Transcrição: Mamilos 84 – Eleições 2016

por Mamilos

Transcrição feita por: Andrey A, Alan Bastos, Letícia Dáquer, Aline Bergamo, João Marques, Tati Croscione, Lê Paim, Abayomi, Jonas Rocha, Luana Rosa e Fer

[trilha de abertura]

Ju: Mamileiros e Mamiletes, em meio a correria do dia a dia chegou seu podcast semanal pro momento de reflexão guiada. Vem que vamos te levar pro mundo das polêmicas mas com empatia e respeito. Bora conversar comigo Ju Wallauer e a garota que fez o almoço de domingo para a gente.

Cris: Cris Bartis!
Caio, o quê que tem para embalar o nosso momento juntos essa semana?

Caio:Olá personas, Corraini aqui novamente para trazer a vocês os responsáveis por dar mais cor ao Mamilos desta semana. Lembrando sempre, que se você quiser colaborar com conteúdo musical deste programa, pode nos recomendar bandas ou artistas independentes no email: [email protected]
E facilita em muito, a minha vida, se vocês enviarem os links do site oficial do artista ou então onde nós podemos buscar o download direto das músicas dele para utilizar no episódio. Nesta edição nós iremos ouvir a banda Dessinée, sexteto pernambucano cujas composições reverberam o espírito do nosso tempo na ótica feminina. Então fiquem aí com a banda Dessinée no Som do Mamilos.

[sobe trilha]

[Eu vou pra rua saio destemida
De peito aberto e nova direção]

[desce trilha]

Ju: E o beijo para? Sidclay Pereira
Cris: Nova Zelândia
Ju: Raposos – Minas Gerais
Cris: São José do Rio Preto – SP
Ju: Dourados – Mato Grosso do Sul
Cris: Araxá – Minas Gerais (terra de Dona Beija)
Ju: Umarizal e Mossoró – Rio Grande do Norte

Cris: Fale com o Mamilos. A nossa equipe cheirosa é composta por:
Edição e Som do Mamilos com Caio Corraini.
Redes sociais com Luanda e Guilherme Yano.
Apoio a pauta com Taty Araujo.
Transcrição dos programas com Lu Machado.
Ju: Pessoal, vc que ama muito esse projeto e quer que ele dure para toda a eternidade, pode colaborar conosco no Patreon do Mamilos com doações a partir de uma doleta. patreon.com/mamilos

Cris: Como o programa está saindo mais cedo, ainda estão chegando o Fala que Eu Te Escuto, mas a gente selecionou dois aqui para contar para vocês.
O primeiro é o da Patrícia.
“Depois do podcast sobre depressão, vocês inventaram o “podcast anti depressão”, né? Resolvi ouvir mesmo não me relacionando ao tema (por não ter filhos) e de repente entram as crianças falando, e
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Q FOFOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSSSS
MEUDEEEEOOOOSSSS ME SEGURAAAAAA
OOOOOOOOOOOOOOOOOUUUUUUUNNNNNN”
(Eu to tentando ler do jeito que está escrito) [risos]
“Dentre outras surtadinhas. :3 <3 <3 <3 Explodi de fofice, brigada suas lindas!” Ju: E a Fabiana disse:
“Me chamo Fabyana, tenho 27 anos e moro no Rio de Janeiro, sou mamileira já tem um tempo e amo de paixão esse espaço abençoado de empatia e discussão construtiva nesse mundo de extremos que vivemos hoje (e o sotaque lindo da Cris, que me dá aquela saudade da minha Minas). Especialmente porque em casa não tem conversa, minha mãe é extremamente apaixonada por suas convicções e aiai se você discorda dela. Bem, quando vocês começaram a falar de discurso agressivo nesse último episódio eu senti que foi comigo mesmo!! Eu e minha mãe estamos presas num ciclo infinito de brigas e mágoas, agora eu reconheço que em parte causado por discurso agressivo, desde SEMPRE (e isso não é uma generalização para enfatizar meu ponto, simplesmente desde quando eu me entendo por gente nós estamos nesse tipo de situação). Pois bem, terminei de ouvir o episódio e mandei o link para minha mãe escutar também. E uma conversa rápida entre a Ju e o Frederico e o impossível aconteceu. Já que passamos por algumas psicólogas, ainda atualmente estou vendo uma terapeuta com mamãe, mas nada conseguia fazer ela aceitar que também errou e erra no nosso convívio. Agora ela está disposta a pelo menos tentar, já pedi o livro recomendado na Amazon para todo mundo ler aqui em casa e não sei se a paz mundial chega mas acho que vocês conseguiram trazer a esperança de paz pra minha casa!!!
Muitíssimo obrigada!!!
Continuem com o trabalho lindo de vocês.”
[sobe trilha]

[desce trilha]

Cris: Vamos então para a Teta do Mês e vamos conversar sobre eleições municipais 2016. E essa mesa tá bonita, tá redonda e quem tá com a gente hoje Juliana, me ajuda?!

Ju: Primeiro, vocês vão lembrar dele, e se vocês não lembrarem é melhor que vocês voltem Mamilos atrás. Quem é você, fala primeiro quem você é e eu digo para as pessoas da onde as pessoas te conhecem.

Arthur: Eu sou Arthur Scatolini Menten.

Ju: Olha que incrível essa voz gente, cês já tão impressionados, cês já aceitaram tudo que ele já falou?
Só dele ter chegado com essa voz, vocês já concordaram.
Fala quem é você na noite, Arthur.

Arthur: Eu sou Advogado, Professor, estou fazendo Doutorado em Direito Financeiro na USP e agora trabalho na prefeitura de São Paulo, na Secretaria de Serviços, na Assessoria Jurídica.

Ju: Você aí mamileiro tá tentando puxar na memória da onde eu conheço essa voz, dá onde eu conheço essa voz?
O Arthur gravou com a gente o Mamilos, junto com o Rafael Poço, sobre reforma política. Então foi uma conversa super legal, não só pelas mudanças que a gente achava que eram necessárias mas sobre política mesmo. Então de verdade, se você não escutou esse Mamilos, corre lá, escuta que é um dos nossos programas preferidos.
E aqui do nosso outro lado, tem alguém polêmico, que participou de um dos Mamilos mais polêmicos da nossa história. Quem é você?

Túlio: Eu sou o Túlio Custódio.

Ju: Muito bem Túlio, você foi ovacionado no Mamilos sobre cotas. Não é mesmo?

Túlio: Fui?

Ju: [Juntas] Foooooooi!
Cris: [Juntas] Foooooooi!

Ju: Foi demais.
Mas Túlio fala para a gente, quem é você na fila do pão.

Túlio: Eu sou Sociólogo, eu sou Curador de Conhecimento na Inesplorato.
Eu tenho um projeto chamado Pitacodemia, que é de compartilhamento conhecimento. Também sou membro do Coletivo Sistema Negro e atualmente sou coordenador de uma campanha Marcio Black, 18111.
Sou pai do Lamar, quer dizer as pessoas ficam bravas de falar Pai de Cachorro não é justo, então cuidador de um cachorro, meu Lamar. Namorado de uma mulher maravilhosa Ester, e…

Cris: [complementa] …e amigo do Ohga

Túlio: E amigo do Oga que é do Sistema Negro.

Cris: [complementa] …que é do Sistema Negro.

Ju: Meninos, primeiro antes de qualquer coisa, já muito obrigado, porque vocês vieram aqui com exigua antecedência né? Assim, foi realmente um Mamilos convocado às pressas, eu diria que é um plantão. É um plantão feito numa situação emergencial para ajudar os Mamileiros que estavam pedindo para a gente fazer um guia de votação. Então, às vésperas da Eleição a gente está trazendo esse conteúdo super especial, para ajudar todo mundo a votar com consciência.

Cris: Qual é o fato?
Brasileiro vota mal. Brasileiro não sabe votar. Votar é difícil. Eu nem entendo bem pra que servem tantos cargos. Não me lembro em quem votei nas últimas eleições. Não gosto de política, assunto chato. Político é tudo corrupto. Essas são frases que se ouve por aí o tempo todo. Nosso passado recente na democracia nos mostra que votar é coisa séria. Depois de tantas frustrações e dores estamos pensando mais e criticando mais os políticos. O riso que corria solto ao ver “candidatos bizarros” na TV cada dia mais cede espaço ao questionamento sobre como queremos nos ver representados. Nas palavras de Thomas Sowell “o fato de que muitos políticos de sucesso sejam mentirosos não é exclusivamente um reflexo da classe política, é também um reflexo do eleitorado. Quando as pessoas querem o impossível, somente mentirosos podem satisfazê-las.” Assim como tudo na vida, não tem solução mágica pra política, é preciso entender para saber usar. Isso é o que queremos fazer um pouquinho nessa teta especial eleições municipais 2016. Mais do que certo ou errado, nossa proposta é conversar um pouco sobre como podemos exercer esse direito com mais consciência e buscarmos uma participação mais efetiva nesse jogo

Ju: E aí a Cris preparou com todo carinho um roteiro, para a gente passar um passo a passo para tirar as dúvidas mais comuns, e algumas das discussões que a gente precisa ter justamente para buscar esse voto com mais consciência.
E a primeira, é falar sobre a Identificação Biométrica, porque a gente ouviu isso hoje, né Cris? “Ah não vou poder votar, porque eu não consegui fazer a Identificação Biométrica“ é verdade Cris?

Cris: Então, a Biometria é uma tecnologia para trazer mais segurança, o Brasil é referência mundial na busca por eleições cada vez mais ágeis e seguras e a biometria é mais uma delas. É acoplado na urna, inclusive muita gente deve estar fazendo isso no banco, hoje no caixa eletrônico, se você cadastrar sua digital, já consegue usá la ao invés de usar uma senha numérica e é bem semelhante a isso.
Então, as impressões digitais são armazenadas num banco de dados da Justiça Eleitoral, aí é transferido para a urna de acordo com o seu título de eleitor. E aí é necessário um cadastramento prévio, pode ser feito num posto da Justiça Eleitoral, quem não se cadastrou pode votar mesmo assim. Para se ter uma ideia até julho de 2016, 20% do eleitorado paulista já tinha feito essa identificação. Mas ainda é um número relativamente bem baixo, e a gente está falando de São Paulo. Então o cadastramento pode ser feito em todo os postos da Justiça Eleitoral mas ele também não é obrigatório, é só uma forma para tornar tudo mais rápido e mais seguro.

Ju: Vamos falar então um pouquinho, sobre financiamento de campanha porque essa foi uma das alterações este ano. Arthur, cê quer falar um pouquinho sobre o quê que mudou, quais são as novas regras para essa campanha?

Arthur:Sem problema. Quem sabe essa seja uma das mudanças mais importantes para as Eleições deste ano que é a proibição que as empresas façam doações. Até a Eleição anterior, as empresas eram as campeãs de volume de doação. E tinha, já de há muito tempo, uma ação no Supremo Tribunal Federal que procurava fazer com que isso fosse banido, sob o argumento de que a empresa não doa, a empresa investe.
Aqui é importante a gente separar, porque muitas vezes as pessoas falam que o quê está proibido é o financiamento privado, não é verdade. Está proibido o financiamento empresarial. As pessoas jurídicas não podem fazer doações. As pessoas físicas, os particulares de maneira geral, estão liberadas para fazer doação, observados alguns limites.

(Bloco 2) 11’ – 20’59” (terminei em – 11’40’’)
Cris: É bem interessante os limites também, né? Que é… Não pode doar mais do que dez por cento do patrimônio total que a pessoa tem e essas doações em espécie, em dinheiro, tem que ser entre cinquenta mil e oitenta mil por pessoa física, para cada CPF.

Arthur: Exatamente.

Ju: Vale bastante a pena escutar o NBW. Eles falaram um pouco sobre as mudanças no financiamento de campanha e eles entram um pouco em algumas polêmicas que a gente não vai entrar nesse programa pelo objetivo que a gente tem que é de discutir se esse é o melhor modelo, se não é, se vai continuar, se não vai. As acusações de que já estão ocorrendo uma série de fraudes…

Arthur: [interrompendo] Sim, as pessoas vendem, emprestam, cedem CPF. Esquentam dinheiro…

Ju: [interrompendo] É, mas eles até… Eles falam assim: modelos à prova de burlar, não vai ter. A questão é: é mais fácil você ter que burlar um Caixa Dois ou você ter que burlar milhares de CPF? Porque você precisa de fazer um monte de CPF. Então eles fazem um pouco essa discussão lá. Eu acho que vale ouvir, se a gente não vai entrar nisso, né?

Cris: Mas, olha, o dinheiro não vem só daí. Eu queria que o Túlio falasse um pouco sobre o Fundo Partidário, pra que que serve isso e porque essa grana aí também vale.

Túlio: É… O Fundo Partidário ele seria uma possibilidade de você equalizar um pouco as coisas, principalmente considerando que você tem vários partidos, com diversos espectros ideológicos e a idéia é num sistema onde o poder econômico teria mais força, partidos que têm ideologias ou perspectivas que são contrárias ou fugiriam a esse poder ideológico teriam menos condições de receber um financiamento, de receber dinheiro, de ter um aporte. Pois bem, o fundo seria essa maneira de um repasse que vem do governo federal para os partidos para que eles consigam minimamente bancar sua estrutura e tudo mais.

Cris: Eu achei legal, eu fui estudar um pouco disso… Foi criado no governo Castelo Branco que a idéia era manter a autonomia financeira permitindo a existência e criando espaço para existirem partidos e eles poderem se financiar.

Túlio: É, e a origem já é muito interessante, né?

Cris: Né?

Túlio: Já deixa claro a que veio.

[Todos riem]

Ju: Eu achei bonitinho que ela falou uma coisa e contradisse o que ela disse. Ela falou tão empolgada ‘Mas o Castelo Branco, foi uma coisa boa que ele fez pra gente’…

[Entre risadas]

Cris: [interrompendo] Então…

Ju: [interrompendo] Para o povo, não é minha gente?

Cris: De qualquer forma, foi nessa época que aconteceu e esse repasse vem da união.

Túlio: Uhum.

Cris: Veio de multas e penalidades eleitorais e de doações privadas…

Arthur: [interrompendo] E?

Cris: Vinha de doações privadas…

Arthur: [interrompendo] E de recursos do orçamento. A gente, quando fala que o modelo de financiamento do Brasil é o modelo de financiamento privado comete uma impropriedade grande. É um orçamento misto.

Túlio: Uma das coisa que… E aí, né, hoje… E assim, na realidade, posso falar, a campanha, eu tenho percebido, é que, bom, primeiro esse dinheiro, ele é um dinheiro que… Ele é o salário mínimo de muitos partidos no sistema de vários partidos que nós temos. Hoje nós estamos em trinta…

Arthur: Trinta e quatro, trinta e cinco, para dar um chute.

