SXSW 2017: As melhores coisas vêm nas menores embalagens

Como as atrações mais esperadas do SXSW acabam sendo as menos impressionantes

por Guga Mafra

Aqui em Austin tem uma sala chamada Ballroom D, que é onde as sessões mais disputadas acontecem. Cabem mais de duas mil pessoas, tem um palco e um telão enorme e também enormes filas para entrar, especialmente por conta das celebridades que estão no palco.

A expectativa é sempre grande por conta disso, mas pra mim (e essa é só minha opinião) ela é sempre um pouco frustrada. Celebridades geralmente já estão no topo da carreira e elas vem superpreparadas para contar uma história que já aconteceu e já sofreu todas as edições possíveis. Além disso, muitas dessas palestras são na forma de entrevistas, ou painéis, então essas pessoas não trazem um material realmente preparado.

Foi o que aconteceu no painel do Marc Jacobs que eu ainda estou assistindo enquanto eu escrevo esse textão aqui. O começo foi até bastante bom, onde ele contou como ele transformou o desfile da sua última apresentação em algo mais conceitual (assiste aí o vídeo no YouTube) colocando as modelos para fotografar os jornalistas e fazendo o desfile continuar pela calçada em Nova York.

As melhores novidades vêm das atrações que ninguém conhece

compartilhe

Mas depois virou um clássico papo de talk show onde a entrevistadora (Sally Singer, Creative Digital Director da Vogue) começou a perguntar sobre como ele usa mídias sociais, quem ele segue, etc. Não tem nada errado nisso e normalmente acaba trazendo alguns insights legais, mas dá a impressão de que é algo que você já viu ou poderia ter visto na TV. E dá a sensação de que tem algo um pouco mais ousado e inovador acontecendo lá fora enquanto você está aqui se entretendo com celebridades.

Ontem a fila para ver o Mark Cuban nessa mesma sala deu a volta no ACC, subindo e descendo escadas (o que dá um pouco mais de meio quilômetro). Eu vi só o começo e saí, mas só estava rolando tietagem no palco. E antes disso eu vi o Casey Neistat aqui, mostrando ótimos vídeos e contando sua incrível história.

Talvez isso seja parte do equilíbrio das coisas: quer ver celebridades, bem-sucedidas, com uma boa e bem-trabalhada história? Ok, mas provavelmente você não vai ter nada explodindo sua cabeça. Quer arriscar e assistir alguém desconhecido numa sala pequena? Talvez seja uma chatice, mas pode ser algo que você realmente não conhecia.

Que foi também o que aconteceu ontem, quando eu fui ver a palestra do presidente da Logitech, numa sala menorzinha e só metade cheia. O cara se deu ao trabalho de fazer um bom PPT e apresentar seu argumento: 1. que a empresa encolheu com o declínio do mercado de PCs (que foram substituídos por equipamentos portáteis; 2. como eles conseguiram se recuperar se focando em atender aos serviços de nuvem, fazendo caixas de som bluetooth (eles são líderes no segmento), equipamentos para gaming, armazenagem, etc; 3. que o mais importante é se manter pequeno, senão eles vão se acomodar.

Mas é claro que nem sempre é assim: uma sessão sobre a possível retomada de vôos supersonicos – que foram proibidos por conta do barulho que eles fazem – que tinha tudo pra ser legal, foi uma bela chatice sem muita novidade.

Também, no fim das contas, acaba fazendo sentido eu estar aqui reportando pra vocês o que falaram o Marc Jacobs, o Mark Cuban ou o Casey Neistat (ou o Ray Kurzweill, por quem eu estou esperando enquanto escrevo esse texto). Esse ano, não foi nada demais, mas poderia ter sido. Mas assim como em todo festival de cinema, ou de música, no interactive também as melhores novidades vêm das atrações que ninguém conhece.

Compartilhe: