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"Não devemos esperar o posicionamento político de celebridades" afirmam diretores de "Diamantino"

“Não devemos esperar o posicionamento político de celebridades” afirmam diretores de “Diamantino”

Entrevistamos Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt sobre o filme-sensação que levou o principal prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes deste ano mostrando cachorrinhos gigantes

por Matheus Fiore

É com a imagem de uma galáxia que começa “Diamantino”, o filme português dirigido pela dupla Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Aos poucos a câmera se aproxima e compreendemos que estamos diante de um mundo paralelo ao nosso. Um mundo um tanto quanto distópico que caricatura algumas características da nossa sociedade. No centro de tudo, está uma das maiores paixões mundiais: o futebol. Nas palavras dos próprios diretores, que tivemos a oportunidade de entrevistar durante o Festival do Rio, a escolha foi feita pelo fato de o futebol ser tratado quase como uma religião, uma seita – além de também uma forma de arte.

Mas o objetivo de “Diamantino” nem de longe é falar sobre futebol. Quando perguntados sobre isso, Abrantes e Schmidt afirmam que sua intenção passou longe de homenagear ou criticar o esporte. Sua ideia, na verdade, foi partir de uma figura importante do futebol para criar um conto de fadas que mescla diversas questões políticas contemporâneas.

No centro de “Diamantino” está o protagonista que dá nome à obra – interpretado pelo talentoso Carloto Cotta e fazendo óbvia referência ao craque Cristiano Ronaldo. O jogador português é o melhor em sua profissão e é tratado pela imprensa e pelos fãs como uma verdadeira divindade. “Diamantino”, então, pega uma figura que atingiu seu auge profissional, o coloca em uma “tragédia” (Tino perde um pênalti na final da Copa do Mundo que lhe custa o título e o leva a se aposentar). A partir de então, a obra acompanha a jornada de Tino, que adota um refugiado sírio (que na verdade é uma espiã do sexo feminino) e vê na paternidade a chance de um novo começo.

Abrantes e Schmidt afirmam que, apesar de o filme girar em torno de Tino, de muitas formas, o protagonismo na verdade é de Aisha (a espiã). A obra, portanto, parte do ponto de vista distorcido de Tino para justificar o mundo bizarro construído pelos diretores. A escolha se mostra acertada e coerente, já que toda a narrativa possui o excêntrico como ponto de partida – ao ponto de Tino materializar seus pensamentos, como cães gigantes que invadem o campo de futebol.

A dupla afirma ainda ter esculpido seu personagem principal com muito carinho, algo que notamos com facilidade ao perceber como o roteiro o expõe como alguém estúpido, mas não maldoso. Os deslizes de Diamantino ocorrem por limitação intelectual, ignorância política ou por estar constantemente em uma bolha social. “Pensamos em criar um personagem totalmente privilegiado e hedonístico”, diz Abrantes e Schmidt na entrevista.

Quando perguntados sobre Tino ser uma representação do sucesso Para os diretores, o intuito era criar um conto de fadas que analisasse a tragédia e a solidão de seu protagonista. “Nós quisemos criar um filme belo e bastante humano, falando sobre a tragédia e a solidão de ser uma celebridade. Nós fizemos muitas alterações no roteiro: originalmente, o personagem central não seria um jogador de futebol, mas ao pensar em um ícone muito solitário e que visse na adoção uma forma de ter mais contato com pessoas, percebemos a necessidade de encontrar uma figura que representasse bastante sua época” declara Abrantes. “Estamos em uma cultura em que figuras como Kim Kardashian e Kanye West visitam a Casa Branca. Hoje, as pessoas não se confessam para um padre, mas para o Twitter complementa Abrantes, ao comentar sobre como seu filme brinca com as bizarras relações interpessoais retratadas.

No filme, Tino é uma figura extremamente controversa. Enquanto adota um suposto refugiado sírio, o astro esportivo estrela comerciais de televisão que falam sobre isolar Portugal criando um muro (uma clara referência aos discursos de campanha de Donald Trump), uma medida que obviamente prejudicaria pessoas como o jovem adotado por Tino. Sobre isso, perguntamos aos diretores se o objetivo era falar sobre como figuras como Cristiano Ronaldo não compreendem o contexto em que vivem, e Schmidt respondeu: “Parece que, hoje, todos esperam que pessoas com destaque na mídia tomem posições sobre questões importantes, e, apesar de não discordar totalmente disso – eu discordo apenas da simplificação do tema. Se perguntarmos a figuras como Cristiano Ronaldo sobre assuntos como a questão dos refugiados, é possível que, sim, ele tenha uma opinião formada, mas isso não significa que devemos esperar isso dele. Sinto que há alguma saturação em cima desse assunto, como se pessoas como Ariana Grande tivessem que manifestar-se politicamente. Isso não nos foi útil no passado, e não seria útil agora.”.

Ainda sobre a questão, Abrantes puxou novamente o exemplo de Cristiano Ronaldo para falar como o craque age nas redes sociais. “Cristiano é patrocinado pela Herbalife, postando imagens com os produtos da empresa e dizendo coisas como ‘olhe! Herbalife é ótimo!’, mas a empresa tem uma estrutura de negócios vampiresca que é extremamente prejudicial para pessoas pobres por seu sistema de contratação. E provavelmente Cristiano não sabe disso! Ao mesmo tempo, temos figuras como Taylor Swift que até hoje nunca haviam se manifestado politicamente e que nas últimas eleições [a entrevista ocorreu na semana das eleições americanas de 2018] postou no Twitter incentivando seus seguidores a irem votar, e isso resultou no maior pico de votações na história de seu distrito”.

“Se a pessoa não for um político ou um filósofo, não devemos esperar por seus posicionamentos em assuntos do tipo. O resultado pode ser tanto algo negativo, como eu acredito que seja no caso de Cristiano e a Herbalife, quanto positivo, como no caso de Taylor Swift fazendo as pessoas irem votar. É complicado.” completa Abrantes. É nítida a visão dos diretores, que não acham necessariamente “errado” figuras midiáticas se manifestarem em assuntos externos às suas áreas de atuação, mas que acreditam que o público não deveria nortear suas opiniões baseado em seus ídolos.

Distribuído pela Vitrine Filmes, “Diamantino” ainda não tem data de estreia no Brasil.

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