“Até o Último Homem” é uma história de fé e violência no campo de batalha

“Até o Último Homem” é uma história de fé e violência no campo de batalha

Indicado ao Oscar em seis categorias, incluindo melhor filme, ator e direção, novo trabalho de Mel Gibson narra a história real de um pacifista na 2ª Guerra Mundial

por Virgílio Souza

⚠️ AVISO: Contém spoilers

Aplaudido de pé por dez minutos em sua estreia no Festival de Veneza, indicado ao Oscar em seis categorias, incluindo melhor filme e direção, responsável por boas arrecadações de bilheteria e símbolo do retorno de Mel Gibson ao centro das atenções em Hollywood, desta vez sem manchetes negativas, “Até o Último Homem” tem um número suficiente de histórias ao seu redor para ocupar textos e mais textos. É possível explicar esse sucesso em tantas frentes de diversas maneiras, mas parece inegável que sua maior força vem do que está em cena, mais até que de seu caráter inspirador.

Típico personagem extraordinário da história resgatado pelo cinema, Desmond Doss (Andrew Garfield) tem sua vida retratada seguindo passos conhecidos. Na primeira metade do longa, vemos pontos importantes da formação de sua relação com o irmão, seus choques com o pai, os gestos ainda tímidos de altruísmo diante de estranhos e o surgimento de sua primeira paixão. Se o diretor por vezes rejeita o rótulo de “filme de guerra”, muito disso tem relação com esse segmento inicial, quando o conflito permanece à espreita.

Desde a introdução, o que diferencia este de outros exemplares da mesma linha é que Gibson se mantém centrado no protagonista. Em uma sequência situada em um hospital, minutos após o início da projeção, a câmera acompanha calmamente a reação de Desmond ao que acabou de ocorrer ao seu redor para, em seguida, sem que palavras sejam ditas, passar a observar o instante em que ele vê Dorothy (Teresa Palmer) pela primeira vez, contemplando o que está por acontecer em seu futuro.

Mel Gibson no set

A forma como o romance se desdobra não busca atalhos nem preza pela eficiência acima de qualquer coisa. Ao contrário, é como se o longa fosse atrás de elementos singulares em conversas e situações familiares, sempre disposto a desviar o olhar, por exemplo, para um livro sobre ornitologia — que levará até uma pena azul perdida na mata, depois ao canto de um pássaro distante. Faz parte da construção do que talvez seja a única atmosfera em que o garoto se sente seguro de verdade.

Aparentemente distraído enquanto é possível, “Até o Último Homem” não nos prepara para o horror da guerra porque nada seria capaz de preparar alguém para o horror da guerra. O choque de Desmond quando tem contato com uma fila de veteranos desfigurados é também o choque do espectador, e o contraste entre calmaria e tempestade se mostra fundamental para o desenrolar do filme.

Nesse sentido, vale destacar o trabalho de Hugo Weaving como Tom, o patriarca da família Doss. Brilhante em seus discursos no cemitério e auxiliado por Gibson, que constrói imagens marcantes como a da gota de sangue pingando sobre a lápide, o ator assegura a principal virada do roteiro quando expõe o lado mais brutal do conflito aos filhos durante um jantar. Os jovens estão se preparando para embarcar rumo ao desconhecido, e a fala urgente do pai não apenas apresenta uma realidade da qual eles não poderão se desviar, como também chama atenção para as implicações espirituais de uma viagem que pode não ter volta.

Há dois filmes bem distintos em “Até o Último Homem” porque há também duas vidas para o protagonista

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“Não será difícil; será impossível”, é o que ele diz ao deixar o filho partir, ciente de que a guerra não se adaptará aos ideais de um pacifista que senta e reza antes de tomar qualquer decisão. Tudo muda de figura quando o alerta se confirma e Desmond passa a ter seus princípios postos a prova. “Eu não ligo para o que você acredita”, é o que o sargento Howell (Vince Vaughn) diz ao receber o rapaz no exército.

Há dois filmes bem distintos em “Até o Último Homem” porque há também duas vidas para o protagonista: uma antes da guerra, outra depois dela. Nessa segunda metade, inaugurada no momento em que ele dá início ao treinamento, a narrativa assume de vez seus contornos bíblicos. Certos aspectos já estavam postos desde o início (a delicadeza de alguns gestos, a atmosfera de elevação), mas ganham forma e novo significado a partir dos sacrifícios no campo de batalha.

Espécie de versão do sargento Hartman, de “Nascido para Matar”, Howell trata Desmond como um covarde por sua recusa em pegar em armas. A imposição do militar se dá pelo porte, pela violência com que confronta os soldados e, principalmente, por representar a primeira grande provação às convicções do protagonista. Sua postura pacifista, de “opositor consciente”, conduz a um calvário como o de “A Paixão de Cristo”. Doss é um símbolo cristão por excelência.