Túlio: Exato. Então tem vários partidos que eles são criados e são estruturados a partir do Fundo Partidário, o que faz com que haja menos interesse nesse financiamento de perspectivas, candidatos, vozes e representação, e mais uma perspectiva mini corporativa desses partidos que vivem disso, né? Então os nossos políticos profissionais, não porque o cara tá lá a sete, trinta, não sei quantos mil mandatos, mas porque ele vive dessa burocracia, nesse lugar mediano entre a representação e o povo, onde ele vive com esse orçamento. Então é o orçamento de pequenos serviços, lugar é alugado, blá blá blá, tudo mais. Então esse é um problema. Então esse dinheiro ele fica ali girando nesse mundo burocrático.

Cris: A gente está falando, em 2016, de 819 milhões de reais e existe uma regra para organizar isso. Cinco por cento dos recursos são divididos igualmente para todos os partidos, mas aí noventa e cinco por cento é dividido proporcionalmente de acordo com a quantidade de votos que cada partido obteve. E adivinha quem é…

[Risos da Cris]

Cris: Quem fica muito beneficiado aí? Quem é grande fica grande e…

Arthur: [interrompendo] E quem é pequeno…

Cris: E quem é menor continua não crescendo.

Túlio: Eu não sei nem se a gente vai chegar a entrar nessa discussão mais tarde, mas a própria lógica da coalisão dos partidos e como se estruturam principalmente nas cadeiras que são proporcionais responde a esse fundo partidário, né? Que que significa um partideco, nem vou citar partidos para não, enfim, né? Aqueles partidos que você sabe que surgiram de ontem para hoje e fazem as coligações ali dentro. Não a coligação da eleição em si, mas a coligação do dia a dia. A coligação para votar projeto, a coligação para juntar não sei o quê, quem anda pra cá… Tudo isso também é estruturado dessa forma. Você sabe que tem um bolo ali, você sabe quem está ganhando mais e você sabe onde você tem que ir para você pegar uma fatia daquele bolo. Tudo isso já gera uma perspectiva burocrática corporativa de corpo político que se afasta completamente da vida cotidiana, da vida pedestre, do próprio ideal de representação que teria dos cidadãos, seja a Câmara dos Deputados, né, a representação do povo, seja do Senado, representação do Estado, enfim.

Cris: Já entrando um pouquinho nisso de coligação, a gente estava falando, atualmente tem dezesseis mil candidatos a prefeito no Brasil, treze mil tem apoio de coligação. Então eu queria que você falasse um pouquinho, pra que que realmente serve isso, por que que as pessoas fazem, por que partidos fazem coligações.

Arthur: Pensando em candidato a prefeito, num sistema em que a gente tem trinta e quatro partidos nada mais razoável do que supor que a gente vai ter coligação. Por que? Porque nenhuma cidade normal vai ter trinta e quatro pessoas minimamente dispostas a se lançarem candidatos. Então, os partidos eles vão se aproximar e, de acordo com suas linhas ideológicas, tanto é que o que a gente vai enxergar, isso devia acontecer mais, mas via de regra acontece com alguma frequência… Essas alianças elas acontecem sempre entre os mesmos partidos. Tem os partidos do campo da extrema esquerda, da esquerda central, do centro, da direita, e aí que a gente tem os partidos coringa e esse é que é o xabu, porque esse camarada ele não se alia conforme uma vertente ideológica. Ele aposta no cavalo que está ganhando. Esse camarada é um camarada que, de certa forma, joga com o que o sistema tem de pior. Para a gente não falar de eleição municipal e discutir sob um ponto de vista nacional, esse é o PMDB: nunca elege ninguém mas nunca está fora do poder. O PMDB é governo sem ter nunca eleito um presidente democraticamente dos seus quadros desde oitenta e oito. Era governo com o Collor, foi governo com o Fernando Henrique, foi governo com o Lula, Dilma e agora governo com o Temer. E o que significa isso? São governos minimamente parecidos? Não, esse partido é um camaleão. Da onde vem este camaleão? O problema não é coligação, o problema é esse monstro.

Cris: Quando a gente para pra orientar e entender que nada mais justo que partidos se unirem para levar um mesmo representante, é claro que eles vão se unir por questões ideológicas, aí você já não vê mais sentido nenhum quando as coligações diferem de lugar para lugar.

Arthur: Uhum

Cris: Né? Aqui você é da minha ideologia, no outro estado a minha ideologia é com o outro partido. Já começa por aí. E pior quando você vê coligação PT-PSDB, coligação PSOL-DEM…

Arthur: Pois é…

Cris: Aí você começa a falar ‘Peraí, não é bem ideológica essa coligação’. Então porque que as pessoas estão fazendo isso? É muito dentro do que você está falando.

Arthur: Porque a gente tem as excrescências que são as excrescências, por assim dizer, que estão consolidadas. O partido é uma excrescência e você tem situações de diretórios municipais, situações locais de excrescências. Ou a excrescência pode estar porque, veja, a gente com frequência tem na imprensa a manifestação de que o PT é o partido que tem muita corrente. Todos os partidos têm uma disputa interna um tanto quanto intensa e às vezes um sujeito que está no diretório municipal de ‘Uruburetama’ é um cara que não está alinhado com a direção nacional do partido. Que que acontece? Ele, na hora de fazer aliança, na hora de defender a aliança no âmbito do diretório que ele dirige, ele vai defender uma aliança diferente da aliança nacional. Então, às vezes a gente tem que compreender que esses movimentos também são possíveis, não é necessariamente má fé, porque senão a gente começa também a negar a autonomia dessas estruturas locais. As vezes é diferente. Tanto é que a disputa PT-PSDB é uma disputa…

Cris: [interrompendo] Mas aí a gente está falando de pessoa, né?

Arthur: Não.

Túlio: Acho que é um ponto bastante importante dele, inclusive, até no debate político, enfim, é difícil você ver as pessoas percebendo. Mesmo correntes que se dizem engajadas ou progressistas, mas essa ideia de que um partido político ele é uma agremiação, uma associação de indivíduos, de sujeitos políticos que têm interesses, sejam ideológicos, sejam materiais, sejam até de profecia, o que seja, se agremiam, né, se reunem e a partir daí eles são uma representação de uma participação pública que vai pra esfera da participação política. Então, publicamente você tem na sociedade civil essa participação ela se coaduna, se isso se torna institucionalmente algo passível de representação política. OK, disputa de lugares institucionais tudo mais, só que na formulação dessa agremiação você tem disputas políticas.

