Transcrição Mamilos 72 – Muhammad Ali e Trabalho escravo

Jornalismo de peito aberto

por Mamilos

Esse podcast foi transcrito pelos lindos Débora Martins, Fernanda Cappellesso, Samuel Freire, Tarcísio Silva, Debora Martins, Aline Bergamo
Lu Machado e Alan Bastos para ser acessível para pessoas com deficiência auditiva e facilitar a busca de todos os mamileiros por trechos específicos da conversa.

O que a gente faz é legal, mas o que vocês fazem a partir do que fazemos é melhor ainda. <3

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Vinheta do B9: Este podcast é apresentado por b9.com.br

<música>

Ju: Mamileiros e mamiletes, olha nós aqui semana após semana cutucando o cérebro de vocês. Dessa vez de coberta porque São Paulo tá muito frio. Vem conversar e saber o que aconteceu no Brasil e no mundo essa semana. Eu sou a Ju Wallawer e essa é a…

Cris: Cris Bartis

Ju: Bora mamilar…

Cris: No som do Mamilos a gente quer saber: Caio, e esse cabelo rosa, que ficou muito fashion, conta pra gente como é que é isso? E aproveita e fala também o que que vai tocar no Mamilos essa semana.

Caio: Olá personas, Corraini aqui novamente para trazer pra vocês os responsáveis por dar mais cor ao Mamilos dessa semana. E Cris, que negócio é esse de só elogiar o meu cabelo quando eu pinto ele de rosa, igual ao logo do Mamilos? Quanto ele tava azul, vocês não disseram nadinha. E lembrando sempre, que se você quiser colaborar com o conteúdo musical deste programa, pode nos recomendar bandas ou artistas independentes no e-mail: [email protected] E facilita, e muito, a minha vida se vocês enviarem os links do site oficial do artista ou então onde nós podemos buscar o download direto das músicas dele para utilizar no episódio. Só um link de um soundcloud e do youtube já é uma mão na roda, mas o ideal mesmo, é que vocês mandem algum lugar que ele disponibilize as musicas para o download. E nessa edição nós iremos ouvir o Kaê, um músico aqui de Araraquara, no interior de São Paulo, que faz um grouvado afro-brasileiro da maior qualidade. Então fiquem ai com Kaê no som do Mamilos.

 

Ju: E o beijo para, Cris?

Cris: Goulburn, na Austrália

Ju: Aracaju, em Sergipe

Cris: Fortaleza

Ju: Ribeirão Pires, em São Paulo

Cris: Professor Diego de Domingos, de Jundiaí-SP, a gente ama os professores que comentam no Mamilos e principalmente usam o Mamilos em sala de aula.

Ju: Melhores professores. Pra São Gonçalo do Sapucaí, em Minas

Cris: Pro Wendel que pediu para gente mandar um beijo pra querida da Vanessa Café. A gente já viu o jacarezinho, viu? Teo, seja muito bem-vindo e esperamos você, ouvinte também do Mamilos.

Ju: E pro casal Aian e Poliana, que vivem em estados diferentes, mas sempre nos ouvem pra discutir juntos.

Cris: Castanhal, no Pará

Ju: Pra Pedro II, no Piauí

Cris: E falem com o Mamilos, gente…É isso ai, entra e falem nos nossos canais.

Ju: Fale no @mamilospod no twitter. Assim a gente tem recebido muito, muito depoimento pelo twitter, nas últimas duas semanas. Postem bastante no facebook, pra que mais gente conheça o Mamilos, então compartilhem o programa. Se você gosta, compartilhe, avalie no iTunes, dê estrelinhas, dê amor, dê likes.

Cris: Não basta amar, dê likes.

 

Ju: E eu queria falar uma coisa sobre o programa passado, que é sobre falar um pouco, sobre dar retorno pro programa. Vocês já ouviram aquela frase de que você se torna eternamente responsável pelas caixas de comentário que abandonas? Por que gente, olha, os comentários do Mamilos, eles são um espaço que a gente construiu junto, de respeito e empatia e é uma coisa que a gente se orgulha muito. Porque ele é um oásis no meio de uma internet que é bem agressiva e muitas vezes, na maior parte das vezes ignorante. Então assim, o que a gente conseguiu alcançar ali, de ser um espaço para as pessoas conversarem, pra baixar a guarda, pra realmente se entender, é uma coisa muito valiosa pra gente e ultimamente as discussões esfriaram um pouquinho, a gente começou a receber cada vez menos comentários e de repente, talvez porque tava meio vazio, algumas pessoas se sentiram a vontade de entrar sem tirar o sapato, por o pé em cima da mesa, cuspir no chão, bora refazer o nosso termo de serviço, então gente? Então, seguinte, pra quem chegou no meio do caminho, pra quem se esqueceu, pra quem se perdeu, pra quem ta meio perdido por aqui, pra participar do debate no Mamilos, todos que aqui estamos concordamos em partir do pressuposto de que as pessoas são o que? Inteligentes e bem intencionadas, então quando a gente for argumentar, não é pra ganhar uma disputa infantil, mas pra entender melhor por que a pessoa chegou numa conclusão diferente da nossa e pra explicar porque que a gente pensa diferente. Nosso objetivo aqui, não é estabelecer uma visão dominante, é construir ponte. Então assim, antes de escrever qualquer coisa numa caixa de comentários do Mamilos, antes de interagir com a gente em qualquer canal, pense se você está atendendo esses pré-requisitos. Por que o Mamilos é um espaço de encontro, onde todo mundo tem que se sentir bem, acolhido, respeitado, compreendido. Vamos cada um fazer a nossa parte. E sim, eu estou falando com você. Depois que você ler, vai lá no mamilos.b9.com.br e deixe seu comentário. Não precisa fazer uma dissertação acadêmica, mas pode se quiser, só precisa dizer o que que você aprendeu com o programa e o que você discordou. Contribui.

Cris: E por que discordou, porque os argumentos são importantes. Quando chega lá e só fala: eu não gostei, isso aqui me ofendeu, a gente precisa do contraponto, sabe? Precisa explicar, a gente pediu isso no último programa pra trazer aqui e na verdade não veio esse contraponto, apesar disso tiveram comentários bem legais e a gente vai ler alguns aqui pra vocês. O primeiro do Gandralf, que sempre comenta, ele tá sempre com a gente, então vamos lá, o que que ele falou: “Eu não gosto do termo cultura do estupro, mas gosto de alguns conceitos que estão por trás, como a ideia de que alguns aspectos culturais podem favorecer esse crime, mas até chegar aí, fiz um vai e volta danado. A primeira vez que ouvi falar de cultura do estupro achei estranho, fiquei com um pé atrás. Será? Sei não, pensei. Depois vi outras fontes, que definiram o termo de um jeito que ficou bacana, beleza. Agora faz todo o sentido. Cultura do estupro é apenas uma expressão que designa um conjunto de ideias que estão bem além do entendimento imediato e literal dessas palavras. Show!! E foi tudo bem até eu perceber que o seu uso, na prática, estava mais para o sentido rasteiro, carregado de distorções, acusações e paranoias. Como o uso redefine as coisas não dei bola mais para este termo. Se usam dessa forma, então virou besteira, algo para descartar rápido. No ecxiste, pensei. Ora se cultura do estupro não existe, como explicar uma ação tão ampla desses grupos? O que eles tinham em comum que os levariam a estas ações, senão a sua própria subcultura? Se for isso então, cultura do estupro ecxiste sim. Aí o tico e o teco entraram em curto aqui. Como equacionar as duas linhas conflitantes? Hoje vejo que uma cultura do estupro persiste em algumas tribos, mas o grosso mesmo é a cultura ainda machista, egoísta, violenta e instituições sociais ainda muito precárias e despreparadas. É uma explicação simples, mas pra mim por enquanto funciona.” O que eu queria falar sobre isso aqui, é que houve muita essa discussão, sobre a cultura do estupro existir, não concordar com o termo ou se sentir diretamente atacado quando o termo é usado. E muitos homens vieram falar isso. O que eu queria dizer é que, gente, e eu respondi isso para esse ouvinte, não tem nenhum problema se você não quer usar o termo. Se você entendeu a lógica, compreende o que tá acontecendo e está disposto a combater, tá ótimo! Esquece o termo. O termo ele tem toda a razão, os usos redefinem as coisas e tem muita gente usando o termo. E é claro que não é uniforme, então cada um acha do jeito que acredita ser mais adequado. Igual fazem isso com a Bíblia, igual fazem isso com a política e fazem com diversos outros aspectos da vida. Então, não se apegue as distorções que vão, sim acontecer, mas a essência da coisa. E se a essência existe, quando ele falou aqui que o tico e o teco entraram em conflito, combata isso, ponto.

Ju: No programa passado eu tava procurando um paralelo para traçar, por que as vezes fica, a discussão fica muito apaixonada em torno de um assunto e você não consegue enxergar falando daquele assunto, e se você tira daquele contexto que ta muito apaixonado fica mais fácil de ver. E na hora eu não consegui e depois respondendo pra um ouvinte, eu me veio esse paralelo que assim, por exemplo: “No Brasil existem leis que ok você burlar e leis que não ok. Então, por exemplo, se você vê uma pessoa assaltando um banco, roubando em plena luz do dia, as pessoas se chocam, elas fazem alguma coisa, existe uma ação em relação a isto. Mas isso não é igual para todos os crimes, então por exemplo: Se você vê o seu amigo tomar 2 ou 3 cervejas, tomar uma caipirinha enfim, ingerir algum álcool e depois você sabe que ele vai pegar o carro e dirigir, você sabe que isso é crime, mas isso é um crime tolerado na sociedade brasileira. Isso tem um custo muito alto pra gente. Então assim, as mortes em trânsito por motivo de alcoolismo elas vão diminuir simplesmente se as leis forem aplicadas diretamente? Sim, a aplicação das leis tem uma resposta, então não é penas mais duras, mas simplesmente se você tiver a certeza de que se você dirigir embriagado, você vai ser pego e isso vai ter consequência, isso vai começar a modificar no comportamento. O que a gente tá dizendo quando existe uma cultura, fala de cultura, é que a gente não acredita que só ação punitivista vai resolver isso. Em outros locais, por exemplo, você vai falar de Londres, se você é dono de um pub e você serviu álcool, você sabe o quanto você serviu para aquela pessoa e você vê que a pessoa vai levar um carro, você liga pra polícia. Então assim, existe uma cultura diferente. Então assim, o que eu quero dizer é a gente acredita quando a gente fala de cultura do estupro, eu posso falar de cultura então de permissividade em relação a álcool e direção, que a gente tem um problema sério brasileiro e o que a gente tá falando é, a gente não acredita que simplesmente mudar a lei vá resolver o problema. Principalmente por que , no caso da direção, todo mundo que dirige está em publico, você tem como com o poder de Estado controlar. No caso do estupro esse crime, como a gente falou no último programa, ele é muito privado, ele é dentro de casa o estado não consegue chegar até ai. Então se a gente não mudar a cultura de maneira que seja inaceitável que isso aconteça em todas as esferas de qualquer maneira, você não vai conseguir resolver o problema. É por isso que se fala de cultura do estupro, entendeu?

Ju: Porque você quer mudar a cabeça das pessoas pra que esse crime não possa acontecer de maneira nenhuma, aí você vai falar “Juliana, mas você tá louca que você acha que um estupro, as pessoas vão tolerar estupro?” Aí você volta pro programa e escuta de novo.

