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“Mesmo no lugar mais improvável é possível encontrar traços da História” diz diretora de filme sobre as pornochanchadas

Entrevistamos Fernanda Pessoa sobre seu documentário “Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava”, projeto que proporciona um novo olhar sobre segmento controverso da produção dos anos 70

por Pedro Strazza

A trajetória das pornochanchadas no Brasil é uma trajetória às avessas literal do anonimato ao estrelato. Imensamente populares nos anos 70 graças ao financiamento da ditadura militar e sua proposta de histórias carregadas no sexo ou (pelo menos) em atos de extrema libido, essas produções foram condenadas a existirem como obras marginais por conta de todo seu teor machista, que objetificava mulheres e estereotipava camadas sociais diversas com a mesma intensidade que filmava os corpos femininos nus.

Mas ao mesmo tempo em que estes filmes eram tão condenáveis por conta de seus valores e propostas, seu valor de produção baixo e liberdade criativa também permitiu que eles servissem como um retrato muito próximo da realidade brasileira dos anos duros do governo ditatorial, algo que o documentário “Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava” revela com o mesmo tom escrachado destas obras. Há duas semanas em cartaz no circuito, o filme dirigido por Fernanda Pessoa é uma grande colagem de 27 destes filmes que circularam nos cinemas brasileiros daqueles anos, no intuito de tanto traçar e evidenciar comparações temáticas entre diferentes pornochanchadas como também de recontar a História do país daquele período segundo os olhos malemolentes do gênero. Do golpe de 64 à anistia geral, passando pelas greves e a possibilidade democrática, está tudo de certa forma registrado nestas histórias regidas pela picardia.

Descobrir estes filmes como tema, porém, foi um caminho tortuoso para a diretora. “Eu trabalhava na filmoteca da FAAP catalogando as fotografias do acervo de cinema brasileiro, e muitas destas fotos eram deste período, dos anos 70″ ela relata em entrevista ao B9, dizendo que o interesse por este segmento da produção do país surgiu fora da sala de aula: “Quando se fala em anos 70 no meio acadêmico é sempre aquele ‘ah, a pornochanchada é ruim’, vê um filme ou outro, um trechinho ou outro pra confirmar que é ruim e acabou, vamos pros anos 80”.

Pessoa também confirma que a parte mais difícil do documentário foi justo a procura das cópias originais dos 27 filmes selecionados por ela para formar o seu projeto, cuja localização e posse se mostrou pulverizada e em diversas condições de estado: “Chegamos num ponto em que os detentores dos direitos queriam muito dinheiro, e aí a gente travava sem ter como conseguir prosseguir” diz a cineasta, lembrando que houveram filmes que sequer foram encontrados e que foram usados com uma qualidade inferir no fim pois esta ação da produção “também era testemunho da preservação da memória do cinema brasileiro e deste cinema em específico”.

Estes e outros temas nortearam a nossa entrevista com a diretora, que você pode conferir na íntegra abaixo. “Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava” segue em cartaz em cinemas selecionados do país.

Cena de “Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava”

Como é que você chegou à pornochanchada e quando aconteceu essa descoberta do gênero como tema?

Eu não cheguei na pornochanchada, a pornochanchada chegou a mim. Eu trabalhava na filmoteca da FAAP catalogando as fotografias do acervo de cinema brasileiro, e muitas destas fotos eram deste período, dos anos 70, porque quem coordena a filmoteca da FAAP é o Maximo Barro, que foi um montador super importante desta época. Eu comecei a conhecer estes filmes a partir destas fotos, fui assistir eles justamente porque eu precisava saber quem eram os técnicos e os atores e aí comecei a conhecer eles, porque durante a minha formação a gente falou muito pouco sobre este período. Quando se fala em anos 70 no meio acadêmico é sempre aquele “ah, a pornochanchada é ruim”, vê um filme ou outro, um trechinho ou outro pra confirmar que é ruim e acabou, vamos pros anos 80 – que também não tem tanta coisas assim né [risos], então vamos pra Retomada. Então eu comecei a conhecer esses filmes mesmo por causa desse trabalho que eu tinha na filmoteca, e lá eu vi justamente o “E agora, José?”, que é o filme que tem as cenas de tortura e que foi o filme que me despertou alguma contradição, que me falou uma coisa. E aí eu fiquei com esse filme na cabeça um tempo, eu não sabia bem o que queria fazer com aquilo até que eu fiz o meu mestrado na França em 2012, fiz uma aula sobre reutilização de imagens no cinema experimental e ali eu percebi que poderia usar esses filmes pra fazer alguma coisa. Um desses filmes que eu assisti na matéria tem uma frase que virou o meu mote dos cinco anos seguintes que era “Mesmo no lugar mais improvável é possível encontrar traços da História recente”, então eu comecei a rever aqueles filmes que eu já tinha visto procurando estes traços de História, com este olhar histórico. Foi assim que começou o projeto.