Conexões bíblicas seguem ao longo de toda a trama, inclusive no modo como o filme lida com as fatalidades da guerra

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Longe de tomar o fato como dado, Gibson se dedica a moldar essa imagem. A relação do diretor com o plano é frontal e, por isso, o soldado surge frequentemente centralizado e/ou iluminado por trás, destacado do cenário e dos demais — as ideias de expurgo e ascensão aos céus ecoam em todo o filme e tomam corpo em momentos cruciais. Sua trajetória é pontuada por trechos emblemáticos: a perda da inocência com a esposa antecede a perda da inocência na guerra; no acampamento, outros passam a procurar por ele, sempre encontrado lendo a Bíblia; mais adiante, ele ainda trata o inimigo como irmão, oferecendo a mão estendida.

Ao mesmo tempo em que seus feitos começam a ser celebrados, o protagonista é também submetido a sacrifícios em busca da redenção. Provocações sobre sua fé aparecem em discurso (“Você ouve vozes, Desmond?”, alguém pergunta) e ação (depois de ser espancado e oferecer a outra face, ele concede o perdão aos agressores), mas ele acaba salvo pela intervenção do pai no momento decisivo, prestes a ser julgado por seus pares.

As conexões bíblicas seguem ao longo de toda a trama, inclusive no modo como o filme lida com as fatalidades da guerra. Gibson dá algum espaço para os rituais de partida e chega a traçar breves paralelos com os adversários, no momento em que eles preparam a rendição seguindo costumes próprios. No limite, porém, a conquista do monte Hacksaw é encarada mais do que como uma questão de vida ou morte. É um milagre.

A violência sufocante, mas nunca catártica, remete à intensidade da abertura de “O Resgate do Soldado Ryan”

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Embora subscreva essa noção, o longa compreende também a importância da ação no plano terreno. Não há como escapar do fato de que setenta e cinco corpos foram salvos porque um corpo (ainda que um corpo abençoado por Deus) se esforçou para salvá-los. É por isso e a partir daí que, digam o que disserem, “Até o Último Homem” se configura como um legítimo filme de guerra.

Dividido em dois intensos blocos de ação de quase trinta minutos cada, o segmento do conflito impressiona pela escala adotada. Ao menos no que diz respeito à profundidade do campo de batalha, a sensação é de estar diante de uma produção de mais de cinquenta anos atrás, quando centenas de figurantes se espalhavam pelos cenários para criar o efeito atualmente reproduzido (nem sempre com resultados tão efetivos) com a ajuda de computação gráfica. Gibson sabe usar o espaço em favor da narrativa, mergulhando Doss em fumaça durante um resgate para depois deixá-lo exposto às forças japonesas, ou espalhando elementos ao seu redor para simbolizar seu chamado divino — a mão que agarra a Bíblia perdida no campo de batalha é um exemplo.

A violência sufocante, mas nunca catártica, remete à intensidade da abertura de “O Resgate do Soldado Ryan”. Aqui, parece útil lembrar que a trama gira em torno de um protagonista que só se defende e, mais importante, que sequer possui os devidos recursos para atacar. Assim, cada explosão a metros de distância dele tem impacto ainda maior, e o trabalho de som cumpre sua função para formar um ambiente aterrorizante.

O horror da perda e a beleza da sobrevivência têm propósitos bem definidos

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Mesmo se sobressaindo pela serenidade e dedicação ao ofício em meio à carnificina, Doss ainda parece um garoto se desviando de lança-chamas e granadas que explodem em slow motion ou saltando entre corpos mutilados e cabeças explodindo. Seus pesadelos e lembranças, que surgem para sacramentar determinados temores e posições, são traços de uma direção que tenta ser explícita e direta sob todos os aspectos. Se por vezes essas sequências, acompanhadas pela trilha sonora edificante de Rupert Gregson-Williams, parecem querer transformar o rapaz em um herói de ação moderno, ao menos a direção sabe se retrair e recorrer a momentos mais contidos, aproximando-se das ideias de fé que pretende discutir.

Há uma dezena de sequências marcantes dedicadas a louvar as virtudes e os feitos de Doss, mas duas delas se destacam. São os olhares de soldados diferentes salvos por ele: um, iluminado pela lua; outro, envolto pela terra. Debates sobre a frontalidade com que o filme retrata a realidade da guerra são pertinentes, mas aqui o horror da perda e a beleza da sobrevivência têm propósitos bem definidos — estão sempre adiante, a uma graça divina e uma dose de coragem de serem encontradas.

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