Cris: Uma ouvinte que pediu pra não se identificar, escreveu o seguinte:
“Cris e Ju, gostei muito do programa. Foi bem esclarecedor sobre a cultura do estupro, só acho que tem uma questão, como vocês mesmas falaram 70% dos abusos acontecem com crianças e adolescentes, e pouco foi falado sobre essa perspectiva. Sei que tem uma questão de tempo, mas acho que em algum momento vale abrir essa discussão. Para uma criança o estupro é processado de uma forma diferente de um adulto. Existe um não entendimento, uma ameaça grande à família e muita fantasia. A primeira vez que aconteceu comigo, tinha cinco anos e cheguei machucada em casa. Não sei se eu saberia falar o que aconteceu, mas como ninguém conversou comigo, quando aconteceu de novo eu achei que era um problema meu e não pedi ajuda. Durante anos tive várias infecções urinárias por conta de abusos e aprendi muito cedo que meu corpo é fonte de dor. E hoje luto para entender que pode também ser fonte de prazer. Era uma criança extremamente violenta, eu batia nos meninos, me isolava, e sempre achei que era culpa minha, por ter sido muito bonita, e passei a me esconder e a me enfeiar. Tomava vários banhos por dia, porque eu me sentia suja. Minha casa tem espelhos há mais ou menos cinco anos, porque antes eu não gostava de me ver, fora a falta de confiança em tudo e em todos que tenho que lutar diariamente. Enfim, só alguns pontos pra vocês pensarem se valem. Precisamos aprender a ajudar as crianças a processar o ocorrido e a lidar com o corpo de uma maneira saudável. Eu acabei descontando muito no trabalho onde eu me sentia protegida. Sou uma profissional bem sucedida, mas cheia de desafios emocionais. O que aprendi de tudo isso? Que só o amor cura e hoje sou amada por um homem maravilhoso e puro. Desejo superação, força e acolhimento para todas as crianças que como eu tiveram que conhecer o pior lado do ser humano ainda na infância. Há esperança, enquanto houver amor.”

Ju: Olha do Marco Antônio então:
“Meninas, está dando certo. Um rapaz chamado MC Biel, eu sei que vocês não devem conhecer, mas é um cantor de 19 anos que tem milhares de seguidoras e seguidores. Foi acusado de assédio por uma jornalista do iG. O fato ocorreu durante uma entrevista e a jornalista entregou áudios e vídeos à polícia. Uma das passagens, quando a profissional diz que ela e o músico são da mesma faixa etária, ele retrucou ‘ Idade não significa nada. Se te pego te quebro no meio.’ Depois Biel deu seu telefone celular na mão da repórter e pediu que ela atendesse. Quando recebeu o aparelho de volta dirigiu-se à terceira pessoa e disse que a jornalista merecia um desconto por ser gostosinha. Mas daí vem a virada, Biel era uma das pessoas que correria com a tocha olímpica, já foi retirado do evento e desconvidado, além disso, portais anunciaram foi também desconvidado de programas da Globo e da Record. Sei que é pouco ainda, mas o fato de ter sido denunciado e outras mulheres terem apoiado a denúncia, gerou um turbilhão de reação. O rapaz não se desculpou, em nota oficial disse que “Nem homem é ainda.” Mas quem sabe, lá no fundo, já esteja aprendendo a lição, não passarão.”
Cris: O Fernando Rocha falou:
“Só tenho uma coisa pra dizer depois de ouvir três programas de vocês, to destruído e reconstruído. Os programas foram sobre sexo, adoção e cultura do estupro. Eu tenho 45 anos e é muito difícil chegar nessa altura da vida e perceber que eu era um b****. Não que tenha feito algo errado, mas percebi que: um sobre sexo só pensava em mim e estou em processo de ruptura com o sistema da minha cabeça, pois sofri abuso tenho meus problemas, mas vocês mostraram que o céu pode ser rosa pois agora o feminino entrou no meu mundo. Dois, sobre adoção caraca Thatá ganhou meu coração! Sou outra pessoa, tinha um preconceito colonial, gigantesco era um b**** total nessa parte. Três, sobre estupro esse foi um nocaute na minha cara. Eu sempre pensei que nunca tinha feito nada disso, hoje sei que que contribui para essa cultura até mesmo sem perceber. Estou em processo de gerar algo novo sobre isso mas esse ponto não dói muito pois já tava trabalhando nisso e entendido pelo menos que não sou mulher pra entender o que é isso. Os outros passos estão nascendo ou sendo adotados por mim. Agora um beijo pra cada um.”

Ju: Cara, eu fico muito emocionada com as pessoas que se dispõem, que se abrem, sabe. Quão difícil é cara..

Cris: Cara, tem 45 anos, sabe. Ele tem 45 anos, e ele falou assim: ‘Cara eu estou desconstruído e destruído.’ Tipo, obrigada!

Ju: É… Vale voltar àquela frase, que faz tempo que a gente não fala, que é ‘O que a gente faz é legal, mas o que vocês fazem com o que a gente faz é muuuito legal.’ O Ricardo Eno, último então:
“ Queria dizer como vocês fazem da minha vida melhor. Apesar de muitas vezes os assuntos serem pesados ou tristes, Mamilos me ensinou a amar minha mãe, a respeitá-la como mulher. O trabalho de vocês me ajuda a olhar para os meus colegas de planeta e respeitar suas opiniões. E principalmente a tentar ajudar os preconceituosos, eles precisam de abraço e de uma dose de conhecimento, né não? Quase esqueci de escrever uma última coisa, meus avós, Norma Lopes e José Rogério, AMAM todos os programas! Obrigada amigas!” [risos]

Cris: Eu tô apaixonada! Um beijo pra esses avós fofos!

Ju: Que graça!

Cris: E pro Ricardo que apresentou!

Ju: É, muito bem! A gente adora! Família que ouve Mamilos unida permanece unida.
Cris: Só aproveitando que ele fez aqui esse gancho de aprender e tudo mais, uma das perguntas que nos fizeram é: ‘ Por que todas as feministas não conversam como vocês, e explicam as coisas pra gente?!

Ju: [ risos ]

Cris: Gente, é muito simples, porque ninguém é obrigado. Tem gente afim de conversar e tem gente afim de não conversar no meio desse caminho. E o feminismo como qualquer outra ideologia ou movimento, não é uniforme. Tem gente com muita raiva no meio, tem gente distorcendo coisas no meio, que faz parte do processo de amadurecimento e de luta. Cada um faz aquilo que é melhor pra viver o movimento. O jeito meu e da Juliana é esse! Que bom que a gente consegue levar algum conhecimento, mas há de se respeitar as outras formas também, sabe? Exigir que uma pessoa que tá sofrendo e que tá cansada de falar, tipo, ‘não agora para, me ouve, me escuta, me acolhe.’ Não é todo mundo que tá disposto. E também tem nada de errado nisso. A informação taí, é só pesquisar..até pra…pra chegar no seu próprio ponto de visão sobre o movimento.

[ sobe música ]

Ju: Então vamos pro Trending Topics para gente apresentar quem tá na mesa com a gente?

Cris: Só voz gostosa hoje!

Ju: Caio, chegou a voz que rivaliza com você em números de fãs no Mamilos, mMeninas, podem enlouquecer, pode começar a gritar…
Cris: Meninos também!

Ju: Meninos também. Está conosco quem?

Oga: Oga Mendonça.

[ risos ]

Oga: Gostaram dessa?!

Ju: Até falhou a voz!

Oga: Queria fazer a voz do Temer… Não consegui…

[ risos ]
Cris: Voz do Temer é f****. [ imitando a voz do Temer ] “Me traz uma água. Cadê a minha pastilha”

[ risos ]

Oga: Olá, olá! Tô mais uma vez aqui, o porteiro do prédio já tá me reconhecendo, perguntou seu não…se eu não tinha crachá pra subir.

[ risos ]

Cris: Tipo, ‘ Não te deram crachá até agora? Esse povo é complicado…’

Oga: Não…ele quase me deu uma bronca.

[ risos ]

Cris: E quem mais tá aqui? Essa outra voz que eu adoro também ouvir.

Mariana: Eae…Mariana Della Barba. Super feliz de tá aqui de novo e…louca pra falar, falar, falar…Puxar assunto…

[ risos ]

Cris: Mariana é a puxadeira de assunto oficial!

Ju: Você trouxe o seu tricô, Mariana?

Mariana: Vários..

[ risos ]

Cris: Vamo então pro gírio de notícias. Começando o número três Temer inelegível, o Tribunal Regional Eleitoral São Paulo, estado do presidente interino, publicou uma certidão formal e o declara culpado e impedido de se candidatar a qualquer cargo público por ter se tornado um candidato ficha suja. Temer foi condenado por doações acima do limite de campanha permitido por lei. A vida de Temer não tá fácil, né gente? Assim, é.. já deu tapa na mesa, já deu berro, já falou que tá difícil a vida. Então assim, hoje mesmo com pedido de prisão declarado à cúpula do PMDB, até japonês sendo preso hoje, então assim a piada tá toda pronta eu acho que o que tá acontecendo com o Temer é que alguns senadores começaram a falar que ‘Pô, se ele não tá conseguindo fazer o que ele prometeu então volte a Dilma!’ E aí eles… ele os acusou de chantagem. Então assim, tá difícil a vida do Temer. E é interessante observarmos isso de perto, porque na verdade, sai o Temer, que coloca o outro e qualquer outro, vai continuar do mesmo jeito. O sistema tá viciado, tem que mudar o sistema.

Ju: Essa manchete chega a ser engraçada, ele não tá inelegível, ele nunca seria elegível ele nunca teve voto. Então assim…

Cris: Um por cento de intenção, então assim, tipo uma piada né? Nem aquele cara do bigode que era…

Ju: O Levy Fidélis. [ risos ]

Cris: Nem ele acho, ele tinha mais de um por cento. Inelegível, tipo, como que fala quando você nem considera. Inconsiderável. Temer inconsiderável seria melhor do que inelegível.

Ju: Então vamo lá. O segundo é Alicia Keys disse que não vai mais usar maquiagem. Ela alegou que não quer mais se esconder. Ela divulgou a foto sem maquiagem e escreveu uma carta em que ela justifica essa escolha de aparecer com o rosto limpo. Ela disse que não quer mais esconder nem a cara, nem a mente e nem a alma.

Cris: Foi bem legal isso! A Alicia é uma mulher muito bonita, sempre achei, e se pá, vejo Alicia sem maquiagem, ela tem sardas, que ninguém nunca tinha visto. Porque escondia ali tudo no rosto. Ela continuou uma mulher muito bonita sem maquiagem, mas mais do que isso, eu acho que a carta dela fala sobre usar a maquiagem com a consciência de que você tá fazendo aquilo como um bem pra você e não pra se esconder. E que quando ela tira a maquiagem, ela tá mostrando pra várias outras mulheres, que se escondem atrás da maquiagem, que dá pra ser bonita sem. Então é um negócio muito legal vai!

