Aretha-Franklin

Aretha Franklin: o empoderamento feminino inspirado pela Rainha do Soul

O legado musical da cantora é gigantesco, mas sua importância para o movimento feminino também continua ecoando

por Soraia Alves

Aretha Franklin nos deixou neste dia 16 de agosto, descansando de suas complicações na saúde derivadas de um câncer descoberto em 2010. E o mundo só pode agradecer pela dádiva de ter ouvido sua voz e ter  um trabalho tão incrível eternizado em mais de 40 álbuns. Mas, principalmente para as mulheres, Aretha foi muito mais que “A Rainha do Soul”.

Negra e filha de um pastor, Aretha foi uma das catalisadoras do movimento de libertação das mulheres, mesmo que a própria sempre tenha minimizado esse papel. Suas músicas fortes e de palavras diretas contribuíram para que milhões de mulheres em todo o mundo despertassem sobre seus direitos, desejos e sobre até onde poderiam chegar.

Ela chegou longe: foi a primeira mulher a figurar no Rock and Roll Hall of Fame, além de acumular 18 Grammys, sendo oito deles consecutivos entre 1968 e 1975.

“Respect”, música lançada em abril de 1967, reforçou o movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos, mas também deu voz a outro movimento: o dos direitos das mulheres. Enquanto a canção fazia de Aretha uma superstar, muitas mulheres entendiam que mereciam o mínimo de respeito de seus parceiros.

Mas a música nem sempre foi assim. Originalmente lançada por  Otis Redding, em 1965, “Respect”, falava de um homem que, ao chegar em sua casa, obrigava a mulher a se submeter a ele, implorando por gratidão e, possivelmente, até por sexo em troca do sustento da família garantido por ele.

Aretha mudou a mensagem da música, que de sexista passou a hino feminista.

As músicas de Aretha Franklin não foram pontuais somente num período de mudanças sociais em seu tempo, elas transcenderam décadas. “Think”, de 1968, por exemplo, fala sobre a liberdade da mulher e funciona como um alerta para o homem no relacionamento, que claramente não tem a tratado bem – “Think about what you’re trying to do to me”.

A mulher que até 2017 era recordista de músicas na parada da Billboard (Nick Minaj ocupa esse posto agora) se tornou símbolo de esperança e, principalmente, de inspiração para tantas outras mulheres. Inspiração essa que não se restringiu às canções. Em 1969, Aretha se divorciou depois de um casamento marcado pela violência doméstica. Seu segundo casamento, com o ator Glynn Turman em 1978, durou seis anos e seus planos de se casar com o parceiro de longa data Willie Wilkerson foram anulados em 2012, quando cancelou o noivado.

Aretha também cantou sobre os desejos femininos, falou abertamente sobre sexo na terceira idade, foi alvo da cobertura maldosa da imprensa, reclamou diversas vezes que a cada material lançado sem sua autorização, sentia que não tinha direitos sobre sua própria arte.

Como escreveu a colunista Rochelle Riley, da Free Press, quando a Aretha anunciou sua aposentadoria, em 2017: “Srta. Franklin, você nunca foi apenas uma cantora. Você, como você provavelmente sabe, tem sido uma arquiteta de emoções, combinando palavras e música para nos guiar, ao redor ou sobre o que estava no caminho“.

Todo esse legado permanecerá. Afinal, se hoje vemos mulheres como Beyoncé com obras tão poderosas como “Lemonade”, é porque um dia Aretha Franklin soletrou R-E-S-P-E-C-T.

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