Como foi o processo de procura e aquisição dos direitos destes filmes? Dado o teor tão marginalizado destas produções, imagino que tenha sido uma procura difícil.

Conseguir os direitos foi a parte mais difícil. A gente primeiro fez um corte com cópias ruins dos filmes pra gente realmente entender quais filmes a gente queria usar, então a gente pegou cópias achadas no YouTube, torrent, enfim, todos os lugares possíveis. Fechamos trinta filmes que queríamos usar e aí fomos atrás dos direitos. Durante um tempo isso aconteceu de uma forma muito informal quase, a gente não tinha dinheiro para fazer o filme, a gente tentava negociar os direitos de graça ou por um valor baixo e dava certo. Só que chegamos num ponto em que os detentores dos direitos queriam muito dinheiro, e aí a gente travava sem ter como conseguir prosseguir; outros cediam os direitos, mas não sabiam onde estava a cópia, e aí a gente tinha que achar por nós mesmos, procurava em todos os lugares possíveis, como na Cinemateca Nacional, na Cinemateca do Rio, pesquisadores privados com coleções particulares, todos os lugares. Alguns a gente achou, alguns filmes a gente não achou e decidiu usar as cópias ruins de qualquer jeito pois viu que fazia parte do processo e também era testemunho da preservação da memória do cinema brasileiro e deste cinema em específico. E aí este processo demorou muito, porque demorou mais de um ano, a gente ficou uns dois anos realmente pesquisando, procurando os detentores dos direitos, negociando os direitos e procurando as cópias.

Uma das coisas que eu acho mais curiosas do “Histórias que Nosso Cinema (não) Contava” é que você usa estes filmes tanto para recontar a História do nosso país pelos olhos da pornochanchada como para abordar aquele gênero e observar todas as suas nuances. Como foi balancear isso na montagem?

A forma como eu e o Luiz Cruz [montador do longa] trabalhamos a montagem do filme foi que, depois que eu já tinha visto uns 150 filmes e fichado eles, procurando estes traços históricos, eu selecionei os 20 que eu achava mais significativos e aí a gente sentou na sala de edição e começou a cortar estes trechos que eu havia selecionado para dividi-los em eixos temáticos. A gente tinha dez timelines com todos os eixos temáticos que existem no filme hoje, então a gente tinha milagre econômico, representação da mulher, repressão e tortura, industrialização e êxodo rural, enfim, todos esses temas. Cada tema a gente colocou uma cor, então a gente conseguia ter uma noção mais do que saber da onde vinha aquele trecho, a gente sabia qual era o tema daquele trecho quando a gente jogava ele na timeline principal. Então a gente conseguiu ver muito a evolução do projeto, vendo o que conversava com o quê, onde a gente fazia as transições e etc. Depois de fazer um corte preliminar com esses 20 a gente puxou mais dez porque vimos que faltava algumas coisas, alguns temas precisavam de mais material; fechamos com 30 filmes, três não rolaram e ficamos com 27. Aí nós resolvemos construir uma ordem mais ou menos cronológica – não era exatamente cronológica porque haviam muitas coisas que eram simultâneas – mas a gente começa com o golpe de 64 e vai acabar no fim dos anos 70 com a perspectiva de uma abertura democrática, a anistia, as greves, e fomos passando por esses eixos temáticos pra fazer essas transições de forma natural, tentando fazer com que os próprios filmes realizassem eles mesmos estas mudanças entre os eixos temáticos.

Fernanda Pessoa no debate do filme na Mostra de Cinema de Tiradentes

Dentro destes temas que você mencionou, uma das partes que acho mais interessantes é a que fala sobre a mulher e a exploração do corpo feminino nestas produções, pois você não o aborda de uma forma 100% condenatória mas sim busca ver todos os lados da questão, encontrando vantagens e desvantagens nesta objetificação. Você pode comentar um pouco mais sobre isso?

Eu acho que a representação feminina é um grande tema do filme porque ele perpassa o filme inteiro, ele está ali o tempo todo. E em um primeiro momento a gente tem isso do corpo feminino sendo utilizado enquanto metáfora deste projeto econômico de Brasil, então ele é sempre o objeto de troca, a mulher tem o sexo e o homem tem o poder ou o dinheiro para dar em troca, e eles mostram essa transação como se fosse algo muito legal, eles estimulam de certa forma essa transação. Ao mesmo tempo, um outro aspecto dessa relação também é o corpo feminino sendo usado enquanto metáfora e analogia do projeto de Brasil, então tem vários momentos em que se faz uma analogia do corpo ou de parte do corpo feminino com a ponte Rio-Niterói ou a Transamazônica.