Ju: Eu acho como artista, como Manifesto né? porque o artista, todo você é sua arte né? O que você fala, como você se veste, onde você vai, tudo é uma manifestação artística. Então acho muito poderoso e principalmente ela me fez lembrar muito assim ,eu fiz um curso de auto-maquiagem uma vez, faz pouco tempo, e eu achei muito interessante o que a Fernanda Guedes falou. Ela falou assim: A maquiagem ela é uma máscara e tudo bem usar máscaras, a gente usa várias máscaras pros papéis que a gente atua na sociedade. Você só não pode deixar essa máscara aderir tanto que você não se reconhece mais. Ela é uma máscara, então máscaras não foram feitas pra usar todos os dias entendeu? Então assim, usar maquiagem, porque eu tava comentando com ela que assim, eu gosto de maquiagem mas eu detesto usar todos os dias por que sabe, eu sou outra coisa. Isso aqui é sabe, Ahh eu tô muito cansada então eu vou botar uma maquiagem pra dar um “up”. Eu vou numa festa quero colocar ,quero tá diferente, tá especial, quero mudar. Tudo bem sabe? Eu vou numa reunião importante, aí tem aquela coisa os índios e as mulheres passam quando vão pra guerra então OK, a maquiagem vai me ajudar a me sentir mais poderosa. Ahh sabe? OK mas eu acho interessante essa discussão quando você trata assim cara você não precisa de maquiagem. É uma escolha que você faz, uma brincadeira que você faz

Cris: É uma uma pintura pra se divertir

Ju: Uma opção

Cris: pra se ver colorida. E aí quando você vai se construindo primeiro você deixa de usar salto, depois você usa um sutiã que já não tem mais as almofadinhas, aí você sai sem maquiagem, sem fazer um mega penteado no cabelo e ainda assim você está se sentindo bem, se sentindo confiante, Pô, tem muito valor, tem muito valor isso.

Cris: número 1 Hillary é oficialmente candidata à presidência dos Estados Unidos. Após vencer as primárias no estado da Califórnia, Hillary alcançou o número de delegados para ser a candidata Democrata. Conhecido como estado das minorias e das causas libertárias, mas Hilary e Sanders disputavam os eleitores cabeça cabeça terminando a votação 56% para ela e 49% para ele. Barack Obama telefonou para a ex-secretária de estado para parabenizá-la

Ju: Tô louca pra ouvir o NPR que não deu pra ouvir semana passada para ver esse babado aí porque assim, o Senders levou a campanha muito mais longe do que qualquer pessoa poderia pensar e o importante, eu acho que era o ponto da campanha dele e de quem apoiou era colocar a pauta dele na campanha dela então os Sanders conseguir uma boa puxada de, pra esquerda na campanha dela que A Hillary tá muito mais pra centro direita do que pra esquerda né? muito mais, então ele conseguiu pautar bem a campanha acho que isso é uma grande Vitória pra ele né?

Vamos pro primeiro Trending Topics então. Multinacionais obrigam trabalhadores a usar fralda e vetam banheiro. Eu juro que quando a Cris falou isso eu falei não gente se são um exagero, uma força de expressão, sabe quando,quem nunca trabalhou a ponto de no final do dia falar caramba não consegui nem ir no banheiro hoje? É uma força de expressão, Ahh vou voltar aqui de fralda não, não é uma força de expressão. O que que aconteceu: Essa semana circulou uma notícia de que a fábrica de veículos Nissan estava sendo acusada de obrigar funcionários na fábrica presente no Mississipi nos Estados Unidos a usar fraldas geriátricas. O motivo era acabar com pausas e interrupções com idas ao banheiro. Acusações da mesma natureza foram feitas a outras empresas de outros segmentos. As alegações estão sendo investigadas e não existem provas concretas, entretanto não é a primeira vez que notícias desse tipo circulam. No ano passado o jornal britânico Guardian fez uma extensa série falando de condições degradantes e humilhantes que funcionários do setor de atendimento, call center, sofrem. Empresas como Nestlé, Apple e Zara também sempre estão as voltas com notícias sobre promoverem condições de trabalho análogo ao escravo. Estimativa da Organização Internacional do Trabalho é que sejam pelo menos 20 milhões de pessoas em condições de trabalho análogo ao escravo no mundo, 55% são mulheres e crianças. A falta de educação e o analfabetismo são fatores que contribuem para a vulnerabilidade desses trabalhadores. 44% de todas as vítimas são emigrantes, quanto mais irregular for a situação do estrangeiro no país maior a sua vulnerabilidade ao trabalho escravo. O lucro com esse tipo de mão de obra chega 250 bilhões de dólares todos os anos. Esse valor é maior do que o PIB de 128 países no mundo.

Cris: no Brasil não é diferente, desde 1995 quando o Governo Federal criou o sistema público de combate a esse crime, mais de 45 mil pessoas já foram libertadas. O Maranhão é o principal fornecedor de escravos e o Pará é o principal utilizador. As atividades econômicas em que esse tipo de trabalho é utilizado no Brasil são pecuária bovina, produção de carvão, produção de cana-de-açúcar, de grãos, de algodão, de erva-mate, de Pínus, oficina de costura, canteiros de obras e bordéis. É um cenário completamente devastador falar sobre isso em 2016, é super difícil falar sobre isso e é bem legal gente começar com duas definições bem claras: Primeiro que é que é o tal do trabalho escravo. Lembrando que a gente tá falando no Trending Topics então a gente não vai aprofundar pra caramba no item, mas a gente vai conversar sobre as visões que nós temos disso em 2016.

Então só pra definir, o artigo 149 do Código Penal ele prevê de 2 a 8 anos de cadeia para quem utilizar dessa prática. É de 1940 essa lei e ela foi reformada em 2003 pra ficar mais claro. O que que ela prevê? Ela prevê crime de trabalho escravo em quatro situações: cerceamento da liberdade de se desligar do serviço, servidão por dívida, condições degradantes de trabalho e jornada exaustiva. E aí tem um outro termo que a gente sempre escuta que é trabalho análogo ao de escravo. Por que que incluíram isso aí né? Porque formalmente não existe mais trabalho escravo no Brasil desde a lei Áurea que é de 13 de Maio de 1888 e então quando a gente fala análogo é similar, é um trabalho em condições similares a escravidão. Então colocado esses dois pontos aqui me digam gente, Mari né? trabalhando em veículo aí, como que você vê esse tema ainda voltando tanto tempo à tona e como leis a tanto tempo combatendo isso?

Mariana: eu acho Inacreditável e eu tava pegando agora uma notícia que a gente deu no site da BBC no finalzinho do ano de uma operação encontrou 11 pessoas em situação do trabalho escravo na obra Olímpica. Ou seja eles estavam construindo lá a área que seria dedicada a imprensa alguma coisa desse tipo lá no Rio pra Olímpiada e tinham 11 pessoas vivendo em condições e trabalhando em condições que o grupo especial ligado ao Ministério Público achou que era similar a escravidão. O inacreditável é que isso é tão recente, é tão na nossa cara eu não sei o que está se fazendo em relação a isso né? Uma coisa que teve um pequeno avanço recentemente é que até pouco tempo pra atrás não era não era permitido publicar a lista das empresas que usavam trabalho escravo. Então nem isso, nem assim você podia se defender. E agora uma outra liminar voltou a liberar essa lista. então é uma ferramenta importante que volta mas mesmo assim imagina o absurdo você defender, proteger essas empresas que elas não sejam divulgados seus nomes e daí não tem que fazer né? Você nem sabe quem está usando esse tipo de trabalho.

Cris: É muito importante tocar nesse assunto porque essa notícia tanto da Nissan quanto da Walmart fazerem funcionários usarem fraldas, ela tem sido desmentida em alguns outros veículos. Principalmente que aqui no Brasil usaram uma foto pra ilustrar a matéria, apesar de não matéria não falar que tá, e na foto tá escrito que ela ilustrativa, as pessoas começaram a falar: É mentira isso. Isso não aconteceu.

É evidente que diante de uma situação de acusação a empresa tem que ser investigada mas até pra não focar só nesse caso a gente tem inúmeros outros acontecendo. Por mais que a gente não queira ver não é uma coisa impossível que isso tenha acontecido. O próprio Guardian já tinha falado sobre isso no ano passado. Então independente desse fato em si ter ocorrido ou não, a gente tem visto sistematicamente essa conversa voltando a pata e a gente fica horrorizado mas não consegue entender o todo desse processo. É interessante também falar como que isso acontece um pouquinho aqui no Brasil tá? Só pra gente entender um pouquinho de vistoria, os sindicatos eles têm um papel aqui no Brasil, pelo menos teoricamente né, de zelar pela qualidade de vida dos funcionários. Então muitas denúncias vêm via sindicato e ela são investigadas. Fora isso tem uma fiscalização feita por órgãos públicos onde um auditor vai até o local e ele tem que emitir o que ele chama de auto de infração, é um conjunto de documentos composto por áudio, por vídeo, por foto, por documentos escrito. E aí esse material todo vai pra uma área que é analisada e se eles entendem que tem subsídio suficiente então eles abrem o processo de investigação em cima daquela empresa. Então assim também não basta só chegar lá e falar né? A fala, as pessoas denunciarem, serve como subsídio para começar a investigação mas geralmente quando essas investigações acontecem já é estourando o cativeiro e tirando as pessoas de lá sabe? E a gente não tá falando assim de lugares muito longe. A gente sabe que em São Paulo tem esse tipo de condição.

Oga: E é muito louco, né? Sempre fico pensando isso no mercado da moda mesmo, pelo menos em São Paulo é o que tá mais perto, né?

Ju: É…

Oga: Quando você vai no Brás, quando você vai no Bom Retiro… Primeiro foram os bolivianos, mas ao mesmo tempo tinham coreanos no meio, trabalhando também.

Cris: É, o fato de falar que imigrante são as maiores vítimas não é à toa, né?

Oga: É, não, e que às vezes acaba sendo até um estereótipo meio ruim pros bolivianos que falam “meu, não é todo mundo escravo”, então a gente acabou tendo essa imagem na cabeça, mas eu acho que é um lance que a gente tá passando agora, né? Essa mudança de mentalidade de trabalho mesmo, né? Então mesmo com a economia digital a gente já percebe situações muito ruins de trabalho, a gente tá trabalhando muito mais… Obviamente não dá pra gente comparar, você botou os termos claros aí: uma coisa é você trabalhar demais, a outra coisa é você realmente não ter a opção de não trabalhar, é muito diferente. Mas eu acho que a gente tá num momento bem crucial de discutir o trabalho em vários níveis. Ao mesmo tempo que a gente tem em São Paulo gente fazendo home office achando que isso é uma coisa muito natural, quando você para pra pensar no cara que cata castanha lá no Amazonas e que o sacão custa cinco reais e aqui em São Paulo, tipo, quinhentas gramas na sua loja de produtos orgânicos custa quarenta, você fala “cara, você está pagando barato”. É a mesma coisa do Uber, se você está pagando muito barato, desconfia.

Cris: Desconfia…

Oga: Se você tá indo lá na Forever e comprando a blusinha por dez reais, cara, desconfia. Uma calça jeans custando trinta reais, desconfia, sabe? Não tô acusando a Forever aqui, mas eu acho que tem isso mesmo…

Ju: Mas posso falar? Infelizmente, não basta isso, porque as marcas caras também usam trabalho escravo.

Oga: A maioria, né?

