5 filmes do Festival do Rio 2019 para ficar de olho

Produções do Brasil, França, China, Portugal, Itália e Estados Unidos estão entre os destaques

por Matheus Fiore

A edição 2019 do Festival do Rio, um dos mais tradicionais festivais de cinema do Brasil, chegou ao seu fim. O festival de 2018 já havia sido muito diferente do histórico, já que o corte de verbas de patrocínio obrigou os organizadores a empurrar o evento, que tradicionalmente ocorria em outubro, para novembro, após a Mostra de São Paulo. Com isso o Festival do Rio, além de encurtar sua grade de filmes, passou também a repetir alguns dos filmes exibidos na programação da mostra paulista.

Em 2019, a situação ficou ainda mais complicada, já que houve novos cortes de patrocínio. O evento só chegou a ser confirmado em outubro, após a meta de financiamento coletivo ser batida e a organização garantisse que teria verba suficiente para viabilizar a edição de 2019.

Mas mesmo com todos estes percalços o evento aconteceu, e a edição de 2019 obteve sucesso em trazer – assim como nas edições anteriores – uma agradável variedade de obras de todos os cantos do mundo, proporcionando ao cinéfilo carioca uma oportunidade única de conferir filmes que dificilmente poderiam ser vistos no cinema fora do festival.

Para celebrar a edição de 2019, selecionamos cinco filmes da seleção que não ganharam críticas no site nos últimos dias para comentar. Vamos à lista:

“Chorão: Marginal Alado”

O documentário de Felipe Novaes é um tributo ao falecido fundador e frontman do Charlie Brown Jr. Chorão, falecido em 2013, foi uma figura que surgiu em Santos no cenário do skate e do punk rock, e aos poucos se tornou a voz de uma das mais bem sucedidas bandas brasileiras dos anos 90 e, também, a voz de uma geração.

Estruturalmente, o documentário não é tão inventivo, mas merece elogios por saber escolher quando abordar cada assunto. “Marginal Alado” parte dos depoimentos das pessoas próximas para recontar, primeiramente, as origens de Chorão. O filme mostra como ele se tornou uma figura cativante e como formou o Charlie Brown Jr. É elogiável o fato de o documentário não fugir de temas espinhosos, como o problema de Chorão com drogas que acabou prejudicando sua depressão.

O filme aborda o tema com respeito, sem explorar as fragilidades do personagem e sempre enaltecendo a complexidade de uma figura que foi, muitas vezes, controversa.

“O Lago do Ganso Selvagem”

O filme de Diao Yi’nan nos insere no submundo das gangues chinesas. Diferentes gangues especializadas no roubo de motos disputam território quando, certo dia, o líder de uma delas acaba se envolvendo na morte de um policial. Após o crime, o protagonista se esconde enquanto a polícia, seus amigos e inimigos estão a sua procura.

O mérito de Yi’nan é partir de uma trama levemente inspirada pelo cinema noir para desenhar um retrato social da sociedade na qual o filme se passa. Todos os personagens em “O Lago do Ganso Selvagem” são direcionados para a busca pelo criminoso desaparecido, mas não simplesmente por questões pessoais ou afetivas, e sim porque o governo determinou uma recompensa financeira pela cabeça do sujeito. Com isso, Yi’nan analisa os contrastes sociais e econômicos e a relação dos personagens com os espaços nos quais circulam, mostrando como esses contrastes ecoam nos rumos de cada personagem daquela história.

“Retrato de uma Jovem em Chamas”

Vencedor do prêmio Queer Palm no Festival de Cannes, o filme dirigido pela francesa Céline Sciamma apresenta uma metanarrativa interessantíssima. O filme propõe uma releitura do mito grego de Orfeu e Eurídice, que conta a história de um homem que vai ao inferno tentar salvar sua amada, fadada a sofrer no submundo após ser picada por uma serpente. No filme, a Eurídice é a jovem Hèloïse, que está com casamento marcado e, para firmar o “contrato”, deve ser pintada para que o retrato seja enviado para seu futuro marido.

Entra, então, a protagonista, a pintora Marianne, que é contratada pela mãe de Hèloïse para fazer a pintura. O problema é que a jovem recusa-se a ser pintada, o que torna a tarefa de Marianne um desafio. Com essa história, Sciamma brinca com os personagens do mito, e faz de Marianne o Orfeu que deve resgatar sua Eurídice. Ao passo que Marianne estuda a fisionomia de sua musa para poder pintar o quadro, Sciamma estuda a relação das duas personagens e o próprio ofício de construir uma narrativa através de imagens, resultando em um filme que já abre 2020 como um dos fortes candidatos a melhor lançamento do circuito brasileiro no ano.

“Tommaso”

Cinco anos após seu último filme, o drama “Pasolini”, que acompanha os últimos dias do lendário cineasta italiano Pier Paolo Passolini, o americano Abel Ferrara volta às telas com “Tommaso”, filme que acompanha um diretor e ator (Willem Dafoe em grande forma) que suspeita que sua esposa é infiel. Mesmo com a proposta simples, Ferrara parte desse drama para fazer um filme bastante biográfico – ao ponto de sua esposa e filha estarem no elenco.

A ideia de Ferrara é, além de expurgar seus próprios demônios, falar também sobre o próprio ofício do contador de histórias, sobre a essencialidade da mentira em uma narrativa fílmica. Ao fim, Ferrara consegue nos confundir, mesclando “fatos” e devaneios ao ponto de tornar indistinguível a “verdade” da mentira.

“Vitalina Varela”

Autor de filmes renomados como “Cavalo Dinheiro” e “Casa de Lava”, o português Pedro Costa falou para a plateia presente na exibição de seu filme durante o Festival do Rio que não há muito a se falar sobre “Vitalina Varela”. E de fato o diretor tem um ponto: o filme é um dos filmes mais frontais dos últimos anos, com poucos diálogos e poucos movimentos de câmera.

Está tudo implícito nas belas imagens registradas por Costa. Acompanhamos a história de uma viúva que volta para seu país para viver seu luto. Costa filma essa jornada em ambientes escuros, muitas vezes embaixo da própria terra, sugerindo que Vitalina está em um verdadeiro purgatório. Vale elogiar o trabalho de movimentação nos planos: se os enquadramentos são quase sempre estáticos, os corpos filmados sempre se movimentam, mas não vão a lugar nenhum. São movimentos estéreis, que mostram como, durante a fase de luto, muitas vezes um ser humano não consegue prosseguir com sua vida até ter vivenciado o suficiente a dor da perda.

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