É um olhar crítico, num certo sentido, mas tentando entender também, porque isso é algo que ultrapassa as representações das pornochanchadas, isso está em outros produtos culturais, isso é algo recorrente de vários outros filmes da época. O mais óbvio que a gente pode pensar é o “Iracema – Uma Transa Amazônica”, em que a Iracema é a representação da Transamazônica, ela acaba ali desdentada e aquilo é uma metáfora para o projeto da rodovia que deu errado, o projeto de Brasil grande que deu errado. Eu adoro o “Iracema”, acho um filme excepcional e ótimo, mas ele tem também essa questão, então isso é uma coisa que é uma representação da cultura brasileira mesmo, não é uma coisa exclusiva desses filmes. Eu acho que é óbvio que estes filmes são machistas, no entanto eu quero pensar em como este machismo aparece, como é a construção simbólica deste machismo. E apesar de grande parte destes filmes serem machistas e terem essa visão, de repente tem personagens femininas superfortes trazendo questões super atuais também, então a gente tem a mulher que quer abortar, em 1975 ela já está querendo falar de aborto; a gente tem prostitutas que fazem greve, tem consciência de classe e falam da regulação do seu trabalho; a gente tem uma atriz de pornochanchada que tem autoconsciência do seu lugar na sociedade de que ela é um objeto e de que ela seria objetificada mesmo se ela não fosse atriz de pornochanchada; então tem essas personagens femininas muito fortes e que tem uma consciência muito grande, e eu acho que o filme tenta mostrar isso. Tem o machismo que se dá dessa forma e tem essas personagens femininas que também aparecem aí.

Você já falou em outras entrevistas que viu mais de 130 filmes do gênero durante a pesquisa para o filme. Dado que a pornochanchada ainda é vista com muito preconceito na História do Brasil, que filmes você acredita que podem começar a mudar esta perspectiva do público e proporcionar o debate?

Dos filmes que eu uso, eu acho que tem o “Aventuras Amorosas de um Padeiro”, que é o filme que tem justamente essa mulher que quer abortar e que além disso traz a questão do racismo muito forte. É um filme de 1975, é um dos primeiros longa-metragens brasileiros dirigidos por um negro, que no caso é o Waldir Onofre, que é também ator do filme; é o único longa-metragem que ele dirigiu e é um filme que é isso, ele toca em questões como o aborto e o racismo de forma muito atual e além disso é muito bom, ele é super brasileiro, anárquico e bem de comédia mesmo. “O Bom Marido” do Antônio Calmon eu também acho que é um filme bem interessante, é um filme que tem uma crítica social muito forte, é com a Maria Lúcia Dahl e o Paulo César Pereio. Acho que o “Noite em Chamas” do Jean Garrett é um filme interessante de ver pra falar da produção de São Paulo, ele é um filme que vai mostrar um hotel no centro de São Paulo, na República, e as várias coisas que acontecem dentro dele, é um filme que vai ter a Maria Lúcia Dahl como atriz de pornochanchada com muita consciência do seu lugar e que também vai mostrar muito da luta de classes ali; um dos trabalhadores, que perde um amigo ali em um acidente de trabalho, perde um dedo, é demitido, sai totalmente revoltado e vai levar a sua raiva às últimas consequências ao decidir explodir o hotel, então é uma metáfora muito grande sobre a luta de classes no Brasil…

Ainda mais por conta da questão do dedo. [risos]

[risos] Exatamente! O final do filme é esse ponto do surgimento da figura do Lula com as greves.

Embora a pornochanchada tenha deixado de existir efetivamente com o fim da ditadura militar, essa terminologia da “chanchada” ainda existe e é utilizada para definir gêneros do cinema brasileiro, como as comédias da Globo que viraram as globochanchadas. Você acredita que isso é só uma questão de termo mesmo ou tem uma hereditariedade artística envolvida?

Eu acho que tem algumas coisas em comum, geralmente os filmes de chanchada são produções que tem uma pretensão de ter um público grande, de serem populares, e são geralmente filmes de grandes bilheterias. Acho que o termo é apropriado quando estamos falando de comédias ou comédias musicais, mas às vezes ele é usado para muitas outras coisas, a pornochanchada foi usada para englobar um monte de gênero que nem engloba a comédia. Mas há uma certa linha ali, eu vejo uma certa semelhança das globochanchadas com a primeira fase da pornochanchada, que são os filmes que foram produzidos entre 1969 e 1973 e que são filmes mais inocentes, não tem tanta simulação de sexo, são mais de comédia mesmo e que até as famílias iam ver na época. Porque as globochanchadas são isso né, apesar de terem uns títulos meio esdrúxulos eles são filmes que adolescentes podem ver, as famílias vão ver… sinto que são filmes que reiteram muito os papéis de gênero, tipo “Se Eu Fosse Você” ou “E Aí, Comeu?”, em que o homem é bem homem, a mulher é bem feminina, estes tipos de filme reiteram o papel do homem e da mulher na sociedade de uma mesma forma que as pornochanchadas do início faziam. Mas eu também sinto que há uma inventividade dos filmes da pornochanchada, principalmente do cinema da Boca do Lixo, que eu acho que influenciam outros filmes, as globochanchadas elas são mais engessadas. Acho que as globochanchadas pegaram o que tem de ruim da pornochanchada.

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