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“A tecnologia mudou a forma como nós nos definimos” afirma Olivier Assayas

Diretor francês esteve no Festival do Rio para divulgar o filme "Vidas Duplas" e falou mais sobre a relação entre tecnologia e literatura que é tema de seu novo trabalho

por Matheus Fiore

Olivier Assayas demonstra seu fascínio pela tecnologia, seus avanços e por como a sociedade se relaciona com ela há muito tempo. No filme “Espionagem na Rede”, de 2002, o diretor francês mistura uma trama de espionagem com uma análise da evolução tecnológica e sua influência na produção artística – no filme, um estúdio especializado em animações pornográficas prepara-se para dar um salto e produzir animações pornográficas em 3D. Para pegar um exemplo mais recente, no elogiado “Personal Shopper”, protagonizado por Kristen Stewart (a da saga “Crepúsculo”), Assayas brinca com o suspense para versar sobre a alienação causada pela dependência tecnológica.

Em seu novo filme, “Vidas Duplas”, Assayas volta a falar sobre tema, mas desta vez a tecnologia não é o foco. Como o próprio diretor disse em entrevista concedida durante o Festival do Rio, o cineasta quis criar um filme sobre transformação. A tecnologia, inevitavelmente, tem um papel crucial na trama, mas os diálogos do bem humorado longa-metragem expõem que a transformação se manifesta de diversas formas ao longo da narrativa:

“Eu gosto de falar sobre como a tecnologia influencia no nosso mundo. Acredito que a revolução digital nos transformou como indivíduos. É um processo igualmente fascinante e perturbador se pensarmos que, nos últimos vinte anos, esse mundo digital mudou até nosso meio ambiente e nós. Mudou a forma como dirigimos, como pensamos, como interagimos com outras pessoas. Quando fazemos um filme sobre a nossa sociedade, falar sobre a tecnologia não é bem uma escolha, pois é um assunto que vem diretamente a você”

A afirmação, dada por Assayas na entrevista quando perguntado por um jornalista sobre a tecnologia em sua filmografia, deixa claro como o cineasta vê o mundo. A transformação tecnológica é algo que impactou diretamente na sociedade contemporânea. É, na visão de Assayas, algo tão enraizado que não precisa ser o tema principal de seus filmes, apenas o pano de fundo ou um gatilho narrativo para comentar sobre a sociedade.

Em “Vidas Duplas”, Assayas usou a tecnologia para, entre outras coisas, falar sobre as transformações na forma de produzir e consumir arte. Na trama, o protagonista é Alain, um editor literário que enfrenta, além de crises pessoais que incluem seus relacionamentos e o próprio envelhecimento, uma não aceitação das novas formas de vender literatura. Alain não é muito fã de e-books e demais formatos digitais, mas estes parecem ser o futuro da indústria na qual trabalha.

“Eu acredito que, mesmo que a trama de Alain seja atrelada ao mundo das editoriais literárias, qualquer um que assistir ao filme poderá se identificar, independente de seu trabalho”, comentou Assayas, em uma afirmação que evidencia sua visão de que a tecnologia está transformando todo o mercado de trabalho. “Os valores, as qualificações… A tecnologia mudou tudo” continua.

Em certo momento de “Vidas Duplas”, o filme “Luz de Inverno”, de Ingmar Bergman, é citado. Na obra, o pastor Tomas Ericsen (interpretado pelo talentoso e igualmente versátil Gunnar Björnstrand) se vê encurralado ao concluir, após uma longa reflexão, que Deus não existe. Pelo fato de ter vivido toda uma vida dedicada e construída ao redor da ideia de Deus e da religião, Tomas entra em um processo de negação, algo que parece também acontecer com Alain em “Vidas Duplas”. Tivemos a oportunidade de perguntar a Assayas se ele crê que ambos os personagens estão em situações parecidas.

“O mundo inteiro está mudando e você precisa se agarrar ao que você acredita, mesmo que todo o mundo contradiga suas crenças. Você precisa viver baseado em suas convicções. De certa forma, ele [Alain] está certo. As mudanças do mundo podem ser estranhas. Por um longo tempo, no meio das editoras literárias, pensou-se que o futuro eram os e-books e que o futuro era exclusivamente digital. Gradualmente, como o filme diz, [os profissionais do meio] perceberam que e-books não vendem tão bem e que ainda há um mercado muito grande de livros em mídia física. As pessoas continuam comprando e consumindo. Então, de certo modo, Alain estava certo, por continuar pregando para uma igreja vazia.”

Outro aspecto muito presente no filme é a poligamia. Todos os personagens que estão em um relacionamento possuem casos extra-conjugais. Perguntamos, então, como Assayas vê esse rompimento com o modelo de sociedade monogâmico em alinhamento com a narrativa de mudanças que construiu em “Vidas Duplas”. Estaria o diretor dizendo que essas transformações da sociedade implicam na mudança do sistema monogâmico de sociedade?

“O assunto se apresenta naturalmente. Foi acontecendo no processo de escrita, não houve planejamento. Honestamente, penso que vivemos em um mundo em que o compasso moral mudou de diversas maneiras. E mudou de um jeito muito rápido. Essa transformação tem a ver com questionamentos como “quem é o sujeito moderno é?”. Esse indivíduo, para o bem e para o mal, é definido por sua existência digital. As redes sociais mexeram muito na forma como as pessoas funcionam, incluindo os relacionamentos. Algumas mudanças são boas, outras não tão boas. Mas não temos muito o que fazer a não a ser aceitar tudo isso.”

É interessante observar que, mesmo que tenha uma visão madura e bem definida sobre o assunto, Assayas construa personagens caracterizados por suas dúvidas e dilemas, sem muitas respostas. Seu interesse parece ser não por apontar dedos ou sugerir soluções, e sim por retratar as peculiaridades da sociedade contemporânea e observar como elas se relacionam com a existência do “indivíduo digital”. Como bom artista, Assayas documenta seu tempo por meio de boa arte.

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