Connected Smart Cities: mesmo tornadas inteligentes, as cidades ainda pertencem às pessoas

Evento mostrou que bem ou mal tanto iniciativa privada quanto as gestões públicas estão preocupadas com os atuais procedimentos burocráticos

por Pedro Strazza

Ao longo dos últimos dois dias, o Connected Smart Cities 2019 buscou mostrar ao diversos executivos e engravatados de plantão que o futuro representado nas cidades inteligentes não só já é uma realidade palpável como deve ser pensada para o tecido social em que se insere. Isso vale não apenas para a área da mobilidade, mas para todo e qualquer campo de infraestrutura, de questões básicas de saneamento à disponibilidade de rede pública que permita a existência da tal “cidade digital”, o centro urbano conectado inteiro por uma banda larga única. 

É a definição de “smart cities”: áreas urbanas que pelo uso da tecnologia melhoram os serviços públicos oferecidos a seus cidadãos, aumentando assim sua qualidade de vida.

O que acabou por transparecer de forma discreta durante a realização do evento, entretanto, foi que representantes dos órgãos públicos, empresas e (principalmente) startups com frequência se mostraram bem mais preocupados e ávidos por formas de aliviar os longos e tortuosos processos burocráticos do governo. Enquanto alguns prefeitos e funcionários relatavam felizes no palco os procedimentos tomados para aliviar a carga de aprovações e o transporte da papelada para o meio digital, empreendedores demonstravam de um jeito ou de outro como a desburocratização era essencial para permitir a entrada da iniciativa privada no meio público.

É uma confusão possível do ponto de vista prático – as mudanças não acontecem sem um pouco do bom e velho “mão na massa” e este choque é apenas inevitável – mas que não deixa de repercutir uma derivação perigosa da busca pelas “smart cities”. Embora todos estejam atrás do melhor para a sociedade, não é lá muito difícil se ver preso num afã contínuo pelo desembaraço dos procedimentos internos, movido em parte por esta frustração em ver projetos promissores afundarem perante a “máquina” governamental.

Existe uma diferença muito importante entre facilitar o processo burocrático e limá-lo de vez dos órgãos públicos, porém, e isto talvez esteja passando batido no momento por empresários e mesmo alguns administradores e funcionários públicos. 

Só para ficar no exemplo, em uma das palestras promovidas pelo Connected Smart Cities um representante da indústria chegou a “provocar” sua audiência montando uma apresentação que “chocava” com imagens da “vida cotidiana brasileira” como forma de lembrar que o caminho para as cidades inteligentes no país passava pela superação da “atual crise federativa”. Além disso, o executivo procurou lembrar que a implementação do desenvolvimento inteligente era mais fácil pela criação de novas fundações que pela transformação das atuais estruturas, acrescentando ainda que qualquer gestor público presente no evento concordaria com sua afirmação.

A questão é: e o público? Como fica nessa equação? Se a solução é recomeçar do zero, como fica a sociedade criada em cima do modelo original? Mesmo quando tornada inteligentes, as cidades não deixam de pertencer ao público, e é por conta dele que a papelada existe – para documentar, registrar, tornar disponível para todo e qualquer membro da sociedade a existência destes processos.

A boa notícia é que por enquanto ainda há quem entenda que a parceria da iniciativa privada com o sistema público precisa além do lucro e mirar a qualidade de vida. Em outras palestras e debates, ficou claro o interesse de membros da indústria em envolver órgãos de fiscalização na conversa, fomentando assim a necessidade de um envolvimento entre as partes ao invés de tentar “passar por cima” e seguir em frente a qualquer custo. O futuro das cidades inteligentes, afinal, também deve passar pelas pessoas.

O B9 foi convidado a cobrir o Connected Smart Cities e o Connected Smart Mobility pela Enel X.

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