Ju: Então, por exemplo, você pega, não estou nem falando em trabalho escravo em si, mas por exemplo: a Farm, num vestido que custa 350 reais, paga cinco reais pra costureira. Entendeu? E isso não é trabalho escravo, isso não é. Isso são as relações de produção consideradas normais pra gente. Mas é só isso, assim… Ok que o fast fashion, ele expõe de uma maneira muito crua essa realidade de você pensar: “é sustentável, é possível que uma blusa chegue a dez reais e esteja remunerando todo mundo dessa cadeia e tal?”. É claro que isso é aquela coisa mais grotesca, que te põe de frente com a situação, né? Que te faz pensar sobre o seu consumo, de onde vem, de pensar em procedência… Ok, esse questionamento é importante, mas não dá pra parar por aí não, porque na verdade todos os elos dessa cadeia tão se baseando nisso, nessa relação de produção, entendeu?

Cris: Tem uma coisa muito interessante que são dois termos também utilizados quando a gente tá falando de trabalho escravo, que são: condições degradantes – né, a gente ouve isso – e jornada exaustiva. Aí você fala “mano, eu trabalho pra caramba”…

Oga: Então, né?

Cris: Então, assim, condição degradante dentro da lei brasileira é uma coisa estipulada muito clara. Condições degradantes são situações que colocam em risco a saúde e a vida do trabalhador. Não é considerada uma situação degradante, por exemplo, falta de copo de plástico ou a espessura do colchão. O que a gente tá falando ali é: condições de alojamento, de alimentação, de trabalho, de não ter segurança no trabalho – tipo gente que trabalha em obra, por exemplo, e não tem um equipamento de proteção individual -, condições de saúde, de segurança desumana – é um lugar muito abafado, é um lugar muito sujo. Então quando fala “degradante” é “degradante” no sentido bem literal mesmo.

Ju: É.

Cris: E quando se fala de jornada exaustiva, que todo mundo que tá nessa mesa aqui trabalha hoje, todo mundo trabalha muito, né? A gente não tá falando de muitas horas seguidas de trabalho, não é isso. Jornada exaustiva não tem a ver com a duração. Jornada exaustiva é quando nega-se o direito do trabalhador de forma que exponha a sua saúde num espaço que ele não consiga descansar e que não permita o convívio social dele. O ritmo de trabalho dele assume uma importância que ele não consegue nem ir pra casa, ele não pode se sentar, ou seja, chega ali num esgotamento físico que ele é exposto pra continuar com o trabalho, porque senão ele é demitido, se ele não fizer aquilo, pra manter o seu emprego ou pra tentar melhorar a remuneração. Então quando a gente vê as camisetas sendo pagas por cinco reais, que ela precisa produzir quinhentas pra ganhar tipo cem reais, ela vai pra uma situação exaustiva de trabalho, que ela precisa trabalha 24 horas pra ter uma remuneração ainda muito baixa. Então é esse tipo de verificação que tem sido feita agora. Então assim, se eu exijo que você trabalhe 24 horas e ainda assim você não ganha o mínimo, isso é uma condição exaustiva e entra dentro de trabalho escravo.

Cris: É, o que eu acho interessante de observar nessa legislação, que ela é pioneira no mundo, essa definição brasileira de trabalho escravo, ela é diferente e que tá sendo questionada, é justamente assim: o que é considerada situação análoga é quando você degrada o ser humano, entendeu? Então assim, por que o que menciona, nesse artigo, não é o copo de plástico, não é a espessura do colchão? Porque são coisas pelos quais o Ministério do Trabalho pode te autuar. Então o que ele tá querendo fazer é uma gradação, entendeu? Então, mostrar assim: ok, tem um monte de regras que você precisa seguir enquanto empregador, você tem que pagar hora extra, você não pode passar x tempo sem dar férias, você tem que pagar, recolher o fundo… Tem um monte de coisa e tudo se você não seguir, você vai ser autuado, então tem um monte de regra. Quando a gente tá falando de trabalho escravo, a gente tá indo pra outra esfera. A gente não tá falando de você meramente quebrar uma regra, meramente você desobedecer um padrão, sabe? “Ah, eu não me atentei para o fato, não sabia dessa regra”. A gente tá falando que, acima de ter quebrado uma lei, você passou do limite do tolerável pela sociedade. Acho que é isso que a gente devia conversar mais do que só o aspecto legal da coisa, entendeu? Porque assim, a gente já passou disso. Na nossa evolução como sociedade, já foi ok você ser dono de outro ser humano e a gente já entendeu que isso é inaceitável, então quando em pleno século XXI você tá usando da pessoa como uma ferramenta – porque é isso que tudo isso, essa descrição técnica que a Cris deu, é pra falar assim: você usou a pessoa como uma ferramenta, não como um ser humano, você não trata um ser humano desse jeito, você não trata um ser humano sem ele poder fazer xixi, você não trata um ser humano sem ele poder dormir, você tirou a humanidade dele. É isso que a gente tá falando, e isso, além de ser um crime, é intolerável, é socialmente intolerável.

Mariana: Tem um exemplo muito bom, muito o “fim do mundo”, que a gente acha que não, imagina que isso ia acontecer, que foi uma agência bancária, em Tocantins, há três anos, que uma mulher que era gerente, sofreu, tava grávida, sofre um aborto espontâneo, pegaram o bebê e ela não foi liberada. Ela foi liberada três horas depois porque ela teve que fechar o caixa, passar os dados – sei lá mais que dados financeiros ela precisava passar. E o bebê morto ficou num saco plástico… É isso que a gente tá falando, não, a gente já passou dessa fase, mas você pensa “isso não acontece”, acontece, isso aconteceu agora, há três anos. E esse mesmo banco já tinha vários processos por mulheres que sofreram aborto – no caso, não ficaram na agência, mas sofreram aborto – tamanha a pressão que sofriam, que aguentavam no trabalho. Então acho que isso é um exemplo bom, também de a gente ver que isso acontece em várias esferas do trabalho e dos jeitos mais horrendos.

Cris: É muito interessante como as coisas vão desencadeando. Eu lembro, há um tempo atrás, eu fiz um trabalho pra uma grande empresa que produz chocolate e essa empresa comprava cacau de uma determinada área e ela foi pega fazendo trabalho escravo. Essa empresa fez um grande programa pra que as pessoas que colhiam e que plantavam cacau ali não usassem mão-de-obra escrava. Mas o que que acontece? Eles pagam por volume que foi colhido. Então, o que o cara faz? Ele recebe o salário só o dele, mas ele leva a esposa e o filho e tira o filho da escola, porque quanto mais a família conseguir colher, mais dinheiro ele recebe. Então, na verdade, a empresa precisou, ou pra acontecer isso, o que ela precisava fazer? Ela pagava ele pela plantação, mas ela pagava ele pra manter o filho na escola e a empresa deu uma outra ocupação pra mulher, e aí ela gerou uma outra fonte de renda. Porque como as mulheres não eram reconhecidas como colhedoras de cacau, eles ensinaram essa mulheres a plantar mandioca. O que acontece é que a produção de mandioca ficou gigantesca e melhorou muito a economia do lugar, porque as mulheres eram muito mais produtivas. Então, na verdade, não basta só… a cadeia toda tem que ser mexida. E hoje em dia, a gente tem o problema que nós temos cadeias de trabalho muito grandes, que foram amplamente fracionadas, então a empresa terceiriza, que quarteiriza, que quinteiriza… E aí, no Brasil, independente se tiver sexteirizado, você é o responsável por toda a cadeia de produção. Então, às vezes, quando bate lá e fala “ah, mas tava fazendo roupa da Zara”. Aí o cara fala: “Meu, mas eu nem sabia, porque eu contratei foi o Zezinho. Se o Zezinho contratou o Luizinho, que contratou o Huguinho, que escravizou Mariazinha, eu não tenho como saber”. Vai ter que saber! Entendeu?

Ju: Tem, tem sim…

Cris: Aí, o que que acontece? Isso sempre foi falado tão à boca pequena, mas de repente teve uma parada que rolou um chacoalhão terrestre, assim. Em 2013, em Bangladesh, que é mundialmente conhecida como a capital de costura, tem grandes fábricas lá – adivinhem por que, né? – o Rana Plaza, que era uma fábrica gigantesca, que abrigava milhares de pessoas, ela ruiu. O negócio implodiu, caiu de um jeito bizarro. Talvez vocês possam não tá ligando o fato ao nome, mas muito gente ficou comovido porque nos escombros, encontraram um casal abraçado, foi uma foto que marcou muito, sabe? Eu arrepio só de lembrar disso. E aí, no meio de mais de mil pessoas morreram, milhares de pessoas ficaram feridas, e junto com os gritos e as roupas da Gucci, da Zara, ali no meio, as pessoas gritavam que já sabiam que ia cair, porque o prédio tinha rachaduras que dava pra enfiar a mão inteira. Aí você fala, “então por que as pessoas continuavam ali?”. Mas elas não tinham opção. Não tem outro lugar pra trabalhar, é ali ou passa fome. Então aquelas fotos que a gente vê de crianças no chão enquanto as mães costuram e tudo mais, e ficou muito marcado isso, porque quando acharam as roupas de marcas no escombro e foram cobrar das marcas, o que elas alegaram foi isso, tipo, “não é que essa pessoa faz, ela só põe o fecho”. E assim, tá quarteirizado, não tem controle desse processo. E a partir daí eu acho que as pessoas começaram a falar: “espera aí, não dá, esse negócio agora ficou feio demais”.

Mariana: Até que eles levaram as blogueiras de moda, lembra? Esse programa sueco, alguma coisa assim…

Ju: Foi um reality show, né?

Oga: Isso.

Mariana: Um reality show levou as blogueiras de moda pra essas fábricas…

Cris: Exato.

Mariana: Estas fábricas similares a esta e foi super chocante, por que elas viram o que que elas estavam incentivando, né?

Ju: O final da cadeia.

Mariana: O preço que outras pessoas estavam pagando pra elas usarem aquelas roupas, pra elas fazerem aqueles posts

Cris: As roupas descartáveis, né? Que o fast fashion é isso, você vê o negócio na passarela num dia, passa 15 dias tá na Renner. Ai você fala: “Nossa, como eles são rápidos né?”. Pois é, mas essa moda descartável que você vai jogando, por que a moda é a industria que mais usa serviço humano no mundo, por que muitas outras passam por processos de maquinário e a moda ainda é muito humana. A gente ta falando aí, de uma industria que lucra 3 trilhões de dólares só em 2014. E foi justamente 2 anos depois do desabamento do Rana Plaza. Pra quem ainda não assistiu, não teve a oportunidade, o documentário “True Coast” que tá no Netflix, ele faz uma, assim, leitura gigantesca da industria da moda, ele é muito bom, uma das coisas assim, não da pra você não fechar a conta, sabe? Uma camiseta que custa 30 euros, a costureira ganhou 8 centavos. Então assim é muita diferença, é gritante, assim, ai você começa a ficar meio: “Meu Deus, o que é que eu estou fazendo?”. Semana passada a gente tava falando de cultura do estupro né? Essa cultura do consumo, com o que, que a gente tá colaborando, né?

Ju: E não é só do consumo, né? Porque quando você fala de otimizar, é uma puta boa ideia, né? Otimizar, então melhorar custo, aumentar a eficiência e tal. E todos somos a favor de aumentar a eficiência né? Mas a gente estressa isso ao ponto em que assim, qualquer um de nós, em qualquer, a gente é só um micro pontinho da cadeia, mas da visão super limitada que a gente tem da cadeia, da [de] onde a gente trabalha, no lugar que a gente senta, a gente já vê que não é sustentável desse jeito. Entendeu? Então, você vê que cada elo que você enxerga que já é pouquinho, né? Eu não consigo enxergar Bangladesh da onde eu tô sentada, mas da onde eu to sentada eu já vejo que não é, não é sustentável, entendeu? Então é uma pressão cada vez maior pra fazer mais, com menos dinheiro. Você está sempre, cada dia, tentando fazer mais com menos dinheiro e isso vai apertando cada elo da corrente até que arrebente.

