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Como a mudança de dublador de Kermit mostra que a Disney não sabe o que fazer com “Os Muppets”

Seriado criado por Jim Henson se mantém em limbo criativo e não possui grandes planos no futuro próximo

por Pedro Strazza

A Disney revelou essa semana ao mundo a nova voz de Kermit, o simpático sapo verde protagonista de “Os Muppets”. Outrora (e na verdade para sempre) conhecido no Brasil como Caco, o Sapo, o personagem criado por Jim Henson apareceu em um vídeo publicado na segunda (28) no canal da franquia no YouTube sob nova dublagem realizada por Matt Vogel como parte do programa “Muppets Thought of the Week”. Com 28 segundos de duração, o vídeo não faz nenhum alarde sobre a novidade, que pode passar despercebida pelo espectador mais desatento graças à proximidade da nova dublagem em relação à anterior – confira abaixo:

Vogel, que já havia dublado uma versão idêntica e criminosa do personagem em “Muppets 2: Procurados e Amados”, assume o personagem na esteira da saída conturbada de Steve Whitmire, que foi demitido pela Disney em meados de julho deste ano sob a alegação de ter realizado uma “conduta profissional inaceitável”. Envolvido com a marca desde 1978 e voz oficial de Kermit após o falecimento de Henson (dublador original do personagem), Whitmire vinha desempenhando a função a pedido da família de Henson há quase 30 anos, mas teve o contrato encerrado pela empresa depois de querer maior participação nas decisões criativas sobre o personagem.

Na época da demissão, o ator afirmou em entrevistas que a razão alegada pela Disney fora a de que ele havia sido “‘desrespeitoso’ ao ser franco sobre questões do personagem com a equipe criativa superior na produção da série da ABC“, que foi lançada em 2015 e cancelada após uma temporada. Fontes do The Hollywood Reporter de dentro do estúdio, porém, rebateram a afirmação dizendo que a comunicação empregada por Whitmire nessas abordagens era “no geral agressiva e improdutiva” e que elas resultavam em negociações responsáveis por atrasar a produção. A declaração de um porta-voz do The Muppets Studio sobre o caso, feita no calor do momento, fez coro a essas réplicas:

Nós levantamos nossas preocupações sobre a repetida conduta profissional inaceitável de Steve ao longo de muitos anos e ele constantemente falhou em responder o feedback. A decisão de tomar caminhos diferentes foi difícil, mas foi feita depois de uma consulta e o apoio da família Henson.

O ocaso da Disney com a franquia

Ainda que a demissão de Whitmire tenha sido feita à partir de motivos válidos, a substituição na dublagem de Kermit não deixa de trazer à tona ao público a posição delicada que a criação de Jim Henson ocupa hoje dentro da Disney. Adquirida pela empresa em 2004, o programa de fantoches arriscou alguns retornos nos últimos treze anos, mas não conseguiu despertar a confiança de seus superiores em nenhuma delas.

O grande culpado disso, na verdade, é a própria Disney, que em seu ecossistema gigantesco de marcas, canais e franquias parece não conseguir encontrar espaço para alocar o show liderado por Kermit, Miss Piggy e Fozzie. Tanto que a primeira tentativa de ressuscitar os personagens com os direitos em suas mãos só aconteceu em 2011 (sete anos depois da aquisição) quando “Os Muppets” foi lançado nos cinemas. O crédito deste retorno, diga-se de passagem, foi todo de Jason Segel (conhecido pelo papel de Marshall de “How I Met Your Mother”) e Nicholas Stoller (roteirista famoso pelos dois “Vizinhos”), que em 2008 propuseram a ideia à companhia.

Depois do bom retorno financeiro (foram arrecadados 165 milhões de dólares ao redor do mundo) e da vitória no Oscar – Bret McKenzie levou o Oscar de Melhor Canção Original por “Man or Muppet”, sendo até hoje a única estatueta que a franquia recebeu em toda a sua História -, o estúdio autorizou a produção da sequência “Procurados e Amados”, que apesar de também ter lucrado não fez o suficiente para manter a série nos cinemas.

O caminho decidido pela Disney, então, foi a televisão: os fantoches de Henson ganharam em 2015 um seriado intitulado “The Muppets”, que copiava o estilo de falso documentário de sitcoms como “The Office” e “Parks and Recreation” para acompanhar os bastidores dos personagens enquanto participavam de programas televisivos. A ideia, porém, naufragou: a série foi cancelada depois de quinze episódios graças aos baixos índices de audiência.

A partir daí, a marca sumiu no mercado. Presente hoje em dia só no YouTube e com um canal que publica vídeos sem programação definida, Kermit e sua trupe permanecem em uma espécie de periferia das propriedades da companhia, longe dos holofotes e do seu público e restritos a atender a nostalgia dos mais velhos em vídeos de formato pílula. Fora disso, a franquia mantém uma ou outra atração nos parques da Disney, lançados mais ou menos na época da compra.

Para o futuro, a Disney pretende lançar em 2018 uma nova versão do “Muppet Babies” – o desenho infantil baseado nos personagens quando bebês, destinado a crianças pequenas -, feito em computação gráfica em episódios de onze minutos para o canal Disney Junior. O anúncio, porém, é o único plano da companhia com os fantoches, que até segunda medida devem se manter no YouTube pelos próximos tempos – talvez no novo canal de streaming do dono?

Não sabemos.

As soluções para evitar o esquecimento são várias (novos filmes, séries, desenhos animados…), mas o cenário mantém-se como está. Vivendo somente do efeito da nostalgia, sob a expectativa de uma nova oportunidade e surgindo na mídia de vez em quando só por causa de conflitos nos bastidores, o momento atual dos Muppets não poderia ser mais lamentável e decrépito.

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