“O Primeiro Homem” rejeita a mitificação e explora a fragilidade de Neil Armstrong

Novo filme de Damien Chazelle opta por trama menos focada no contexto sociopolítico da corrida espacial e mais na percepção de mundo do protagonista

por Matheus Fiore

Na abertura de “O Primeiro Homem”, novo filme de Damien Chazelle, vemos Neil Armstrong (Ryan Gosling) participando de um teste para um programa espacial; Neil está dentro de uma aeronave que tenta chegar à estratosfera. Com uma construção visual claustrofóbica, a obra tem, nessa cena, uma alternância entre planos detalhe e close-ups que colam a lente da câmera no rosto de Neil e nas partes da aeronave. O espectador sente-se sufocado, pressionado, assim como o protagonista. Ao fim da cena, Neil tem alguns diálogos, volta para casa e segue sua rotina familiar, e é aí que Chazelle surpreende o público: o mesmo estilo de filmagem claustrofóbico mantém-se por praticamente toda a narrativa. Notamos logo, portanto, que não se trata simplesmente de um filme sobre um herói destinado à história, mas de um estudo sobre um homem comum, cheio de traumas e angústias.

O recorte da trama é feito dentro de um período de oito anos da vida de Neil, que abrange do falecimento de sua filha de três anos, Karen, ao momento em que Armstrong entra para a história da humanidade como o primeiro homem a pisar na Lua. Chazelle, então, faz um estudo de personagem focado exclusivamente na trajetória de Armstrong na NASA e em como a viagem à Lua foi importante na vida do americano.

Damien Chazelle (à esquerda) e Ryan Gosling no set

Fazer um filme que esculpe o heroísmo de uma figura como Armstrong seria a escolha mais óbvia, já que Hollywood sempre adorou enaltecer as grandes figuras americanas. Na atual década, por exemplo, o mestre Clint Eastwood criou sua própria trilogia sobre heróis estadunidenses com “Sniper Americano”, “Sully – O Herói do Rio Hudson” e “15h17: Trem Para Paris”. Chazelle, portanto, é corajoso em nos apresentar um Neil Armstrong de poucas expressões e sem nenhuma pretensão heróica. Na verdade, o caminho seguido é o contrário: Neil vê sua viagem à Lua como uma jornada particular, um caminho para auto-reflexão.

A escolha de Chazelle mostra-se tão arriscada quanto ousada. Afinal, Neil era um sujeito muito quieto, introspectivo, e isso reflete diretamente na atuação de Ryan Gosling, que compõe um personagem sério, muitas vezes de difícil leitura. Em boa parte dos momentos dramáticos, o Neil de Ryan se expressa não por palavras ou olhares, mas pela gesticulação com as mãos, evidenciando o fato de que o personagem, mesmo que pouco expressivo, muito sente. Em contraponto à silenciosa atuação de Gosling, temos um ótimo trabalho de fotografia de Linus Sandgren, que cria inúmeros espaços dominados pelas sombras e compõe planos que trazem o próprio protagonista cercado pela escuridão. Se os sentimentos de Neil Armstrong não são verbalizados pelo próprio, é essencial que a técnica cinematográfica ocupe essa lacuna dramática.

Não se trata de um filme sobre um herói destinado à história, mas de um estudo sobre um homem comum

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Elogiável também é a forma como a câmera do filme é utilizada quando Chazelle nos mostra o muro que separa Neil do mundo. A câmera se aproxima de Amstrong, tenta adentrar sua privacidade, mas acaba sempre se afastando do rosto do personagem, como se houvesse um magnetismo que nos impede de realmente penetrar a psique do protagonista. É interessante perceber, portanto, que essa escolha por manter Armstrong como uma figura impenetrável impede que haja diálogos catárticos.

Esse afastamento, logicamente, não se restringe ao espectador. A dor pela perda da filha mudou a forma de Neil perceber o mundo, o que cria um distanciamento entre o personagem e sua família. É estranho notar, por exemplo, que praticamente não há cenas de Neil com seus filhos – a não ser os curtos momentos que precedem uma ligação ou chamado do trabalho que prontamente o tira do conforto de seu lar. Não é coincidência, portanto, que, em um dos momentos de maior dor do protagonista, ele resolva isolar-se em seu quintal e admirar a Lua. É como se o personagem fantasiasse com sua chegada ao satélite e projetasse nele a chance de um recomeço.

O protagonista fantasia sua chegada à Lua e projeta na missão a chance de um recomeço.

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Todo o teor político da corrida espacial é minimizado pelo roteiro de “O Primeiro Homem”. Chazelle e seu roteirista, Josh Singer. A escolha é por manter a trama mais íntima de seu protagonista, abrindo mão de analisar o contexto sociopolítico dos Estados Unidos nos anos 60 – e essa opção é interessante, já que impacta diretamente em tudo que é mostrado ou omitido durante a projeção. Notamos, por exemplo, que o fincar da bandeira americana na superfície lunar é omitido, dando lugar a um momento de realização pessoal da figura de Neil. A passagem se torna um exemplo perfeito para entendermos a relação de escolhas e renúncias resultantes do recorte de “O Primeiro Homem”.

“O Primeiro Homem” é um filme que faz escolhas que não agradarão a todos. Por ser sempre fiel às suas escolhas, a obra acaba por privar o público não só de momentos catárticos, mas também de uma construção visual mais variada – o excesso de planos fechados certamente deixará muitos visualmente cansados –, e também de ver algumas passagens importantes da corrida espacial. Pode-se desgostar, mas é inegável que contar a história de um personagem histórico de forma tão intimista e renegando o apelo fácil é algo corajoso. Chazelle faz de “O Primeiro Homem” não um filme sobre um astronauta que entrou para a história, mas sobre Neil, um indivíduo machucado, que vê em seu encontro com a Lua uma forma de recomeçar e voltar para casa sendo capaz de ter em mente a única coisa que realmente importa: sua família.

média do cinemático

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