(Bloco 3) 21’ – 30’59”
Ju:Sim.
Túlio:Então o partido, ele nunca vai ser…
Ju:Ele não é… homogêneo.
Túlio:Exato, ele nunca vai ser um clubinho. Ele pode ter vários clubinhos dentro dele…
Ju:E não precisa ser, tudo bem…
Arthur:Aliás, ao contrário…
Ju: [interrompendo] É natural que seja.
Arthur:Quando o partido vira esse clubinho, quando cê tem um partido que é muito partido de um dono só, ele acaba negando a lógica partidária.
Túlio:Exato.
Arthur:Porque o que acontece é o seguinte…
Ju:É a unanimidade burra… Subserviente…
Arthur:Pior, vira subserviente daquele camarada, e cê forma o caudilho…
Ju:Seguidores do…
Arthur:Cê forma o sujeito que é o insubstituível…
Ju:O messias.
Arthur:… é o messias, e aí cê nega política. Porque não é o sujeito que…
Ju:Política é discussão.
Túlio:Política é o debate. Política…
Cris:OK, e tá claro isso, que isso não necessariamente é usado para o mal, ok?
Túlio:Não, não é que isso não necessariamente é usado para o mal, não sei, aí, a gente tá discutindo uma… essa informação empírica, né, tem que olhar lá caso a caso. A questão é, eu preciso garantir a possibilidade de que isso aconteça. É mais grave. Democraticamente eu preciso viabilizar que essas estruturas menores tenham espaço e possam ser dirigidas de um modo diferente.
Cris:OK, mas aí a gente começa a entrar no por quê as coligações acabam sofrendo tantas críticas? Primeiro porque as coligações, elas proporcionam um tempo maior de exposição do candidato, certo? Então quando cê faz boas coligações, cê passa a ter mais tempo pra falar direto com o eleitorado, e segundo porque o que vem em troca desse candidato eleito?
Túlio:Então, esse problema, esse problema do tempo de TV, ele é um problema que não é nacional. Se a gente pensar… Dos 5500 municípios, pra dar uma ordem de grandeza, a gente vai ter, não tem 5000 com televisão e rádio. Às vezes rádio, mas assim, isso não é o que vai determinar a eleição. Ah, o que se espera? Aí tem uma coisa que a gente não pode trabalhar com inocência, o Túlio tava apontando isso de maneira perfeita. Quê que é um partido? É um bando de pessoas que têm interesses ideológicos, fisiológicos, o escambauológicos, comuns. E esses caras vão se quebrar pra ganhar espaço em algum lugar. Ora, quê que aquele que apoia o prefeito quer do prefeito quando o prefeito se eleger? A princípio ele quer espaço. Isso tá errado? Não. A gente não pode jogar com inocência, né. Tem de certa forma, em alguns momentos, as pessoas, elas reagem a algumas informações de maneira…
Ju:Purista, ingênua, utópica.
Túlio:E sem entender que assim, o sistema é feito pra isso, então acontece ah, o PT ganhou o governo federal e só nomeou gente do PT. Que surpresa! E no governo do estado, quem será que eles nomearam? Só gente do PSDB. Mas que coincidência! Será que… Por quê? Isso não é pra ser um escândalo, isso não é pra deixar ninguém chateado, nem triste. Esse é o nosso sistema. O sistema que permite que o sujeito que chega lá, ele leva um time. Ninguém registra isso com frequência, mas o sistema americano é muito pior. O sistema americano ele pode mandar a burocracia inteira embora.
Túlio:Exato.
Túlio:O sistema deles chama spoils to the victors, se eu não me engano, então o cara lá manda todo mundo embora, aqui não. Aqui você pode mandar, se eu não me engano, 10% do pessoal cê pode trocar. Veja…
Ju:É só cargo de confiança.
Túlio:Só os cargos de confiança, que são sempre os cargos de direção e assessoramento superiores, então do quê que a gente tá falando isso?, e aí aqui tem uma coisa interessante na administração municipal. Quanto menor é a estrutura geral, maior é a importância percentual do cargo em provimento em comissão, maior é o volume proporcional de cargo em comissão. Então o prefeito tem muito mais gente pra nomear proporcionalmente que o presidente da república. E isso, na cidade, faz chover. Aí cê fala assim, aaah, tem esse interesse, que é o interesse do emprego, é o interesse do toma lá, dá cá… é, tem isso também.
Cris:Tá. Vendo por essa ótica então, o quê que é importante? Quando você verificar o candidato, cê tem que verificar quais coligações ele faz parte, porque ganhando, pessoas junto com ele vão subir.
Túlio:Vai todo mundo junto.
Cris:Então cê não pode só olhar o cara, cê tem que olhar o staff e quem o está apoiando, porque amanhã ele é o secretário, ele é o assistente, ele é o adjunto… A gente já viu que vice dá pau, né. É bom olhar o vice.
Ju:Não, e… E… Tem.. Uma das coisas mais, eu acho, que emblemáticas, pelo menos da minha experiência do Mamilos, assim, de me cair os butchá do bolso, acho que foi o programa que você veio, que eu descobri que o meu voto não era pra legenda, por exemplo, ele iria pra coligação da legenda. O voto de Legislativo, né.
Túlio:Isso.
Ju:Porque eu achava que isso era, né, isso que a Cris tá falando. A gente pensa em coligação assim, tá, deixa eu ver, o Haddad botou o Maluf no palanque, então gente do céu!, pra levar o Haddad eu tô levando o Maluf junto! Isso aí a gente meio que tá acostumado a fazer, mas eu descobri aqui, se não me engano foi no seu programa, que não é só isso, que o seu voto pra deputado estadual, deputado federal, e pra vereador, também é pra coligação.
Túlio:Exatamente.
Ju:E aí isso é mais assustador, não é? Porque daí fica um pouco mais difícil, concorda comigo que é mais complexo? Porque assim, digamos, no prefeito é uma pessoa que você tá olhando, agora você vai ter que olhar o partido mesmo, então com quem que aquele seu partido se coligou, né?
Túlio:Diria eu que assim, é mais radical ainda, porque cê tem que saber quem são os candidatos do partido, quem são os candidatos…
Ju:Os puxadores de voto…
Túlio:…da coligação, e quem são os puxadores de voto, quem que vai ter muito voto…
Cris:Então, explica um pouquinho…
Ju:Pra quem que cê tá dando o seu voto de verdade, né, porque eu dei o voto pra… uma pessoa que era devotada à educação, porque essa era a minha plataforma principal, foi o jeito que eu escolhi, e deus do céu, tava no partido erradíssimo, eu não quis ver pra quem que foi o meu voto que eu fiquei muito deprimida. (risos)
Cris:Então vamo lá, é só pra entrar nesse sistema de votação e a gente entender um pouquinho, porque essa conta aqui é trash. Mas todo mundo de alguma maneira ouviu, principalmente depois da eleição do Tiririca, que foi um deputado muito votado, ele teve 1,35 milhões de votos, muito superior ao coeficiente eleitoral de São Paulo, que era de 304.000 votos… O quê que isso representa? Que a coligação dele ganhou mais 4 cadeiras na Câmara Federal.
Ju:Não o partido dele, né.
Cris:Não o partido. A coligação.
Ju:Que aqui teoricamente cê fala assim, ah, não, mas o partido, teoricamente, né, do Tiririca por mim, se eu não levar só o Tiririca, se eu levar a galera do PSOL, por exemplo, pra mim tá beleza.
Cris:Eu vou jogar essa bomba na mão do Túlio. Me explica o sistema proporcional.
Túlio:Nossa. Só não vale depois falar pra eu explicar comé que faz a sobra.
(todos riem)
Cris:Deixa a sobra pra próxima eleição…
Túlio:Não, não tem…
Cris:Deixa a sobra pra próxima eleição. Se a gente conseguir entender pelo menos o sistema agora, já vai, porque a sobra… Deus me livre. E não vai sobrar também, então foda-se.
Túlio:Eu vou começar falando na verdade pela questão do puxador de voto, aí o Arthur me ajuda com a questão do voto proporcional. Acho que ele tá inclusive muito mais qualificado pra falar disso, mas… Tem uma coisa que o puxador de voto faz, na lógica de como esse sistema tá estruturado, que ele continua reproduzindo a figura personalista da política. Então por mais que você faça o cálculo matemático eleitoral pra você prestigiar a ideia de partido e coligação, pensando em como proporcionalmente esse partido, a partir do número de votos que ele teve, né, com junção partido-coligação, e número total dos votos válidos, pra você entender quantas cadeiras das disponíveis esse partido vai ter, a lógica do puxador de votos, ela é quase que uma gambiarra, num vou nem usar o termo hacker porque eu acho ruim nesse sentido, mas ele é uma lógica, uma tecnologia da canalhice, poderia dizer…
Ju (rindo):Ótimo termo, gente…
Túlio:…que se apropria duma cultura política que já existe, que é a personalista, que significa inclusive…
Ju:Messiânica.
Túlio:…messiânica, que significa que ela é quase pré-democrática, é uma noção de que o político é esse padrinho, né, essa pessoa que vai nos salvar, né, o messias e tudo o mais, e apropria essa lógica dentro dessa matemática que seria uma matemática moderna, da proporcionalidade. E é muito triste pra mim ver, apesar de eu entender, mas é triste politicamente falando, que os partidos, inclusive os mais progressistas, eles se usam dessa lógica, porque eles sabem que na verdade o que você precisa fazer…
Ju:Porque é o que funciona, né. Joga o jogo, né. Tem um pouco isso, né, Túlio, que assim, se o jogo é assim, se eu não jogar o jogo, eu tô fora do jogo e aí não tem como eu discutir porque ninguém vai me escutar. Então eu tenho aquela lógica do eu vou jogar o jogo, pra de dentro mudar a regra do jogo, né.
(Bloco 4) 31’ – 40’59” (comecei em 29’21)
Túlio: Exato. Exato. Mas assim, o proporcional, diferente do majoritário – o majoritário nós sabemos – o majoritário é número de votos, pau. Então, você tem…
Cris: [interrompe] Passou 50% ganhou.
Túlio: Você tem um que teve 10 votos e um que teve 12 votos. Ganhou quem tem 12 votos. Legal. O proporcional já é um mais complicado. O proporcional ele envolve não só a realidade daquele partido mas também as coligações que ele fez. Então o que que acontece, você pega o montante daqueles votos que são chamados votos válidos, ou seja, votos que são usados para dizer “ok, esse voto dessa pessoa pode ser computado como válido dentro do sistema político legal”. Você pega essa quantidade de votos válidos no sistema, você pega a quantidade de votos… Ixi, peraí agora…
Ju: [interrompe] Não, de cadeiras disponíveis…
Túlio: Isso, de cadeiras. Faz a divisão. E aí você tem um coeficiente, que é essa ideia da quantidade média de votos necessárias para a eleição. Com esse quociente você faz a divisão com o número de votos que aquele partido e/ou coligação teve e a partir disso, sabendo o número de cadeiras, sabendo o coeficiente eleitoral, você sabe quantas cadeiras um determinado partido ou coligação vai assumir. Qual é uma das tretas – acho que a gente vai levantar várias bolas aqui. A primeira é que as pessoas não tem noção dessa matemática. Elas operam, não só na lógica personalista, mas a lógica do desconhecimento mesmo, com a noção de que a matemática ou a questão do voto é muito parecida com a do prefeito, com a do vereador, com a do presidente, com a do governador, com a do deputado, que é: se eu votar nesse cara e ele tiver um monte de voto ele vai entrar. Então, não funciona assim. A segunda coisa que é muito mascarada em se contar como funciona – porque todo ano tem. A globo vai lá e faz “ah, assim que vai funcionar” antes de soltar o resultado. Mas ninguém passa por isso. Ninguém vê isso. É aquela coisa que as pessoas vêem “ah, legal”. Foda-se. Me solta a lista de pessoas que…
Ju: [interrompe] Parece muito complexo, não vou…
Cris: [interrompe] Não só parece não, é complexo mesmo.
Túlio: Super. Então elas não só não estão votando nas pessoas porque elas tão entendendo como essa matemática funciona, como elas não estão entendendo a composição da estrutura. Porque tem em quem você vota, o seu candidato ou partido que você acredita, mas é a percepção da totalidade de que é que tipo de congresso, que tipo de câmara de vereadores, que tipo de câmara de deputados está se formando. Que é o susto que a galera teve em 14. Tava lá a campanha não sei o que, cada vez você tem – eu acho que é até uma coisa legal da gente falar né, de como as campanhas tão sendo feitas de um tempo pra cá, essa possibilidade de usar as redes sociais e esse ânimo dessas vozes que não tinham espaço na TV e elas estão na internet tudo mais e tal – mas ao mesmo tempo, a galera chegou, pum, 14. O que que aconteceu? O congresso mais conservador desde 1964. E as pessoas se assustam. Porque elas se assustam? Porque ao mesmo tempo, dentro dessa lógica de campanhas e tudo mais elas estão ali, no mundo do candidato delas, no mundo do partido delas, e não vendo como tá se compondo todo o sistema, na sua matemática, no seu financiamento…
Ju: Então, o que eu acho que o Túlio tá falando que é muito legal é de ter visão estratégica, e principalmente a gente tá falando de coligação como uma coisa tão negativa, e política também é construir aliados e construir consenso. Então o que o Túlio tá falando às vezes é o seguinte: pra Ju às vezes é muito importante pra educação, pro Arthur às vezes é muito importante saneamento básico. A questão é o seguinte, a gente tem mais em comum do que com o Túlio, só que se a gente cada um ficar sozinho, a gente tem a mesma quantidade de votos do Túlio. Então é nisso que ele tá falando que a gente tem que ser mais estratégico de entender não só o que você está preocupado mas o contexto geral. Pra entender em que momento você vai ter que ceder e vai ter que combinar então “Arthur, se eu for com você nessa, na próxima cê vem comigo?”. “Cris, vamo junto com o Arthur, que na próxima…”. A gente entende muito mal porque a gente fala de conchavo, que isso é conchavo, que isso é ruim, que isso é espúrio, que isso é você não ter ética, não ter moral, quando na verdade a gente é… O jogo da política é o jogo de negociação.
Túlio: De diálogo.
Ju: De diálogo. Que…
Cris: [interrompe] O brasileiro não gosta de combinar voto nem no BBB.
[risos]
Ju: Não, é feio né…
Cris: A hora que a galera se junta pra combinar voto e tirar o outro a galera fala assim “que horror, combinou voto”. Mas amigo, a ideia não é ganhar um prêmio no final? Então eu tenho que ir eliminando as pessoas. Umas só vai ganhar. É mais ou menos isso na política. Se você não prestar atenção na coligação, você não vai conseguir entender o seu voto dando poder para mais quem além do candidato que você acredita.
Ju: E qual é o cenário maior, né? Que eu acho que é isso que o Túlio tá trazendo que é muito importante assim. Além do que você quer que é muito importante e tal, qual é o cenário maior? O que que no final do dia é que a gente tá tão acostumado a ver essa coisa pequena do, a gente fala muito sobre isso né Túlio, de que não mudou o calçamento da minha rua então não é isso que eu quero. Gente, a gente tá falando de política não é sobre você, não é sobre o que imediatamente te afeta. Tem escolhas, e eu acho que isso é muito legal e a gente pouco fala né, a gente tá numa discussão muito assim “certo e errado”, “bom e mau”, é “ético contra não ético”, e a política não é sobre isso. A política não é pra falar com quem é desonesto, a política não é pra falar com quem é mau, a política acontece quando pessoas bem intencionadas têm opiniões diferentes.
Túlio: [interrompe] Tem mal intencionadas também. A intenção é fundamental…
Ju: Mas…
Arthur: [interrompe] Exatamente. A intenção tem que tá clara.
Túlio: [interrompe] Exato.
Arthur: A carta tem que tá na mesa, eu acho que essa é a questão. Por isso se fala tão mal da coligação proporcional. A coligação proporcional ela é muito mais espinhosa pra se defender. Porque no fim acaba, a gente acaba perdendo um dado importante nessa história toda. Quando o Tiririca se elege se eu não me engano o Tiririca tava na coligação do PT na última eleição. O que é que significou isso? Teve muita gente que em vários meios de movimento social é bem visto e que foi eleito com esse voto do Tiririca. Então tem uma… o que a Juliana tava falando de que isso é um jeito de fazer. É um jeito de fazer. É um caminho… é um jeito de fazer legal? Não. Agora tem uma diferença importante entre o Tiririca e o Enéas. O Enéas é um fenômeno um pouco mais distante…
Cris: Muitos ouvintes não vão saber quem é o Enéas. Tem muito ouvinte jovem. Mas era um figuraço da política brasileira.
Arthur: Ele faleceu. Ele chegou em terceiro lugar na eleição presidencial de 89 com uma propaganda eleitoral de 30 segundos, ele era uma cara extremamente histriônico e ele terminava “meu nome é Enéas”, né, de maneira muito firme. E esse sujeito foi candidato a deputado federal e ele elegeu um camarada com 250 votos. Um sujeito com 250 votos foi eleito deputado federal em São Paulo. 250 votos pra um deputado federal, o sujeito tem pouco amigo, né?
Ju: É, tipo nem a mãe dele votou né, tipo. É muito pouco.
Túlio: Ele nem fez campanha né…
Cris: É muito pouco.
Arthur: O cara não fez nenhuma campanha. Agora ele [Enéas] estourou de voto e levou todo mundo nesse fenômeno. O que que aconteceu? As pessoas que estavam com ele eram pessoas vinculadas ao partido, quer queira quer não, esse movimento é um movimento interessante. Porque? O Enéas, com esse milhão e meio de votos, o Enéas não era um Tiririca – ele tinha vários outros defeitos mas engraçado ele nunca foi…
Cris: [interrompe] Pior é que era amigo… Era tão bizarro que era engraçado.
[risos]
Túlio: Ele era bem bizarro…
Ju: A intenção dele não era a graça, é isso que você tá dizendo…
Arthur: Não era a graça. Ele era o sujeito que tinha cartas na mesa…
Ju: ok… Ele levava muito a sério. Sim.
Arthur: Ele levava extremamente a sério. E assim, tinha um projeto político por trás disso. As pessoas que foram eleitas com 250 votos são pessoas que representavam de fato esse projeto político.
Ju: [fala junto] …representavam de fato esse projeto político. Elas estavam de fato representando as pessoas que votaram nele.
Cris: O que cê ta querendo dizer é que necessariamente não vem gente ruim junto… num é.
Arthur: [interrompe] Não, eu não to dizendo se são bons ou ruins eu to dizendo que são gent… são pessoas que estão imbuídas do mesmo projeto.
Ju: Se representam…
Arthur: O que eu não posso admitir… sob esse ponto de vista quando a gente fala do sistema… o sistema proporcional ele é um perrengue pra compreender, num dá pra dizer o contrário. Mas qual que é a alternativa? A alternativa é o sistema distrital. O que que um e outro tem de vantagem? Essa é uma discussão que vira e mexe volta pra mesa. Que que é o voto distrital? A gente pega e esquadrinha a cidade, por exemplo, em distritos então cada distrito vai eleger um vereador. Que que significa dizer isso? Ah, vai ter um vereador de Santo Amaro, vai ter o vereador do bairro da tia Conchieta, vai ter o vereador de cá, o vereador de lá… qual que é a consequência? Esse vereador só cuida da calçada de lá. Isso é uma consequência. Segunda consequência… você imagina um partido pequeno num sistema como esse. Então o cara faz um segundo colocado no distrito um, segundo colocado no distrito dois, segundo colocado no distrito três, segundo colocado no distrito…
Ju: [interrompe] Ou seja, não elege ninguém.
Arthur: E teve um monte de voto…
Ju: Sim…
Arthur: Então, o sistema proporcional, toda essa conta que é uma zona ela existe exatamente pra viabilizar a…
Ju: [interrompe] As minorias…
Arthur: As minorias. Então quem fala mal do sistema eleitoral enquanto pelo menos em mim – do sistema proporcional – encontra um crítico em mim, porque é assim… é o único jeito que garante que as minorias estejam representadas. Se o cara conseguir fazer o coeficiente…
Ju: [interrompe] Que dá uma chance, né, porque garantir a gente já tá vendo que de fato não tá acontecendo e aí eu acho que até…
Arthur: Eu acho que a garantia não existe mas…
Ju: Dá chance… Dá chance… Possibilita, né.
Arthur: É o mais fácil porque se for pro distrital misto… mesmo o distrital misto que é melhor que o distrital é…
Cris: [interrompe] Eu acho que mais… tão interessante quanto isso é colocar seguindo passos, do mesmo jeito que a gente falou no início do financiamento, tem prós e tem contras. O que nós temos hoje é isso e você deve observar isto. Aqui no sistema de voto proporcional de coligação a manchete que fica, o twitter que fica aqui é o seguinte: preste atenção nas coligações porque essas pessoas vão subir junto.
Ju: É, e principalmente porque a gente tem uma crise ideológica de partido. Então por exemplo, o que o Arthur tá querendo dar… o exemplo maior do Eneas é que o partido do Enéas tinha uma agenda clara. Quem votou no Eneas votou pra essa agenda. Tudo bem que um monte de gente votou pela piada, mas assim, quem votou teoricamente votou na agenda. Quando ele leva todo mundo, arrasta o partido inteiro, as pessoas que votaram estão representadas. Quem votou… não vamo dar de exemplo o Tiririca, mas sei lá… dá um outro exemplo… se você pegar um outro puxador de voto qualquer, não tá votando primeiro numa ideologia e quem tá numa ideologia mesmo quem tá votando numa ideologia, quem ele tá arrastando não representa a ideologia necessariamente do puxador de voto.
Arthur: Isso, e aí se distorce…
Ju: E é isso que a gente tem por exemplo às vezes até cê tá falando de nanicos que foram levados pro congresso pela coligação, eles não tão representando o cara que puxou o voto. Você não tá representado ali com eles, entendeu?
Túlio: E atrapalha a vida muitas vezes do executivo.
Arthur: Ou atrapalha a vida ou o sujeito ganha o destaque. Não sei se vocês sabem, tem um sujeito que entrou na rabeira na eleição de 2012 e hoje é presidente da república. Michel Temer praticamente não se elegeu deputado federal. Ele tava assim no subnitrato do pó de traque e teve um cara ali que quebrou a perna na reta final ele foi lá e se elegeu. Virou presidente da câmara no dia seguinte e é presidente da república duela a quien duela.
Cris: É por isso que a gente tá falando que voto é coisa séria. Não é só escolher a pessoa ir lá e fazer…
Ju: Mas uma coisa que é legal disso que a gente tá falando é assim… não é uma questão tanto de questionar a regra, embora se possa questionar, como de independente da regra depende do uso que você faz da regra. Então é isso, então por exemplo se a gente entendeu que o puxador de voto ele pode ser bom, né, caso por exemplo você tenha sei lá… e vou falar o exemplo que é muito usado hoje. É… A gente viu uma matéria do nexo que falava que PSOL e REDE com pouquíssimos deputados conseguiram entravar medidas que eram extremamente polêmicas lá na câmara, né?
Túlio: Sim…
(Bloco 5) 41’ – 50’59” (começar em 40’48’’)
Ju: Então o que que acontece, por exemplo. Vou dar bem exemplo, não tomem isso como posicionamento e tal, mas digamos, se o PSOL não faz coligação e o PSOL tem uma agenda muito clara, eles colocam claramente o que eles querem, se você votar nos candidatos do PSOL, e tiver um puxador de voto como claramente o Jean Wyllys é, como claramente o Ivan Valente é, se você ta levando só pessoas que pensam exatamente o que você quer, não é teoricamente uma coisa ruim.
Arthur: [Interrompe] Muito pelo contrário, muito pelo contrário
Ju: Então não é necessariamente a regra que é ruim, é isso que eu quero dizer, desde que você entenda a regra e saiba jogar pela regra.
Arthur: Até porque, por exemplo, o Ivan Valente não faz o coeficiente, a gente tá falando aqui o coeficiente em São Paulo, 300mil votos, se você pegar dos 70 deputados que tem em São Paulo, você deve ter uns 3 que fazem coeficiente. O resto depende de uma série de outros candidatos que fazem 100 votos, mil votos, 2mil votos, e que tão lá exatamente pra garantir que se faça o coeficiente. Porque? Esse detalhe é importante: se não fizer o coeficiente não elege ninguém.
Túlio: [Falam juntos] Não elege ninguém. Exato.
Arthur: É dentro ou fora do baile, a lógica é muito clara. O cara tem que entrar no baile, tem que fazer a primeira cadeira pra conseguir navegar. Depois que ele entra lá, ele consegue com um deputado federal. Cê obstrui sessão que é uma beleza. Ainda mais se o deputado for bom, é muito caso. Agora, a questão é: é importante, a gente declara o quanto essa lógica de projeto tem que ser valorizada pelo eleitor, à medida em que o eleitor começar a trabalhar nessa linha de projeto, um pouco fazendo a aproximação que da qual a gente falava: “então vamo trabalhar junto, vamo fechar uma candidatura, que candidatura a gente vai defender?”

