“Operação Overlord” usa violência e (muito) sangue para buscar humanidade no combate ao mal

Produção atípica do cenário atual, longa produzido pela Bad Robot de J.J. Abrams aposta acima de tudo na combinação das estruturas dos gêneros do horror e do filme de guerra

por Pedro Strazza

Embora a proposta de “Operação Overlord” a princípio não ofereça nada de novo em termos de criatividade, mantendo-se do início como um filme de horror ambientado na Segunda Guerra Mundial, sua posição dentro do atual cenário hollywoodiano sugere o exato oposto do conformismo. Em uma época onde o sistema de estúdios da indústria se concentra cada vez mais no conceito de propriedades intelectuais para se manter hegemônica no circuito de salas, o longa produzido pela Bad Robot de J.J. Abrams surge como uma anomalia cujo perfil parece ser em si a mais pura contestação aos moldes do mercado, sejam estes os velhos (não há nenhuma grande estrela capitaneando o elenco) ou os mais novos – já que ele não se liga a nenhuma marca ou franquia, estando apadrinhada apenas pelo nome da produtora e seu fundador.

É claro que este ar de contestação está longe de ser verdadeiro ou mesmo percebido pela própria produção – tanto que o projeto originalmente tinha sido comprado pela Bad Robot junto de “Paradox” para se transformar em mais um capítulo da série “Cloverfield” – mas não deixa de ser curioso observar como ele se comporta à partir de uma condição tão excêntrica, ainda mais quando todos os seus pontos característicos parecem impregnados de um cheiro de naftalina um tanto evidente. O filme de Julius Avery, afinal, não deixa de ser pautado por mecânicas do passado mesmo em sua sua ideia principal de dar contorno mais violentos a um processo histórico amplamente conhecido, explícito nas tripas e sangue expelidos enquanto acompanha uma tropa de soldados que desembarcam na Alemanha no Dia D apenas para descobrirem uma conspiração digna da ficção-científica mais B possível depois da chegada nada suave ao território inimigo.

Julius Avery (à direita) orienta Jovan Adepo no set

Se a premissa soa em um primeiro instante como o típico produto de uma mente juvenil, é porque ela o é, e com força. Tanto a direção de Avery como o roteiro de Billy Ray e Mark L. Smith não economizam na maior liberdade criativa em termos de censura, desde os momentos iniciais empregando um arsenal de escatologia à disposição para materializar o horror combinado do conflito com o gênero. A abertura de “Overlord”, inclusive, parece feita para provar ao espectador o comprometimento do longa com este cinema pipoca mais feroz, retratando o desembarque da tropa na Alemanha e introduzindo o grupo formado por Boyce (Jovan Adepo), Ford (Wyatt Russell), Tibbet (John Magaro), Chase (Iain De Caestecker), Dawson (Jacob Anderson) e Rosenfeld (Dominic Applewhite) com toda a violência e o gore que lhe é dado direito.

Mas enquanto esta aproximação com o grotesco no começo dá todos os sinais de um filme que vai ser pautado apenas pelo frenesi proveniente desta infantilidade em se aproximar pela primeira vez de tal elemento – a imagem inicial do soldado vomitando no avião antes de ser fuzilado pelo inimigo parece apontar para esta direção, pelo menos – aos poucos a direção de Avery se desloca na via contrária, tecendo muitas vezes estas relações de violência com menos furor que o esperado para um projeto de horror benzido em tais entranhas. O momento crucial que revela este procedimento mais atento acontece quando o general nazista de Pilou Asbæk é preso pelo grupo e há de ser torturado afim de fornecer informações: ao invés de registrar todo o horror do ato bárbaro cometido pelos soldados, a câmera prefere acompanhar o protagonista vivido por Adepo para fora do recinto e registrar uma conversa com a jovem francesa interpretada por Mathilde Ollivier.

A direção de Julius Avery muitas vezes tece estas relações de violência com menos furor que o esperado

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Não que isto signifique que “Operação Overlord” há de ser comedido na execução do gênero no qual se localiza, é claro: sobram cenas de horror que se divertem com o gore, incluindo cabeças humanas descoladas do corpo, tubos gigantes enfiados na barriga de militares e a imagem do rosto grotesco do qual a divulgação tornou elemento chave para a promoção do projeto. Ao mesmo tempo, porém, este elemento da violência serve a Avery como uma linha guia para explorar as relações entre os personagens da história, em especial Boyce e Ford que de certa forma personificam respectivamente a aversão e atração humana a esta conduta agressiva – e dentro desta equação quem se sai melhor é o ator Wyatt Russell, cuja performance carrega para dentro do papel de comandante agressivo uma atuação caricata com bons pontos de vazão e lembra muito a performance do pai Kurt Russell na juventude.

A postura destes dois personagens é construída desta forma pelo diretor não apenas para organizar a narrativa como também para refletir modelos de comportamento frente ao enfrentamento de um mal maior, aqui naturalmente abarcado pelo nazismo que aí sim é uma imagem retratada na produção com todo o tom de grotesco e nefasto possível. Dentro das estruturas de horror “gore polido” do filme, Avery usa muitas vezes dos confrontos entre as posições pacifista e agressiva de Boyce e Ford para revelar pequenas hipocrisias dos dois discursos perante o combate ao símbolo máximo do maléfico no cinema estadunidense, seja na aparente fragilidade do primeiro ao querer evitar o conflito ou na tendência do segundo em se igualar ao inimigo ao adotar as mesmas atitudes violentas. É a busca pelo resguardo da humanidade em momentos de crise que aos poucos se revela a bússola moral da obra, que não economiza em materializações de metáforas para respingar este processo no espectador – incluindo aí o discurso de “propósitos” e a fórmula para produzir monstros criada pelos nazistas na história, que fornecem a seu jeito o sangrento e explosivo clímax final.

Os confrontos entre Boyce e Ford revelam as hipocrisias dos 2 discursos no combate ao símbolo máximo do maléfico

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E embora existam diversas limitações no manejo de Avery que restrinjam o filme de alcançar o máximo de seu potencial – mesmo distante do pastiche pop e do saudosismo que em tempos recentes viraram regra em Hollywood, falta ao diretor algum desprendimento na hora de embarcar nos “velhos moldes” do cinema de guerra e do próprio terror para escapar do genérico – esta toada humanitária é o principal responsável por fortalecer o produto de gênero buscado pelos realizadores, que não escondem o gosto em executar esta violência cartunesca e juvenil. O horror B ambientado na Segunda Guerra Mundial, afinal, não deixa de ser o grande mote de existência da produção, como bem lembra toda a centralidade do laboratório nazista na trama e o grande duelo de monstros que fundamenta o clímax final.

No mais, “Operação Overlord” é também um filme que se beneficia deste melhor direcionamento para fazer o gore dado o contexto de sua época de realização, onde a composição virulenta do nazismo é relativizada no campo político e esta ideologia periga retornar. Mesmo nos mecanismos da fantasia, existe certo prazer na experiência de se assistir alguém refazendo o lembrete do antagonismo essencial desta figura e (principalmente) o ato simbólico de bloquear o avanço desta imagem na base da porrada.

nota do crítico

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