SXSW 2018: Morte e legado na era digital

Rebeca Blum palestrou no evento sobre o que podemos fazer para melhorar a nossa relação com a morte na era das redes sociais

por Juliana Wallauer

Rebeca Blum, estrategista da agência Frog, apresentou uma palestra desconcertante sobre a forma como lidamos com a morte nas principais plataformas sociais.

Usando como ponto de partida o episódio “Be Right Back de “Black Mirror”, Blum falou de situações bizarras que vivemos justamente porque não consideramos no planejamento da nossa vida digital o fato de que inevitavelmente iremos morrer:

  • Ter alguém que já morreu curtindo o seu post.
  • Ser declarado morto pelo Facebook, sendo que você ainda está vivo e muito bem.
  • Receber spam de conteúdo sexual de um amigo morto, que teve o perfil roubado.
  • Encontrar o amor da sua vida através da conexão com uma pessoa que já morreu há mais de um ano.

Considerando que a morte é a única certeza da vida, é uma condição partilhada, por que não pensamos isso nas nossas vidas digitais? Por que não falamos sobre as possibilidades de interações que existem depois que uma pessoa morre? Esse mindset faz com que a forma como tratamos a morte no universo digital seja pouco atenciosa.

É um contrassenso. Porque sempre pensamos sobre a morte.

Múmias, pirâmides, os discos da Voyager, prédios, DNA. Tudo isso são formas de dizer: eu importo, isso é o que sou, o que construí, eu estive aqui.

Todas essas manifestações demonstram nosso desejo de deixar um legado. De tocar alguma coisa, de criar algo com as nossas mãos que perdure. E digitalmente cada vez deixamos mais coisas para trás. Como tratamos esse legado? Como tratamos essa nova parte da nossa identidade?

Blum mostrou a forma como as redes sociais hoje lidam com a morte dos usuários, apresentando um incômodo e uma inabilidade latentes, que deixam um vácuo onde os indivíduos precisam sozinhos descobrir e criar formas de conferir significado e sentido para essas experiências.

Então ela apresentou o conceito de Necrotech, que mostra as formas como a tecnologia influencia a maneira como pensamos sobre a morte. Quando surgiu o telegrama, a tecnologia  permitiu que as pessoas se conectassem e compartilhassem em tempo real o que acontecia. Foi a época em que ganharam proeminência os casos de médiuns, pessoas que alegavam falar com os mortos. Em um universo em que conseguimos nos comunicar tão rápido, em lugares tão distantes, faz total sentido a esperança de que seja possível falar com mortos, com outros mundos.

Quando criamos a fotografia geramos a possibilidade de congelar um momento, e esta nova habilidade reforçou a consciência de que as pessoas que amamos não estarão aqui pra sempre. Que elas vão mudar, envelhecer, morrer. Esse estímulo gerou uma tendência, muito popular nos 17 primeiros anos da fotografia: registrar fotos de pessoas vivas ao lado de pessoas mortas.

Já a corrida espacial despertou nosso interesse por mudanças no tempo. Cogitar a possibilidade de viajarmos no espaço expandiu nossa mente para sonhar com viagens no tempo. Entendendo esse conceito, e aceitando que estamos diante de uma das maiores transformações tecnológicas que já vivemos, como podemos lidar melhor com a morte tendo como panorama a crescente importância da nossa vida digital? Blum apontou 4 sugestões:

Intencionalidade

Na esfera offline nos planejamos para morte, para o luto e para o que existe depois. Criamos rituais e códigos para orientar essa experiência. Pensamos nisso.

Precisamos fazer o mesmo no digital. Nenhuma rede social reconhece o fato de que milhares de seus usuários vão morrer a cada ano e planeja sua experiência de uso respeitando e considerando esse fato. Nenhuma rede reconhece a importância de sermos  donos do nosso legado e oferece um caminho estruturado e claro para gerenciarmos isso – da mesma forma direta em que declaramos ser doador de órgãos nos documentos.

Transições distintas

Criamos no offline uma série de marcações e transição para sinalizar a diferença entre o “mundo dos vivos” e o “mundo dos mortos”.  Isso nos ajuda a não sermos soterrados pela dor e pela angústia. Marcamos, por exemplo, com pomposos portões a mudança de ambiente na entrada de cemitérios, delimitando a transição entre o espaço da alegria e o campo da reflexão. No digital não fazemos isso: o perfil de Facebook de uma pessoa viva é rigorosamente igual a um perfil memorial. É importante criar uma diferença, que ajude nessa transição, pois isto facilita o processamento do luto das pessoas.

Como exemplo ela citou um projeto de criar um holograma de uma sobrevivente do Holocausto  para um museu, possibilitando que as crianças sempre tenham acesso em primeira pessoa à História. Esse projeto respeita a nossa necessidade de transições claras. Ele acontece em um espaço específico e separado da vida cotidiana; não existe a possibilidade do público cruzar com essa memória digitalizada numa rua.

Decadência & cadência

O nosso ritual de luto prevê 8 dias intensos de dor, que são revisitados no aniversário de um ano da morte. Ter um espaço temporal dedicado concentra a dor, o pensamento e o processamento do luto. Como fazer isto se o robô que simula a voz de seu amigo morto continua falando com você? Como crescer no processamento da dor?

A sugestão é criar uma experiência diferente de conteúdo para interagir com perfis de pessoas mortas. Por exemplo, contando com fotos que aparecem por um tempo curto e depois desaparecem por outro tempo longo. No aniversário da morte, eles aparecem de novo.

Tangibilizar o legado

Considerando a importância que damos a deixar um legado, ela sugere que as plataformas organizem formas mais visuais para contar a história da nossa presença digital, mostrando nosso caminho, nossos interesses e nossas experiências.

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