Túlio:Exato!
Cris:Juliana, você desistiu da vida depois de esse tanto de complicação né? Então você vai votar nulo ou branco? Me conta, e aí, você acha que faz diferença votar nulo ou branco?
Ju:É sempre bom explicar, acho que a gente já explicou em algum programa também sobre isso mas é importante. O voto branco é considerado um voto conformista, o eleitor que utiliza essa forma de voto seria um sujeito satisfeito com qualquer um dos candidatos que ganhasse. A ideia por trás disso é que todos os votos em branco vão pro candidato vencedor. Já o voto nulo é tido como uma forma de protesto, muita gente incentiva as pessoas a anularem o voto porque isso mostraria indignação coletiva com o estado político no nosso país, e forçaria a realização de novas eleições com novos candidatos. Esse boato, isso circulou demaaaaais na eleição passada, na penúltima eleição.

Cris: [Interrompe] Sempre volta, é “Walking Dead” isso aí.

Ju:Mas assim, eu acho que assim, justamente no período em que as pessoas tem uma crise de representatividade, isso volta com mais força.

Arthur:Daonde que vem isso? É importante a gente identificar a fonte do boato né. Tem uma disposição do Código Eleitoral que fala que se mais da metade dos votos da eleição forem anulados, a eleição não vale, tendo que convocar uma nova eleição. Estes anulados não significa “anulados pelo eleitor” e sim “anulados pelo juiz eleitoral”. Então vamos imaginar que aqui nessa urna tinha que ter 10 votos, aí eu vou lá computar os votos da urna não tem 10, tem 12. A gente joga a urna fora. Se isso acontecer com mais da metade acho que das urnas, tô em dúvida a respeito do critério, aí a gente faz uma nova eleição.

Ju:Sim, porque daí teríamos um problema de processo.
Arthur:Exatamente.
Ju:Tem que ter essa regra pra gente garantir a lisura do processo, certo.
Cris:E que exista eleição.
Arthur:Mas não é uma coisa, o voto que foi computado como “nulo”, o sujeito foi lá, votou, tem um voto. Aqui tinha 12 assinaturas tem 12 votos, 5 são nulos, 10 são nulos, isso não traz essa consequência.
Ju:[Interrompe] Isso é importante. Os votos brancos são considerados inválidos, não favorecem nenhum candidato. E os votos nulos não tem poder de influenciar o rumo de uma eleição, pois diminuem o total de votos válidos. Então, na real, as duas coisas se equiparam muito. O que eles fazem é apenas diminuir a quantidade de votos válidos, teoricamente deixando mais fácil pra quem tá na frente ganhar a disputa, porque ele tem que conquistar menos votos. É aquela coisa do quociente. O universo ficou menor, ao invés de ter que convencer 10 pessoas, você tem que convencer só 5. É isso.
Cris:Então ok, a gente entendeu aqui um pouco sobre como estão organizadas, qual é o cenário, entendido esse cenário inteiro, aí a gente entra nas eleições municipais. Eu vou falar muito brevemente aqui do que que tá em jogo, porque a gente ainda confunde muito os tipos de poderes, então o que que a gente tá falando do Legislativo? É quem cria as leis. Então a gente tá falando aqui do Congresso Nacional, que tem a Câmara dos Deputados, tem o Senado Federal, as duas casas tem um poder equivalente mas com características diferentes. A Câmara dos Deputados é composta por representantes do povo eleito pelo voto proporcional, e os membros do Senado também são, mas pelo voto direto, e não proporcional.
Arthur:[Corrigindo] Os dois são diretos, um é proporcional e o outro é majoritário.

Cris:Exatamente. Ou seja, cada estado tem 3 senadores igualmente. Daí a gente vai pro poder Executivo, então o Legislativo criou as leis e aí vem o Executivo pra fazer a execução dessas leis. Daí a gente vai pro Presidente da República no âmbito federal, os Governadores no âmbito estadual e os Prefeitos no âmbito municipal. Os Ministros de Estado nomeados pelo presidente, também compõe o Executivo. Então a gente no Judiciário, o qual está muito em voga neste atual momento. Ele fiscaliza o cumprimento dessas leis, então a função dele é a legalidade em relação à Constituição, se o que foi proposto e o que foi executado está de acordo com a “bíblia” da sociedade brasileira, que é a Constituição. A gente vê aí o Supremo Tribunal Federal e em outras instâncias o Supremo Tribunal Eleitoral, Tribunal Superior do Trabalho. Então eles trabalham nesse conjunto de regras, entendendo essas diferenças, está em jogo dois tipos de poder nessas eleições municipais: o Legislativo e o Executivo. Como a gente tem aqui pessoas na mesa que conhecem de ambos, eu queria que primeiro o Arthur falasse um pouquinho do que que é o prefeito, o que que ele faz?
Ju:O que que ele pode prometer? O que que está na esfera de atuação dele e o que não está, porque isso é uma das coisas que mais confunde o eleitor. Quando você tá falando de maçãs e bananas né, quando você pergunta… -Isso fizeram muito com o Haddad, de perguntar pra ele coisas que não tinham, não estavam na alçada de prefeito, né?- Então acho que é bom a gente entender melhor. O que está na alçada do prefeito?

Arthur: Eu acho que assim… Eu vou dar um passo um pouco atrás junto com a Cris, vou falar um pouquinho de Executivo e Legislativo. A gente acaba tratando essas duas coisas como absolutamente independentes, e isso é decorrência do que diz a Constituição, a constituição fala: são independentes e harmônicos entre si (Executivo, legislativo e judiciário). Mas o que interessa é o seguinte: o que faz o poder Executivo? Ele é um fiel e obsequioso cumpridor da lei. O poder Executivo faz o que a lei manda! E a Câmara? Ela aprova uma lei que tem um grau de abstração, que vai determinar o que o poder executivo vai fazer. De maneira geral, um o tempo inteiro tá “bulindo” com o outro. Então eles são independentes, mas eles se provocam, eles interagem. Por exemplo: “vai ter uniforme pras crianças?” Para ter uniforme pras crianças é necessário que tenha uma lei aprovada na Câmara que disponibilize recursos pra comprar uniforme pras crianças. Então, veja, pensar no prefeito, a gente tem que saber o que faz um e o que faz outro. Agora pensar no prefeito sem pensar no vereador é a mesma coisa que você querer resolver o pneu e não pensar na roda. Eles andam juntos. Essa é a primeira coisa. Aí o que a gente tem que entender. Bom, isso aqui é uma federação, o que significa dizer que o Brasil é uma federação? Bom um pedaço das coisas que nós esperamos do Estado, e aí quando do Estado, estamos falando de todo mundo, o Estado membro, o estado do Rio de Janeiro, de Santa Catarina, esse Estado como unidade federativa, a União e o Município. Tudo que esse Estado com E maiúsculo tem que fazer é dividido em três fatias: uma fatia cabe aos municípios, outra ao estado e outra à União. Qual a fatia do município? A fatia do município é a pior de explicar qual é! Porque a fatia do município são os chamados “assuntos de interesse local”, mais transporte coletivo, transporte coletivo é uma competência que o constituinte outorgou expressamente pros municípios. Ora, que raio é “assunto de interesse local”? Esse cardápio é um negócio absolutamente variável, então você pensa numa cidade que fica dentro de uma reserva ambiental, a questão ambiental é “estrategiquissíssima” lá, então o município tem mais espaço espaço pra ter atuação no meio ambiente do que tem em São Paulo, por exemplo. A grosso modo, pra não complicar isso que é bastante difícil de entender: o que o município faz? Educação e Saúde básicas, transporte, infraestrutura urbana, iluminação pública, a parte de zeladoria da cidade. Aqui a gente tem que separar dois universos: um universo que é o universo que a gente poderia chamar de “universo administrativo”, por exemplo, se tem uma praça tem que capinar o “raio” da praça, ninguém chega e fala “vou capinar praças”, isso já está dado.
Ju:Espera-se que você faça.
Arthur: É o mínimo né, o pretinho básico. Agora, o que que a gente tem de efetivamente estruturante? São os Planos Diretores, são as diretrizes no que diz respeito ao uso dos espaços públicos e a constituição desses serviços do município. Por exemplo: “o município tem que fazer saúde básica”, o município pode pensar: aqui na cidade de São Paulo, pra pensar numa cidade que tem um espaço territorial grande ou na cidade de Santarém que se não me trai a memória é o maior município em extensão territorial do Brasil…

