Curta brasileiro é selecionado para mostra de realidade virtual do Festival de Veneza 2019

Filme de Ricardo Laganaro é a primeira produção nacional a competir na pioneira seção do festival

por Pedro Strazza

A organização do Festival de Veneza anunciou hoje (25) a lista de produções selecionadas para a programação da sua 76° edição, mas enquanto todas as atenções foram naturalmente para a lista de projetos na briga pelo Leão de Ouro na principal mostra do evento, outra seção dentro do evento chamou a atenção particular dos brasileiros: o curta “A Linha”, de Ricardo Laganaro, foi selecionado para competir na mostra de realidade virtual do festival.

Esta é a primeira vez que um filme brasileiro é selecionado para competir neste setor do evento, que existe na programação desde 2017 e foi pioneiro na realização de uma seleção competitiva de produções no formato da realidade virtual. Antes de “A Linha”, Veneza também havia selecionado o curta “Awavena” que era uma co-produção brasileira com a Austrália e os Estados Unidos, mas cuja direção ficava a cargo da australiana Lynette Wallworth.

O filme é descrito como uma narrativa VR completamente interativa que transforma o espectador em uma criança encantada pelo mundo. A história é pautada em cima de duas miniaturas de uma maquete, Pedro e Rosa, que não conseguem escapar de seus cercadinhos para viver o amor que tanto nutrem um pelo outro, cabendo ao espectador experimentar suas dores durante este processo. Laganaro diz que o projeto buscar ser uma experiência corporificada, no sentido de promover uma interação entre o espectador e o personagem no curso da narrativa.

“A gente estudou bastante o movimento do corpo e como ele pode causar sensações às pessoas, então a experiência faz com que você se mexa e estes movimentos, estas interações não são nada parecidos com um game, mas servem como metáforas da curva de emoção dos personagens e da história.” declara o diretor em entrevista ao B9, que ainda acrescenta que é o público que faz a narrativa do filme avançar: “Definitivamente o corpo do usuário se movendo é o que faz a história andar pra frente, e isso é algo que só dá pra fazer na realidade virtual”.

“A Linha” é produzido pela Arvore Immersive, estúdio focado em produções de realidade virtual que se firmou no mercado no setor de games e do qual Laganaro é sócio desde que deixou em 2017 a O2 Filmes, onde atuava como supervisor de efeitos visuais e coordenador de 3D. Antes da seleção para Veneza, o diretor já havia se destacado no meio do VR há dois anos com “Step to the Line”, curta que fez seu debute no Festival de Tribeca e passou por outras mostras sob diversos elogios ao criar uma narrativa que inseria o espectador dentro do cruel sistema carcerário estadunidense.

Mas embora a entrada de produções no formato seja importante para o VR se firmar no meio, o diretor acredita que a indústria precisa ainda alcançar o público geral – especialmente aquele que não consome games:

“O que falta ainda, e a ideia deste projeto é um pouco isso, são conteúdos mais mainstream, palatáveis, e ao mesmo tempo muito bem feitos que possam entrar em cartaz nas cidades e em espaços culturais, para que as pessoas possam começar a entrar em contato com isso e ver que o formato não é algo só pra quem gosta de games ou só pra quem está explorando essa linguagem”

Isso inclui o Brasil, onde a baixa disponibilidade de tecnologia do tipo ao público ainda é aos olhos de Laganaro um dos maiores impedimentos da sua popularização. “A gente tem muitas pessoas produzindo no Brasil, mas poucas vendo, e isso é um perigo.” ele afirma.

O diretor, porém, também vê que o mercado de realidade virtual ainda é muito nascente em todo o globo, o que permite que todos os países cresçam juntos no meio. “A gente [a Arvore Immersive] é uma empresa focada em mercado global, porque a gente sabe que agora é a única chance que vamos ter, nos próximos 4 ou 5 anos, pra estar no topo desta indústria e ir crescendo com ela pra quando ela virar gigante estarmos lá junto. A gente acredita nisto, e acredito que filme e esta seleção são uma comprovação desta ideia” argumenta Laganaro.

A edição 2019 do festival de Veneza acontece entre os dias 28 de agosto e 7 de setembro.

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