Cris: Não e eu acho que, diretamente, ninguém quer fazer parte disso. Você não quer saber que o produto que você ta consumindo foi feito por uma criança que passou o dia inteiro em pé, uma criança de sete, oito, nove anos montando ali o celular que agora você tá usando. É muito ruim saber que você tá colaborando para que isso aconteça, sabe? E também acho muito difícil, o ouvinte falou, né? Ah, eu tenho 45 anos e tal, meu tá todo mundo nesse processo, porque até ontem a gente não questionava muito isso. Talvez o fato de a gente não ter tanto acesso a informação não deixava isto tão claro, mas quando você assiste um documentário tipo esse aqui o “True Coast”, quando você assiste lá o de carne, como é que chama? Cowexperience. Ai você começa a falar: Meu! Perai, eu tenho que parar, não dá pra eu sair por ai comprando, comendo, me locomovendo do jeito que eu bem entender e azar de onde isso tá vindo, sabe?

Ju: Ou pra onde tá indo, né?

Cris: É, eu acho que começa a entrar a discussão de consumo consciente, porque consumo consciente não é deixar de consumir, sabe? É você estar plenamente ciente do que, que você tá consumindo. E ai passam por algumas leituras, a primeira delas é tipo: Você consumir só o que a você precisa. A gente tem muita coisa que a gente não precisa. E ai eu não to falando de volume, eu to falando daquilo que você não usa. Por que as vezes você fala assim eu não tenho muito sapato. Eu tenho, sei lá, 10 pares de sapato, mas 3 eu não uso, então você tem muito entendeu? Se tem uma coisa que você tem e você não usa, é excesso, você não precisa daquilo pra viver. E gente, ninguém precisa de dois carros, desculpa, não existe isso, sabe, uma pessoa ter dois carros. Ou uma pessoa ter dois, três celulares, não faz sentido. Então a primeira coisa passa por isso, assim, de onde que vem essa carne que eu tô comendo, de onde que vem essa roupa que eu tô vestindo, de onde que vem essa fruta que eu tô comendo, esse carro que eu tô dirigindo. Não é pra você falar assim: agora eu vou parar de tudo. Não existe isso, mas quando você começa a questionar, você começa a escolher melhor.

Mariana: Agora tá tendo um movimento muito legal nisso, que é de mães empreendedoras fazendo todo tipo de coisa que você precisa, que você usa. Isso é muito legal, você comprar, eu tenho uma amiga, ex-jornalista, que tá fazendo calças, leggings para crianças e adultos. E eu acho muito legal. É um pouco mais caro? É um pouco mais caro, mas quantas vezes…

Cris: Adivinha por que, né? Por que você não tá contribuindo com trabalho escravo.

Mariana: Você para e pensa, quantas leggings a sua filha precisa. Muito menos do que você imagina, então é só você ao invés de comprar duas, comprar uma e pronto, tá tudo certo?

Cris: E dura mais.

Mariana: E dura mais. E dai você pensa: Eu preciso lavar a roupa todo dia, da criança? Não né?

Ju: Ah, de criança sim, né?

Cris: Depende da cor, amiga.

Mariana: Depende né? Por isso compra uma roxa, que não precisa lavar toda hora. E dai você vai economizando. E essa coisa de lavar também, de água. Eu acho também quem mora em São Paulo ano passado teve uma grande lição.

Cris: Teve.

Mariana: Então, é isso. Eu acho que pras crianças pelo menos, os meus filhos ficou essa lição, então tira o lado bom da coisa, de ver, não vamos desperdiçar, vamo em tudo.

Cris: Não, falando nisso dá pra fazer outras coisas também. A tecnologia ajuda muito. Hoje sites, como mercado livre e outros, você pode comprar direto de pequenos produtores, entendeu? Um monte de coisas, tem móveis no sul que você consegue comprar direto com os caras que fabricam e roupas de Ibitinga e várias outros lugares que você compra do pequeno produtor. Tem as feiras, São Paulo é um lugar com muitas feiras de rua, que você também consegue comprar direto do produtor. Acaba sendo mais caro, mas a fruta dura muito mais, o legume dura muito mais, a gente tá passando por este aprendizado. Eu como carne, mas eu já não sinto necessidade de comer carne todo dia, eu acho que tem alternativas, eu posso diminuir o uso. Então tentar conhecer a origem do que você consome é interessante também. Tem um aplicativo que chama “Moda Livre”, nesse aplicativo você ver quais marcas estão trabalhando para combater ou estão sendo autuadas em trabalho escravo.

Ju: Uma coisa que a gente tem que pensar, por que assim o primeiro passo é você se dar conta do problema, aquela coisa que a gente falou no programa passado que é enxergar a água. Então assim enxergar que tudo o que você consome tá impactando e que não necessariamente tá impactando bem ou da maneira que deveria. Só que ai, por exemplo, quando você vai pra prática: Ah, então eu vou comprar de produtor local, que é a primeira resposta pra isso, primeiro repensar a quantidade e depois eu vou buscar o consumo local, ai você tem que ter cuidado, por que não necessariamente o consumo local ele tá fazendo, atendendo as regras básicas de impacto, então por exemplo, você usou um exemplo ótimo: Ah, eu vou comprar de um produtor de móvel lá do sul, nanana…Sabe se esse cara ta fazendo, com madeira que, realmente, é reflorestada e que tem selo nanana, porque é muito mais difícil de você fazer o controle do pulverizado do que dos grandes, então sei lá, as grandes empresas tem uma autuação e tem uma fiscalização maior, os pequenos já é mais difícil porque é mais pulverizado e ai você transfere a responsabilidade pro consumidor. Então, eu, teria que cobrar desse cara se ele tem mesmo, e saber se ele tem mesmo e tal. Ai você começa assim, não, se para cada item que eu usar eu tiver que ir atrás de saber não sei o que, vira uma insanidade, não tem como, então a nossa resposta não pode ser essa, a resposta como sociedade não pode ser que cada pessoa tem que controlar a produção de cada produto que ela usa, porque hoje em dia a gente usa muita coisa, não é viável, então a gente tem que ter uma outra resposta pra isso, né? Então por isso que a gente fala que as empresas são responsáveis, então você já fala de rastreamento de cadeia. Então por exemplo, sei lá, o Pão de Açúcar, se ele vai vender uma carne, ele tem que saber dessa carne, o pasto que esse boi comeu pra saber se desmatou alguma área, tem que saber se esse boi recebeu antibiótico além do necessário, enfim ele é responsável. Por que eu não tenho como dos 300 itens da minha cesta básica, eu não tenho como rastrear tudo, o Pão de Açúcar tem, então se eu to comprando dele eu só tenho que rastrear uma coisa: O Pão de Açúcar, se ele tem esses selo, ele tem que rastrear todo mundo que tá ali dentro.

Cris: É um trabalho em conjunto que a gente vê que não está sendo feito. Tanto que o dono da Zara hoje é um dos homens mais ricos do mundo, ele é trilhardario, simplesmente por que as pessoas não estão nem ai pra onde a Zara faz as suas roupas e ai, e não é só a Zara, a Zara é um exemplo emblemático, mas tem empresa até pior que ela, autuadas mais vezes, mas assim o que acontece hoje é que as pessoas simplesmente continuam consumindo, então na verdade ela não tá nem ai, de onde ele tá produzindo, não foi afetado, ele não ganhou um real a menos por que caiu o negócio lá em Bangladesh em 2013.

Cris: Então assim, o consumidor ele pode conseguir fazer uma pressão. É extremamente trabalhoso fazer isso, é muito cansativo. Mas o consumo consciente passa por você ter a traquilidade de pelo menos saber a origem daquilo, mesmo que venha Bangladesh. Você só não pode ignorar a origem.
Mariana: Teve uma matéria que uma jornalista do New York Times tentou fazer e foi muito interessante, que ela tentou ficar um mês sem consumir nada vindo da China, e ela tinha um bebê também então ela não podia usar fralda vinda da China e outras… a grande maioria dos produtos de bebê também vem… de tudo né. E ela simplesmente não conseguiu. A matéria era “como eu falhei – eu não consegui ficar 1 mês sem consumir produtos vindos da China”. Justamente, ela tava nessa tentativa de ter uma vida mais sustentável, de saber da onde vinha tudo e ela não conseguiu.
Cris: Não, eu acho que assim… é um trabalho gigantesco. Eu também não consigo não. O que eu to falando é que a partir do momento que você alerta pro negócio, que começa em um processo de tentar verificar melhor… Existe opção além das lojas que já estão autuadas. De bom grado você entrar ali e compactuar é diferente de muitas vezes você não ter outra opção… ou de você não saber…
Oga: Eu acho que sempre passa por uma mudança cultural também, né. E eu acho que ainda no Brasil a gente tá começando a caminhar pra isso. Tipo, orgânico é visto como uma coisa de hipster e “ah, não, que moderno”… Eu sei que de certa forma parece tudo muito fútil e muito bobo. Mas, eu acho que se não se passar por isso, se não se tornar um valor pro consumidor ele ser um cara mais limpo, não vai ter mudança. Porque ao mesmo tempo que a gente fica discutindo nisso, num nível de pessoas conscientes, mas ao mesmo tempo na periferia você ter um nike que foi fabricado por um moleque parecido com você, que também é explorado, que custa dez vezes o seu salário, é um valor. É um valor que traz auto-estima pra esse cara… Então ao mesmo tempo fica sempre… um lance assim… eu me sinto as vezes falando pra um amigo ou qualquer “nossa, que besteira, você comprou esse tênis aí…” Mas é que assim, calma. Agora que o cara conseguiu entrar na festa, agora eu vou falar pra ele que não precisa. “Não, você não precisa de um carro, vem de transporte público é incrivel!”. Tipo, agora que esse cara entrou na festa… por isso que eu acho que a gente tem que mudar muito a mentalidade, por que assim… toda a nossa cultura ainda é pregada em cima do valor do consumo ou do exclusivismo… principalmente no Brasil. E ao mesmo tempo eu sempre fico chocado. Eu fui agora pro interior, pra Jaraguá do Sul, e eu tive contato primeiro com um dos trabalhos que uns amigos meus estão fazendo, pessoal do Firmorama junto com o pessoal da Trendty, e não lembro mais o otro que tá sendo envolvido, mas enfim… eles fizeram um produto que chama Beauty Softness. Eles foram pro South by Southwest pra tentar vender… esse produto tá rolando… E é um produto que você usa, que ele tem uma nanotecnologia, tem bactérias que eles comem… enfim, você joga ele no seu produto de limpeza, no seu sabão junto, e você pode usar uma camiseta mais vezes, porque eles vão comer as bactérias do suor. Então você acaba tendo um produto mais limpo, porque você precisa lavar menos roupa, você acaba comprando menos roupa, porque a sua camiseta vai durar mais, e ao mesmo tempo é isso, é super cool, e ao mesmo tempo tem um design bonito, eu sempre fico brincando assim, a gente tem que usar a publicidade pra algo positivo nesse mundo…
[risos]
Oga: Sabe? E assim, porque é que a gente não faz essa mudança de mentalidade? Porque assim, eu vejo agora no instagram, tem uma juventude negra muito fashion e que tem esse lance, né, da cultura do tombamento e tal… é muito louco, essa galera tá no instagram vendendo roupa usada e é tipo demais você achar um jaco anos 90 da Polo Ralph Lauren ou de qualquer marca que aparecia nos clipes de rap dos anos 90. É uma reciclagem, mas é super cool e é super underground. Então assim, tem formas. O que eu acho louco é como a grande indústria não percebe. Eu entendo que quando o Pão de Açúcar bota o selinho de orgânico e tal, ele resignifica e dá um valor a mais. Mas acho que a gente pode ir mais além assim…

Cris: Eu acho assim, tem uma coisa muito importante no que você falou, e conversar com uma geração sobre consumo consciente sendo… isso é fruto da desigualdade do Brasil. Primeiro, porque ninguém abre mão do que não tem. A pessoa primeiro tem que ter pra depois ela abrir mão. O que eu acho é que tem um monte de gente que já pode abrir mão, e é com essas pessoas que a gente tem que conversar. Tem gente que agora tá podendo adquirir, aí você vem falar que ter carro é brega? Não é o cara lá que mora lá em Perucci que tem que abrir mão do carro. Sou eu que moro aqui na zona oeste, e trabalho aqui também. Sabe?

