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9 filmes do começo de 2017 que você talvez não tenha visto

Produções imperdíveis que passaram voando pelos cinemas brasileiros ou foram direto pra streaming

por Virgílio Souza

A cada três meses, reuniremos aqui alguns dos principais destaques lançados no país no período. O foco serão estreias que não conseguiram tanto espaço nas salas dos cinemas, produções distribuídas diretamente em home video ou serviços de streaming e filmes que, pelos mais variados motivos, merecem um olhar mais atento.

A proposta é menos obscura e mais ampla do que parece. Na primeira edição, temos adaptação de videogame, documentário da Netflix, vencedor do Festival de Cannes, Kristen Stewart caçando fantasmas e muito mais.

“A Cidade Onde Envelheço”

O longa de Marília Rocha foi o primeiro lançamento da temporada na Sessão Vitrine, iniciativa que distribui projetos nacionais a cada duas semanas em mais de vinte cidades do país — confira o calendário de lançamentos aqui. Coprodução portuguesa rodada em Belo Horizonte, o filme acompanha as trajetórias de duas jovens mulheres que deixaram uma Europa em crise para viver na capital mineira.

Há muito vigor nessa relação entre olhares locais e estrangeiros, de quem busca (nem sempre com sucesso) se adaptar a uma realidade ao mesmo tempo tão próxima e tão distante. Um fado que, embalado pelas grandes atuações de Elizabete Francisca e Francisca Manuel, captura a ideia de saudade como poucos filmes recentes, remetendo ao trabalho de Mia Hansen-Løve, sobretudo em “Adeus, Primeiro Amor”.

 
 
 
 

“Toni Erdmann”

Os termos “comédia” e “alemã”, assim como as quase três horas de duração, certamente afastaram parte do público dos cinemas. Mesmo que muitos considerem a reação inevitável, porém, deixar essa pérola da diretora Maren Ade passar em branco seria uma tremenda injustiça.

O tempo de projeção pode assustar, mas se justifica plenamente em um filme baseado em pequenas e grandes rupturas de ordem, que surgem, ganham forma e transformam as vidas dos personagens (o pai e a filha de quem ele busca se aproximar das formas mais absurdas) quando o espectador menos espera.

O humor não é encarado apenas como pretexto para armar certas situações, nem mesmo o simples resultado delas: aqui, ele é a coisa mais importante. Difícil imaginar o que Jack Nicholson e companhia farão na versão americana, já confirmada, mas ainda sem previsão de estreia.

 
 
 
 

“Mulheres do Século 20”

Annette Bening, Greta Gerwig e Elle Fanning estão no centro do novo filme de Mike Mills, diretor do sucesso indie “Beginners” (ou “Toda Forma de Amor”). As performances das atrizes ajudam a costurar seus dramas, com frequência vistos através de lentes que variam entre o sonho, as filmagens amadoras, o videoclipe e o comercial de perfume.

Há pontos fortes (a combinação entre a atmosfera construída e o ritmo com que o filme se desenvolve) e outros nem tanto (alguns maneirismos que parecem caricaturas, o apego exagerado a determinadas referências), mas no fim das contas o longa sabe usar toda sua energia para envolver o espectador nesse mosaico de narrativas sobre mulheres de diferentes gerações e perspectivas sobre o mundo.

 
 
 
 
 

“Personal Shopper”

A parceria entre Kristen Stewart e Olivier Assayas ainda é curta, mas já resultou em duas das melhores atuações da carreira da jovem e em uma renovada necessária na obra do diretor. Em “Acima das Nuvens”, ela fazia o papel da assistente pessoal de uma atriz e colocava sua personalidade arredia à turbulência do estrelato a serviço do filme. Em “Personal Shopper”, ela novamente se encontra às margens da fama, agora como Maureen, a encarregada das peças de vestuário de uma modelo. Nesse caso, porém, Stewart é a protagonista e carrega em seus ombros ideias bem mais complexas.

O longa tem o luto como um tema central, e contrasta o universo materialista da moda com as pretensões espirituais da garota, que busca se conectar com o irmão falecido. Assim, ao mesmo tempo em que lida com os aspectos mais triviais de seu cotidiano em Paris, a personagem precisa encarar o desconhecido em suas variadas manifestações. No olhar de Assayas sobre o mundo, o além pode se manifestar até mesmo em mensagens de celular — e o que resulta dessa noção é uma das sequências mais intensas e originais dos últimos anos.

 
 
 
 

“Eu, Daniel Blake”

Desde sua primeira exibição no país, no Festival do Rio do ano passado, o filme tem sido acompanhado por reações positivas e, em muitas ocasiões, gritos de “Fora, Temer” vindos do público. Não é difícil entender o porquê. Trata-se da história de uma vítima do descaso do governo pela classe trabalhadora que, com firmeza, reafirma essa insatisfação diante da realidade (aqui ou no Reino Unido) e reflete muitas das ideias construídas pelo diretor ao longo de sua carreira.