Túlio: [Corrige] Altamira
Arthur: Altamira? Ok.
(Bloco 6) 51’ – 1:00’59” – Tati Criscione
50:53’
Arthur: Você pensa “Nessa cidade aqui eu vou botar um posto de saúde! Pra fazer saúde básica pra todo mundo”. Essa é uma decisão política que o prefeito pode tomar. O sujeito tem que andar dois dias de barco pra chegar até o posto de saúde. Morreu. Essa é a situação. Então, o que que a gente espera de uma situação como essa? E aí acho que até o Túlio tem uma contribuição mais refinada pra dar do que a minha, mas essa discussão não é a discussão se vai ter ou não posto de saúde. Vai ter posto de saúde, raios. A questão é: que tipo de saúde eu quero? Vai ter rua asfaltada. E aí de novo, um momento muito triste da minha vida viver uma eleição de São Paulo e fica se discutindo indústria da multa.
Ju: Sim.
Arthur: Por que que isso… onde é que tá a triste, eu imagino que isso, de alguma maneira, isso tenha repercussões outras. Mas esse é o tipo de exemplo interessante pra gente entender o que faz o prefeito. Tem situações em que o prefeito tem só que cumprir a lei. Então, se o prefeito vai lá e constata uma infração, seja de trânsito, seja de lixo descartado errado, seja de qualquer… ele vai ter que aplicar multa. É assim que funciona. Assim, não tem, indústria de multa só acontece quando tem uma reiterada discumprimento da postura. Agora, tem uma questão que aí é política. Quando eu digo e falo assim: ah, eu, nesta cidade, não vou tolerar morte no trânsito. Que que eu vou precisar fazer pra não tolerar morte no trânsito? Ah, se acontecer isso, tem um estudo que diz aquilo, então assim, vou aumentar fiscalização. Porque eu vou aumentar fiscalização? Porque eu acho que lá na frente eu vou chegar nesse resultado, que é o resultado interessante politicamente. Agora, prefeito não pode ficar fazendo “não, não vou aplicar multa”. Prefeito que diz que não vai aplicar multa é um sujeito que tá dizendo em campanha que vai descumprir a lei. Senhores, isso é de arrepiar do fio ao pavio, não dá.
Ju: Mas uma pergunta antes até do que você tá falando. Você disse que o legislativo e o executivo, eles andam juntos. Eles andam juntos, mas eles não estão vinculados.
Arthur:Não.
Ju: Então você elege o prefeito, por exemplo, é muito comum, com uma câmara de oposição. E aí, fala pra mim qual é o interesse da câmara de que o prefeito aprove as pautas dele? Então, por exemplo, a gente vai passar por isso, de que é importante ter um plano de governo, que você consiga dizer pro seu amigo em 140 caracteres que você vai votar naquele candidato porque o plano de governo dele é X, e você acredita que é pra aí que temos que ir. Então, por exemplo, você vai dizer, “ah, eu acredito que a gente tem que ter uma cidade mais humana, uma cidade mais inclusiva, por isso que eu vou votar nessa pessoa”. 140 caracteres, ok. Ou “eu acredito que eu tenho que ter uma cidade mais eficiente, então é por isso vou votar nessa pessoa”. Ok. Você tá entendendo o que que tá ali. Dentro disso, tem o plano tático, que é como você consegue colocar isso em prática. Então, como que eu vou tornar essa cidade mais humana? Com essas e essas e essas medidas, e depois você vai ser cobrado por isso. Se, como você tá falando, o prefeito, ele não faz nada, ele só faz o que ele é autorizado, e a gente tem uma câmara que não é votada vinculada ao prefeito, então a gente não tá falando de um parlamentarismo, por exemplo, quando o primeiro ministro…
Arthur:Se ele não tem maioria, ele cai.
Ju: É, exatamente, se ele não tem maioria, ele cai. Como que funciona isso daí, qual é a lógica disso? Porque ele tá de mãos amarradas, não?
Arthur: Vocês lembram o que tava acontecendo no governo federal na semana passada?
Cris: Acabamos de passar por isso.
Arthur: É exatamente essa situação. Algo absolutamente comum. Agora, o que que acontece, e aí de novo a gente tem uma negação da política. Eu poderia ter isso acontecendo num ambiente em que eu tenho um conflito ideológico, então eu tive um candidato majoritário que ganhou, e eu tive, no voto proporcional, um resultado diferente. Isso é possível? Plenamente. Até porque a gente tem aí outros problemas associados a esse sistema proporcional, no caso brasileiro, que é uma disparidade regional de representatividade. Então o voto no Acre tem um peso extremamente superior que o voto em São Paulo.
Ju: Só pro Senado.
Arthur: Não, só pra Câmara.
Ju: Só pra Câmara?
Arthur: E pro Senado é ainda maior.
Ju: É, porque se é 13 igual, e lá tem muito menos habitantes, então…
Arthur: Exatamente. Pro senado é ainda maior, você tem toda razão, eu me confundi. Pros dois, mais ainda pro Senado. Agora, qual que é a questão? O prefeito teria que fazer política pra aprovar as coisas dele, e fazer política significa, olha, tem uma outra força aqui, que ganhou um espação, e que eu vou ter que convencer. O prefeito pode convencer as pessoas como? É que não temos o hábito de ver, porque o prefeito, via de regra, não faz política. Mas o prefeito podia chegar e mobilizar uma manifestação. Olha, tem aqui um projeto pra ser aprovado, esse projeto é estratégico, tem que aprovar, por exemplo, o Plano Plurianual que é um projeto de governo mutatos mutantes, isso aqui é estratégico, então tem que aprovar. Então o prefeito pode falar assim, “eu fui pra rua, eu pedi voto pra fazer isso aqui…”
Ju: Me ajudem a aprovar.
Arthur: Me ajudem a aprovar.
Ju: Me ajuda a te ajudar.
Arthur: Me ajudar a te ajudar.
Ju: Se é pra eu cumprir meu plano de governo, vocês tem que ir pra rua, pressionar por isso.
Arthur: Exatamente.
Ju: É isso?
Arthur: Porque, isso é uma coisa que a gente falava muito no outro programa, né, a política não pode morrer no voto. Se a política morre no voto, ela dá errado sempre, não tem sistema bom… aí é só prego no caixão. A grande questão é, essa divergência, ela tem que ser ajustada na política, nesse debate, nesse afinamento. Em situações municipais, e aí é uma tristeza dizer isso, o que acaba acontecendo? Normalmente, os vereadores migram. Porque os vereadores, especialmente em municípios de médio porte já é essa beleza. O sujeito, o prefeito ganhou, ele já faz maioria antes de tomar posse. Em cidades como São Paulo, isso é um pouco mais… São Paulo, Rio, Belo Horizonte, “cidadões” em que o parlamentar não é eleito porque ele é querido no bairro só, ele precisa ser querido no bairro, senão ele roda. Mas, ele precisa ter história política pra garantir uma eleição, e esse tipo de virada é mais complicada. Agora…
Ju: Ah, eu entendi. Porque assim, se você foi votado porque você é querido, tanto faz seu partido, você se alinha ao cara que ganhou a eleição.
Túlio: De novo, a cultura do personalismo. Vou até adicionar, acho que você já entrou nesse ponto, mas, mesmo nessa relação, nessa negociação complicada entre, vamos pegar municipal, prefeito e vereador, você tem que adicionar o lembrete de não só essa cultura política do personalismo, mas também a cultura da burocracia política profissional. Porque a gente traz essa discussão política, não sei o que, a maioria é até saudável, inclusive, esses embates políticos, mesmo na câmara ou entre câmara e prefeito, enfim. Processos, tudo mais. Mas os burocratas políticos profissionais continuam. Então a gente não tá só discutindo a composição de uma câmara pelos seus partidos e ideologias, mas a gente também tá falando sobre uma composição de uma câmara onde você tem lá, X, 30, 40% de vereadores, que estão lá há 20, 30 anos. E que já criaram um outro sistema interno burocrata que vive por si só, que não é só o eleitoral, né, que ele espreme pra ele entrar lá de novo. Em Brasília é a mesma coisa, o negócio é até pior. Mas uma lógica interna de reprodução desse poder entre eles que ideologicamente, partidariamente em termos de coligação é meio que, a máquina vai continuar funcionando. Ajusta aqui, ajusta ali, a gente garante 30, 40 até em casos piores, 60, 70% de uma câmara que está se reelegendo quase compulsoriamente, quase no Repeat One, que é uma lógica da cidade que não só fica quase desconectada desse embate democrático entre o poder legislativo e o executivo, como da realidade da cidade.
Cris: Túlio, só pra gente ficar em pé de igualdade, só queria que você reproduzisse o que que o vereador faz, então. Se a gente já descobriu que tem alguém pra fazer, tem alguém pra mandar fazer, certo?
Túlio: O vereador tá nesse lugar, né, de quem faz essas leis, propõe essas leis. O vereador, ele tem um lugar interessante, porque o papel dele de fazer essas leis, e de garantir que essas leis sejam devidas implementadas pelo executivo, o papel do prefeito, teria esse espaço de, como legislador, ser um representante do povo. A cara do povo.
Cris: Similar à Câmara dos Deputados com o presidente, a gente tem os vereadores, para com o prefeito.
Túlio: Exato. A elaboração dessas leis, elas deveriam ser um espelho de representação do povo que votou nesses vereadores. Então o povo nas suas diversas matizes, diferenças, ideologias, interesses e anseios, ele votou, teve a composição, blá blá blá, então você tem um corpo de vereadores. Que, pela forma proporcional, você teria uma representação fidedigna do que é aquela sociedade, e consequentemente, os vereadores do seu conjunto, proporiam leis, passariam leis, votariam leis que teriam a ver com os interesses daquela sociedade que eles estão representando. Tanto que, as discussões, debates internos da câmara, eles envolvem porque? Claro, tem três lá que representam um grupo, tem dez que representam outro, mas você precisa gerar uma espécie de um consenso democrático para legislar pelo bem comum daquela cidade, unificando o município. No entanto, e aí eu insisto de novo nessa questão dessa burocracia constante é, o papel desse vereador de fazer as leis, garantir que essas leis, né, votar leis e garantir que essas leis estejam sendo bem executadas, fiscalizar o prefeito se torna muito mais um trabalho de legislar em torno de si. E o si não é só o indivíduo, o si é esse grupo burocrático. Esse grupo de políticos profissionais, que estão trabalhando em torno de si.
Cris: Tem uma coisa muito interessante que o Rafael Posso falou no programa sobre reforma política, que muitas vezes a gente fala “esse cara tá indo lá pra me representar, então ele tem que ficar aqui nessa pauta”. Então, na verdade, é bem mais profundo do que isso.
Túlio: Muito.
Cris: A ideia dele, quando você coloca alguém lá, é pra essa pessoa viabilizar conversas, que inclusive vão contra aquilo que você também acredita. Mas a proposta é viabilizar conversas e colocar em pauta aquilo que também diz respeito ao que você gostaria de ver representado, e não unicamente. Então assim, um vereador, um prefeito, ele não é refém de quem o elegeu.
Túlio: De forma alguma.

(Bloco 7) 1:01’00” – 1:10’59”
Cris: [continua] ele é uma pessoa que é responsável por colocar as pautas corretas em votação. Eu acho interessante a gente reforçar um pouquinho esse papel do vereador porque a gente ouve muita promessa, então, só categoricamente, o que esse cara pode fazer? Ele pode fazer mudança, criação ou extinção de tributos municipais, ele pode fazer criação de bairros, de distrito, de sub distrito dentro do município, ele pode estabelecer o chamado “perímetro urbano”, ou seja, a área que é urbanizada, sugerir nome de rua e avenida, que inclusive a gente só vê esse, né? [risos] Aprovar os documentos orçamentários do município, elaborar…
Ju: [interrompe] Fiscalizar, né?
Cris: Isso! Elaborar, deliberar, o voto do plano diretor, que é tão sofrido pra ser aprovado, aprovar o plano municipal de educação, estabelecer as regras de zoneamento, determinar o tombamento de prédios como patrimônios públicos preservando a memória do município, fiscalizar as contas da prefeitura, fiscalizar e controlar diretamente os atos do prefeito. Nada disso aqui a priori parece sedutor o suficiente pra uma campanha…
Túlio: [interrompe] Trabalho chato
Cris: [continua] Né! Assim: “votem em mim porque eu vou fazer o tombamento daquele prédio e vou estender o perímetro urbano..” Então, o que a gente percebe? Muita das vezes quando você liga a televisão, tá lá prometendo “eu vou fazer hospitais, eu vou acabar com a polícia militar…” Mas gente, a polícia militar nem é do município! Então, é muito importante prestar atenção se a proposta cabe ao cargo. Tem muita gente prometendo coisa que, não é que ela tá mentindo, tá prometendo uma coisa que nem é da alçada dela.
Arthur: Ela não sabe o que ela foi fazer, né? A pessoa..
[risos]
Cris: Tá perdidassa, tá perdidassa
Túlio: Eu acho que tem um ponto importante que é essa questão da promessa, mas invariavelmente isso tem muito a ver inclusive com a nossa perspectiva na bancada ativista, é o processo de esclarecimento, né? Porque é claro que a gente entende que a gente precisa trocar a roda com o carro andando, mas ao mesmo tempo a gente precisa criar mecanismos de nesse processo de trocar a roda com o carro andando, explicar pras pessoas o que tá acontecendo. Que já tem um carro andando, que precisa trocar essa roda, enfim… Esse processo de esclarecimento, que é muito difícil porque, claro, tem aí aplicativos e tudo mais, mas como é que você chega com a mensagem pras pessoas que estão basicamente sendo nutridas pela televisão? Que não necessariamente estão na internet? Dessa maneira como nós cosmopolitas…
Cris: [interrompe] Que é só 50% da população, não é?
Ju: É, o que você quer dizer é que, assim, o espaço que a gente tem pra de fato conversar e aprofundar o debate, nunca vai ser a televisão e nem se presta a isso, eu acho, não é, Túlio? Não é isso!
Túlio: Exato! Não é esse espaço.
Ju: A questão é, você tem que tá disposto a ir um pouco além. Cê tem que estar disposto.. “ahh, eu não tô disposta a ler textão no facebook.” Vai me desculpar, Cris. Tudo bem. Então, senta no seu bairro na roda de discussão, porque tem várias. Então assim, ou você vai presencial, ou você vai na internet, mas você vai, assim, requer um trabalho de aprofundamento. Que não vai ser.. ah, então assim “Túlio, eu esse ano quero fazer tudo diferente e aí eu me dispus a ouvir o horário político e escolher, assim, pegar o horário político e escolher o que é melhor, e esse é o ponto”
Cris: Ledo engano
Ju: Não tem como, amigo. Não é que eles estão fazendo errado, não é que eles estão fazendo pra te enganar, embora estejam, tudo bem, não tô tirando isso, tá? Mas a questão é que o próprio formato não permite porque as discussões são maiores, elas são mais amplas, elas demoram mais do que isso. Então não tem como, você não vai conseguir votar coerentemente, cumprir o seu papel de cidadão, você não vai honrar seu voto apenas assistindo o horário político,
Arthur: E até o horário político frequentemente induz em erro. Ele faz exatamente.. é o sujeito que vai acabar com a polícia militar, é o sujeito que vai construir oito hospitais, vereador não constrói hospital. Agora, tem algumas coisas que são extremamente interessantes. Hoje a gente tá vivendo uma reforma federal da educação e essa reforma federal da educação a pessoa tá batendo muito na coisa das matérias, diminuir as matérias, isso é uma coisa que eu não vi muita repercussão porque assim, acabou com a exigência da licenciatura, isso é a própria escola deixando de reconhecer a escola como legitimação de quem vai dar aula na escola. Senhores, me parece uma coisa um tanto quanto grave. O vereador pode barrar isso no município. Veja, a gente às vezes tem alguns processos históricos de uma riqueza que a gente perde. O município de São Paulo inventou um negócio chamado creche. E aí não tem muito como fugir de dar esse exemplo. Creche, educação infantil, não existia. As mães que trabalhavam inventaram lá solidariamente a história das mães crecheiras, a partir delas constituíram associações, a partir das associações se fizeram creches e creches municipais. Quem cuidava das creches? Quem cuidava das creches era uma moça bem intencionada que gosta de criança, fufufu, fofofinhas… Era essa moça. Hoje em dia, 30 anos depois a lei nacionalmente reconhece isso como uma parcela da educação, essas pessoas são pedagogas, veja, tem uma mudança de ponto de vista de lugar político fabuloso. Eram direito das mães trabalhadoras, hoje é um direito das crianças que vão ser educadas, etc, etc, etc. Essa alteração política de 180º ela pode acontecer por causa de um vereador. Isso é uma coisa que às vezes as pessoas têm pouca percepção porque tem um pouco a ideia de que existe hierarquia, então manda a Câmara dos Deputados, depois manda a Assembleia Legislativa e a Câmara… Não faz nada. Isso não é verdade. A Câmara não deve nenhum beneplácito, não deve nada pra Assembleia.
Cris: É muito assustador isso, né? A gente fica muito focado em eleição de presidente, de governador e de prefeito, mas eles executam. Quem que faz as leis? É esse mundaréu de gente aí que a gente tá vendo falar.
Arthur: A gente tem que tomar cuidado, assim, não dá pra botar tudo na conta do legislativo por duas questões: os nossos modelo e tripartição dos poderes é o modelo chefe do executivocêntrico. Então o chefe do executivo manda mais o que devia. Isso não dá pra gente negar.
Ju: [interrompe] Governar por MP, né? Que a gente via antes. E tem judiciário fazendo lei também
Cris: Então, o vereador não pode gente, não pode prometer que ele vai terminar a obra de uma rua ou de uma escola.
Arthur: O que ele pode fazer, e aí nessa interação legislativo/executivo saudável isso acontece, é o seguinte “olha, pra que eu vote com você nesse projeto eu quero aquele hospital”..
Cris: Exato!
Arthur: Então, como que isso acontece? De novo.. ó ó, olha a interação acontecendo. Esse vereador tem tão mais probabilidade de conseguir isso, quão mais próximo ele seja do prefeito. Isso é uma coisa normal, razoável, sim. Isso é um problema? Sim. Por que: Porque é nessa hora que de certa forma eu tenho uma cooptação do legislativo pelo executivo. E tem uma coisa que apareceu em várias falas mais ainda eu acho que vale a pena a gente bater: o legislativo fiscaliza o executivo, isso é função típica, eles precisam fiscalizar o executivo. Quando a gente fala de fiscalização do executivo normalmente vem na cabeça “ahh, é a roubalheira”.. É pior que a roubalheira, é mais importante que a roubalheira. Não é quanto roubam de dinheiro, não tô dizendo que isso é pouco importante, pelo amor de Deus, não me entenda mal, mas assim, é uma questão do rumo político. Então a gente tem uma escola que recebe um milhão de dinheiros, esse milhão de dinheiros tem que surtir um resultado. Se esse resultado não acontece, a Câmara tem que chamar o secretário de educação lá e falar assim “escuta, filho, o que que cê tá fazendo pra resolver esse problema?”. Quando a gente pensa em fiscalização pelo legislativo, é isso, né? O legislativo tem que estar em cima, a Comissão de Educação da Câmara, ela tem que funcionar a guardadas as medidas como se ela fosse a Secretaria da Educação. Então, como é que tá a educação fundamental? O que que falta? Quantas creches? Tem que acompanhar então. Não é fazer o plano de educação só, é fazer e acompanhar. O plano de educação leva 10 anos? Tem um monitoramento. Nesse monitoramento, como é que eu interajo com a sociedade civil? Como é que eu faço pro movimento garantir que as informações efetivamente circulem isso é bonito pra chuchu, até porque é aí que o vereador deixa de ser o cara que dá nome na rua. Se o vereador acompanha esse processo de fiscalização, ele não tem tempo de pensar em nome de rua.
Cris: [rindo] Tá certo! Vamos falar um pouquinho de representatividade então porque aí a gente entendeu as novidades, entendeu o cenário, entendeu as atribuições dos cargos que estão em jogo, e aí a gente começa a falar, chegou até aqui, né, chego nesse ponto do programa cê fala “caraca, o negócio é complicado”. Então, aí a gente vai lá pro tio Ben, né? Grandes poderes, grandes responsabilidades. O voto é um poder, e ele traz muita responsabilidade. E gerenciar esse poder realmente não é fácil, então a real é: é difícil mesmo, e a gente tá aqui pra aprender junto pra poder fazer direito. E aí a gente entra na conversa sobre o voto consciente. Eu queria dar uns dados muito rápidos aqui pra vocês que eu levantei sobre essa representatividade. As mulheres, como que elas tão na política hoje no Brasil? No Congresso, elas são 45 pra 513 cadeiras. No Senado, são 11 do total de 81 senadores. Dos 27 governadores em exercício, só tem uma mulher e das 4.895 prefeituras, 675 são comandadas por uma mulher. No cargo de vereador apenas 12% são mulheres. Estima-se que no Brasil a igualdade de gêneros na política demore cerca de 150 anos pra ser alcançada. Aí a gente vai pros negros: nas eleições de 2014 pro cargo de presidente da república, senador, deputado federal, governador, deputado estadual e distrital, tinham 22 mil candidatos, 43% eram negros. Eleitos, menos de 8%. Gays: nós temos 150 candidatos assumidamente gays no Brasil. Não representa nem 1% do total dos candidatos. Indígenas: não alcançam 2% das cadeiras eleitas. Existem pequenos movimentos como em Araguari, um município no norte de Santa Catarina. Que terá o primeiro candidato lançado por um partido 100% composto por integrantes indígenas. Por outro lado, o que a gente vê são os herdeiros políticos. Um estudo da Universidade de Brasília mostra o crescimento da bancada dos parentes da casa. Todos os deputados do Rio Grande do Norte são de família de político. Todos. 49% dos deputados federais eleitos em 2014, ou tinha pai, ou avô, ou mãe, ou primo, ou irmão, ou cônjuge que também trabalhavam com política. Esse é o maior índice das últimas quatro eleições. Atualmente, o estado que ilustra o melhor poder da dinastia das eleições é o Rio Grande do Norte, onde 100% dos 8 deputados eleitos estão nesse perfil dessa pesquisa. Então, quando a gente vê a continuidade, que o Túlio já falou aqui, e ausência do heterogêneo, né? Não tem esse heterogêneo, a gente tem mais dificuldade ainda de representação. Queria que o Túlio falasse um pouquinho sobre inciativas que tem tentado mudar um pouco essa história, mudar um pouco essa pauta.

(Bloco 8) 1:11’00” – 1:20’59”

Túlio: Só pra retomar, acho que são dois, tem dois problemas. Quer dizer, tem muitos, mas dois ai pra gente usar como base pra fazer essa discussão. Primeiro, que eu to batendo, insistindo nessa burocracia político profissional que tá aí se reproduzindo e tudo mais. Mas junto a ela e que funciona numa dinâmica um pouco mais ampla. É um termo que ele é muito mal visto, mas ele é muito vivo e vigente que é o Coronelismo. E quando a gente fala de Coronelismo a gente não tá falando daquele cara lá da novela da Globo, Rei do Gado, que tá longe. Não. O Coronelismo na verdade ele é um sistema que funciona muito bem em termos de reprodução de poder local, conjugado com o poder Estadual e com o Federal e as instâncias de produtividade, sejam as empresas, fazendas e tudo mais, de modo que aquele poder, naquela dinâmica, se reproduza. Então quebrar um sistema desses onde você tem uma conjunção de poderes que tá muito bem coadunada, né. Um poder institucional no governo, com um governo que representa o estadual e o federal com as alianças de poder econômico locais e junto com isso uma burocracia política profissional que geralmente tá atrelada a esse poder coronelista mas não necessariamente ela é por si só parte disso. É difícil. Como iniciativas eu acho que assim, primeiro você tem que pensar nas formas de esclarecer os processos e as pessoas que querem fazer parte do processo de como esses poderes estão estruturados. Acho que passa pela conversa que a gente tava tendo agora de entender como funciona, entender a organização dos… a distribuição desses poderes, como se vincula, como se organiza e tudo mais. Mas cada vez mais a palavra “Participação” e a palavra “Representação” entrar no vocabulário político das pessoas. Não só de quem está se mobilizando para fazer algo, mas principalmente quem está se mobilizando para fazer algo. Entender a constituição do que você fala… tem um professor amigo que eu gosto muito, o Adrian, que ele tem batido nessa tecla. Quando a gente tá falando de representação política, quando a gente tá falando de participação política e quais são os meandros que envolvem a relação entre as pessoas, a sociedade civil com esses poderes instituídos e não só os meandros, mas esse vocabulário político e um conjunto de relações que é possível se estabelecer entre esses dois grupos, na verdade três, quatro que seja, é fundamental para você criar formas diferenciadas de quebrar ou mudar essa estrutura. Eu vou dar um exemplo, acho que até um pouco mais da Bancada Ativista ela nasceu não só numa ideia de que existe algumas pessoas que foram a base pra criação da bancada que queriam ver um legislativo dos sonhos, né? De pensar na ideia de candidatos de pessoas que eles conheciam por conta da sua participação política na sociedade e que deveriam ter um espaço de representação e consequentemente dariam representatividade, que essas duas coisas também é importante: Elas conversam, mas não são exatamente a mesma coisa. Elas seriam espelho de representatividade que esses ativistas tavam olhando. Mas ao mesmo tempo, retomar a política como algo que deveria ser cuidado, querido, enfim, as pessoas deveriam se apaixonar por política novamente. Uma das estratégias que a bancada criou para fazer esse processo: é as campanhas de flertaço, por exemplo. Então vamos lá botar os candidatos na rua e deixar os caras sentados numa cadeira e deixar eles disponíveis para as pessoas para elas sentarem e conversarem. O tipo de coisa que você não vê.

Ju: Sim.

Túlio: Sábado mesmo eu passei, não posso falar o nome do candidato, mas uma figura da socialite, famosa. Um cara aí que todo mundo conhece, faz troça dele, mas é aquele riso tragicômico, muito rico e tal. Tava fazendo campanha no bar Brahma e ele tava sentado lá dentro assim, isolado, um carro na frente, e tocando música e tal e as pessoas passavam e olhando pra ele. Aquele misto de zoológico com uma coisa meio bizarra, né? Quando a Bancada Ativista, por exemplo, põe os candidatos na rua sentados para que as pessoas sentem na frente deles e falem: Putz, faz uma pergunta. Você três minutos para conversar e perguntar o que você quiser e tudo mais. Não é o melhor: Tudo bem. Mas é uma forma de você se aproximar as pessoas que seriam os cidadãos, que seriam os representados, com possíveis representantes.

Cris: O Brasil é um dos poucos países no mundo que político vira meio Rock Star, né? O cara tá em outro lugar, ele é inacessível. Você não consegue encontrar com ele. Ele tá num lugar distante. Sendo que na verdade ele é um representante. Ele deveria ser bem mais acessível do que isso.

Túlio: É né. Outras maneiras: A Bancada Ativista que eu tenho estado mais próximo. Mas assim, outros processos, além obviamente dos movimentos sociais e tudo mais. Eu acho que no momento que vivemos hoje: Esse misto de indignação com apatia que a gente pode até falar mais sobre isso depois mas que para mim é bastante preocupante: a Apatia. Esse certo Niilismo Político. É fundamental construir formas de processos de esclarecimento das pessoas. De alguma maneira, precisa se criar formas de tocá-las para que elas não só se interessem mesmo que minimamente pelos meandros da política. De como a política está acontecendo, mas um resgate a elas pois elas precisam ser além daquele dedo da biometria ou a cédula do título de eleitor para de cada dois anos ela vai lá e dá o apertar. Ela tem que entender que a política está acontecendo todo santo dia na vida dela. Sempre! De uma maneira racional ela vai entender onde exatamente essa política está acontecendo. Se é na rua dela, com um homem de rua, com a fiscalização das contas, com determinado projeto de lei que passa ou não, ou até de maneira afastada, mas ela precisa entender que invariavelmente cada respiro que ela dá na vida dela enquanto cidadão na democracia ela está vivendo essa política. Enfim, é muito difícil. Muito difícil.

Ju: Uma polêmica que eu queria colocar já que a gente começou dando como dado que a representatividade, ela precisa ser dessa maneira direta. Então por exemplo, que você precisa que um Congresso reflita as características da população, então por exemplo, se eu tenho mulheres representando mais de 51% da população é estranho minimamente que a composição do Congresso, a composição da Câmara dos Vereadores não reflita a composição da sociedade. E aí tem uma questão que a gente precisa pensar que é assim: Só mulher representa mulher? Porque é assim: São vários fatores que interferem no que faz você votar em uma pessoa. Então assim, você não vota em vários temas. Você não vota de acordo com a sua concordância ou não em diversos temas. Então assim, pauta ambiental: Juliana, você se posiciona como? Educação: Juliana, você se posiciona como? Segurança: Juliana, você se posiciona como? Direitos civis: Juliana, você se posiciona como? Não é assim, você escolhe um candidato só. Então você nunca vai encontrar um pacote que represente exatamente …

Rafa: O que você precisa….

Ju: O que você precisa. Que te represente diretamente. Até tem algumas tentativas na Espanha e tal, de tentar trazer isso mais direto pro povo, né? De fazer a representatividade de uma forma mais direta, entendendo que a frustração das pessoas é um pouco com isso, mas hoje como… no sistema que a gente faz, não é assim. Então é por isso que eu acho que o Rafa falou dessa importância da gente às vezes ser menos…

Rafa: Representativo e mais participativo…

Ju: É! E mais entender o que o Túlio tava falando de uma estratégia menos pontual, menos curral, menos umbigo e mais pra onde a gente quer ir, sabe? E quem tá indo comigo praquele lado e quem tá construindo pra isso e eu vou ceder em um monte de coisa e ceder em coisas que eu não concordo mesmo. É ceder! Ceder não é… É que a gente tem uma dificuldade de realmente… Ceder é falar: “Não, que que isso? É contra os meus princípios!” Não, perai! A gente tem um objetivo maior aqui e as pessoas que tão dispostas a remar comigo pra esse lado são essas pessoas. Então a gente vai por aqui. Por que que eu to falando isso? Por que de repente, e pode me corrigir se eu estiver bem errada, posso estar numa viagem muito louca de ácido aqui, mas a gente celebra essa representatividade de uma lado, né? Então a gente tem que ter mulheres me representando, então eu não vou votar no Agnaldo Timóteo porque ele não é mulher, né? E não é isso, não vou fazer isso e a gente ao mesmo tempo demoniza a bancada cristã, a bancada evangélica, por exemplo, que até ali representando ali interesses muito específicos, muito claros, entendeu? Então é isso que eu to te falando. O que eu acho é… O Túlio tentou explicar isso, não sei se ficou muito claro…

Túlio: É…

Ju: Não sei, não sei se ficou muito direto. Que a questão é: Não tá errado você votar para você representar o seu interesse direto muito pontual. Mas o que se quer da política. O que se quer pra que todo mundo fique feliz, inclusive, é que se tenha um pensamento mais coletivo. E é isso que é mais difícil, Arthur, eu acho que votar bem passa por uma série de fatores. Passa por uma coisa que gente tentou fazer até aqui que é explicar a questão de quais são as regras do jogo para que você possa jogar a regra do jogo. Mas passa também por uma noção de coletivo. Por um estar disposto a sentar e negociar. Por saber onde a gente quer chegar. E saber o que a gente tá disposto a ceder pra isso.

(Bloco 9) 1:21’00” – 1:30’59”
Túlio: Pensar nessa questão do bem comum, do coletivo, numa perspectiva de o quanto a minha visão ou a minha decisão ou “o que eu estou lutando por” está ou não prejudicando a vida do outro. Eu acho que o ponto está aí. O coletivo em si, esse bem comum, moderno, espírito, filosófico, ele é realmente muito abstrato e ele vai se tornar cada vez mais abstrato como mais você aumenta da perspectiva das individualidades democráticas. Isso vai ficar cada vez mais distante. Cada vez mais evidente para nós o que é bom. Acho que o Arthur deixa isso muito claro, que o dissenso é parte da democracia. E esse dissenso ele precisa ser constituído de uma maneira onde as pessoas…

Ju: Se respeitem e consigam conviver.

Túlio: Agora essa… Não sei se é uma regrinha. Talvez é um pressuposto ético, enfim, de que as suas decisões perspectivas soluções não fodam com a vida do outro.

[risos]

Ju: Que é o termo técnico.

[risos]

Cris: É o melhor termo. [risos] Aí vem a representatividade. Esse cara aqui está representando, por exemplo, a religião que é a religião que eu acho que deveria ser o padrão pra gente seguir. Esse outro aqui está representando que a gente pode matar as pessoas agora quando elas nos irritam, “está me representando”. Todo mundo tem direito a representar. Agora, esse outro aí está representando que “eu acho que a gente pode ter escravo. Não vejo isso tão ruim”. Então, assim, existem propostas e representações que elas são, não é só não fazer parte do coletivo. A gente não pode relativizar o que é violento e o que é errado de fato. Quando você está colocando a vida do outro em risco, quando você está determinando a sua lei, isso é errado e ponto. Não dá para relativizar. Não existe como defender uma proposta que está sacrificando o outro. Então isso é um ponto. Agora, nisso que a Juliana está falando sobre ceder, eu acho muito interessante porque a gente é obrigado a ceder em tudo na vida. Se você tem um casamento, um relacionamento, um namoro você tem que ceder, às vezes. Se não, não dá certo. Não é sempre tudo do seu jeito. Você está trabalhando? Você manda na sua empresa? Tudo é do seu jeito e se não for do seu jeito você não… Então assim, todas as relações. Você mora em casa com a sua família você tem que ceder ao que os seus pais querem. Todas as nossas relações são políticas. É isso que eu estou querendo dizer. E aí quando a gente vai para política fato, aí não. Aí tem que ser só o que eu quero, só do meu jeito. Eu vou brincar com isso, eu vou zoar com isso, eu vou protestar com isso.

