Christopher Nolan diz que a estratégia de divulgação da Netflix é “insensata”

Já nos cinemas: “Dilemas de um cara oldschool”

por Gessica Borges

Christopher Nolan, diretor dos blockbusters Batman, The Dark Knight e Inception e que lançará sua nova película, Dunkirk,  na semana que vem, fez um discurso anti-Netflix durante uma entrevista ao site Indiewire esta semana.

“A Netflix tem uma bizarra aversão em apoiar filmes feitos para o cinema. (…) Eles têm essa política absurda de que tudo tem que ser simultaneamente transmitido e lançado, o que é obviamente um modelo insustentável para filmes feitos para cinema”.

 

E ainda continuou dizendo:

“Eu acho que o investimento que a Netflix está colocando em cineastas e projetos interessantes [como o recente Okja, por exemplo] seria mais admirável se não estivesse sendo usado como algum tipo de alavanca bizarra contra o encerramento dos cinemas [físicos]. É tão inútil. Eu realmente não entendo.”

O que Nolan quer dizer é que, acostumado ao modelo de distribuição oldschool (onde os cinemas têm pelo menos 90 dias de exclusividade de exibição), ele acredita que o modelo de atuação de Netflix (que geralmente torna todos os seus filmes disponíveis na plataforma no dia de lançamento nos cinema, ou seja, reduz a janela de tempo a zero), além de prejudicar “a magia do cinema”, morde uma fatia de mercado significante, afinal, as pessoas têm trocado a experiência do cinema por maratonas no conforto do sofá.

O CEO da Netflix, Reed Hastings, já se pronunciou sobre o assunto dizendo que não prevê um mundo onde os cinemas não existam, e que acredita que o futuro do filmes tem espaço para muitas estratégias de distribuição diferentes.

#whitepeopleproblem?

Em resposta ao pronunciamento de Nolan de que “A única plataforma em que eu estou interessado [em divulgar meus filmes] é no cinema”, a diretora nomeada ao Oscar pelo documentário A 13ª Emenda (Netflix), Ava DuVernay lançou a máxima:

https://twitter.com/ava/status/887721737898475520

DuVernay: “Mas, e se não houver nenhum cinema em seu bairro?”

Não é interessante que uma diretora negra e reconhecidamente envolvida em lutas antirracistas, como, por exemplo, expor, discutir e reduzir as diferenças sociais entre negros e brancos, tenha tocado em um ponto tão crucial?

É inegável que as pessoas que gostam de filmes também adoram a experiência de ir ao cinema (combinação incrível a de pipoca + telão, não é?), mas o modelo da Netflix dá acesso a filmes a 104 milhões de assinantes ao redor do mundo por uma assinatura mensal que, no Brasil, é bem mais barata que um ingresso de cinema.

A relevância social e cultural de uma inciativa assim não pode ser considerada “inútil”. Então, a declaração de Nolan apenas deixa claro que ele não consegue compreender a importância da Netflix apenas porque é incapaz de enxergar realidades geográficas e financeiras diferentes da sua própria.

Mas, ora, Nolan, fique tranquilo, desde que você continue sendo um dos diretores mais bem criticados das últimas décadas com um salário de 20 milhões de dólares por apenas um filme, tudo ficará bem.

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