tá acontecendo nesse meio, um meio que me interessa muito então me informo sempre. Tem textos de todo tipo, não são todos os textos necessariamente que eu acho que tem qualidade pro meu gosto, mas eu gosto muito da maioria deles e me mantenho informada nesse canal, gosto bastante, queria recomendar pra vocês. Passem lá no Geledés.
Ju: Eu queria indicar, até já indiquei no meu Twitter e no meu Facebook, o último episódio do ‘Quem Somos Nós?’. É uma série sobre neurociência, foram quatro episódios e a última entrevista foi com Pedro Calabrez, é muito muito legal, ele fala sobre neurociência e comportamento. Vou dar uma palhinha super pequena… Ele fala sobre como a gente tem a tendência de não enxergar o cérebro como uma parte do corpo, como uma parte normal, como a orelha, como o braço, como a perna, o cérebro é uma parte do corpo. E a regra da natureza é a conservação de energia, então ele dá um exemplo que você não ver um cachorro fazendo academia ou um leão correndo sem precisar porque a natureza conserva energia pra quando precisar, quando for necessário. O cérebro é uma parte do corpo, assim como o músculo, ele faz a mesma coisa! Então o que o cérebro quer é economizar energia, economizar energia quer dizer dar respostas prontas pras coisas, automatizar processos. Ele fala que é dessa maneira que é natural pra gente encontrar certezas aonde elas não existem só pra que a resposta seja mais rápida, pra que a resposta seja pronta. Enfim, ele constrói um raciocínio super legal, muito interessante, pra falar sobre intolerância, das nossas certezas, pra falar sobre o jeito que a gente constrói o que a gente pensa, como pensamos que somos nós que tomamos as decisões mas não somos nós. Toda essa série de entrevistas foram muito boas, mas essa especificamente eu recomendo pra vocês. O ‘Quem Somos Nós?’ é um programa muito quadrado no formato de rádio antigo, o Celso Loducca tem aquela voz de locutor mais antigo assim, sabe? Ele não tem muita dinâmica e tal. Assim, vale a pena passar por isso porque o conteúdo é realmente muito bom, eu recomendaria a série inteira mas se você não tiver paciência esse ultimo episódio vale muito a pena.

Cris: Temos um programa?

Ju: Temos um super programa!

Cris: Uepa! Então fica a gostosa sensação de mais uma conversa super produtiva sobre temas super polêmicos. Obrigada gente, beijos!

Ju: Beijo!

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