Ju: Ó, eu lembro… Tem um episódio do “News Room”, que é uma série, que é sobre porque que – e nisso a gente vai entrar agora no final do debate que é – porque que a imprensa é tão importante no processo político. Que na real o que eles falam é que só existe democracia a partir do momento que você tem informação. Então a sua democracia é tão boa quanto a qualidade das informações que você tem pra decidir. E aí então eles falam assim: por que a gente faz jornal? A gente faz jornal para que o eleitor se informe durante todo esse tempo e não só na hora de eleger, para que ele possa fazer a sua escolha. E aí então eles entendem que o debate político é uma das coisas mais importantes que vai ter no jornal. E daí tem um ativista que ele é republicano e gay. E o cara falou “mano, pelo amor de Deus, não faz sentido. Como é que pode você ser…” E aí eu acho que essa é a questão que eu queria trazer aqui pra gente não ficar na discussão de representatividade no primeiro layer, na primeira camada. Que assim, cara, eu não sou apenas uma coisa, eu tenho um pacote de coisas. E eu decidi que essas e essas coisas pra mim são mais importantes do que outras coisas. É uma discussão que daí eu estou colocando muito superficialmente e que na série eles se aprofundam bastante e que eu acho que isso é importante da gente colocar. Eu acho que representatividade importa, acho que a gente já falou bastante disso no Mamilos. Mas eu acho que tem camadas nisso, nessa discussão, pra gente não levar a coisa tão…

Arthur: Mas aí o que me parece importante a gente registrar é que a complexidade vai ser cada vez maior. Hoje a gente discute orientação sexual, cor e sexo. Só que daqui a pouco a gente vai querer assim, dentro da orientação sexual, porque na realidade pode ser que eu já tenha falado alguma coisa errada porque o sexo, pensa numa bancada trans, é uma bancada trans-homo. E os próprios movimentos eles tem “paus homéricos” por que a trans, homo, mulher… é mulher, não está no movimento de mulheres… Assim, o que a gente precisa entender é o seguinte, me parece. Se a gente olha pra política no sentido grego como a arte dessa felicidade pública, ela está colada na ética. Que é a busca da sua felicidade individual. Agora, o que o Túlio falou é perfeito eu vou buscar a minha felicidade mas não vou sair fodendo ninguém. Então tem esse jogo. A minha felicidade ela existe na cidade, ela existe pela cidade. E ai o negro pode representar o branco? Pode. Qual é o problema? E aí eu acho que a gente tem que enxergar como problema. Se o negro ele não tem acesso a possibilidade de representar o branco, a casa caiu.

Cris: Tem uma coisa interessante nessa conversa que é o seguinte. É claro que a gente já tem uma camada formada lá dentro e ela se perpetua porque as pessoas olham e falam “ah, ele já sabe fazer isso, então eu não vou dar opção para esse outro porque eu não sei se ele sabe fazer. E a gente tem esses números aqui perpetuando as pessoas de sempre, passando de gerações em gerações.

Quando a gente fala de diversidade o que a gente está falando é que precisamos ter pessoas diferentes dividindo esse espaço para que a conversa se torne heterogênea.

Arthur: Sem dúvida.

Cris: Então, quer dizer, não é necessariamente mulher votando em mulher, gay votando em gay. O quê que a gente precisa? Precisamos de pessoas diferentes nesse espaço. Hoje você olha e é todo mundo igual!

Túlio: Exato.

Arthur: Isso.

Cris: Eles são todos muito parecidos. Quando tem uma mulher no meio até destaca porque você acha tão estranho ter uma saia. Negro? Não tem. Não temos. Não trabalhamos. Então o problema hoje, é tudo tão igual, é tudo tão parecido. Como que a gente quer ir para um caminho diferente continuando com todo mundo igual ali?

Túlio: Isso é fundamental. Eu volto de novo na questão da participação e representação. O quanto essa participação política, seja a ativa ou seja a quotidiana indireta da vida ordinária, ela está sendo espelhada e tendo a sua participação garantida naquele espaço institucional. E aí, não é de novo a “mulher votando em mulher” e “negro votando em negro”. Mas é como aquelas pessoas na esfera de representação estão garantindo, naquela perspectiva do “não foda o outro”, um conjunto de leis, perspectivas, funcionamento das instituições em relação a leis, orçamento, fiscalização, etc. Que não continuem fodendo a vida dessas mesmas pessoas que estão sendo constantemente fodidas. A mulher que não tem espaço no mercado e a cultura do estupro que está aí perpetuando, o negro que está um genocídio, o indígena que nem se fala que…

Arthur: Nem aparece

[risos]

Túlio: É. Nem se fala, nem aparece. Então, eu acho que a representatividade dentro dessa discussão da política pode tomar mais esse caminho. Né?

Ju: Então eu queria puxar, justamente porque você está falando isso de representatividade, uma discussão que a gente já passou por cima dela e que é super importante principalmente porque a gente vai votar agora e muita gente, muitas cidades, vai se ver frente a essa opção. Eu acho super importante a gente falar porque assim, a gente está a bastante tempo, e não é só no Brasil é em todos os lugares, no dilema que é um dilema democrático de “você está votando à favor ou está votando contra? E é muito complicado isso. Porque assim, não é porque eu estou votando na Hillary é porque eu estou votando contra o Trump. Não é que eu estou votando no fulano eu estou votando contra o ciclano. E qual é a questão do meu debate? Que isso que você está falando… A gente está falando o tempo inteiro de representatividade, né? E a gente está falando de acompanhar a política. Você entender que você tem uma identificação com aquele candidato. Se você está votando contra, automaticamente ficou muito fácil para aquele candidato. Porque ele não tem que te entregar nada. É só o anti. Ele tem que provar que o outro é ruim, não que ele é bom. Então, uma coisa que eu já falei aqui no Mamilos que me incomoda demais, o quê que acontece, eu não tenho muita ingerência no Bolsonaro porque eu nunca votaria nele. Então, o que ele faz ou deixa de fazer, pode me irritar ou não, eu posso ficar falando cinquenta horas mas para ele, ele não perde nada se me irritar. Ele pode fazer muitas coisas para me irritar, inclusive. Porque eu nunca vou votar nele, ele não está perdendo nada. Agora, eu tenho gerência no voto do Ivan Valente, porque eu voto no Ivan Valente. Então que se tiver alguma coisa… Alguém só tem a perder o que tem. Quando a gente fica no anti, no contra, você não está influenciando nada. Porque aquela pessoa ela não vai te ganhar. Me preocupa muito quando a gente vota no contra porque você torna muito mais fácil o trabalho de quem está ganhando o seu voto. Porque aí fica aquela guerra de… Eu vi um quadrinho esses tempos que foi muito bom.

“Ah! Então eu votei no fulano para não votar no ciclano e aí, quatro anos depois eu votei no ciclano porque a opção era essa”

E até onde isso aí te leva? Entendeu?

Arthur: Eu tenho a sensação de que esse voto anti ele pode aparecer no discurso, na realidade ele não funciona. A questão é a seguinte: Quando, na teoria mais formalista possível, quando o cidadão vota ele transfere poder. Vamos pensar que, o que ele faz? Ele forma um poder novo. A partir do momento que ele formou esse poder novo ele é responsável pelo que ele formou. Ele formou anti, ele formou… Qual é a razão subjetiva individual desse convencimento? Isso não surte efeito lá na frente. Se joga com isso no marketing. E aí, de novo. A gente está voltando para um assunto que está lá no começo. Enquanto o marketing dirigir a campanha… a gente perdeu. Porque o marketing é a negação da política. No Marketing o cara não vai querer assumir posição, ele vai querer agradar todo mundo. Agradar todo mundo é a não política. Na política… Eu sei que “o cobertor é curto”, a gente “põe carta na mesa”, a gente sabe assim… Não dá para atender todo mundo. Então assim, eu vou atender a zona leste e não vou atender a zona sul. E assim que é. E eu vou, enfim, elaborar a partir daí.

Ju: Então vamos entrar no debate que a gente precisa ter que é como a gente se informa pra votar. Porque ontem eu estava assistindo o debate da Record, dos prefeitos para São Paulo, e eu estava assim… muito…

Arthur: Desesperada.

Ju: Muito Chateada. Porque assim…

Cris: Momento vexatório.

[risos]

Ju: O ser humano que fala assim… “Ju, escutei oitenta mamilos, quero fazer valer o meu voto, então eu estou gastando o meu tempo para me informar. Estou assistindo esse debate para escolher um candidato. Olha… Já deixando claro que a gente já falou sobre neurociência que a gente primeiro escolhe e depois justifica a escolha. Então que a gente não vai lá decidir mesmo. Mas, vamos lá. Se a gente está com a folha em branco, lá, com a caneta na mão para anotar prós e contras e vai decidir com base no que a gente anotou lá. É bizarro! não tem nem informação ali pra você votar!

(Bloco 10) 1:32’19” – 1:40’59”
Arthur: Sim, Porque não tem nenhuma discussão política, todo candidato chega e fala assim ‘aqui eu vou fazer educação, eu vou fazer cultura, vou construir hospital, eu vou não sei que lá’, todo mundo vai fazer a mesma coisa, todo mundo é igual na campanha, por quê? Porque eles são formatados pelo bendito do marketing que faz uma pesquisa que pesquisa o mesmo eleitor
Túlio: [interrompe] Quais são os anseios
Arthur: Então eles pegam os anseios do eleitor e todo mundo quer virar homo pra ser vendido
Túlio: Esse ponto é fundamental, que você tá falando de, não de processo de decisão, mas de processo de venda e compra quando você transforma um político e seu partido e sua candidatura num produto você tá automaticamente colocando aquele processo num lugar isolado, como é um processo de compra, e esquecendo ou desatribuindo importância ao processo do antes e o processo do depois. Quando você vai comprar determinado item, um celular, eu vou olhar as especificações dele e eu vou olhar o que o mercado me conta que eu tenho que saber ‘ah, x de RAM, não sei o que de espaço, onde que vende, quais são os comparadores e tals’ e eu compro isso pra usar e funcionar, agora eu não pensei no processo de construção, na evolução tecnológica dos celulares pra escolher essa compra e não necessariamente to pensando no que vai pra frente não sei o que ‘pararara’… Quando você transforma a política nesse produto formatado, o candidato virar esse objeto é exatamente essa desatribuição da política que você tem com as pessoas, você elimina a participação para representação e você torna isso um processo de compra e o processo de compra ele fica lá pontual, agora não tem antes e não tem depois, depois tem outra compra e antes teve outra compra
Arthur: E ninguém entende como esse conjunto de compras no final das contas interfere na nossa vida e [aqui=
Túlio: [Muito
Arthur: =sim, não adianta a gente também tapar o sol com peneira, né, a gente gosta de destruir tudo que temos nesse, existem alguns processos que a gente tem desde 88 que são fabulosos, assim o SUS tá ruim? Tá ruim. Até 88 não tinha, a gente tem muito ouvinte novo, eu tenho certeza que tem gente que faz assim ‘como é que é?’ É, até 5 de outubro 88 se alguém passasse mal na frente do hospital público se não tivesse carteira assinada o cara olhava pra você e falava ‘beijão ae’, não existia saúde pública, hoje a gente tem no sistema de saúde pública que é o ponto de vista conceitual e referência mundial e só pelo ponto de vista do sistema que a gente tem, é um sistema que garante, se a gente não conversar com os avós, pessoal de fora dos grandes centros, ‘ah vó quando é que você via médico?’ a vó ‘médico?’. Hoje em dia a gente toma isso muito como uma coisa natural, chega na Inglaterra, país rico, né, Inglaterra, assim, o sistema é publico de saúde, ‘eu quero o sistema público de saúde eu quero um oftalmologista’ ‘vai no clínico geral’, ‘eu quero mas é um problema de vista’, ‘vai no clínico geral’, ‘eu quero um médico ortopedista’, ‘vai num clínico geral’, ‘eu tô com dor de cabeça, me dói o peito’, ‘vai no clínico geral’, aqui não, aqui a gente quer é especialidade, então a gente quer viver esse mundo hiper super desenvolvido, aí você diz, o SUS é uma desgraça porque eu tô aqui a 6 meses na consulta fazer um eletro numa fila pra fazer eletroencefalograma, o cara quer medicina padrão americano, ninguém lembra que os Estados Unidos não tem saúde pública
Túlio: Que foi o engasgo do Obama
Arthur: Exatamente.
Túlio: ObamaCare
Arthur: Exatamente
Cris: É muito importante a gente fazer um ponto de questionamento aqui que é como a gente já tinha falado aqui um pouco fora do ar. Político não abre a boca para falar algo que ele não esteja pautado por uma pesquisa que apontou pra ele que é aquilo que as pessoas querem ouvir, então a hora que você ouve o negócio que cê fala ‘mas isso é um absurdo’ num debate é porque alguém soprou no ponto ali pra ele que é pra ele falar dessa forma, é pra ele usar essas palavras, porque é isso que as pessoas querem ouvir. O que seria então muito mais importante do que ver esses ataques horrendos que deixa agente extremamente nervoso e meio sem esperança, né, fuja dessa armadilha de ouvir não necessariamente a verdade é o que o cara pensa, mas sim o que ele tá falando pro que a pesquisa apontou, qual que é o único jeito de fugir disso? Buscando um programa de governo
Arthur: E mesmo o programa de governo, a gente também tem que tomar cuidado
Cris: Ok, mas é efetivamente algo que ele está propondo porque se você votar nessa pessoa pelo menos depois cê tem algum documento que rege o que ela pretendia fazer porque se você não pode acreditar na palavra dela, se você não consegue ter uma fonte de pesquisa segura, se você não pode acreditar no programa de governo aí você não tem onde se pautar
Arthur: Tem, existem sinais, alguém já disse isso, tenho certeza que não tem nada de original, política é gesto, a política não é feito da fala, a fala é um detalhe na política então onde é que tá o gesto? O gesto tá em de quem eu tô me aproximando, isso é gesto, então você tem um candidato
Cris: [interrompe] Comer coxinha com boca ruim é gesto? (risos)
Arthur: É gesto, é gesto, é claro que é gesto isso entrega uma rapadura gigantesca
Ju: [interrompe] Significa
(risos)
Arthur: Significa ‘ai que nojo, ai que nojo’, significa que nojo, aquela velha história, e a gente, e a gente na hora de lidar com política a gente é muito avesso ao gesto, gente o gesto faz parte da vida, a gente flerta no gestual, a gente navega no gestual tempo inteiro
Cris: É que eu acho muito abstrato pedir para as pessoas perceberem isso, sabe?
Arthur: Mas as pessoas, as pessoas vivem isso, cara, o seu chefe entrou na sala do jeito que ele te olhou cê sabe se você pode ir lá pedir aumento ou não, aí o político vai entrar e sempre vai sorrir, cê sabe que o cara vai sorrir na hora de pedir votos, bom, aí você vai fazer alguma pergunta pra ele e onde é que essa pergunta pega, onde que cê vê que o cara engasga, então, esse gestual diz muito. Aí cê fala assim ‘esse gesto é difícil de saber’, até porque tem gente que é raposa, tem gente que é ratazana do deserto, tá bom, têm outros gestos, de quem ele se aproxima, então, esse candidato antes falava assim ‘não precisa ser mulher pra falar de mulher, não precisa ser negro’ mas assim, com quem que ele dialoga no âmbito do movimento negro? Com quem que ele dialoga no âmbito do movimento das mulheres? Com quem que ele dialoga no âmbito do movimento GLBT? Se isso são pautas relevantes pra mim, então eu vou imaginar eu falando de Arthur, ‘Arthur é o sujeito que pauta pela igualdade’, então assim, igualdade pra mim eu não tem legitimidade pra falar pelo movimento negro, agora eu posso trazer do movimento negro quem é que tá vinculado a esse candidato? Quem é que defende esse candidato? Com quem que ele interage? E a partir daí que eu tenho? Eu tenho um gesto porque eu não tenho condição de cobrar a pauta negra ou o movimento estando colado nele, tendo alguma interação tem condições de cobrar pautas, isso aí é gesto, não adianta o cara chegar e falar assim ‘fazer vou fazer aqui um negócio lindo ambulatório maravilhoso’, tem o ambulatório aqui em São Paulo que é dedicado a GLBT, ‘vou fazer um ambulatório’, isso é isso que as pessoas GLBT querem?
Ju: [interrompe] Essa é a pauta?
Arthur: Essa é a pauta? Eu não sei, eu não tenho legitimidade pra debater isso, o que eu sei, o que eu quero? Eu quero que esse povo seja ouvido porque eu acredito nesta diversidade
Túlio: Exato
Arthur: Aí isso é gesto, isso não é discurso, não é assim, ah eu até tenho um amigo gay, ah eu até tenho um amigo negro, isso é bobagem, a gente arruma ator pra fazer isso, né, quem trabalha com marketing sabe como é que é. Agora no universo do movimento qual que é o diálogo? Até porque meu programa de governo tem um problema muito sério, ele não tem custo, isso é uma coisa importante, não tem compromisso nenhum com custo, e tem uma outra coisa, às vezes ele não vai se realizar por razões estranhas ao desejo pessoal do candidato, esse compromisso e a gente também tem que saber fazer uma avaliação menos depressiva no fracasso, porque a gente entra numa lógica binária de avaliação que também é muito deletéria pro processo, ‘ah o cara não conseguiu cumprir o plano de governo ele é um cara que não presta’
Ju: A gente também não consegue, né, quando você faz essas metas do ano novo lá cê põe um monte de coisa e nem tudo cê consegue porque a vida acontece no meio do caminho, né
Cris: Quando a gente tá nesse tema da política que é só um atacando o outro eu acho que ler proposta é importante e achei excelente essa dica aí do quem ele está trazendo junto pra pensar o negócio, né
Arthur: E esse gesto, e a gente tem que entender que assim, isso é um movimento complexo, tem a ver com as coligações, é um pouco o que cê falava, não tem vida fácil, não dá pra entender isso não dá pra olhar isso querendo simplicidade, né, outro dia eu tava conversando com uma menina adolescente falando assim “como é que você teve certeza que cê queria ser advogado?” “ah, no meio da faculdade” “ah e depois fica tranqüilo?” “não, depois cê que vai ter um monte de dúvidas uma depois da outra”. (risos)
(Bloco 11) 1:41’00” – 1:50’59”