Ju: E pra quem todo o sistema viário e de transporte foi pensado.

Cris: Exatamente.

Oga: E ao mesmo tempo também tem o lance assim…

Cris: Então, é muito desigual ainda, sabe? E tem gente que ainda nem tem e a gente já aqui tá falando de abrir mão. Isso serve pra algumas pessoas em alguns momentos. O consumo consciente eu acho que serve pra todos. O cara ter consciência que ele quer ter o bacana e tal, ele pode juntar um pouquinho mais de dinheiro, porque a diferença não é tão grande, e consegue comprar sabe esses tênis que são feitos… eu tava até vendo um que é feito com a folha da maconha (Oga: Com cânhamo), que é um tênis lindão… Ele é o mesmo preço de um Nike. É um tenis fabricado do mesmo, sabe, com um negocio todo certo, com uns caras que tem uma puta cabeça legal… Então assim, hoje cara, com a internet você acha produto legal pra caramba, que tem uma filosofia, que quer um algo mais.

Oga: Por isso que eu acho que é uma mudança cultural. Eu lembro de um amigo meu que quando ele falou que ele conseguiu comprar uma BMW, ele conseguiu pegar trabalhos melhores. Ele ia pras agências e conseguia convencer… Quer dizer, assim… não interessa qual é o grau social… (Cris: É o status). É, então assim… O cara troca o iPhone até por status, e ele nem sabe usar. Assim, quantas vezes você não tá na mesa de um bar e as pessoas não sabem achar a calculadora no celular. E aí você fala assim… porque você precisa de um celular de ultima geração que faz tudo, e você não sabe nem usar. Não sabe achar a calculadora… Então…

[risos]

Mariana: Mas, também… a gente tá falando de que a gente tá pedindo pras pessoas deixarem de ter ou mudarem os hábitos e tal… a gente não só ta fazendo isso como a gente continua incentivando o consumismo de uma maneira enlouquecida pra um próxima geração, né. Então também que perspectiva cê tem que isso vai mudar se as crianças que agora Youtube é totalmente parte da vida e tal e de grande maioria das classes, e não sei que… se elas tão lá vendo outras crianças abrindo brinquedos loucamente… então cê vai com esse discurso de consumo sustentável, consciente… não faz nenhum sentido isso. Vamos pensar, no futuro pra essas crianças também num vai fazer porque essas crianças tão crescendo nesse ambiente de de consumismo enlouquecido, né…

Cris: Trabalheira, né… pensar isso tudo.

Mariana: É um pouco deprê pensar nisso…

Cris: Pois é… nas pessoas de fralda. Eu acho que é nisso que a gente tem que pensar. Fique com essa imagem, amigo, na cabeça. Uma pessoa de fralda que não pode ir no banheiro pra não parar a produção.

[trilha: Caê – Zambê (feat. Juçara Marçal)]

Ju: Vamos lá pro segundo tópico: “Muhammad Ali, muito mais do que uma lenda de boxe”
Morreu na noite de três de junho, o ex-pugilista Muhammad Ali, num hospital em Fenix no Arizona aos 74 anos. Ali foi internado na última quinta-feira por problemas respiratórios e sofria do mal de Parkinson desde 84. Nascido em Louisville no Kentucky com o nome de Cassius Clay, foi campeão olímpico em Roma em sessenta e também campeão mundial. Participou de 61 lutas, das quais venceu 56, 37 por nocaute. Além disso, ficou mundialmente conhecido por ser o primeiro esportista no mundo a aliar sua fama ao marketing e ao ativismo. Ele utilizou todo o seu conhecimento do pan-africanismo para se colocar como lutador da Africa em sua luta contra o racismo, se relacionou diretamente com Martin Luther King, Malcom X e Nelson Mandela. Ainda serviu como porta voz em negociação com Saddam Hussein a libertação de 14 reféns norte-americanos e como negociador para que um suicida desistisse de pular de um prédio. O funeral acontecerá nessa sexta-feira, na cidade de Louisville, na presença de milhares de pessoas. O evento será uma mensagem universal de paz e tolerância.

Cris: Oga, conte pra gente…

Oga: É, é triste né… Porque eu até gosto de fazer um pouco um paralelo da história do Muhammad Ali com da Nina Simone, né… que foi um cara que até uma certa idade ele teve contato com o racismo, tal… Ele não era tão engajado. E ele passa a ser engajado quando ele fica famoso. No caso do Muhammad Ali, eu acho que ele começou a ter o engajamento maior principalmente quando ele… Vou ficar dando spoiler da vida dele, né? (Cris: Todos…)

[risos]

Oga: Né? Depois ninguém vai querer ver o documentário…

Cris: Nem o filme do Will Smith.

[risos]

Oga: Nem o filme do Will Smith. Mas assim, principalmente o momento que ele chega e se rebela, diz que ele não vai pro Vietnã, é um momento que é muito interessante quando cê vê que esse artista – não posso dizer que é um artista – mas esportista pop, essa figura que brancos e negros amam… ele chega e fala “Cara, eu não concordo. Eu não vou pro Vietnã, eu não matar os kongs porque eles não me chamam de nigger… Sabe, não tem motivo pra eu ir pra esse lugar.” Então quando esse cara chega, se filia… conhece a nação islã, vira muçulmano, procura o nome dele, já que… é até muito legal, enfim… eu não queria ficar dando spoiler porque eu quero que vocês vejam o filme. Mas é muito legal esse momento de reconhecimento dele…

Cris: Não, ele tinha um nome incrível né? Que Cassius Clay parece uma coisa meio de rei, né. E ele renegou, ele falou assim “Não, isso é o nome que os brancos me deram”.

Oga: E é um nome grego, não tinha nada a ver… (Cris: é…) Ele nem sabia quem foi o Cassius Clay…

Cris: E ele falava “eu tenho cara de Cassius Clay? Olha a minha cor”. Aí o pai dele chamava Cassius Clay também…

Oga: Não, o pai dele era o Cassius Clay Senior. (Cris: é…) Tipo, já era o ter… era o avô, né… então ele era o terceiro. Então assim, é muito… E ao mesmo tempo pra mim parece muito a história da Nina Simone né… Quando ocorre um atentado, numa igreja na cidade dela ela se rebela, faz uma música triste não pop falando sobre isso e aí as pessoas negam. E aí ao mesmo tempo a gente pode fazer um paralelo agora talvez, de uma maneira muito mais branda, com o Lemonade da Beyoncé, quer dizer… Quando você começa a assumir a sua ancestralidade, começa a lutar contra isso, a demonstrar no seu trabalho, as pessoas começam a questionar, né, da onde você vem. Obviamente eu acho que quando a gente vê o personagem Muhammad Ali, ele é muito mais complexo. Eu to fazendo esse paralelo com a Nina Simone, eu acho até que ela foi… ela foi até mais engajada e mais sofrida na luta. Eu acho que o Muhammad Ali, ele conseguia fazer isso de um jeito que era interessante (Cris: é…) porque ao mesmo tempo que ele tava com a nação do islã, que são os caras super radicais, eles assim… Por exemplo, a nação do islã eles não aceitavam essa mistura de raça. Pra eles, eles fariam um Estados Unidos negro (Cris: Eles pregavam a separação…), ou eles voltariam pra Africa, né. Então assim… o Muhammad Ali não acreditava em tudo. O Malcom X não acreditava em tudo, tanto que o Malcom X rompeu, né… E aí… Só que o Cassius conseguiu ficar meio junto dos caras, pegar uma melhor de cada lado…

Cris: Então, mas ele fazia uma coisa mágica porque vários vídeos dele circularam agora, né, e ele ia nos programas dos brancos, e ele contava as histórias rindo e ironizando, e as pessoas entravam naquela história. Ele era muito carismático.

Oga: Mas ao mesmo tempo ele não “passava um pano”, né.

Cris: Não!

Oga: Ele não deixava o discurso mais brando, [Cris: Quando ele conta] então isso era muito interessante, a forma como ele conseguia fazer isso que era através do carisma dele mesmo.

Cris: O jeito que ele contou, ele conta num programa de televisão que ele teve uma conversa com a mãe dele. Era mais ou menos assim, ele virou e falou assim: “Mãe, quando a gente morre, a gente vai pro céu?” Aí ela: “Vai, meu filho” e aí ele fala “Mas como pode? Jesus é branco, todos os anjos são brancos, tudo é branco! Cadê os pretos?” Aí a mãe dele naquele “nanana” e ele foi, eles estão na cozinha né, fazendo leite mel, “mas eu não quero leite mel, eu quero bife!”. E a partir daquele dia ele rompeu com a igreja católica e aí ele foi procurar um lugar onde pudesse acolher ele, e era uma época que o Islã tinha explodido nos Estados Unidos né. E ele se converteu, recebeu um novo nome de batismo, e a partir daí ele abraçou essa causa. Inclusive o funeral dele vai ser dentro das regras islâmicas e tudo mais. E eu queria só ler uma aspas dele aqui da Guerra do Vietnã [Oga: aham] que é bem legal. Tem ele falando isso em tudo quanto é vídeo.

Oga: Não, e é gigante também né, tem os…

Cris: Eu vou pegar um pedacinho, olha só: “Não irei a 10 mil milhas da minha casa para ajudar a assassinar outra pobre nação, simplesmente pra continuar a dominação dos brancos aos negros de todo mundo. O inimigo real do meu povo está aqui. Se eu pensasse que a guerra traria liberdade e igualdade para 22 milhões do meu povo, eles não precisariam me obrigar. Amanhã mesmo eu iria. Não tenho nada a perder por defender meus princípios. Se eu for pra prisão e daí? Nós estivemos presos por 400 anos”.

Oga: Se pensar que esse cara podia falar, e ao mesmo tempo é muito legal. Você vê que tá rolando junto: a nação do Islã, Blackpanthers, a Nina [Simone] de um lado, quer dizer, os Estados Unidos inteiro estava discutindo, né o fim da “Repro”, o fim das leis separatistas e aí você tem um esportista desse, nesse momento, né, e realmente ele era muito bom no que ele fazia, então era difícil questioná-lo né, então você tinha que aceitar. Obviamente tinha muita gente, principalmente né, a partir desse momento que ele diz que não vai pro Vietnã, começou a ter gente que tinha rejeição por ele, começavam a achar ele um falastrão.