Ken Loach é eficiente ao elaborar o retrato de um sistema que desumaniza e condena à morte os sujeitos menos favorecidos, com seus tons dessaturados e o misto de frieza e distância que assume ao posicionar a câmera. O problema é que tudo parece armado em torno do discurso final, deixando pelo caminho o pedido feito pelo protagonista logo em sua primeira aparição — “Podemos falar do meu coração?”. As boas intenções estão ali, mas a tragédia pessoal acaba sufocada pelo debate de pretensões mais amplas.

 
 
 
 

“John Wick: Um Novo Dia Para Matar”

Continuação de um dos filmes mais interessantes do gênero nos últimos anos, a nova aventura de Keanu Reeves mergulha definitivamente na mitologia dos assassinos de aluguel. Em relação ao primeiro episódio da série, algumas melhorias são aparentes: se não inventa uma sequência tão poderosa quanto a do tiroteio na discoteca, Chad Stahelski demonstra maior equilíbrio entre os momentos de ação e calmaria — ambos fundamentais para o sucesso na empreitada.

Vale registrar, ainda, a curiosidade a respeito do próximo trabalho de David Leitch, seu companheiro de direção no original. Com estreia prevista para o início de agosto, “Atômica” tem Charlize Theron no que parece ser uma missão tão brutal quanto as de John Wick.

 
 
 
 
 
 

“Resident Evil 6: O Capítulo Final”

Milla Jovovich e Paul W.S. Anderson retornam ao mundo pós-apocalíptico depois de experimentarem desafios de toda sorte e formato. Quinze anos após da estreia do primeiro filme nos cinemas, o diretor se mostra mais confortável do que nunca na direção, estruturando os segmentos como fases de um videogame, com personalidades específicas, dinâmicas de ação próprias e um senso de imersão que vai um passo além de quase tudo o que se faz com a tecnologia digital em Hollywood atualmente.

A atriz, por sua vez, trata Alice cada vez mais como um símbolo de resistência, uma parte imprescindível daquele universo. Desta vez, a dupla investe numa lógica mais sombria do que em “Recomeço” e “Retribuição”. Não menos espetacular, o resultado demonstra a capacidade que a franquia tem de fazer experimentações visuais enquanto renova elementos narrativos muito básicos, presentes desde sua origem.

 
 
 
 

“Aliados”

À primeira vista, a fase mais recente da carreira de Robert Zemeckis não desperta tanta atenção. O diretor, que tem seu nome marcado na cultura pop pela franquia “De Volta para o Futuro” e no cinemão americano por filmes como “Forrest Gump”, passou anos se dedicando a animações inovadoras em termos tecnológicos, mas falhas em conquistar segmentos mais amplos do público e da crítica.

Em seguida, realizou “O Voo” e “A Travessia”, recebidos com elogios moderados e poucas vezes dedicados à sua condução das histórias. De modo objetivo, “Aliados” não representa grande inversão nesses rumos. Por trás da fachada de thriller de espionagem, no entanto, existe um filme que se vale das dúvidas espalhadas pela trama para explorar uma estética ambiciosa em que nada é o que parece ser. É o uso do artificial como recurso narrativo, algo que poucos entendem tão bem quanto o cineasta.

 
 
 
 

“Five Came Back”

Apresentado como minissérie em três capítulos pela Netflix, “Five Came Back” é mais um sinal de que, quando se pensa no conteúdo original da plataforma, os documentários se destacam em relação às obras de ficção. A história do envolvimento de um quinteto de grandes diretores de cinema com a guerra assume seu caráter essencialmente informativo, ainda que algumas omissões importantes possam ser sentidas, em especial quando a narrativa esbarra nas contradições políticas e ideológicas de seus personagens.

De todo modo, há espaço de sobra para reflexão sobre o impacto de Hollywood no conflito e vice-versa, bem como as consequências dessa relação para as vidas dos cineastas: Guillermo Del Toro, encarregado de apresentar os trechos sobre Frank Capra, é quem mostra maior desenvoltura para interpretar os acontecimentos. Ele encara as questões mais ásperas das trajetórias em tela com enorme senso crítico e capacidade de análise afiada, mas sem deixar de se entregar por completo quando declara seu amor pelas obras.

Uma dica: a Netflix disponibilizou alguns dos filmes citados na série (confira aqui), muitos deles de difícil acesso com legendas e em boa qualidade de som e imagem. E uma crítica: o catálogo da plataforma segue extremamente carente de títulos da época

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