[ risos ]

Arthur: Então no final das contas, a gente acaba reproduzindo essa angústia adolescente de querer ter um critério que não aparece. Até porque no movimento LGBT tem gente que, vou usar a palavra do ‘trai o movimento’ .

Tulio: Claro!

Arthur: No movimento negro tem gente que trai o movimento. Então como é que a gente vai entender que essa aproximação também é uma aproximação que dá segurança pra isso acontecer [ não tem =

Ju: = Não tem resposta pronta.

Arthur: Quanta gente traiu o movimento! Se você pensar, se você for olhar no meio de reforma agrária, o governo do PSDB assentou muito mais do que o governo do PT. Quem é que tá próximo do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra? É o PT. E por que que ele não conseguiu assentar? Provavelmente porque, exatamente, porque tinha proximidade,né. E vou assentar como se fosse seu amigo, a gente sabe como é que é isso, pros amigos a gente fala assim: ‘Espera um pouquinho. Já que é meu amigo espera um pouquinho.’ Quem nunca fez isso? Eaí o amigo fica preterido na relação. Isso tá certo, não tá… Isso é política.

Ju: Então, mas uma coisa que eu acho que me deixou chateada ontem, que fui ingenuamente, realmente esperando um debate, né. Que você vai ver que não tá colocado no debate. Então, por exemplo, quando você tem, vai, dois candidatos que não estão, um não vai tirar voto do outro, então você tem uma possibilidade de debate, né. Então assim, um pergunta, faz uma pergunta útil para o outro, o outro responde…

Arthur: Utilmente.
Ju: Utilmente, devolve a pergunta, e o cara mostra diferenças ideológicas, aquilo é uma coisa assim, bom me deram um problema, um responde de um jeito o outro responde de outro. [ E eu tenho que ver com o que eu me alinho =

Cris: = Isso tem que ver quando ele tá falando do problema, né. Porque às vezes perguntam uma coisa e ele responde outra.

Ju: É! É que eu to falando de quando às vezes os dois, não estão, um tirando ponto do outro, eles estão realmente debatendo e realmente mostrando um ao outro o que tem de melhor, né, é assim: ‘Realmente olha, eu penso diferente de você nisso e tal’. E ali tinha valor, aí quando você vê um debate, que é isso que eu acho importante da gente pensar, sabe, que eu entendi definitivamente que a informação não tava ali. Algumas coisas que são debatidas em campanha, ou talvez a maior parte, tem uma parte técnica que você tem que entender, e que no debate não existe um moderador que vai falar, bom agora a gente vai falar sobre política de drogas, pra falar sobre política de drogas, que nem a gente faz o Mamilos, existe que a comunidade científica fala, o que a comunidade científica fala é isso aqui, existe dados do mundo, dados do mundo, como que é feito no mundo, é assim, é assim, é assim, esse é o contexto que a gente vai discutir isso, aí a primeiro candidato fala. Dado esses dados que você apresentou, de números do mundo, de o que já tentaram fazer, do que a comunidade científica diz que deveria ser feito, a minha linha é ir mais pela esquerda porque eu acho que a esquerda é melhor fazer disso, disso e disso. E o outro responde, dados esses mesmos números, essas mesmas realidades, eu acho que deveria ir pela direita. Sabe por quê? Porque a direita é melhor. Isso é um debate.

Arthur: Exatamente. [ Isso não vai…isso não vai acontecer =

Ju: = Isso é um debate de ideias gente. Isso é o que a gente faz acontecer. Isso tá MUITO longe de ser o que aconteceu.

Cris: Isso nunca vai acontecer, porque não é bom pra quem tá lá.

Arthur: Pode ser que seja mais, agora vou ser pessimista, vou abrir o alçapão que tem no fundo do poço, a gente não tem uma cultura de debate crítico.

Túlio: Exato.

Arthur: Enquanto esta cultura de debate crítica não acontecer, porque assim ou eu gosto de você, você é minha amiga, então a gente tem que concordar em tudo que, afinal de contas você é minha amiga. Ou então eu não concordo com tudo então você blabla te odeio, enquanto essa chave binária funcionar, a casa caiu. Então a gente não vai lá, disposto… Mesa redonda de professor de faculdade. [ Já viu alguém chegar e falar assim =

Túlio: = é…a academia é uma…[ incompreensível ]

Arthur: ‘[ Eu discordo, eu acho que seu pressuposto…’ Nããão…

Túlio: Fórum de amigos.

Arthur: Mas é claaaro, muito bem Salamala????[1:44:50]
Quem é que vai pra mesa? Quantas vezes você é…vai convidado pra fazer uma aula, quem é que vai? Ah, se for o Caio, ele vai, ah então eu não vou. Não vou porque não concorda comigo, como vou sentar com ele? Então, essa lógica do que a gente só sente junto quando a gente concorda, ela não é uma lógica que aparece no debate, ela aparece sempre, porque que no almoço de domingo falar de política dá azar? Porque se tem um cara que não concorda, fecha o tempo. Porque a gente tá criado nessa cultura. A gente na realidade não lida com crítica, ou a gente trabalha com escracho…

Ju: É…

Arthur: Ou a escrotização, ou é o…

Cris: Conchavo.

Arthur: Ou é a vaca de presépio, o conchavo. Enquanto isso não mudar, não tem debate, porque o que acontece é o seguinte. O sujeito tem que ter condição de ouvir isso, você tem que ter condição de falar assim ó: ‘Vou discordar de você, não significa que você é um pária, [ porque eu tô discordando de você =

Túlio: = Exato.

Arthur: [ Eu tô discordando de você e a vida continua.

Cris: Então, o que a gente entendeu aqui é que a votação ela começa quando ela acaba, né. Foi lá, votou, aí que começa o job, então agora vamo tentar mudar um pouco esse mindset. O que que a gente já tem de instrumento também pra ajudar? Tem um site das câmaras municipais, que é possível você saber tudo da vida do político que você elegeu, então a presença nas sessões, como eles votaram em plenário, nas comissões, os projetos apresentados e relatados, os discursos feitos, os funcionários contratados pro gabinete, além de dados biográficos. Dá pra poder acompanhar, porque é isso, ele faz… Se ele não tem um pouco do gesto que o Arthur tava falando, a hora que ele chegar lá, ele vota contra uma pauta que é aqui ele tava falando que ia defender. Aí a hora de: pegue e-mail, protesta, vai na câmara. Porque é um funcionário, você não contrata um funcionário e depois abandona ele e volta quatro anos depois pra trocar, você tem que continuar e tem que olhar isso. Tem alguns outros serviços que a gente vai colocar na pauta, que podem ajudar orientar isso. O que que a gente precisa entender dessa conversa toda: votar é coisa séria. A gente precisa fazer isso com muita consciência e a gente vai conseguir chegar em algum lugar com dois gestos: leitura e debate.

Arthur: Isso.

Cris: Aí você acabou de ouvir esse programa e fala assim: ‘Vou votar não! Vou votar não que esse trem…. Pelamor de Deus, não quero nem fazer parte disso!’

[ risos ]

Arthur: ‘Não quero nem fazer parte disso.’

Cris: ‘Eu vou viajar é pra fora! Sei lá, vou dormir no dia da votação. Porque aí pelo menos não pus a mão nessa cumbuca.’ Então gente, não é bem assim. Vamos lá, nós votamos desde 89 se você for contar quantas vezes a gente já foi até à urna desde então, desde então, se desde 89 você tem o título de eleitor, você já foi no máximo quinze vezes até à urna. Então você conhece pouco isso, né. A gente fez isso poucas vezes ainda [ tem um monte de trâmite =

Ju: = E conforme dito, é complicado!

Cris: [ Não, que é, é.

Ju: Tudo bem você estar confuso.

Cris: É mais ou menos assim, imagina você começa a dirigir o carro, vou falar da MINHA experiência, que eu falava assim: ‘Mano, peraí! Eu nunca vou conseguir prestar atenção no volante, nos pedais, nos espelhos tudo ao mesmo tempo!’ Imagina que você só pegou o carro quinze vezes, então assim, é difícil mesmo até você conciliar todas essas informações, nem sei se um dia fica fácil, mas pelo menos você entra no ritmo de estudar mais, de aprender mais, de viver mais essa situação. Tudo na vida é novo. Eu fico chocada, por exemplo, com futebol. Tem milhares de regras ali.

Arthur: São só onze.

Cris: Não, não é, porque aí foi impedimento, não foi isso…não foi aquilo.

[ risos ]

Arthur: São onze.

Cris: Vamo pra tênis…

[ risos ]

Cris: São… São regras…

Arthur: Onze regras de futebol causa essa desgraça toda…

Cris: Magina…

Arthur: Que a gente vê domingos a fio as pessoas discutindo, imagina uma eleição que tem que discutir educação, saúde…

Cris: Noossa. Então assim, eu acho que tudo que você precisa conciliar e todo conhecimento novo ele precisa de prática, e prática leva tempo, então a gente tá indo, a gente passou aí um perrengue miserável que viu que se você votar Congresso completamente diferente Legislativo do Executivo a gente não tem governabilidade, e sem governabilidade, putz, é, não dá pra fazer. Então são passos dados e vamo lá, vamo caminhar.

Arthur: Posso…

Ju: Vamo aprendendo, né, pra frente vamos, a brincadeira não é fácil, a gente tem um programa que é um dos primeiros que fala dos desafios da democracia. NENHUM sistema é perfeito, então tem algumas coisas que não tem a ver com brasileiro, não tem a ver com o nosso momento, tem a ver com a fragilidade do sistema em si. Então assim, a gente pouco ama a democracia, pouco admira a democracia e pouco sabe que isso não é um dado, não é…[ não é..não foi…=

Arthur: = Isso é uma construção.

Ju: [ Não foi um presente dado pelos gregos, deuses pra nós, não a… É um tijolinho, a gente tá construindo e tamo bem, gente, tamo construindo isso aí, sabe. Aos trancos e barrancos, um passo pra frente e dois pra trás, mas estamos construindo isso.

Cris: Respira. Posição de lótus.[ Respira =

Ju: E vamo domingo participar.

Cris: É isso aí. [ Espero que a gente =

Ju: = Pode errar, pode errar, mas participe. Faça o seu papel. Tem assim, melhore do que foi da eleição passada só isso. [ Se envolva =

Arthur: = Se envolva.

Ju: [ Dê a atenção pra isso.

Cris: Ah, Ju, passa rapidinho aí só pras dicas finais que a gente colocou como um passo a passo aí pra ajudar a fazer um Wrap up de tudo que foi falado aqui.

Ju: Algumas diquinhas pra escolher os candidatos
Qual é a trajetória? Qual é a origem? Como foi parar na política?
Ele é idôneo? Tem histórico de envolvimento em casos de corrupção?
Tem plano de governo? Já passou por outros partidos? Por que que ele mudou de partido? As promessas que ele fez, são congruentes com a competência do cargo? As bandeiras que o partido levantou ou o próprio candidato são condizentes com o que você acredita como cidadão, do que é melhor para sua cidade? Qual é o partido dele? O que o partido prega? Qual a coligação que foi feita? Ele tem contas de campanha em dia? Quem são os financiadores dele?

Cris: Faz o check list, dá uma olhada aí, dá tempo de votar com consciência já em 2016, ok? E a gente volta nessa conversa, fica junto, pega leve, a gente vai aprendendo. Temos um programa, Juliana?

Ju: Temos um SUPER programa!

Cris: Fica a gostosa sensação de ter aprendido um tantão sobre como votar?

Ju: Fica. Tá aí o manual, vocês pediram, tá entregue. Promessa de campanha cumprida!

[ risos ]

Cris: Obrigada gente! Beiijo!

Ju: Obrigada!

Arthur: Obrigado.

[ sobe a música e acaba o programa! ]

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