Cris: É, ele pegou três anos, né, de reclusão, ele perdeu o cinturão por isso. [Oga: aham] Foi tenso.

Oga: É, e foi uma briga de tribunal, que aliás, vai sair um documentário da HBO, né, sobre isso, eu nem sei, eu acho que não tem em português, mas acho já saiu em inglês. Que é só sobre o tribunal, assim, como eles fizeram pra conseguir defender o Muhammad Ali.

Cris: Ele desertou né, e isso é crime. E tem uma outra passagem muito interessante da vida dele que é quando ele ganha a medalha em 1960 na olimpíada em Roma, e é super divertido também ele contando, porque ele tem toda aquela, aquele jeito sarcástico de falar e ele fala “Nossa, foi a primeira vez que o preto tava, né, no primeiro lugar ali com aquele tanto de branco embaixo de mim e eu ali no lugar mais alto do pódio e diz ele que quando ele que quando pegou a medalha, ele falou assim: “Agora” ele falou assim: “Me senti Deus! achei que se libertar meu povo agora”. E ele voltou pro Estados Unidos, voltou pra cidade natal dele que inclusive é onde vai ser enterrado. Primeira coisa: entrou num restaurante, pediu um cachorro quente e um café e aí o cara olhou pra ele muito espantado e falou “Mas a gente não serve negro” aí ele virou e falou assim “Eu ganhei uma medalha, eu servi esse país, eu sou um campeão, cê vai me trazer um café e um hot dog!” E aí daí vem o gerente, e o gerente fala “A gente não serve negro aqui” E aí ele falou “Eu também não sirvo negro! Eu só quero o meu hot dog e meu café!” Mas mandaram ele sair, e quando ele saiu, ele ficou muito revoltado e jogou a medalha dele no rio. Tipo “Pra que que serve essa merda né?!” E em Atlanta, em 96 na olimpíada de Atlanta, quando ele foi acender a tocha olímpica, eles deram outra medalha pra ele, que não tem nada comprovado que ele jogou no rio, mas ninguém nunca mais viu a medalha e meio que ficou sendo lenda Urbana. Então assim, foi um cara que sofreu muito na pele né. Ele é um grande campeão, um cara alto né, muito alto!

Oga: 1,90 metro. Tem uma historia que é legal também, saiu um livro no Estados Unidos que diz que dizem que ele é um dos primeiros MC’s do rap.

Cris: Jura?

Oga: É, assim, ele tinha uma brincadeira de provocar com rima, mas isso é uma coisa da cultura Americana, enfim, é normal, todos fazem, igual a gente canta o Gererê. Não sei se isso pode [risos] ser pra todo mundo, eu sei que tem lugares que mudam, mas assim, eles tem uma brincadeira de xingar a mãe do outro rimando, só que o jeito que ele reportava, o jeito que ele falava é muito comum MC de rap. Então muita gente compara, assim, o jeito que ele fala “Meu, sou king, sou rei do mundo” sabe tipo, é muito lance que geralmente os rappers fazem, e isso é muito legal porque você começa a analisar a logica que ele fazia de provocação, como ele falava, realmente

Cris: e fala rindo

Oga: Fala rindo e o jeito que ele provocava os oponentes e ele sacava muito bem que tipo de oponente ele poderia provocar. Até no filme mostra um pouco disso, né. Alguns momentos que ele provoca um oponente.

Cris: abaixa a guarda e fica chamando o cara

Oga: Não, e as vezes, é. E não só na luta, mas o que ele fazia, a tensão que ele fazia antes. Então uma das lutas incríveis é contra o Foreman, que ele vai lá pro Zaire, em 74. E ele chega lá e fala assim: “Caramba, eu não posso chamar o Foreman de branco, porque ele até, né, tem um tom de pele mais escura que o meu, ele tem traços talvez negros mais fortes que o meu. Cara como eu vou transformar esse filha da mãe num inimigo?” [Cris: risos] E ele chega pergunta pros caras no Zaire tipo, “Meu, de quem vocês não gostam?” “Dos belgas” “Ah, então, tá”. Aí depois ele fala que o cara é belga, aí as pessoas começam a gritar “Bumaiê Ali Bumaiê” que é tipo, “queima ele, mata ele”, tipo, “Meu mata o oponente” e o cara virou um deus, tipo, no Zaire. E é muito louco, porque ele ja transformou o Foreman num inimigo porque ele ta com os belga, porque a religião dele, e começa a jogar um monte de coisas, xingar o cara de monstro, e ele fez isso com todos os oponentes, assim.

Cris: até aquele documentário “Quando éramos reis”, fica muito isso né. Ele, o cara todo consciente e “tanana” e o Foreman era o alienado, não sabia nada que tava acontecendo, mal sabia que era preto, então é obvio que é uma construção né de invenção dos papeis.

Oga: Uma discussão desse tipo nos Estados Unidos, no harley, com os meninos falando que assim “Cara…”

Cris: Não apanhou, não? [risos]

Oga: Não, não, ficamos numa discussão tranquila, mas falando um pouco disso, que um dos meninos, enfim, uma discussão, falei que era do Brasil, tal não sei o que né, e o cara falou assim, eu sei no final eu falei assim “vocês são black americans, vocês não são afro americans” e o cara falou assim “ah, eu nem gosto dos africanos, tem uns que moram na minha quadra” Mas, mano, nos Estados Unidos eles conseguiram criar uma cultura tão diferente do negro americano com a música, né em alguns momentos, eles se distanciaram mesmo da África então foi muito fácil o Muhammad Ali acusar, apesar de ser falso, mas acusar o Foreman que é um cara crente, criado na igreja americana negra falar “cara você não se relaciona nem com um pouquinho com a africa, você é um negro americano, e eu sou tipo pan-african, eu conheço os caras, eu quero voltar pra cá” Ele ganhou todo esse conhecimento do islamismo africano e ele pode usar isso com uma certa propriedade.

Cris: E ele foi um dos caras super importantes que defendeu o pan-africanismo né que se falava nisso na época. pra quem não conhece a ideia ali era o movimento de descentes de escravos americanos na América sulista predominantemente descendentes de afro-americanos com ancestrais irlandeses e ingleses. e o que que eles faziam ali, é uma ideologia de que propõe a união de todos os povos da África como forma de potencializar a voz do continente no contexto inter-racial. foi relativamente Popular pelas elites africanas ao longo das lutas pela independência na metade do século 20. O pan-africanismo, ele foi mais defendido fora da África, entre os descendentes de escravos africanos levados pra América até o século 19, do que dos próprios que viviam lá. Então assim a ideia era juntar o povo pra ter mais força

Oga: É. É..ela faz sentido quando você pensa na diáspora, né? [ Cris: É. ] Então assim, fiquei pensando principalmente nas ilhas do Caribe, então muita gente nas américas abraça essa ideia de falar ‘Cara, nós negros somos todos iguais, todos viemos da África.’ Agora óbvio, quando a gente fala África a gente sempre fala de um jeito muito genérico..

Cris: Parece que tá em outro país né.

Oga: Mesma coisa quando as pessoas falam que a gente é latino. O brasileiro fica estranho ‘Latino?’ Tipo, porque meo, é tão diferente Argentina do Chile, são culturas tão diferentes, a gente nem fala a mesma língua. E quando a gente fica falando África, a gente esquece que o Egito tá ali dentro. Eu entendo um africano ficar sempre questionando, falando ‘Velho, tipo..’.[Cris: ‘Do que que você tá falando?’] ‘De que África que vocês tão pirando tanto?’ Porque cada país é tão diferente um do outro, as tribos… Eaí ao mesmo tempo o pan-africanismo ele tem um lado bonito, mas também tem um lado muito romantizado.[Cris: Tem.] Mas serviu muito naquele momento pra gente entender essa questão da diáspora. Então todos os negros que saíram, de onde a gente saiu, como a gente se reconhece como irmão quanto negro. Nos Estados Unidos acho que tem um pouquinho mais de força, teve reuniões, congressos, aqui na década de 60,70 disso, mas eu vejo que essa discussão já evoluiu assim.

Cris: Não, e outra, acho que tem a parte legal disse também que é de preservação da cultura dos ancestrais. Tem uma coisa interessante que eu fiquei sabendo recentemente, porque a música americana, ela não tem batuque né. Ela não tem tambor, e todas as músicas de lugares onde migrantes da África vivem tem. Então você fala assim: ‘Onde foi parar o tambor da música americana?’ E na verdade o que aconteceu é que, aconteceu uma rebelião no Mississipi, que uma série de negros fugiram, conseguiram fugir da senzala, conseguiram matar os donos das fazendas e fugir. E uma grande parte foi recapturada e sob muita tortura eles confessaram que se comunicavam através de tambores. Eles conseguiram desenvolver uma linguagem e conseguiram arquitetar toda a fuga usando os tambores. Então a partir daquilo os tambores foram proibidos nos Estado Unidos inteiro. E ficaram proibidos por mais de cem anos. Então uma geração inteira morreu e outra nasceu sem ouvir tambor. Então é por isso que a música americana não tem tambor.

Oga: Não, mas ao mesmo tempo, tem umas histórias muito interessantes. Tem um documentário que fala sobre a história do jazz, e fala que os negros e os brancos tocam diferente bateria no jazz. E os negros, eu não me lembro exatamente tá daí vocês dão um Google aí, mas parece que os negros tocam com o calcanhar e os brancos tocam com a parte da frente a batera, e isso faz toda a diferença…isso tem a ver com a cultura, eaí tem várias paradas malucas, tem um negócio interessante aqui no Brasil, pensando principalmente nos negros muçulmanos que quando eles trouxeram os escravos pro Brasil, os muçulmanos, eles tinham escrita, cara. Então assim, a revolta que teve na Bahia, dos negros muçulmanos, os escravos, eles já sabiam escrever. Eles faziam pixos nas ruas de Salvador indicando os caminhos de fuga, sabe.

Cris: É né, a hora que você quer fugir, você usa qualquer coisa.

Oga: Não, e ao mesmo tempo assim, esses caras eram cultos né. [ Cris: É…] Né…Eles tinham uma cultura muito…muito sofisticada e que a gente insistia em não saber, e de certa forma, assim, quando a gente pensa em tambor, é uma tecnologia, sempre foi usado como uma tecnologia de comunicação, de conversa, intra-dimensões, porque os caras acreditam que tão conversando com os espíritos. Então se a gente subestima, né? E se a gente para pra pensa, cara, a África é muito tecnológica!

[ risos ]

Oga: Isso não é papo de alto futurístico….é uma lógica.

Cris: Mas não era naquela tal de África que tinha umas pirâmides?

[ risos ]

Oga: É então, daí o cara vê o Discovery e fala ‘Daí que vieram os ETs?’ Tipo..não… [ risos ]

Cris: Só pra encerra, ele também foi indicado em 2007 ao prêmio Nobel da Paz, porque ele desenvolveu uma série de ações com associações e criando fundações que ajudavam crianças e amparavam ali no crescimento dessas crianças muito dialogando com educação e com esporte. Então assim, é uma vida que vale muito a pena ser lembrada, celebrada, é um ano triste, assim, a gente perdeu Mandela há pouco tempo, o Prince há pouco tempo…

Oga: Bibi Paul

Cris: Bibi Paul, e agora o Muhammad Ali, então a gente torce pra novas mentes pensantes, que conversem, que dialogam, que criam pontes, que ele foi um grande criador de pontes, depois que envelheceu né. Ele troxe um discurso muito mais suave, muito mais apaziguador que a gente possa aprender com figuras desse tipo. Vou terminar com uma frase, que ele era um grande frasista e muito irônico, que ele falava “Eu tento ser humilde, mas aí eu lembro o tamanho que eu tenho”.

[risos]

[trilha – instrumental]

Ju: Vamos então para o farol aceso. Mari, o que que você tem, heim?
Marina: Olha, eu fiz uma viagem de avião sem filhos há pouco tempo, e eu quis ler um livro, assim pra ficar bem “cool” mesmo [risos], “descolado” [Cris: bem descolado!]. Aí eu comprei um livro no aeroporto que em português é “O sol é para todos”. É um clássico [Ju: é um classico]. E todo mundo me falava “não, é um clássico, você tem que ler, tal” e enfim, ia entrar na lista que você tem que fazer e nunca faz, e eu fiz nessa viagem de avião. E é incrível, é um daqueles livros que você vai virando a página automaticamente, muita gente deve conhecer pelo filme, mas eu super recomendo o livro com todas as forças possíveis.

Ju: Fala Oga

Oga: Nossa, tem um monte de coisas [Ju: concorda, risos]

Cris: Oga é assim, vem, já chega, quer falar 10 coisas, tal

[risos]

Oga: Eu acho que minha colaboração é sempre no farol aceso. [risos] Bem, o disco novo do Rico Dalassam, eu sei que vocês já estão cansados de ouvir falar dele.

Ju: Você tá muito, você tá muito “old”. Você tá muito atrasado! A gente deu até exclusiva, tá?

[risos]

Oga: Eu sei, eu só tô reforçando, eu ouvi o audio do programa. Só tô reforçando e queria agradecer também que eu fui reconhecido no show do Rico…

Ju: Ah eh?!

Oga: No auditório, por mamileiros!
[risos]

Cris: Ah, que amor

Oga: Cinco mamileiros, não lembro o nome de todo mundo, eu lembro que tinha o Lucas, Rebeca, ah gente, eu sou muito ruim com nomes mas enfim …

Ju: Beijos pra vocês viu

Oga: E foi muito legal

Cris: Isso aí, abracem os nossos colaboradores, eles são muito queridos

Oga: Não, foi demais assim, a menina chegou, “você é o Oga?” Eu disse, “Ah com esse cabelo só pode ser eu”.

[risos]

Oga: Brincadeira. Queria recomendar o documentário ‘Soul Power’. Nessa viagem… Nessa luta que teve no Zaire em 74, do Muhhammed Ali e do George Foreman, dois produtores aproveitaram que ia rolar essa luta, né, que foi a ‘Rumble in the Jungle’ e eles falaram ‘por que não fazer um festival de música negra americana com os grandes músicos dos Estados Unidos e grandes músicos da África junto com isso’. Então eles fizeram um documentário sobre isso, sobre levar essas bandas. Foi James Brown, Bill Withers, Miriam Makeba, os caras da Fania Records, que era uma gravadora que, pouca gente sabe e tem um outro documentário sobre isso, mas é uma gravadora de música latina nos Estados Unidos na década de sessenta e setenta. Todo mundo fala da Mortal, que era da música negra, mas tinha um similar de música latina, o que é incrível. Se botar no Spotfy Fania Records, vocês vão ouvir, é demais. Enfim, rolou um documentário e é disso que quero falar, desse Soul Power, que o cara grava esses concertos. Foram doze horas de música e, assim, aquela série de maluquices, porque os caras construíram um [não entendi] em setenta e quatro, fizeram um festival tipo, sei lá, Planeta Terra lá. É demais, vale muito a pena ver, tipo meu, ligar o som da TV no máximo. Tem no Youtube e a gente vai botar o link aí pra vocês. Outra coisa, eu, né, estava lendo muito sobre estupro nesses últimos dias, aí falei…

Ju: Pesadíssimo.

Oga: Pesadíssimo. Aí sai o livro do John Krakauer, um cara que eu adoro. Ele fez ‘Na Natureza Selvagem’, fez vários livros. Aí o segundo livro dele chama ‘Missoula: Estupro e Justiça na Cidade Universitária’. Aí eu falei ‘Gente, é o John Krakauer. Vamos aprofundar mais nisso’. Enfim, ele fala sobre Missoula, que é uma cidade em Montana, é bem cidade americana, de universidade americana branca rica e ele começa a ver que lá, de 2008 a 2012, o Departamento de Justiça investigou 350 acusações de agressão sexual e ele começa a pegar relatos das meninas, elas contando essas agressões. Cara, é incrível, tem um pique meio de Thriller, meio de jornalismo literário ali, que é o que o John Krakauer faz melhor, e é absurdo porque a gente começa a distanciar, né? Mesmo em lugares que as pessoas são supereducadas e tem dinheiro e ambiente universitário… Exato, no Brasil, a gente sabe, né, as festas de medicina da USP. (Uhum). Mas, lá também. E o jeito que ele relata e relata das meninas, assim… Eu estou na metade do livro e, tipo, ele tá me atrapalhando pra trabalhar. (Risos) Tem vários momentos que eu escapo e começo a ler, assim, que não dá pra parar, assim, ouvindo esses relatos que são bem legais. Tenho mais uma dica só que é um disco do Baianas System, não é tão novo, mas vale a pena vocês correrem atrás, o ‘Duas Cidades’.

Cris: Só isso?

Ju: Arrasou, para variar.

Oga: Duas horas de Mamilos.

Cris: Vou te falar.

Oga: Mamilos, duas horas.

Cris: Esse menino é cheio de dica boa.

Ju: Fala, Cris. Qual é a sua?

Cris: Vou falar duas coisas rapidinhas mas bem interessantes. Uma é uma coisa que eu já assisto há algum tempo, estava esquecendo de contar pra vocês, não posso esquecer. É o canal da Lorely Fox, o ‘Para Tudo’. Eu gosto muito da Lorely, eu espero que algum dia ela venha aqui conversar com a gente. Ela conversa sobre a vida, sexualidade, gay, sobre amor, sobre cultura pop de um jeito tão carinhoso, tão fofo. A voz dela é gostosa e ela está sempre diva, né, morena, loira, ruiva, do jeito que ela aparece. E outro dia, inclusive, fui assistir um vídeo que era o Danilo, né, então a Lorely estava desmontada. Quem estava conversando era o Danilo e ele estava conversando da experiência dele de lançar um livro. Eles fizeram um livro, algum (…), algumas pessoas revisitando contos de princesas mas na versão ‘huuu’. Então a Branca de Neve ela é adotada por sete ‘Drags’, sabe? Ao invés de sete anões (Manifestação de alguém) e chama ‘The Rimble’. Eu não lembro muito bem o livro. Mas aí ele está contando da experiência dele de lançar um livro, como ele estava gripado e o celular dele estragou e não tinha dinheiro para comprar outro e o cartão de crédito estragou e ele estava muito emocionado com o carinho que ele recebeu aqui na Parada Gay. Então o canal ‘Para Tudo’, eu acho que para quem quer conhecer um pouco melhor esse universo com uma pessoa muito carinhosa, que cria muitas pontes, que acolhe muito: Lorely Fox, conheça essa lindeza. E outra coisa que eu queria sugerir, foi sobre um projeto que eu li recentemente, achei tão viável. Queria indicar, chama ‘Projeto Vizinho Solidário’, é uma ideia que nasceu fora do país, foi implantada numa comunidade pequena para as pessoas se conhecerem, os vizinhos se conhecerem, se protegerem, cuidarem da rua, cuidarem do lugar do lixo, das árvores e se apoiarem. Então assim, é bem factível, sabe, de conseguir um grupo de quinze, vinte moradores de uma mesma rua… Se conhecerem, se verem uma ação suspeita se comunicarem, eles tem apito. O link eu vou colocar na pauta, explica bastante como isso pode ser feito e eu acho que é uma dica legal para quem quiser aí começar a construir um senso de unidade melhor no lugar onde mora. Ju, conta.

Ju: Eu assisti um filme superfofinho na Netflix. Sabe aquele dia que você está exausta e que você quer desligar o cérebro? E acontece que o meu ele realmente desligou, ele dormiu. E aí era, tipo, sei lá. Eram nove e meia, era muito desmoralizante dormir e aí eu estava procurando e eu vi quem? Maryl Streep.

Marina: Diva.

Ju: Você diz não para Meryl Streep? Você nunca diz não para Meryl Streep.

Cris: Nunca. Mesmo quando ela faz um filme que não é bom.

Ju: Não importa! Não é mesmo? Ela está ali. Por que você também não estaria, né? E aí eu sei que eu fui assistir, eu nem li a sinopse, não vi o que que era. Eu vi que era com ela e falei ‘Vamo assistir aí’. O original chama ‘Aura of África’ e aí em português, aquelas traduções maravilhosas, ‘Entre Dois Amores’, né? Porque é bom pra não ser brega, né, para não ser cafona. E aí eu tive a grata surpresa de ver quem? Robert Redford. (Manifestação da Cris). Ai! Os dois tão lindos, sabe? E sabe aquele filme que, assim, tinha tudo para ser terrível. Mas cara, como é bom uma boa atriz, né? Como ela slava, como ela faz, assim…

Cris: Ele também é muito bom, né?

Ju: Aquele diálogo que poderia ser plano. Sabe aquele diálogo que poderia ser piegas. E, assim, tem tanta nuance, e você se enxerga tanto naquilo, e te faz pensar tanto, e te faz rir, te faz chorar, e é assim… Que filme delicioso, ótimo. Para não problematizar, para apenas viver, para apenas assistir e curtir, muito delicioso e, por fim, deixo vocês com a sabedoria infinita de Humberto Gessinger que ‘a dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza’. Então vamos ouvir ‘Infinita Highway’ em minha homenagem. (Som de mixagem) Obrigada.

(Risadas da Cris e da Ju)

Oga: Nossa.

Cris: Eu não estou acreditando. Eu queria pedir desculpa aos ouvintes por tocar essa música para vocês no encerramento desse programa.

Oga: Propaganda Gaúcha.

Cris: Vou te falar, hein. É uma abusada.

Oga: Os gaudérios bombando.

Ju: Gente, eu trabalhei tanto hoje, tanto, tanto. E assim, com os Engenheiros do Hawaii no talo. Eu escuto que tipo, toda a criação escuta Engenheiros do Hawaii quando está trabalhando desesperadamente, entregando três planos no mesmo dia e não sei o que. E, olha, ‘Infinita Highway’ bombando… E assim, eu sou aquela pessoa chatíssima que canta junto, sabe?

Cris: Ai.

[Risos]

Oga: ‘Sigo em frente, pra frente eu vou’

Cris: Não, pode parar.

Oga: ‘Eu sigo em frente’

[Risos]

Cris: Obrigada pela companhia de vocês.

[Risos]

Oga: Quando eu trabalhava em redação, eu fechava ouvindo a ‘Madoninha’ e botava alto para todo mundo ouvir a ‘Madoninha’ e dar risada e as pessoas alopravam.

Cris: Obrigada, gente. Beijo.

Ju: Tchau.

[Sobe trilha: Infinita Highway, Highway, Highway, Highway]

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